
Revista BRAVO! | Janeiro/2009
Silas Martí
Um revólver disparado à queima-roupa levou Vik Muniz à América. Corria o ano de 1984, época em que São Paulo ainda tinha outdoors. Aos 22 anos, Vik, recém-formado em publicidade, trabalhava como consultor numa empresa de programação visual. Sua função era aperfeiçoar o tamanho e o formato das letras das mensagens publicitárias para que elas fossem lidas com facilidade pelos motoristas e passageiros nas vias expressas da cidade. Um dia, passando na frente de um bar na capital paulista, presenciou uma briga. Resolveu apartar. Um dos homens, no entanto, estava armado. Enfurecido, descarregou o revólver em cima dele. "Ele queria acertar a primeira pessoa que estivesse na frente, e essa pessoa era eu", lembra Vik, que levou um tiro na perna. Transtornado, o atirador socorreu Vik. Disse que era rico, implorou para que o caso não fosse parar nos jornais. Em troca, daria ao jovem uma boa quantia em dinheiro. Vik saiu do episódio com um ferimento leve e dinheiro suficiente para realizar um sonho: morar fora do Brasil. Primeiro Chicago. Depois Nova York.
O revólver ajudou a determinar a trajetória artística de Vik Muniz, que hoje tem 47 anos. Em sua geração, ele é um dos dois artistas brasileiros mais valorizados no exterior, ao lado de Beatriz Milhazes. O paralelo entre ambos é instrutivo dos caminhos em que se bifurca a arte contemporânea do país. Beatriz, que no ano passado bateu um recorde ao vender uma obra por mais de US$ 1 milhão nos Estados Unidos, é mundialmente conhecida por usar cores e motivos brasileiros em suas telas. Representada por galeristas nas principais capitais culturais do mundo, ela faz questão de viver no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro — onde, segundo ela, sua inspiração flui melhor. Beatriz admite que seu trabalho dialoga com as cores do carnaval e com o modernismo brasileiro, notadamente a obra de Tarsila do Amaral. Vik, ao contrário, nunca mais voltou de Nova York. Aprendeu arte nos museus de Manhattan. Seu trabalho faz pouquíssima, ou quase nenhuma, referência ao Brasil. Essa aproximação só acontece quando ele desenvolve temas ligados à denúncia da pobreza e da miséria — e, nesse caso, o Brasil aparece apenas como uma entre dezenas de peças do puzzle que, no hemisfério norte, é conhecido como Terceiro Mundo.
Vik Muniz, que no ano passado recebeu o Prêmio Bravo! na categoria de artes plásticas, expõe com alguma frequência no Brasil, mas até hoje nenhuma mostra havia sido capaz de dar uma visão de conjunto de seu trabalho. A retrospectiva de sua obra que se inicia, no dia 22, no Rio de Janeiro é, provavelmente, a maior já realizada no país. Duzentas obras vão tomar 2 mil metros quadrados do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, seguindo, em abril, para o Museu de Arte de São Paulo, na capital paulista. "Fazer uma mostra no Brasil é superimportante porque, afinal de contas, eu sou brasileiro e reencontrar o meu público é muito bom", diz o artista. "Minha formação não é muito dentro da arte brasileira; há pouca influência, na verdade." Sem poder se apresentar como totalmente brasileiro, nem 100% americano, muito do que Muniz cria surge de uma pulsão derivada dessa posição sui generis, entre um país e outro, entre o artesanato e o conceitual e — como foi dito anteriormente — entre o primeiro e o terceiro mundos.
Vik Muniz lembra que chegou a Nova York em um dia de verão de 1984, quando o artista Keith Haring fazia seus desenhos no metrô, o cantor James Brown se exibia uma vez por mês no Lone Star Café, e o ícone pop Andy Warhol dançava regularmente com sua turma sob um tanque de tubarões vivos na casa noturna Area. Apesar do ambiente estimulante que encontrou em Manhattan, manteve fresca na memória a lembrança dos ônibus superlotados de São Paulo, além do discurso de uma esquerda amordaçada nos anos derradeiros do regime militar. "Não há como abstrair o cheiro da pobreza", escreveu em seu livro Reflex: Vik Muniz de A a Z (editora Cosac Naify, 2007).
Na seleção do próprio artista e do organizador, Leonel Kaz, há lixo e diamantes. Mais de R$ 2 milhões serão gastos para montar a exposição, que se equilibra entre a riqueza e a pobreza. Entre as séries mais célebres escolhidas para a mostra, figura Pictures of Garbage (Retratos do Lixo), com os retratos dos catadores de lixo do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. As figuras são formadas por fragmentos de lixo. "Ficou lindo esse trabalho", comenta Vik. "Algumas das obras eu leiloei depois em Londres, inclusive levei um dos catadores comigo. Foi uma coisa muito forte ver um cara que nunca tinha saído dali assistir a seu retrato subir de preço até 30 mil libras." O dinheiro das vendas foi revertido para um projeto social na comunidade.
Tião, o catador que viu o próprio retrato arrematado em Londres por muito mais do que ganhou em toda a vida, aparece no desenho de Muniz como Marat, o revolucionário francês assassinado a facadas na banheira e imortalizado no quadro dramático do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825). Seu colega Carlão foi registrado como Atlas, o personagem da mitologia grega que segurava o mundo nas costas. Dez anos antes, os meninos de rua do centro de São Paulo puderam escolher que fantasias interpretariam na série Aftermath, que Muniz fez para a Bienal de São Paulo de 1998. Nesse caso, no lugar do lixo, o artista usou as sobras do carnaval para colocar as crianças em meio a serpentinas e confetes imundos.
Não há, no entanto, intenção de brasilidade nas imagens de Vik de crianças no carnaval. Elas fazem parte de uma série mais ampla sobre crianças carentes no Terceiro Mundo. Vik assinou o primeiro conjunto com rostos de meninos depois de uma viagem para um balneário no Caribe, em 1996. Como o sustento das famílias na ilha vem do cultivo de cana, reproduziu as crianças com cristais de açúcar. Foram as imagens dos desenhos em pó branco que tiraram o artista do anonimato e o colocaram no mapa das galerias, arrancando elogios até dos críticos mais carrancudos de Manhattan. Foi com essa série também que Vik descobriu que a fotografia poderia ser uma aliada para eternizar traços feitos com material tão efêmero. "Até agora, não há muitos artistas que tenham a documentação como objetivo primordial", conta ele. "Encontrei uma brecha histórica, um diminuto nicho para explorar, mas não fazia idéia do tamanho que esse buraco poderia vir a ter."
Para se sustentar em Manhattan antes da carreira artística, Vik copiava telas clássicas dos grandes mestres da história da arte, que emoldurava e vendia. No caso, os clientes queriam a reprodução quase perfeita do que tinham visto no museu. Como que se estendesse essa origem ao plano conceitual, Vik passou a multiplicar as criações dos grandes mestres com linhas, plasticina, chocolate, açúcar, areia, diamantes e até molho de tomate. Acabou ficando conhecido por fazer da cópia engenhosa o seu grito de originalidade, para espanto de uns e deleite de outros. "Quando um artista se desdobra para ser original, sua obra é concebida sob o peso de tudo que foi produzido antes dele. Em vez de servir de inspiração, a história torna-se elemento de atrito." Obras dessa fase estão expostas na mostra do Rio.
Ele chama de "maus atores" as matérias-primas pouco usuais que emprega em seus trabalhos. "Eu vejo minhas fotografias como representações muito curtas, uma fração de segundo em que um mau ator — por exemplo, algodão ou barro ou melado — faz o papel de um objeto, de uma pessoa ou de uma paisagem diante da lente da câmera. Eu seleciono maus atores porque não quero que as pessoas vejam simplesmente a representação de alguma coisa, quero que elas saibam como ela acontece."
Para reforçar essas etapas criativas, Muniz exibe ainda na mostra, ainda, quatro vídeos, espécie de making of de seus projetos. Se tudo começou com moldes de plasticina fotografados na intimidade do ateliê por uma câmera Hasselblad manual, Muniz depois convocou grandes paisagens para servirem de "maus atores": intervenções gigantescas em terrenos de areia, terra e vegetação, vistas apenas por fotografias aéreas, compõem sua série Earthworks, de 2007. É a lógica do gigantismo da América falando mais alto, que ele também apresenta agora em sua grande retrospectiva em solo brasileiro.