
Revista BRAVO! | Janeiro/2008
Por Fernanda Lopes
Em 1969, os londrinos aprenderam rapidamente a falar aquele sobrenome de pronúncia difícil. Hélio Oiticica (1937-1980), artista brasileiro pouco conhecido até então na Inglaterra, causou grande impacto quando expôs Éden na Whitechapel Gallery. Estruturada em diferentes ambientes, a obra propunha experiências sensoriais aos visitantes. Em determinado momento, convidava o público a, por exemplo, tirar sapatos e meias e caminhar pelo chão coberto de areia. Éden, que o próprio artista definia como um penetrável, dividiu opiniões na época. Chegou a receber ressalvas duras e a ser chamada de infantil por especialistas. Mas houve quem visse a proposta de Oiticica como uma atitude libertadora. O respeitado crítico inglês Guy Brett foi um dos entusiastas do carioca, colocando-o como responsável por um dos eventos mais audaciosos do evento.
Passados 40 anos, agora podemos dizer com segurança que Éden marcou mesmo a história da arte. A peça soma-se a outras seis criações similares que, projetadas pelo artista ao longo de quase 20 anos, neste mês compõem a exposição Hélio Oiticica: Penetráveis, montada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio. Trata-se de uma rara oportunidade de entrar em contato com uma de suas linhas de trabalho mais famosas. "Podemos dizer que, a partir de 1960, o penetrável foi a chave para o desencadeamento das principais questões desenvolvidas por Oiticica, como a participação do espectador, a proposição e o trabalho coletivo", explica César Oiticica, irmão de Hélio e curador da individual com César Oiticica Filho e Luciano Figueiredo. "Foi com esse conjunto que ele levou para o ambiente as noções de cor que explorava nas obras bidimensionais", diz Figueiredo.
Oiticica se debruçou sobre a transição da tela para o espaço a partir de 1959. Peças como Bilaterais, Relevos Espaciais e Núcleos, em que placas e painéis coloridos pendiam do teto, materializaram sua investigação sobre a "pintura depois do quadro", como ele mesmo definiu. "Foi essa sequência de criações que o fez chegar ao penetrável e a desenvolver tantas outras novas ordens, como os bólides (espécie de caixas com diferentes pigmentos) e os parangolés (capas que deveriam ser vestidas pelas pessoas)", completa Figueiredo.
Observar o conjunto de perto é dispor da chance de notar a antecipação de questões e linguagens hoje muito usadas pela produção contemporânea. Não há como discordar de que as instalações têm um parentesco com o conjunto de penetráveis de Oiticica. "Até mesmo em trabalhos anteriores aos penetráveis, o conceito de uma 'instalação' está presente", aponta a crítica de arte Glória Ferreira. "Nos anos 70, seus projetos e maquetes para os penetráveis, desenvolvidos em Nova York, visavam inscrever-se na cidade, na malha urbana, como situações de vivências culturais e sensoriais", completa. "Os artistas brasileiros que agora se expressam por meio de instalações são tributários não só das invenções de Oiticica como das correntes conceituais iniciadas a partir da década de 1970", diz Figueiredo.
Não que nada não tenha sido experimentado nesse sentido antes. O alemão Kurt Schwitters (1887-1948) anunciou o conceito Merz em 1919, defendendo justamente a diluição das fronteiras entre a vida e a arte. Algum tempo mais tarde, no fim dos anos 30, o francês Marcel Duchamp (1887-1968) promovia exposições em que sacos de carvão ficavam pendurados no teto. Mas, no Brasil, a idéia de um projeto que extrapolasse os limites de uma tela ou um objeto e envolvesse o espectador surgiu com força mesmo na década de 1960, com trabalhos como Ovo, de Lygia Pape (1927-2004), de 1968, e os penetráveis de Oiticica
Além de Éden, a individual traz o primeiro penetrável do artista, PN1, feito em 1960: uma cabine na qual o visitante manuseia placas deslizantes. Dois trabalhos são inéditos. Rhodislandia Contact, realizado em 1971 na Universidade de Rhode Island, em Nova York, e Macaléia, que será montado pela primeira vez. A obra foi concebida em 1978, em homenagem ao compositor Jards Macalé. "Vamos exibi-lo seguindo as orientações deixadas em desenhos e anotações", diz César Oiticica, lembrando que o irmão sempre foi conhecido pelo detalhamento de suas idéias. Completam a mostra vitrines com fotos, textos e anotações, além de um documentário inédito de César Oiticica Filho com penetráveis de grandes dimensões como Magic Square n.5.