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Ana Ottoni
Os irmãos Otávio (à esq.) e Gustavo diante do mural de 680 metros quadrados que grafitaram na alça de acesso ao Elevado Costa e Silva, o Minhocão, em São Paulo. Quando meninos, eles incendiavam brinquedos
Os irmãos Otávio (à esq.) e Gustavo diante do mural de 680 metros quadrados que grafitaram na alça de acesso ao Elevado Costa e Silva, o Minhocão, em São Paulo. Quando meninos, eles incendiavam brinquedos

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

Confessionário - Osgêmeos

Os grafiteiros Gustavo e Otávio Pandolfo expõem trabalhos no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, até 1º/2

Por Armando Antenore

Era março de 1974. Pelos cálculos de Margarida, uma dona de casa com sangue lituano, o bebê que esperava só nasceria em maio. Os médicos, porém, insistiam que a moça se enganara. "Veja como a barriga da senhora está gigante", apontavam. "A criança já completou nove meses. Precisamos fazer uma cesariana de urgência." Na noite do dia 29, mesmo desconfiada, Margarida aceitou se internar em um hospital perto do Cambuci, bairro paulistano onde morava com um casal de filhos e o marido, Walter, operário de origem italiana. Por volta das 22h, ecoou pela maternidade o choro hesitante de um garoto miúdo. Os médicos se espantaram: "A mãe não errou! O menino é realmente prematuro...". Pesava, no máximo, dois quilos. O que, então, justificava a barriga enorme da jovem? Mal retiraram a placenta, às 22h10, notaram que o ventre ocultava mais um garoto, também mirradinho. Margarida concebera gêmeos univitelinos sem perceber (os exames pré-natais que lhe recomendaram se mostraram falhos). Logo os bebês enveredaram para a incubadora. O primeiro recebeu o nome de Gustavo; o outro, de Otávio. Os pais deixaram a maternidade e só conseguiram visitar as crianças 17 dias depois. Assim que pisaram no hospital, o chefe do berçário lhes deu a terrível notícia: "Os meninos não irão resistir. Lamento". Estarrecidos, os Pandolfo rejeitaram o presságio e levaram os pequenos. Cuidariam deles no sobrado do Cambuci. "Mãe, posso contar uma história?" Otávio tinha apenas 3 anos e esbanjava saúde quando se aproximou de Margarida com a proposta. "Eu e o Gustavo vivíamos em um lugar muito bonito, sabia? Bem longe daqui. Uma noite, o Gustavo quis sair de lá. Vamos?, me perguntou. Eu não queria, não. Mas fiquei com medo de acabar sozinho. E agarrei a mão do Gustavo para sair junto."

Uma árvore é uma árvore, ninguém discute. No entanto, se encontram uma árvore, os gêmeos enxergam um sonho. O tronco, de imediato, se torna vermelho carmim. As folhas ganham tons de azul celeste. Pássaros fluorescentes sobrevoam os galhos, que sustentam um navio. O mesmo acontece com todo o resto: carros, postes, flores, escadas, panelas. O mundo que Gustavo e Otávio apreendem não corresponde àquele que a razão julga existir. Como num filme psicodélico, o fantástico invade cada meandro do universo que os rapazes observam. Não, não se trata de metáfora. A dupla de fato avista as coisas assim, o tempo inteiro e de maneira similar: o que um vê se parece imensamente com o que o outro vê. Os adeptos de substâncias lisérgicas afirmariam que os irmãos estão sempre viajando — uma good, very good trip. Nenhum dos dois ousa dizer se a comparação faz sentido. Jamais provaram ácido ou qualquer tipo de droga. Bebem uns tragos às vezes, mas dispensam o álcool quando pintam. Trabalham invariavelmente lúcidos, ainda que a lucidez de ambos seja um carnavalesco delírio. Na infância, não se contentavam em brincar. Desejavam que a brincadeira inundasse a realidade. Ou o contrário. Por exemplo: adoravam Playmobil e erguiam amplos condomínios para abrigar os bonequinhos. Os prédios, confeccionados com papelão, caixas de sapato, barbante e tocos de madeira, dispunham inclusive de elevadores. Se o boneco do apartamento 25 resolvesse dar um pulo no 26, Gustavo ou Otávio corria até o portão de casa e apertava a campainha. Não havia diferença entre o blééén que o morador do 26 escutava e o blééén de verdade. Pior quando um dos bonecos, revoltado, teimava em botar fogo nos edifícios. Os gêmeos incendiavam as construções literalmente.

Descobriram o gosto pelas artes plásticas de tanto admirar o irmão Arnaldo, 12 anos mais velho. Ele costumava desenhar, e os caçulas o imitavam. Foi também com Arnaldo que tiveram uma experiência sensorial inigualável. "Esqueçam a Disney!", anunciou o primogênito. E lhes exibiu The Wall, o longa de Alan Parker inspirado em músicas do Pink Floyd, que traz uma série impressionante de animações. Na adolescência, conheceram a cultura hip hop e, por tabela, o grafite. Uma tarde, solicitaram permissão à mãe para "enfeitar" o quarto em que dormiam. "Perfeito, desde que usem apenas um pedacinho da parede." Grafitaram tudo. Não resguardaram nem sequer o teto. Depois, atacaram o quarto da irmã, os muros do quintal, o telhado da vizinha. "Chega!", decretou Margarida. "Agora só na rua." Obedeceram.

Quando pensa em si próprio, Gustavo também pensa em Otávio. E vice-versa. Claro que não se sentem a mesma pessoa, mas tampouco se imaginam separados. É uma contradição misteriosa, que os intriga sem perturbar. Certa vez, o colégio que frequentavam organizou um concurso de ilustração. Os dois ocupavam classes distintas e não comentaram mutuamente o que pretendiam despejar no papel. Ainda assim, apresentaram trabalhos idênticos. Cor predileta: amarelo. Prato: uma iguaria lituana que mistura ovo, batata ralada e bacon. Refresco: suco de açaí. Cantores: o pernambucano Siba e o sul-africano Lucky Dube. As preferências de Gustavo e Otávio se confundem tanto quanto as trajetórias de vida. Antes de virarem grafiteiros em período integral, estudaram desenho de comunicação (um curso técnico) e tentaram seguir a carreira de bancário. Estão casados, não têm filhos nem planejam tê-los tão cedo. Acreditam que Deus os uniu e que só Deus é capaz de desuni-los. Se pudessem escolher, gostariam de morrer juntos e de retornar abraçados para o lugar bonito de onde vieram.

 

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