

Quinta, 20 de novembro de 2008 | Assunto do dia
Por Laila Abou Mahmoud
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Desligue seu iPod, coloque algodões nos ouvidos, não ouse ligar o rádio do carro. A idéia é fazer um jejum diferente. De música. O quarto Dia Sem Música (No Music Day, em inglês), que acontece nesta sexta-feira, 21 de novembro, propõe que se fique sem ouvir música por um dia inteiro para, depois de imaginar como seria um mundo sem música, ouvi-la sob outra perspectiva.
O evento tem sido divulgado basicamente de quatro formas, até agora. Um site recapitula o ocorrido nos últimos quatro anos pelo mundo e possui um fórum onde os internautas opinam sobre a proposta e dizem porque vão - ou não - aderir a ela. Cartazes e flyers foram espalhados por São Paulo. Há um mailing que difunde a proposta pela internet. E o boca-a-boca pretende dar conta do resto do recado.
A idéia surgiu há quatro anos, concebida por Bill Drummond, um escocês conhecido por suas performances polêmicas e sua atuação no mundo do rock. Drummond começou sua carreira na banda Big in Japan e, já então empresário, lançou bandas como Echo and the Bunnymen. Daí, pulou para a gravadora Warner, investiu em pretensos sucessos que não decolaram e, no final dos anos 80, formou a banda KLF.
Todas as ações de Drummond foram acompanhadas de atitudes inusitadas, para não dizer malucas. Na apresentação do KLF no Brit Awards de 1992, ele apareceu com uma ovelha morta amarrada na cintura. Em 1994, na Escócia, torrou 1 milhão de libras dos royalties de seu grupo de rock. Literalmente. Tudo desapareceu em cinzas numa fogueira. Em 1999, na ressacas de sua vivência na indústria musical pop, lançou o livro The Manual: How to Have a Number One Hit the Easy Way, no qual ensinava como colocar uma música no topo das paradas e, de quebra, ironizava a indústria do top-hit-a-todo-custo.
Uma das últimas ações de Drummond foi formar corais de 17 pessoas que, depois de cantarem suas notas, montavam uma música com essas e outras notas gravadas por outros corais. Só elas podem ouvir a obra. E era bom que a memorizassem bem, pois a música é definitivamente apagada uma hora depois de sua criação.
Eduardo Ramos, hoje dono da produtora e gravadora Slag, ouviu falar dessa figura em Londres, onde morava na época e presenciou uma das primeiras edições do DiaSem Música. Hoje, no quinto ano do evento, ele é um dos que auxilia a trazer a proposta - e o próprio idealizador - ao Brasil. "Drummond acha que as pessoas esqueceram o que é a canção, virou descartável", explica.
Ramos conta que, até uma semana atrás, já havia mais de 100 pessoas dispostas a interagir diretamente no dia, realizando ações de divulgação e até pedindo aos passantes que retirem seus fones dos ouvidos. Ele destaca, no entanto, o caráter pacifista da ação: "Nunca se arrancou uma tomada de rádio no evento". Na Escócia, em 2006, até mesmo uma rádio aderiu à greve de som.
Este ano, planeja-se lacrar algumas conhecidas casas de shows de São Paulo. Mas celebrar não é proibido. Para finalizar o evento ao final do dia 21 de novembro, haverá uma festa, na região oeste da cidade. Nela, pessoas tentarão se divertir sem música alguma enquanto um relógio faz a contagem regressiva para a hora em que - adivinhe? - o som vai começar a rolar.
Uma crítica que essa sexta-feira santa do jejum musical (a escolha do dia está inclusive relacionada à vespera do dia de Santa Cecília, padroeira da música) pode sofrer é a de soar inviável, boba ou mesmo inacreditável. Quem responde é Ramos. "Sim, o No Music Day corre esse risco de não chocar e não soar como protesto. Eu acho normal chamarem a idéia de idiota", ressalva. "Mas, apesar de ter quem vá achar brincadeira e bobagem, estou certo de que existirá quem vá se sensibilizar". E tem, também, quem talvez não consiga. Uma internauta no fórum da página do evento chegou a perguntar: "E eu faço o que com a música que toca dentro de mim?".
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