
Novembro/2008 | Assunto do dia
Por Elisa Tozzi
Leia perfil de Luiz Antonio de Assis Brasil
Acesse o site de Raimundo Carrero
Leia os minicontos de Samir Mesquita
Conheça o Projeto Rumos, do Itaú Cultural
"Só a técnica liberta o talento". A frase, dita pelo poeta russo Wladimir Maiakovski para exprimir as dificuldades da prática artística, define bem a vocação das oficinas literárias: ensinar ferramentas lingüísticas para despertar a aptidão de jovens autores. Os cursos, disseminados no Brasil desde a década de 80 com a iniciativa de professores como o gaúcho Antonio de Assis Brasil (leia reportagem de BRAVO!), ganham agora nova roupagem e se adequam aos tempos da internet.
Um dos pioneiros na empreitada virtual foi o escritor João Silvério Trevisan. Oficineiro desde 1986, o romancista ministrou, por sete anos, a oficina do portal SESC. Ali, com dois encontros semanais durante três meses, ele e seus alunos se reuniam em salas de bate-papo para discutir textos. As conversas se davam nos moldes da rede, como explica Trevisan: "Nós desenvolvíamos uma linguagem própria, com abreviações, para tornar o processo mais ágil".
A estratégia, no entanto, não tornou as relações superficiais. Muito pelo contrário. "No mundo virtual a expressividade é mais profunda. E, além disso, ter que se expressar através do texto já é um exercício de escrita". A experiência rendeu frutos. Em 2003, foi publicado, pela editora Escrituras, o livro Dezamores, compilação de contos e poemas dos autores formados nos encontros online de Trevisan.
Outro entusiasta da prática, o pernambucano Raimundo Carrero, é bastante incisivo ao responder uma das perguntas mais freqüentes sobre o ensino do ofício da escritura: "É possível sim ensinar a escrever. Alguns dizem que oficinas só formam bons leitores. Mas eu acredito que quem já tem algum contato com as letras consegue superar seus bloqueios nesses encontros". O romancista, que mantém, desde 2006, oficinas virtuais em seu site (acesse aqui), diz que a desvantagem do meio online - ao menos para quem ministra as oficinas - é a ansiedade exacerbada dos alunos: "Na oficina virtual essa característica é marcante. Os alunos mandam muitos textos e eu fico sem tempo para ler e fazer as avaliações pertinentes".
O que mais perturba o autor, contudo, é a efemeridade das relações virtuais. "Geralmente, perco de vista os alunos, mesmo os que lançam livros. Nas oficinas presenciais é mais fácil observar o desenvolvimento. Quando eles publicam estamos sempre por perto."
Marcelino Freire foi um desses com que Carrero continuou travando contato. O ex-aluno conduz hoje apenas oficinas presenciais na cidade de São Paulo. As aulas já revelaram autores como o contista Samir Mesquita (leia minicontos de seu livro Dois Palitos). Mas, Marcelino, ao contrário do mestre, ainda desconfia um pouco da eficiência das aulas virtuais. "Eu prefiro os encontros físicos, que têm a voz, o tête-à-tête. É claro que a internet, com suas câmeras, pode ajudar, mas em outro grau".
O jornalista e escritor José Castello, no entanto, afirma que com os avanços tecnológicos, a rede pode se tornar um ótimo espaço para a discussão intelectual. Percepção apurada este ano pela sua experiência no Projeto Rumos (acesse o site), do qual é professor. Desenvolvida pelo Itaú Cultural, a iniciativa conta com a criação de um espaço virtual formado por salas de bate papo, murais de discussão e e-mails exclusivos, nos quais alunos de diferentes lugares do Brasil desenvolvem, durante um ano, projetos ligados a jornalismo cultural, música, artes visuais e dança, por exemplo. "É uma internet viva e íntima. Quero levar essa tecnologia para a criação de oficinas literárias. Tenho certeza de que a experiência vai funcionar muito bem na rede", explica.
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