
Julho/2009 | Assunto do dia
Por Gabriela Rassy
Em maio desse ano, o projeto Ler e Escrever da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo distribuiu 1216 exemplares do livro Dez na área, um na banheira e nenhum no gol para alunos do terceiro ano do ensino fundamental. O livro, feito para o público adulto, reúne 11 histórias em quadrinhos de diversos autores que falam sobre futebol e, como o tema sugere, usam palavrões e uma linguagem que foi considerada por algumas escolas inadequada para crianças. Segundo nota divulgada pela Secretaria, os livros foram recolhidos antes de chegar às mãos dos estudantes.
O caso gerou críticas em relação à escolha da obra para as crianças e à obra em si, avaliada como de "muito mau gosto" pelo governador do Estado, José Serra. Uma parte dos meios de comunicação se valeu de uma rasa apuração para se referir ao livro como uma obra sem qualidades.
O ilustrador Orlando Pedroso, organizador do Dez na Área, em comentário no Blog dos Quadrinhos, do jornalista Paulo Ramos, disse que houve um engano nos critérios de escolha nas compras do governo. "Há um erro grave no governador dizer que a obra é de mau gosto, quando deveria dizer que é inadequada para crianças de nove anos. Isso faz diferença enorme na conceituação da coisa. Uma pena".
No começo de junho, a graphic novel Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço (2007, editora Devir), de Will Eisner, sofreu uma retaliação parecida. A obra teve exemplares distribuídos pelo PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) para alunos do Ensino Médio, mas, por estar disponível nas bibliotecas para todos os alunos, o livro também foi considerado inadequado por duas cenas: uma de violência doméstica e outra onde uma menina de dez anos (veja imagem acima), na tentativa de roubar dinheiro, oferece mostrar o corpo a um adulto. Essas são duas cenas de contos diferentes desta obra que mostra a vida dos cortiços de Nova York, na década de 1930, onde o autor nasceu e passou a juventude.
Para Rogério de Campos, diretor da Conrad Editora, especializada em quadrinhos, houve realmente um erro no caso do Dez na Área, mas o problema tomou uma dimensão desproporcional. "As forças conservadoras do país, desde gente de esquerda que aproveitou para dizer que o Serra distribuía pornografia na escola, até os comentários do próprio Serra, aproveitaram o fato para fazer terrorismo, atacar a liberdade de expressão e alimentarem a paranóia atual com relação à cultura", diz. "A reação foi tão exagerada que causou muito mais males que os que o livro poderia causar em uma biblioteca escolar", considera.
Por outro lado, Campos acredita que isso só prova a força comunicativa dos quadrinhos. "Não há dúvida que essa corja obscurantista encontraria coisas muito piores em Jorge Amado ou até em Machado de Assis, mas para isso teriam que ler os livros. Quadrinhos são bem mais fáceis de entender", disse.
Orientação para diferentes faixas etárias
Os dois casos têm pontos diferentes. A indicação do Dez na área para crianças, segundo Waldomiro Vergueiro, um dos organizadores do livro Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula, foi um erro, o que não desmerece a obra em si. Já os livros de Eisner, sofreram críticas por estarem em um local onde as crianças e não só os adolescentes teriam acesso. Ele acredita que isso é o ressurgimento de um velho preconceito contra o gênero.
"No caso do Dez na Área, alguém pisou na bola. O livro foi pra ensino fundamental e realmente não era indicado para aquele público. Mas, o livro do Will Eisner foi selecionado para ensino médio, ou seja, alunos com 14, 15 anos ou mais, que têm que ter acesso a esse tipo de informação. A função de direcionar o material é da escola, que deve fazer isso da forma que considerar adequada. Os alunos não podem pagar por um problema administrativo da escola.", disse Waldomiro.
Segundo carta publicada no Blog dos Quadrinhos para explicar a importância da obra de Eisner e dos quadrinhos na educação, "a escola tem a função de levar o mundo ao estudante por meio de leituras e de práticas de letramento, inclusive visual". O texto ainda defende a permanência da obra em questão nas bibliotecas escolares: "o simples controle de empréstimo das obras resolve as questões de acesso a alunos das séries iniciais". A carta foi assinada por cinco especialistas, entre eles Paulo Ramos e Waldomiro Vergueiro, mas outras 275 pessoas já haviam assinado até a publicação desta matéria.
Censura Ingênua e generalizada
O problema com livros distribuídos pelo governo não para nos quadrinhos. Os livros Aventuras Provisórias (Record), de Cristovão Tezza, Memórias Inventadas (Planeta), de Manoel Barros, e o poema Manual de Auto-Ajuda para Supervilões, de Joca Rainers Terron, integrante do livro Poesia do Dia - Poetas de hoje para leitores de Agora (Ática), também foram criticados pelo conteúdo. O romance de Tezza havia sido indicado como leitura obrigatória para vestibular, mas foi recolhido por uma passagem que descreve relações sexuais. O poema irônico de Terron sofreu críticas por frases como "Nunca ame ninguém. Estupre" e "Tome drogas, pois é sempre aconselhável ver o panorama do alto", que foram consideradas inadequadas, pois as crianças não entenderiam a ironia. Já o poema de Manoel de Barros, entregue aos alunos da 6ª série, foi recolhido por conter textos eróticos.
Apesar de as críticas aos conteúdos perpassarem todos os gêneros, a repercussão sobre as HQs foi mais duradoura, o que pode ser indício de preconceito. A escritora Regina Zilberman, especialista em literatura infantil, acredita que se o cartoon ou o quadrinho que tem qualidade de gráfica, além do conteúdo, pode circular onde quer que seja sem ter efeito negativo nenhum. "Não é um livro ou uma história em quadrinhos que vai transformar uma mocinha pura numa pessoa perversa, de mau caráter", lembra. "O máximo que pode acontecer é ela se tornar mais lúcida e consciente do mundo. É ilusório e até puritano achar que um livro vai estragar a vida da pessoa. A censura pela pornografia ou por apresentar situações que a criança não entenderia é completamente ingênua", disse.
Histórias em Quadrinhos também educativas
De acordo com a escritora, a HQ não pode ser rejeitada sob o argumento de que não é educativa. "Isso é preconceito, uma censura muito negativa. O material deve ser disponibilizado e, se o adolescente não gostar, ele mesmo vai rejeitar", completa. O que vale também para os clássicos. "Um jovem poderia rejeitar Os Lusíadas, mas isso não desmerece a obra. De qualquer forma, tem que estar à disposição dos leitores", argumenta.
Desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1996, existe uma indicação formal para a utilização de quadrinhos, com menções específicas para a inclusão das HQs. A partir de 2006, os quadrinhos foram incluídos na lista do PNBE, que compra obras de diferentes editoras e as distribui a escolas de Ensino Fundamental e Médio.
De acordo com Regina Zilberman, nossa relação com o mundo passa pela imagem e a leitura de uma história em quadrinhos pode tornar a aula agradável e divertida, onde a criança ou o adolescente aprende e curte. "Fora da escola, os jovens têm contato com o material e, incorporando-o, não se desconsidera ou marginaliza uma prática que a criança já tem. Lidar com esse tipo de material reforça a atividade docente e pode resultar em uma parceria entre professor e aluno, onde todos aprendem juntos", explica.
Para Waldomiro, o limite está só na criatividade do professor. "É possível ensinar tudo com quadrinhos. As figuras permitem os alunos dominem o código visual, algo ainda pouco trabalhado na escola. Os quadrinhos devem ser entendidos também como forma de leitura, assim como o são a literatura, os textos jornalísticos e tantos outros gêneros que existem na sociedade", disse.
Com a diferença de que, na maior parte dos casos, quanto mais proibido um gênero é, maior é a curiosidade de procurá-lo. Fora da escola.
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| 30/09/2009 ralph macedo - diz: so o comentario do livro ja faz a cabeça do leitor |
| 02/09/2009 Daniele - diz: Interessante sabermos que a visão de mundo do ser humano pode ser positiva ou negativa,ira depender do conteúdo apresentado.Todas as imagens causam impacto a sociedade,temos que nos atentar quanto ao aprendizado do que é visto. |
| 28/08/2009 lola - diz: merda |
| 28/08/2009 merda |
| 28/08/2009 lolo - diz: preconceito preconceito historia em quadrinhos |
| 28/08/2009 mari - diz: historia em qua drinho preconceito |
| 28/08/2009 larissa - diz: nao e isso que eu estou procurando eu quero uma historia em quadrinhos sobre o preconceito |
| 26/08/2009 nao tem nada a ver...fuma quem quer mas tenha conciencia que o fumo leva a morte |
| 29/07/2009 Adriano - diz: e esse assunto do dia fazendo aniversário? VAMOS ATUALIZAR? abs |
| 26/07/2009 Gian Danton - diz: Sem dúvida nenhuma, a escolha de 10 na área para crianças foi um equívoco. Mas no caso de Will Eisner para jovens, não vejo nada de errado, até porque, como escrevi aqui, a maioiria dos livros de literatura lidos por esses jovens são muito mais pesados. |
| 25/07/2009 Alessandra Dourado Rosa - diz: Sou professora de Artes e sempre estimulei as HQ´s nas minhas aulas, em diferentes faixas etárias e em diferentes estilos. O que discordei da Proposta foi a escolha inadequada do tema para crianças, que usam a Arte muitas vezes para esquecerem a tristeza do mundo em que vivem para experimentarem um espaço onírico. E não vejo preconceito por parte dos professores, até porque é uma forma de diversificar as aulas e torná-las mais estimulantes para os alunos. |
| 24/07/2009 jefferson nunes - diz: eu entendo o preconceito dos professores em rela;ao as hqs, eu e muita gente que conhe;o aprendeu muito mais com as hqs do que com as aulas entediantes ministradas por professores despreparados, desinformados (uma pesquisa mostrou que 40 por cento dos professores nao leem nem um livro por ano. Viva Eisner, Alan Moore, Neil Gaiman e outros genios que independentemente de qualquer opiniao vao continuar entretendo e educando gera;oes entediadas com as salas de aula. |
| 24/07/2009 Gian Danton - diz: Vivemos numa época politica correta em que o preconceito se transveste de outras formas. No caso dos quadrinhos, é como a Daniela disse: a forma ficou livre de preconceito, mas o conteúdo não. Criou-se a imagem de quadrinhos só podem falar de temas infantis. Quadrinho é coisa de criança e não pode falar de que não sejam crianças brincando. Por outro lado, já vi livros paradidáticos que falam de violência contra crianças, drogas, prostituição... como são livros, isso é visto como algo educativo. Um dos autores paradidáticos mais lidos de todos os tempos no Brasil é Marcos Rey e seus livros são cheios de violência. O mistério do cinco estrelas começa com um assassinato, o mesmo para Um cadáver ouve rádio. O rapto do garoto de ouro e bem-vindos ao Rio são sobre sequestro. Se fossem quadrinhos, já estariam queimando em fogueiras por falarem de temas proibidos. Em tempo: não estou criticando Marcos Rey. Li quase toda a obra dele e o acho um escritor fantástico. |
| 24/07/2009 Gian Danton - diz: Existe preconceito contra quadrinhos sim. A frase "Nunca ame ninguém. Estupre" praticamente não causou polêmica, mas os quadrinhos sim. No caso do Eisner foi feita uma leitura descontextualizada de alguns poucos quadros e toda a obra dele foi tirada das bibliotecas. Para quem não leu Um contrato com deus, nesse conto o zelador é mostrado como um homem severo, temido por todos, mas que é derrotado pela malícia de uma menina, que rouba seu dinheiro e faz os outros pensarem que ele é pedófilo. Não é uma cena de incentivo à pedofilia. É o retrato dos guetos judeus, em que só sobreviviam os mais espertos, no caso, a menina. Prova de que é preconceito contra quadrinhos: já vi vários livros de Nelson Rodrigues em bibliotecas escolares e até hoje ninguém fez escândalo por causa disso. Já vi livros do Dalton Trevisan em bibliotecas escolares! Aí alguém vai dizer: "Mas é diferente, Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan fazem literatura!". Como eu disse, preconceito. |
| 23/07/2009 eeeeeeeeeeeeeee - diz: naõ |
| 23/07/2009 Daniela - diz: Não se pode confundir forma com conteúdo. Quanto à forma da HQ, acredito não haver preconceito algum, inclusive, como já foi discutido em outros comentários, hoje as HQs estão cada vez mais presentes nas seleções pedagógicas. Os casos criticados referem-se ao conteúdo, totalmente inadequado para as faixas etárias a que foram destinados. E por que apresentar um tema adulto a uma criança ou jovem quando ele ainda não está preparado para refletir sobre ele? Já basta a realidade de algumas crianças, repleta de violência, desprezo e necessidades. O papel da escola é também pensar sobre essa triste realidade, preparar o aluno para ela, mas acima de tudo, mostrar que existem outros caminhos. O conhecimento pode ser uma saída. |
| 22/07/2009 Marcia Regina Ferreira da Silva - diz: Não há preconceito no uso das HQ; há bom senso. Alegar preconceito é a forma mais "conveniente" de justificar o injustificável. Aliás, hoje em dia isso é moda. Não que o preconceito seja negado; infelizmente ele existe em diversos contextos. Mas essa generalização é temerária. HQs são usadas extensivamente em todos os segmentos de ensino. Também estão presentes em avaliações dos mais diferentes sistemas, desde o ENEM, passando pelo SAEB e demais avaliações formais. Mas alegar preconceito por parte do governador, da Secretaria de Educação e demais orgãos responsáveis pela seleção de obras é no mínimo uma precipitação. Onde está a imparcialidade e a ética jornalísticas? Por que todo esse tendencialismo? Critério agora virou censura. Isso já é demais. |
| 22/07/2009 Marcia Regina Ferreira da Silva - diz: Não há preconceito no uso das HQ; há bom senso. Alegar preconceito é a forma mais "conveniente" de justificar o injustificável. Aliás, hoje em dia isso é moda. Não que o preconceito seja negado; infelizmente ele existe em diversos contextos. Mas essa generalização é temerária. HQs são usadas extensivamente em todos os segmentos de ensino. Também estão presentes em avaliações dos mais diferentes sistemas, desde o ENEM, passando pelo SAEB e demais avaliações formais. Mas alegar preconceito por parte do governador, da Secretaria de Educação e demais orgãos responsáveis pela seleção de obras é no mínimo uma precipitação. Onde está a imparcialidade e a ética jornalísticas? Por que todo esse tendencialismo? Critério agora virou censura. Isso já é demais. |
| 22/07/2009 Bruno - diz: Sugiro que seja colocado uma indicação de idade na capa,para nao acontecer isso.Porque sabemos muito bem que os livros passam 'batidos' pelo MEC. |
| 21/07/2009 Jimmy Rus - diz: O preconceito sempre existe, porem, ao seu lado existe um fascinio de crianças e ate mesmo de professores pelas linguagem que a Arte Sequencial utiliza. Por ser quadrinista e professor, alem de pesquisador e produtor de uma revista de H.Q em gestação, tenho percebido esse fascinio. O que ocorreu nesses dois casos e algo que o mundo dos quadrinhos e quem esta envolvido com ele sempre se ve envolvido: O uso inadequado de titulos de H.Qs para crianças. O que ocorre e uma falta generalizada de conhecimento, por parte das autoridades do que seja H.Q. Eles acham que so por ser H.Q todas são voltadas para crianças e adolescente e é exatamente ai que mora o perigo: Existem generos para as H.Qs. Assim como existem outros tipos de revistas voltadas para Crianças, Adultos, adolescentes, patricinhas, genios caseiros, etc, na Arte Sequencial não se faz diferente. Então, o fato é o seguinte, se realmente querem dar Will Eisner para adoslecentes lerem, de Spirit, que e voltado para esse publico, e não suas obras mais rebuscadas, que são voltadas para um publico adulto. |
| 18/07/2009 Anônimo - diz: maristela bairros schmidt é uma crítica ortográfica bem ferrenha para alguém que não sabe usar vírgulas e acentos... |
| 18/07/2009 maristela bairros schmidt é uma crítica ortográfica bem ferrenha para alguém que não sabe usar vírgulas e acentos... |
| 16/07/2009 maristela bairros schmidt - diz: regina zilbermann deve ter ficado em alfa, se bem a conheço, hehehe arrumaram, né? não fizeram mais que a obrigação. por isso é que o STF se julgou no direito de cassar nosso diploma de jornalista. não adianta term posturas (...) críticas e não saber escrever. e não me venham com escorregão do dedinho. e o editor, estava onde, na lua? tenho 35 anos de jornalismo, 90 por cento em cultura. no mercy |
| 15/07/2009 Jerônimo (Jê) - diz: ...a cena da mocinha acima é grotesca...independente do formato de mídia veículado... . ... :) ... |
| 14/07/2009 maristela bairros schmidt - diz: Não sei se existe preconceito contra HQ, aliás esta discussão e esta pauta são mais velhos que mijar em parede, só sei que, definitivamente, cara colega, MOCINHA nunca teve, não tem e jamais terá, mesmo que venha uma reforma ortográfica interplanetaria, uma humilhante cedilha! Por favor. Corrijam pelo menos no site. |
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