Janeiro/2010

Projeto Neojibá - Educação Erudita

Criado em 2007 pelo pianista e maestro Ricardo Castro, o projeto Neojibá se tornou um enorme sucesso ao levar música e excelência aos jovens baianos

Por Shirley Paradizo

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Uma palavra nova já virou verbete do dicionário baiano: Neojibá, que tem feito mais de 130 crianças e jovens circular pelos corredores e salas do Teatro Castro Alves (TCA) com instrumentos em punho. Mais do que ensinar música erudita, o Núcleo Estadual de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia prima pelo desenvolvimento da autoestima em busca de excelência. Lançado em 2007, com o propósito de tornar a prática orquestral uma atividade fundamental na formação da cidadania, contribuindo na construção ética e cultural dos jovens, o projeto foi fundado pelo pianista e maestro Ricardo Castro, conhecido internacionalmente por sua competência e por ser especialista na obra de Chopin.

Na época, Ricardo havia assumido a regência e direção artística da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) e desenvolveu o projeto educativo Neojibá. A ideia vem de uma experiência testada e exercida na Venezuela há mais de 30 anos ininterruptos, que hoje ensina 250 mil adolescentes e crianças de distintas classes sociais em 140 núcleos de formação musical. O El Sistema, como é mais conhecido, mantém 154 orquestras juvenis e 70 infantis, revelando novos talentos e transformando a vida dos jovens em Caracas, a mais violenta capital da América do Sul. "Conheci o aclamado El Sistema em 2005, na Venezuela, em uma das minhas viagens como pianista. Ainda não tinha a repercussão mundial que tem hoje, mas imediatamente senti a força do que estava se passando por lá", conta Castro.

Anos antes, ele já tinha tentado ajudar crianças e jovens carentes na Bahia por meio de projetos de arte-educação, como o excelente Projeto Axé de Salvador e o Conquista Criança, em Vitória da Conquista. "Ao conhecer o sistema venezuelano, passei a falar dele aos quatro cantos, dizendo que a Bahia tinha tudo para começar algo semelhante e o quanto isso seria importante", explica. Até que seus pedidos foram atendidos pelo atual secretário Estadual de Cultura, Marcio Meirelles. "Eu estava na Suíça e ele ligou me convidando para fazer parte da sua equipe de gestores e implantar o sistema em paralelo à gestão da Osba", conta.

Apesar de ter sido o precursor do projeto no Brasil, o regente não quer para si os méritos, já que o programa tem recebido apoio de músicos das mais diferentes vertentes, como o violoncelista Antonio Meneses e a cantora Ivete Sangalo, que estiveram na sede para conhecer os fundamentos do ensino. "Gosto de ressaltar que não inventei nada: simplesmente montei na Bahia um projeto que deu certo na Venezuela e que tem seguidores em países com grande tradição musical, como Inglaterra, França e Estados Unidos", diz Castro. Em apenas dois anos de vida, o projeto já revolucionou a vida de muitos jovens que se deslumbram com as possibilidades da música. A própria cantora Ivete Sangalo, durante sua visita, revelou que adoraria ter tido a oportunidade de aprender fundamentos de música clássica na infância, assim como os alunos do Neojibá estão tendo. "Por meio da prática orquestral, levamos a criança a ultrapassar seus limites. Dessa forma, elas saberão como chegar à excelência em qualquer área", explica o maestro.

SUCESSO ABSOLUTO
O projeto está colhendo seus primeiros frutos. O núcleo deu origem, há um ano e meio, à Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho (J2J), batizada assim em homenagem à Independência do Estado, em 2 de julho de 1823. O grupo, formado por mais de 80 integrantes de 11 a 25 anos, já realizou diversas apresentações públicas na sala principal do Teatro Castro Alves, na Câmara dos Vereadores, na Faculdade de Direito, na Costa do Sauípe, em Camaçari, entre outros locais. Em maio de 2009, eles se apresentaram para o presidente Hugo Chávez, durante sua visita à Bahia para assinar convênio que prevê viagens de intercâmbio para jovens de ambos os países. O líder da Venezuela se emocionou ao assistir a apresentação do Neojibá, que executou trechos dos hinos brasileiro e venezuelano e da ópera Carmen, do compositor Bizet.

A estreia oficial da J2J ocorreu em julho, no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, em São Paulo, sendo a primeira orquestra da Bahia a ter essa oportunidade. "O público aplaudiu de pé todas as músicas executadas, desde o início. Tocamos por mais de hora e meia naquele frio de 13 ºC, que, para baiano, é siberiano!", brinca Castro. Desde então, eles têm aproveitado todas as brechas e férias escolares para mostrar seu trabalho. "A J2J foi convidada pelo Festival de Música de Santa Catarina para abrir a série grandes concertos na sede da SCAR de Jaraguá do Sul, neste janeiro. Nossos meninos ficarão, em seguida, durante todo o festival tomando aulas e participando de concertos", conta Castro.

Além de Castro, eles já atuaram sob a regência dos venezuelanos Manuel Lopes, Paul Rodrigues e Carlos Izcaray, enviados pelo Fesnojiv. De tempos em tempos, alunos com ensino mais avançado visitam a sede do El Sistema para ver de perto como ele funciona e trazer seu aprendizado para os colegas. Apesar de ser a orquestra principal do Neojibá, a J2J não é mais a única. Há três meses, foi criada a Orquestra Castro Alves (OCA), formada por 50 crianças e jovens de 7 a 18 anos. "Quando selecionamos os integrantes da J2J, apareceram crianças supertalentosas que não sabiam nem ler partitura nem tocar qualquer instrumento. Não resisti e criei o grupo mirim", conta Castro. O núcleo mantém ainda a Orquestra Pedagógica Experimental (OPE), que tem um papel de porta de entrada para os novos integrantes. "A procura tem aumentado bastante, e isso prova o sucesso do projeto", comemora Castro.

E não é para menos. No Neojibá, os jovens têm a oportunidade de aprender a ler partituras e se dedicar à música clássica com afinco. Eles recebem instrumentos de acordo com sua vocação e fazem aulas diariamente. Em troca, os alunos devem continuar a frequentar a escola normal e a obter boas notas. Uma rotina contínua e diária de estudos garante a qualidade e o rápido aprendizado. Os participantes realizam os ensaios de naipe com seus monitores e também a prática de orquestra. "Seguimos ao pé da letra o El Sistema. Por isso, nossos integrantes têm aulas e ensaios diários das 14h às 18h. Quando temos apresentações, essa carga horária pode aumentar", explica Castro. Para serem aceitos no projeto, os novatos passam por um crivo em que é avaliado o conhecimento musical, o talento, a força de vontade, a generosidade, a seriedade, o compromisso. Ou seja, características acima de tudo humanas, pois Castro considera que qualquer criança tem potencial para tocar em uma orquestra se lhe forem oferecidas condições ideais.

Diferentemente do que parece, o objetivo do projeto Neojibá não é tirar os meninos da rua e ocupá-los com um pouco de arte ou outro tipo de entretenimento local. "Pelo perfil de nossa sociedade, atingimos majoritariamente a população pobre e, com certeza, tiramos crianças da rua, mas isso é uma consequência do fato de oferecermos a todos, sem distinção, um ensino musical de qualidade comparável ao de grandes centros musicais", conta Castro. Além disso, o núcleo oferece não só a gratuidade do ensino como transporte e lanche. "Eles também têm uma bolsa, que varia de acordo com a idade, a orquestra em que atua, as responsabilidades e, por fim, o desempenho. Fazemos audições de avaliação constantemente."

TRABALHO ÁRDUO
Manter essa garotada não é nada fácil. Além do custo existente com instrumentos, roupas, alimentação e transporte dos músicos, há complicações jurídicas, a respeito de uma futura sede da orquestra, e de como formar uma associação independente do governo. "O governo não tem como arcar com todas as despesas financeiras do projeto, por isso é necessário buscar patrocínio e apoio de fora", conta Castro. Recentemente, o núcleo recebeu uma doação da cônsul- geral Coromoto Godoy Calderón, da República Bolivariana da Venezuela em Recife, para ser revertido em material para o primeiro ateliê de luteria do Neojibá. A luteria é a arte de fabricar e reformar instrumentos musicais, e o projeto já está preparando jovens músicos aprendizes para seguirem nesse ofício.

Mesmo com as dificuldades, os resultados estão sendo obtidos. Alguns músicos mais experientes têm recebido formação pedagógica especifica para ensinar os iniciantes. A próxima grande meta é expandir os trabalhos com a criação de núcleos de orquestras, reunindo crianças a partir de 8 anos de idade sem nenhum conhecimento musical. No início de 2008, foi realizada uma inscrição para mapear as crianças e os jovens de Salvador interessados em aprender um instrumento de orquestra. Em pouco tempo, o projeto recebeu 530 inscritos. Para comportar essa nova demanda, o Neojibá, em 2010, irá funcionar em local mais amplo, o Teatro Iceia, cedido por meio de um processo inédito de publicização na área cultural, incluindo a aquisição de todos os equipamentos musicais e do mobiliário necessário para seu funcionamento.

Ricardo Castro está lutando também para que o projeto se estenda por todos os municípios da Bahia, fazendo com que crianças e jovens, de diferentes classes sociais, possam dialogar por meio da música. "Formaremos mestres para a rede estadual de ensino. Provaremos a importância dessa ação pelos resultados obtidos, contando com dois fatores importantes: a nova lei federal que obriga a volta da música ao currículo escolar e o entusiasmo de todos que, ao conhecer o Neojibá, querem adotar o método", diz. Ele ainda acredita no surgimento de outros projetos semelhantes pelo país, que possam se interligar. "Por exemplo, quando tocamos fora do estado, convidamos quem quiser ir à Bahia passar um tempo para aprender com a gente como replicar nossa experiência. Já temos um músico do estado de Alagoas conosco e receberemos outros em 2010." Vida longa ao Neojibá!

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Shirley Paradizo é jornalista

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Rodape

21/01/2010

Orieta carvalho - diz: Estou encantada com este projeto neojibá. Adorei a reportagem.


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