
Segunda, 6 de outubro de 2008 | Bravo! Indica
Por Jonas Lopes
Um dos críticos literários mais renomados do país, Silviano Santiago nunca conseguiu atingir o mesmo êxito como ficcionista, ainda que alguns trabalhos seus tenham sido elogiados aqui e ali. Isso pode mudar com Heranças, romance lançado há pouco tempo pela Rocco: não se trata apenas da melhor obra de ficção do mineiro; é também um dos principais acontecimentos da carente literatura brasileira contemporânea, dividida entre blogueiros de inflexão adolescente/umbiguista e a escatologia travestida de transgressão. Ao recuperar o prazer de contar uma história, aproveitando-se de um personagem memorável e uma sintaxe trabalhada, Silviano se alinha aos outros resistentes das nossas letras atuais: Milton Hatoum, Rubens Figueiredo, Cristovão Tezza, Sérgio Sant'Anna e poucos outros.
E ele o fez estabelecendo uma ponte com o melhor do passado. Pois Heranças pode tranqüilamente ser considerado um São Bernardo do século 21. O território de Graciliano Ramos não é de todo desconhecido para Santiago, que explorou o autor alagoano como personagem no inclassificável Em Liberdade. Desta vez, contudo, o que surge não é a história de Graça, mas o clima árido, hostil e vicejante do velho fazendeiro Paulo Honório, reencarnado em Walter, um milionário belo-horizontino que se apresenta como um narrador no fim da existência, vivendo num requintado apartamento na avenida Vieira Souto, no Rio de Janeiro - outros clássicos personagens vêm à mente, caso de Ricardo III e Bentinho, embora o que haja de mais machadiano no livro seja a prosa à maneira do século 19.
Foi um longo caminho para Walter até chegar a Ipanema, onde vive com poucos criados e quase sem deixar a moradia suntuosa. Aos poucos conhecemos a história. Filho de um burguês dono de um armarinho, Walter fracassou na tentativa de ingressar numa universidade de direito e passou a acompanhar a ascendente carreira da irmã, futura sucessora do pai duro e avarento, porém generoso. Mais tarde essa irmã morre devido a um acidente de carro mal explicado. Uma das hipóteses, levantada pelo próprio irmão e nunca devidamente elucidada, é que ele estaria envolvido no crime. Ela estava no veículo com o amante, um pipoqueiro corcunda.
Walter, livre do armarinho da família e agora magnata do meio imobiliário, relata ao leitor imaginário suas fracassadas aventuras amorosas. Conta como fez a primeira namorada abortar e a levou ao suicídio; como viu uma outra, guerrilheira e intelectual perseguida pela ditadura, usá-lo para viajar a Paris e escapar dos militares; uma terceira, Gráci, não se deixar nunca penetrar psicologicamente; e, por fim, há a adorável enfermeira mexicana Carmen, com quem o protagonista finalmente encontra a paz, embora por poucos dias.
Pode parecer difícil conviver com tamanha ausência de caráter, mas é justamente isso que faz de Heranças uma grande obra. O humor autodepreciativo de Walter, seu cinismo áspero e misógino, a patética tentativa de se provar independente da companhia alheia por meio de bravatas, tudo isso rende sentenças deliciosas. "A honestidade no caráter é conseqüência da falta de largueza de Nossa Senhora dos Partos na confecção da genitália masculina", escreve e certa altura. Em outra passagem, afirma que "o homem é pulha até na hora da chalaça".
O romance é mais, no entanto, do que uma compilação de gracejos. Silviano cumpre o útil papel de passar a limpo as últimas décadas da vida brasileira pelo viés de um abastado. Se outras classes - sociais e intelectuais - ganharam vida nas letras nacionais com os autores da década de 70 e 80 (Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu, João Antônio), só recentemente, com Heranças e os dois últimos trabalhos de Milton Hatoum (Cinzas do Norte e Órfãos do Eldorado) temos tido acesso às relações perigosas entre o regime militar e os empresários, embora nessas relações haja até mais ingenuidade do que ideologia propriamente dita, por parte dos últimos, além de minúcias do universo especulativo das empreiteiras.
Vale retornar à analogia com São Bernardo para um aspecto diferente da falta de escrúpulos dos protagonistas. Paulo Honório, no livro de 1934, representa um símbolo de transição entre o nordeste arcaico e as novas técnicas agrárias. Walter simboliza, ao mesmo tempo, uma transformação de modelos. Tecnológica, sim, já que ele digita orgulhoso no computador suas memórias e usa a internet para investir na bolsa de valores, porém também do modelo de gestão familiar patriarcal, no caso bem mineiro, apodrecido a céu aberto nas últimas décadas. Fora a ponte que o livro faz no trato dos sexos: Walter conhece mulheres financeiramente livres e emocionalmente instáveis.
O desfecho de Heranças, conciliatório e algo otimista, pode parecer incoerente com todo o azedume precedente. Não é: o próprio protagonista parece notar que sua misantropia sempre resultou mais da timidez e da incapacidade de se abrir do que de maldade plena. E ainda assim, é um final muito mais resignado do que propriamente feliz - por mais monstruoso que Walter seja em termos de ambição e egoísmo, não se pode negar seu prazer em viver, nem que fosse para justificar essas características negativas. Daí a coesão do ato final, quando busca "transformar a água da desconfiança em vinho da confiança".
Heranças
Silviano Santiago
Rocco
397 páginas
R$ 46