
Sexta, 24 de outubro de 2008 | Bravo! Indica
Por Jonas Lopes
Fosse o Brasil um país menos iletrado e Javier Marías seria um best seller. A afirmação pode até parecer exagerada, dada a complexidade da prosa do escritor espanhol (sério concorrente ao posto de melhor escritor vivo), porém é a verdade pura: Marías é, em alguns países europeus, um assombroso vendedor de livros. Só na Alemanha, Coração Tão Branco (1992) vendeu mais de um milhão de exemplares. Além do público, escritores de gabarito já teceram loas ao madrileno. W.G. Sebald, autor do magnífico Austerlitz e morto em 2001, chamava-o de "twin-writer". Para J.M. Coetzee, trata-se do "maior escritor europeu". E a lista de admiradores célebres continua: Claudio Magris, Orhan Pamuk, Roberto Bolaño, Salman Rushdie.
No Brasil não conseguiu emplacar, mesmo com grande parte de sua obra já tendo sido traduzida. O lançamento mais recente é o de Dança e Sonho, a segunda parte do romance Seu Rosto Amanhã. Há quem chame a obra de trilogia (inclusive a orelha da Companhia das Letras); não é. É um romance publicado em três partes. Marías justificou em entrevistas a divisão afirmando que não gosta de volumes exageradamente longos. "A não os de Dickens e Tolstói", brincou. Não importa se em uma única parte ou repartido em três, Seu Rosto Amanhã repete a qualidade das obras-primas contemporâneas Amanhã, Na Batalha, Pensa Em Mim e Coração Tão Branco. Os três títulos, por sinal, são citações a Shakespeare (Henrique V, Ricardo III e Macbeth, respectivamente).
Para explicar a trama de qualquer trabalho de Marías é preciso antes destrinchar seus engenhosos métodos narrativos. Pouquíssimo enredo há em cada um deles. Um narrador, sempre em primeira pessoa, de tom filosófico e proustiano, até tenta se concentrar e contar alguma história. Perde-se, entretanto, em dezenas de pequenos assuntos que irrompem aqui e ali, explorando-os às minúcias mais microscópicas, por mais frívolas que sejam. Quando percebe que não há o que extrair das distrações, o personagem retoma o fio narrativo perdido - para voltar a se desviar em alguma vereda obscura logo após. Marías atribui a influência dessa característica falsamente dispersiva a Laurence Sterne. O espanhol assina uma elogiada tradução de Tristram Shandy. Com o hilário pregador anglicano ele diz ter aprendido a fazer um minuto durar oitenta páginas.
Impregnado de sentenças longas, o texto de Marías também merece destaque. A frase de abertura de Dança e Sonho, por exemplo, estende-se por 17 linhas na edição brasileira. Pensamentos são encadeados por todo o romance, através de vírgulas e parênteses. Difícil à primeira leitura, sim, mas viciante, visto que a prosa adquire um aspecto difuso, perdido em algum lugar entre o oral e o cerebral. Não surpreende, ao nos depararmos com tamanha carpintaria literária, descobrir entre suas influências gente como Henry James, William Faulkner e Vladimir Nabokov. Aqui fica compreensível ainda o que Sebald quis dizer com "twin-writer". Nessa família poderia ser incluído ainda o austríaco Thomas Bernhard, publicado na Espanha pela primeira vez graças ao conselho de... Javier Marías.
Jaime Deza é o autor do relato em Seu Rosto Amanhã. Ex-docente da prestigiosa universidade inglesa de Oxford, ele foi também o protagonista de outras duas obras de Marías, Todas as Almas e Negro Dorso do Tempo. Agora é um homem de meia-idade, divorciado da adorável esposa Luísa, distante dos filhos e novamente vivendo na Inglaterra. Possui uma função bem menos, digamos, acadêmica: trabalha em um serviço secreto, no qual sua obrigação é conhecer pessoas e apenas por meio de poucos minutos de convivência descobrir tudo sobre elas. O ofício incomum leva Deza a situações inusitadas, tal como ver seu chefe levantar uma espada contra um homem grosseiro, dentro do banheiro para deficientes de uma boate londrina.
Cenas assim são fortes. A magia de ler Marías, contudo, está na citada capacidade de promover digressões, no turbilhão inescapável de idéias. Em Seu Rosto Amanhã, a mais importante delas é sobre contar. Até onde contar - falar, relatar, narrar, sobretudo confiar - pode ser arriscado? Ao contarmos o que quer que seja, arriscamo-nos à traição. Perdemos o controle sobre nossas vidas, de certo modo, abandonando na mão de outro - um amigo, um amor, o leitor do livro - uma responsabilidade essencial. "Ninguém nunca deveria contar nada", abre Deza a primeira parte do tríptico, Febre e Lança. Enquanto em Dança e Sonho reclama: "quem dera ninguém nunca nos pedisse nada, nem quase nos perguntasse, nenhum conselho nem favor nem empréstimo, nem sequer o da atenção".
O que fazer, então, para evitar o fardo de perder um segredo ou carregá-lo? "Calar, calar. É a grande inspiração que ninguém realiza". Filósofo dos mais importantes do século passado na Espanha, Julián Marías, pai de Javier, é a influência da discussão sobre contar/calar. Durante o sangrento regime de Franco, ele foi delatado ao governo pelo melhor amigo, e passou anos sem poder publicar qualquer artigo. Daí a dificuldade de se confiar. Temos o hábito, analisa Marías, o filho, de achar que falar pode salvar. "Um rastro das Mil e Uma Noites, a idéia herdada pelos homens de que nunca se deve perder a palavra nem terminar o conto". Na verdade, contar pode tranqüilamente danar.
Implacável, a passagem do tempo tem seus efeitos igualmente explorados por Deza. Como Proust, Marías sabe que seus efeitos são indefinidos: a memória é traiçoeira, pode recender tanto ao aroma agradável da juventude quanto à podridão de eventos que preferíamos esquecer. "O tempo inteiro se comprime, não se divide nem se distingue nem se distancia porque deixa de ter sentido quando se acaba". Não temos a mínima chance, portanto, de conhecer qual será seu rosto amanhã.
Seu Rosto Amanhã: 2. Dança e Sonho
Javier Marías
Companhia das Letras
359 páginas
R$ 49