Por Paulo Nogueira
Veja uma galeria das grandes personagens femininas de Almodóvar
Pedro Almodóvar, o mais aclamado cineasta espanhol da sua geração, moldou uma linguagem que é um dialeto único (mas universal e inconfundível): narrativas prismáticas, repuxos de melodrama, iconografia pop, canções bregas num contexto intelectual, humor debochado, cores berrantes e cenários espalhafatosos. Todos esses recursos e maneirismos - esgrimidos para dissecar temas como o desejo, a paixão, a família - variaram de acordo com as fases que o diretor percorreu. No seu filme mais recente, Abraços Partidos, ele fixa o caleidoscópio, estabiliza o seu vórtice, não com a indolência formal dos acadêmicos, mas com a plenitude complexa dos mestres. Um vanguardista classicista? Quase, pois há um fator que assegura o moto-perpétuo inovador do cineasta: a redenção do macho. Para compreendê-la, um pente-fino nas etapas desse sessentão novinho em folha. Almodóvar nasceu na região da Mancha, a mesma de Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura. O pai dele era semianalfabeto e transportava barris de vinho numa mula. Já a mãe encorajou o filho a estudar - adolescente, Pedro lia e transcrevia cartas para os vizinhos. O modelo para o complexo de Édipo é demasiado estereotipado (mesmo que não existissem um filme intitulado Tudo sobre Minha Mãe, de 1999, e uma filmografia que cultua uma idealizada figura feminina) - portanto, convém evitá-lo cuidadosamente. O primeiro filme foi uma dinamite estética que abriu uma cratera na cultura espanhola e criou o nicho para a cena artística conhecida como "La Movida": Pepi, Luci e Bom e Outras Garotas da Turma (1980). Estabeleceu o Almodóvar como um agente provocador, que celebrava o kitsch transfigurando-o em brega, enquanto jorrava um humor ultrajante e uma sexualidade escabrosa. Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), o primeiro grande sucesso internacional do diretor, representa uma dúbia regeneração daquela passionalidade quase gongórica. Fingindo não passar de uma leve comédia feminista, cimentou a reputação de Almodóvar como "diretor de atrizes", na linha do americano George Cukor e do alemão Rainer Werner Fassbinder. Volver (2006) é a ode máxima ao estoicismo feminino e roça o ditirambo: três gerações de mulheres sobrevivem a vendavais, incêndios e à própria morte. Enquanto isso, os homens são descartáveis (mas não recicláveis). A breve "retrospectiva Almodóvar" exibida acima tem uma razão de ser. Ela é essencial para entender como Abraços Partidos representa uma nova fase em sua carreira, com a reabilitação da figura do macho. Vamos ao enredo. O protagonista, Mateo Blanco, cineasta e roteirista, sofre um acidente de automóvel que lhe rouba a visão e o amor da sua vida. Decide, então, que Mateo deveria morrer junto com sua amada Lena, interpretada por Penélope Cruz. O protagonista, assim, oblitera uma parte de si mesmo, passando a encarnar a persona que tinha escolhido no reino literário, o pseudônimo com o qual assinava seus livros: Harry Caine. Decidido a eliminar todos os vestígios do seu eu anterior, Harry usa a cegueira para apurar os outros sentidos, o que o torna mais fascinante e poliédrico. Catorze anos mais tarde - o momento em que o filme começa -, Mateo/Harry reconta sua história a Diego (seu filho, o que ele ignora). Trata-se de uma saga dilacerante de amor louco, fatalidade, ciúme e traição, na qual o escritor cego exuma e ressuscita a sua identidade "póstuma". A revolução do filme consiste no fato de que, em Abraços Partidos, Almodóvar, um diretor fascinado por mulheres, cria o mais nobre personagem masculino de sua longa filmografia. Mateo/Harry conjuga a sabedoria trágica de um Lear com a ciência benevolente de um Próspero. E sepulta - com a sua dimensão dramática e humana - a lacuna de bons tipos masculinos na obra do diretor. Almodóvar nunca se aprofundou tanto na psicologia do homem quanto neste filme. Mostra isso não com falas, mas com imagens, como é de seu feitio. Exemplo? Em uma cama, um casal está completamente enrolado em um lençol - incluindo as cabeças. Sabemos que a mulher é Lena. Mas quem será o homem? O marido que ela despreza e trai? Ou o amante que ela admira? O cineasta insinua que, embora os homens - como as mulheres - sejam diferentes entre si, na paixão eles são indistinguíveis. Por causa da narrativa de tom quase clássico, Abraços Partidos não foi uma unanimidade entre os analistas. Teria o incendiário degenerado em parnasiano, como resmungaram alguns críticos ávidos da provocação fácil? Pelo contrário: o mestre nunca foi tão cinematograficamente magistral. Não perdeu a eloquência no trato com as imagens, como na cena em que Mateo abraça o vídeo com a cena congelada do acidente, no momento em que beijava a amada. Como a colossal a escultura/móbile que orna a encruzilhada onde ocorre o desastre que mudou a vida de seu protagonista, assim é Almodóvar: camaleônico, metamórfico, proteico. Como o outro homem da Mancha, ele continua a sonhar acordado - pesadelos incluídos. Paulo Nogueira é jornalista e romancista, autor de O Suicida Feliz, Transatlântico e Um É Pouco, Dois É Demais - os dois últimos lançados apenas em Portugal.
O FILME
Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar. Com Lluís Homar e Penélope Cruz. Estreia prevista para este mês.
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31/01/2010
João Vasxuyhg - diz: Não concordo com a sua visão da cena do casal enrolado no lençol...Justamente por ter uma "narrativa clássica", aquela cena no filme parece ter tido como objetivo revelar o quão insastifatória, fria e sufocante era para Lena estar com aquele homem.
17/01/2010
eduardo - diz: adorei o filme, mas o critico poderia tentar escrever um texto mais acessível. Arrogância não combina com arte nem com Almodovar. Falar o final do filme também não ajuda.
10/01/2010
Hiran Pinel - diz: Mesmo contando o final, o crítico se mostra muito sensível e acima de tudo falando com ele(a); falando conosco - seus ledores ferózes.
29/12/2009
Vi - diz: Paulo, gostei do texto que você escreveu sobre o filme do talentoso Almodovar, mas tenho uma critica construtiva: escreva o texto numa linguagem simples para que todos os leitores entendam. Você rebusca e floreia demais, como se fosse um poema. Nesse caso o poeta é o Almodovar. Esse texto poderia ter exatamente o mesmo conteúdo, mas escrito de forma bem mais clara e acessível. Escreva para o público em geral e não para você. Hoje a Bravo não é lida apenas por assinantes e compradores de banca. Graças a internet, qualquer pessoa pode ler teu texto. Os fãs da boa arte, que fazem pesquisa em sites como o Google, agradecem caso encontrem uma informação de alto nível e acessível. A sua é de alto nível. Só não sei até que ponto você ou a revista querem ser acessíveis.
29/12/2009
Tatiana Richard - diz: O novo filme de Almodóvar é fantástico. A fotografia é belíssima com composição e estutura gráfica muito bem explorada. A ótica masculina orienta a narrativa,porém Almodóvar em todos os seus filmes eleva o universo masculino e feminino a tal ponto que não há discernimento entre eles - pelo contrário - esses universos estabelecem um diálogo encantador; porque na essência somos essa simbiose.
25/12/2009
cristiane vicarregui - diz: maravilhoso filme, a gente ri e chora quase sem perceber, é o Chico Buarque na Espanha.
16/12/2009
Terence - diz: O crítico passou da bola, contou os pontos chaves e o fim do filme. "Abraços Partidos" é um filme mediano, na minha opinião, o melhor de Almodóvar.
13/12/2009
Tiago - diz: Rpz, parece que o autor do texto só viu parte da obra de almodovar... Fale com Ela, O matador, Má educação, A lei do desejo... todos esses filmes abordam o universo masculino... pelo amor de deus... em vez de fazer várias referências no seu texto, deveria ter percebido as inúmeras referências que almodovar usa em seu filme...
13/12/2009
Ana - diz: Não tive oportunidade de assistir, se for como nos outros filmes, vou adorar, os filmes dele costuma ser cheio de cores, sempre tem algo contagiante e inesperado. Sou fã desse diretor incrivel.
12/12/2009
Marcelo Rodrigues - diz: Claros ecuros bem elaborados, à la Will Eisner, cores fortes onde se destacam o verde e o vermelho, em cenas onde a câmera se movimenta lenta ou rápidamente, dependendo do momento, buscando sempre objetivar grandes zoom nos detalhes!
06/12/2009
Thays - diz: Finalmente uma crítica justa a este filme, de que gostei muito! Escrevi sobre ele também no meu blog e a cada aspecto que explorava mais coisa ia descobrindo - e acho que ainda está faltando! Se puder conferir, http://www.analista.psc.br/blog
24/11/2009
Liara - diz: Fazer esta leitura dos filmes do Almodóvar é quase tão difícil quanto entendê-los na essência, sem a visão dura unicamente estética e estereotipada de seus fortes personagens e história. Adorei sua sensibilidade Paulo! Também ansiosa pra ver o Filme!
20/11/2009
Felizardo Alves Monteiro Neto - diz: Até hoje o único filme que vi do Pedro Almodóvar foi "A Flor do meu Segredo", fiquei muito fascinado com a "iberacidade" do filme e com a força dos seus personagens. Acredito que seja assim também em "Abraços Partidos", sou estudante de jornalismo, gosto muito de cinema e quero aprender muito sobre isto vendo as obras do grande Almodóvar.
13/11/2009
Francielle - diz: Esse texto foi praticamente uma aula.Parabéns. Estou ansiosa para ver o filme.