
Revista BRAVO!
Marcelo Rezende
Entre os cineastas contemporâneos, Lynch é um dos artistas que provocaram maior impacto na cultura, no modo de ver, pensar ou se relacionar com o estranho, o misterioso e a violência. O impacto de suas histórias perdura além da sala de projeção. Os mistérios que ele propõe na tela provocam discussões acaloradas em restaurantes ou bares, depois da sessão de cinema. Afinal, o que signifi ca aquela vela acesa que aparece de forma recorrente em Veludo Azul? Ou os minúsculos homenzinhos idosos que saem de uma caixa em forma de cubo em Cidade dos Sonhos? Tais mistérios fazem parte de sua gramática, assim como as cores vivas nos filmes de Almodóvar ou a estética de fi lmes B de Quentin Tarantino. O público aprendeu a ver um "David Lynch" como as gerações anteriores viram um "Alfred Hitchcock": com respeito, admiração, aceitação e um sempre presente susto, denunciando que não se está diante de um filme ou um cineasta qualquer.
Sua influência se estende também à televisão. Lynch é o autor da mãe de toda uma nova geração de séries, que mudaram o status desse gênero de diversão nos últimos dez anos. Seu Twin Peaks, de 1990, lançou uma matriz para gerações de roteiristas. Depois de Twin Peaks, eles se sentiram livres para mergulhar em universos fantásticos e criminais que aparecem em meio a situações banais, como em Arquivo X, Desperate Housewives, Lost e mesmo na insuspeita The O C. Para mostrar ser todas essas ligações não uma tese, mas um fato, a Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, em Paris, recebeu neste ano a exposição The Air Is on Fire, que reuniu toda a produção de Lynch como um artista total, capaz de criar com suas idéias e imagens uma sala de encontro para os sonhos e pesadelos do século 20. Lynch está hoje presente na produção de artistas contemporâneos, como nos desenhos e fotos do escocês David Shrigley (desenhos que parecem feitos por crianças, mas em ações quase assassinas) ou nas misteriosas fi guras nas pinturas do japonês Yoshitomo Nara, com suas meninas em crises de nervos ou depressão. E o "lynchianismo" está na literatura dos jovens escritores norte-americanos, no livroBreves Entrevistas com Homens Hediondos, de David Foster Wallace, e nas histórias de Assombro, de Chuck Palahniuk.
Lynch nasceu em 1946 em Montana, no meio-oeste norte-americano. Seu pai era um cientista a botânica foi o principal ramo e sua mãe, uma professora de inglês. Desde os primeiros anos escolares ele decidiu que seria um artista. Seus estudos passam pela mais clássica das artes, a pintura. Na juventude, ele partiu para a Europa a fim de tomar lições com o grande pintor expressionista Oskar Kokoschka (1886-1980), um encontro que imaginou ser a experiência de uma vida. Duas semanas depois, ele voltou para os Estados Unidos. Em seguida, seu namoro com arte o levou até o cinema, mas isso nunca significou que ele estava trocando uma paixão por outra. Lynch esteve sempre mais do lado da soma do que da divisão, e por isso em suas biografi as ele é descrito como cineasta, videoartista, músico e performer. E isso, naturalmente, transparece em sua obra.
UM VELUDO AZUL
Do projeto experimental Eraserhead (ao menos assim foi visto pela indústria do cinema de seu país) até Hollywood, Lynch teve de esperar apenas três anos. Em 1980 ele recebeu o convite para dirigir O Homem Elefante, sobre um personagem com o rosto deformado por uma doença, a elefantíase, que se torna uma celebridade na Londres do século 19. O projeto fez o cineasta ser indicado ao Oscar de melhor direção, e aponta para uma pergunta: Lynch conseguiria criar um ponto comum entre seu universo composto por sonhos e pesadelos e as regras de uma indústria que espera filmes facilmente consumíveis por um grande público?
Duna (1984), realizado em seguida, demonstrou que a resposta não era simples. Uma ficção científica baseada no cultuado romance de Frank Herbert, o filme foi considerado pela maior parte da crítica (e público) como "incompreensível". Sobre essa história de guerras espaciais, planetas distantes e princesas, Lynch, por seu lado, afi rmou que tinha "se vendido" para os grandes estúdios. Um fracasso total. Mas foi em Duna que ele encontrou o ator Kyle MacLachlan, que se tornaria seu alter ego. Para Lynch, ele "é o tipo de homem que pode te acompanhar por mundos estranhos". E eles seguiram juntos em direção ao fi lme que tirou o cineasta da posição de mera curiosidade e o colocou na de um artista: Veludo Azul.
Lançado em 1986, é o primeiro trabalho que mostra ao grande público o que signifi ca algo "lynchiano", porque seu universo aparece como um espaço claramente defi nido. Nele estão os Estados Unidos das pequenas cidades e dos subúrbios sonolentos. Mas essa sonolência nunca é paz, mas um momento de espera. Sob essa realidade há outra, subterrânea, onde há sadismo e perversão, traição e luxúria, canções antigas e roupas kitsch, experiências de personalidades que nunca são quem parecem ser. Outro elemento lynchiano que surge em Veludo Azul é a "peça misteriosa". Um elemento (em Veludo, uma orelha encontrada em um jardim) que surge e se relaciona de algum modo com o que está sendo contado, mas a explicação para esses mistérios, com os anos e a vontade de Lynch, vai se tornando cada vez mais enigmática. Ele não se preocupa em filmar uma história. Seu interesse está em registrar uma atmosfera.
Veludo Azul dá a segunda indicação de melhor direção a David Lynch, se torna um culto e serve como libertação para o diretor. Sua perspectiva passa a ser a de não se adaptar a Hollywood, mas criar filmes pessoais que comentem a história das produções nos grandes estúdios ao longo de décadas. Ele se interessa pela "máquina de sonhos", e cria obras de terror, mistério e suspense para colocar em xeque o que são os climas de suspense, mistério e terror inventados pelo cinema, e assim são Coração Selvagem (1990), A Estrada Perdida (1997), Cidade dos Sonhos (2001) e este Império dos Sonhos.
Império, segundo o próprio Lynch, é a história de "uma mulher com problemas". E transtornos não faltam na trajetória de uma atriz (Laura Dern) que não consegue separar sua vida da de seus personagens, e assim passa a ter visões e experiências fantásticas, como uma família de coelhos que agem como humanos. Um sonho, um pesadelo, e o fato de que David Lynch se recusa a aceitar que existe qualquer coisa parecida com aquilo que se costuma chamar de realidade.