
Revista BRAVO! | Dezembro/2007
Marcelo Rezende
Diante de Império dos Sonhos, o retorno de David Lynch aos cinemas cinco anos após o golpe de mestre de Cidade dos Sonhos (uma filme radicalmente autoral e ainda assim atraente para o grande público), a melhor estratégia é se manter preparado para três horas não apenas de cinema. Lynch convida o público a participar de uma experiência artística, e se a oferta for aceita, ele propõe momentos inesquecíveis.
Se a questão ainda são sonhos (e pesadelos), o que ele iniciou em Cidade aprofunda em Império. No primeiro, personagens parecem viver duas histórias diferentes. Em ambos os casos há um crime e Hollywood como cenário são atrizes aspirantes, e quem pode ser a vítima na primeira parte do filme se torna a possível assassina no instante seguinte. Já Império dos Sonhos seu primeiro longa realizado com câmera digital não trabalha com dois planos apenas. Lynch os duplica, triplica, criando um real labirinto.
A "mulher com problemas", à qual o cineasta se refere para resumir Império dos Sonhos, é a atriz Nikki Grace, que interpreta a personagem Susan Blue. Estamos em um filme dentro de um filme. Essa atriz se apaixona pelo ator com quem contracena. Perseguida pelo marido, não consegue mais separar a realidade da ficção, os fatos de sua vida das cenas da produção em que atua. E aqui começam os famosos mistérios de Lynch. Será que Nikki Grace existe mesmo, ou seria apenas personagem de um filme em que uma garota enlouquecida por fantasmas o assiste pela TV em um quarto de hotel? Um filme dentro de um filme dentro de um filme? Ou um filme dentro de um filme dentro de um filme dentro de um pesadelo? Se Cidade dos Sonhos é uma obra de suspense, Império dos Sonhos poderia ser descrito como uma de horror.
Lynch ama Hollywood. E odeia Hollywood. Toda sua filmografia se move em meio a essa tensão. Seu cinema é composto de múltiplos cinemas (terror, policial, suspense, faroeste, dramas conjugais), como se ele estivesse refilmando as produções hollywoodianas e incorporando a elas um tom negro, no qual personagens mudam de identidade por não suportarem as pressões de uma existência medíocre ou de um desejo nunca satisfeito. Algo simbolizado, para Lynch, nas mulheres, objetos de culto, devoção, e agentes da infidelidade, mentira e traição.
Hollywood é essa mulher, como mostra Cidade dos Sonhos, que David Lynch não consegue perdoar ou abandonar.