Edição do mês Assine Bravo!
Feed RSS e Newsletter RSS Bravo! Neswletter Bravo!Folheia Bravo!
Cinema > A Revista
Cinema
Divulgação
Pietro (Nanni Moretti) lê para a filha Claudia (Blu Di Martino) em cena de Caos Calmo. Longe da panfletagem rasteira
Pietro (Nanni Moretti) lê para a filha Claudia (Blu Di Martino) em cena de Caos Calmo. Longe da panfletagem rasteira

 

Revista BRAVO! | Outubro/2008

À Espera da Tempestade

Um homem chega em casa, encontra a mulher morta – e reprime dramaticamente a tristeza. Esse é o ponto de partida do perturbador ''Caos Calmo''

André Nigri

A irreversível passagem do tempo é tema recorrente na obra do cineasta, roteirista e ator italiano Nanni Moretti. No belíssimo O Quarto do Filho (2001), um pai inconformado com a perda do filho refaz minuto a minuto os acontecimentos que desaguaram na fatalidade, em uma vã e inútil tentativa de reverter o trágico desfecho. Em Caos Calmo, essa irreversibilidade também se apresenta, mas de modo menos intenso. Pietro (interpretado pelo próprio Moretti) é um executivo bem- sucedido do setor de audiovisual. Durante o veraneio em uma praia italiana, ele salva uma mulher do afogamento certo e, quando chega em casa, vê o corpo sem vida de sua mulher no chão. Inconformado com o fato de não se sentir culpado ou triste pela perda, e preocupado com a filha de 10 anos  — também aparentando indiferença com a morte da mãe —, ele resolve não desgrudar um único instante da menina. Durante as aulas dela, ele se posta na praça em frente à escola. Ao longo de quase todo o filme, um patético Pietro passa as tardes sentado em um banco de praça recebendo visitas de amigos, que chegam para desabafar os próprios problemas, e de colegas da corporação onde trabalha, que está em vias de se fundir a outra transnacional. A vida parece absolutamente sem sentido para Pietro, mas não a ponto de uma trágica ruptura. Tudo se passa conforme o título, um caos em meio à calmaria.
   
A tempestade ocorre quando ele é chamado para uma reunião de pais em que o tema é como lidar com os filhos em uma situação de perda. Nesse instante, arrebenta o choro e a dor, e a certeza — logo colocada pela filha — de que o tempo é implacável e irreversível. Caos Calmo tem roteiro de Nanni Moretti, mas a direção é de Antonio Luigi Grimaldi. Parece mero acaso. O filme é Nanni Moretti da primeira à última cena. Desde o naturalismo do registro à sutil, mas não menos eficaz, crítica à vida contemporânea. O diretor é dos raros autores europeus hoje que conseguem costurar dramas pessoais com o panorama político e econômico sem cair na panfletagem rasteira. Caos Calmo seria uma pequena jóia não fosse a cena que, injustamente, o tornou polêmico. De volta, quase um ano depois, à casa de praia onde a esposa caiu morta, Pietro encontra-se com a mulher que ele salvou do afogamento. Os dois protagonizam uma cena de amor na qual não faltou quem apontasse sexo explícito — na cena, é impossível verificar isso. Ainda assim, a alta voltagem  não justifica o pasmo e a polêmica, assim como não beneficia o ritmo e o andamento desse belo filme.

O filme
Caos Calmo, de Antonio Luigi Grimaldi. Com Nanni Moretti, Laura Paulocci
e Francesco Piccolo. Estréia prevista para outubro.

Veja também
O Quarto do Filho (2001), de Nanni Moretti. Com Nanni Moretti, Laura Morante e Jasmine Trinca. A história de um pai que perde o filho e não se conforma com o fato.

 

Expediente | Assine BRAVO! | Newsletter | Fale conosco | Mapa do site | Política de Privacidade | Anuncie na Bravo!