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Godard e Truffaut durante uma greve de estudantes franceses em 1968. Truffaut apoiava a polícia, ''que é de origem operária''
Godard e Truffaut durante uma greve de estudantes franceses em 1968. Truffaut apoiava a polícia, ''que é de origem operária''

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

Uma História do Ódio

Os cineastas Jean-Luc Godard e François Truffaut consumiram suas vidas numa guerra aberta. O conflito que alimentou a criatividade de ambos ajuda a entender uma época genial e turbulenta do cinema francês

Por Richard Brody

• Assista a trechos de filmes de Jean-Luc Godard e François


 

Na cerimônia de encerramento do Festival de Cannes em maio de 1959, André Malraux, então ministro da Cultura francês, declarou: "Em um ano, a Cinemateca Francesa será mais conhecida internacionalmente do que a Comédie Française". Ele tinha acabado de ver um crítico de cinema de 27 anos, François Truffaut, receber o prêmio de melhor diretor por seu inusitado filme Os Incompreendidos. E ele sabia que Truffaut havia aprendido o ofício não em escolas de cinema ou praticando em estúdios de filmagem, mas em intermináveis horas assistindo a filmes, sobretudo na Cinemateca, uma pequenina sala na avenue de Messine, fundada e dirigida por um fanático colecionador, Henri Langlois, ao mesmo tempo um programador visionário.

A previsão de Malraux foi perfeita: em março de 1960, O Acossado, o primeiro filme de Jean-Luc Godard, amigo de Truffaut e colega de profissão — os dois eram jornalistas e críticos da revista Cahiers du Cinéma (Cadernos do Cinema) —, estreou em Paris e foi imediatamente aclamado como revolucionário. O primeiro e simpático filme de Truffaut era a história semiautobiográfica de um adolescente esperto que foge de casa e começa a cometer pequenos crimes. O filme de Godard, uma visão pessoal do cinema noir norte-americano, fez de seus anos de cinéfilo o assunto implícito da trama. Juntos, Godard e Truffaut ajudaram a lançar o movimento conhecido como "Nouvelle Vague" ("nova onda", em francês). O conflito que aos poucos os distanciaria — uma verdadeira guerra — evidencia tanto a ambiguidade do movimento quanto o seu legado problemático.

O segundo trabalho de Truffaut, Atire no Pianista, outra versão francesa de um filme noir, mal se pagou. O Pequeno Soldado, de Godard, um drama sobre os esquadrões da morte em Gênova que eram contratados para lutar na Guerra da Argélia, foi proibido pela censura francesa. O terceiro filme de Godard, Uma Mulher É uma Mulher, o pastiche de uma comédia musical de alto orçamento — com a atriz Anna Karina, mulher do cineasta —, foi uma das estreias mais aguardadas do outono de 1961 e prometia restaurar a sorte do grupo dos Cahiers. Apesar das resenhas entusiasmadas, o filme também fracassou. Em uma entrevista de dezembro de 1962 para os Cahiers, em uma edição especial dedicada à Nouvelle Vague, Truffaut culpou Godard. "Se alguém filma com som e imagem de uma maneira pouco convencional, as pessoas gritam. É uma reação automática", afirmou Truffaut. "O público arrancou os assentos de um cinema em Nice porque achou que o problema era do equipamento de projeção. As pessoas esperavam uma bela história clássica, uma garota e dois rapazes nos arredores de Paris. Ficaram chocados."

Enquanto Godard chocava a plateia, Truffaut, a seu modo, estudava. Fazia uma série de entrevistas com Alfred Hitchcock que pretendia lançar em livro. O projeto, planejado para durar alguns meses, acabou consumindo quatro anos. Entre 1962 e 1965, Truffaut fez apenas um filme, Angústia, um melodrama dolorosamente confessional sobre adultério que aludia ao próprio divórcio. No mesmo período, Godard fez oito filmes. Cada um, artística e politicamente falando, mais radical que o antecessor. As diferenças entre Godard e Truffaut, ainda que eles não as expressassem abertamente, estavam se aprofundando. No início de 1966, Truffaut publicou, nos Cahiers du Cinéma, seu diário de filmagem de Fahrenheit 451, em que ele descrevia seu trabalho no set, mas revelava pouco sobre a sua vida privada. A resposta de Godard, indireta, mas sem dúvida muito aguda, apareceu na edição de novembro dos Cahiers: seu próprio diário: Três Mil Horas de Cinema, que ele dividiu, em igual medida, entre anedotas sobre cinema, lembranças da vida política de esquerda e histórias de sua vida amorosa (Godard e Anna Karina haviam se divorciado em 1964, e ele se casaria mais tarde com uma estudante de 20 anos, Anne Wiazemsky, futura protagonista, em 1967, do filme A Chinesa).

Um sinal do aumento da divergência entre Godard e Truffaut foi uma briga que Anne Wiazemsky testemunhou em junho de 1968, nos escritórios de Truffaut em Paris. Godard queria aderir à luta dos estudantes no festival de teatro de Avignon (que também projetava filmes — tinham passado seu A Chinesa no ano anterior), mas Truffaut falou provocativamente: "Eu nunca vou ficar do lado dos filhos da burguesia contra a polícia, que vem principalmente da classe operária". Conforme contou Anne, Godard de fato ficou bravo: "Eu achei que você fosse um amigo — você é um traidor". Foi o início da ruptura de ambos e de um período em que Godard se afastou da indústria cinematográfica, dedicando-se a projetos alternativos. Nesse período, entre 1968 e 1973, terminou também o casamento do cineasta com Anne Wiazemsky. Ele estava então com Anne-Marie Miéville, uma mulher suíça que tinha conhecido em círculos da esquerda.

No período em que Godard se afastou da indústria, Truffaut fez sete filmes. O último, A Noite Americana, sobre o cotidiano de atores durante uma filmagem, estreou em Paris em 24 de maio de 1973. Em 1o de junho, Godard enviou a Truffaut uma carta de quatro páginas (ele também anexou um bilhete para Jean-Pierre Léaud, o ator principal do filme) em que criticava acidamente tanto o filme quanto Truffaut. A carta de Godard não tinha nada de cordial. Ele chamou Truffaut de "mentiroso" por não ter mostrado, em A Noite Americana, a vida sexual do diretor, que seria um alter ego do próprio François (na tela, opresonagem tem um caso com a atriz Jacqueline Bisset). Godard então descreve o filme-resposta que tinha em mente, no qual pretendia mostrar a vida cotidiana dos coadjuvantes do set — o mensageiro, o continuísta, os carregadores de bagagens — em contraposição à das grandes estrelas.

Godard continuava a carta com uma teoria curiosa. Ele achava que Truffaut e outros cineastas estavam gastando em superproduções o dinheiro que, na opinião dele, deveria estar "reservado" para filmes alternativos — como os que o próprio Godard fazia. Pediu então a Truffaut 100 mil francos para fazer o tal filme-resposta, dando a entender que se contentaria com 50 mil: "Por conta de A Noite Americana, você deve me ajudar, senão os espectadores vão pensar que os filmes são feitos apenas do seu jeito". Em troca, Godard oferecia os direitos de três de seus filmes e concluía: "Se você quiser conversar, tudo bem". Truffaut escreveu sua resposta — numa longa carta de 20 páginas — à mão, em letras grandes e mal desenhadas, como se ele estivesse com pressa. A carta começa assim:

"Jean-Luc: Caso você não leia esta carta desagradável até o fim, eu começo com o essencial: eu não vou coproduzir o seu filme". Depois, Truffaut enfileira uma litania de acusações, profissionais e pessoais. Citando inúmeras ocasiões em que ele tinha ajudado Godard, chamou-o de "invejoso e ciumento", apesar do próprio desejo de "permanecerem amigos". Ele também levantou uma série de coisas que estavam engasgadas, como, por exemplo, as intermináveis tentativas que Godard fazia para seduzir as atrizes ("Estou enumerando tudo isso para que você não se esqueça de nada em seu 'verdadeiro' filme sobre cinema e sexo."). Entre as críticas a Godard, estava o fato de ter dado a receita do coquetel molotov em um de seus filmes militantes. Ele criticava o que considerava uma sede de propaganda política em Godard e acusava-o de indiferença para com os sofrimentos e as necessidades verdadeiras dos outros ("Entre o seu interesse pelas massas e o seu próprio narcisismo não há lugar para ninguém nem para nada."). Truffaut culpou "essa famosa velha esquerda que junta de Susan Sontag a Bertolucci" por dar a Godard uma importância que ele julgava desproporcional. A carta concluía com um desafio: "Agora, tudo que pode ser escrito pode também ser dito; então, termino da mesma forma que você: se quiser conversar, tudo bem".

Truffaut não cumprimentou Godard
Truffaut ficou aflito com tudo isso e chamou a viúva de André Bazin (crítico de cinema e amigo de ambos), Janine, para conversar. Numa carta posterior, Janine disse que Truffaut parecia igualmente devastado tanto pela carta de Jean-Luc quanto pela que escreveu em resposta. Apesar dos pedidos e dos insultos de Godard, Truffaut parecia querer "conversar". O mais claro sinal de sua intenção pode ser achado não na carta, mas no verso do envelope, no qual, junto do endereço do remetente, ele escreveu um terno subtítulo: "De: um ex-admirador de J. Daniel-Norman". Jacques Daniel-Norman era um diretor francês popular dos anos 40-50 cujos filmes Truffaut e Godard tinham visto juntos. Godard sempre citava Norman quando relembrava, com saudade, suas andanças por Paris com Truffaut na juventude.

Godard deixou para responder em público. Em uma entrevista em 1978, ele disse: "Eu acho que François realmente não sabe como fazer filmes. Ele fez um que de fato correspondia a ele mesmo, e então parou ali: depois, só contou histórias... Truffaut é um canalha que passa a imagem de um homem honesto, o que é a pior coisa do mundo". Truffaut suportou em silêncio os ataques de Godard até 1980, quando deu uma entrevista aos Cahiers du Cinéma. "Mesmo na época da Nouvelle Vague, a amizade com ele era uma rua de mão única. Todo mundo tinha que ajudá-lo o tempo inteiro, fazer-lhe favores e esperar por um ataquezinho em agradecimento." Truffaut, claramente, não havia superado a raiva.

Nesse mesmo ano, Godard voltou para a indústria oficial com um filme chamado Salve-se Quem Puder — A Vida. A história narra a crise artística e afetiva de um diretor de filmes frívolo, Paul Godard (Jacques Dutronc), e Godard filmou com um extraordinário e quase musical senso de balanço e proporção. O filme foi um enorme sucesso internacional e marcou o retorno de Godard. Pouco depois do lançamento, em Nova York, Truffaut cruzou com Godard na rua, mas se recusou a apertar sua mão. Dias mais tarde, Godard convidou Truffaut para participar de uma mesa-redonda com os diretores Claude Chabrol e Jacques Rivette. Truffaut recusou com ódio, escrevendo outra carta agressiva para Godard. Segundo ele, o diretor de Uma Mulher É uma Mulher poderia fazer um filme autobiográfico com o título "Um merda é sempre um merda".

À distância, no entanto, os dois cineastas mantinham um tipo de diálogo. Truffaut continuava a colecionar recortes de jornal sobre os projetos de Godard. Este, por sua vez, citava Truffaut em seus filmes — mostrando que François continuava a ser a mesma referência crucial da época em que os dois eram próximos. No final de Salve-se Quem Puder — A Vida, em que o protagonista Paul Godard é atropelado por um carro enquanto persegue uma mulher na rua, Godard citou explicitamente o final de O Homem que Amava as Mulheres, uma das obras-primas de Truffaut. O filme seguinte de Godard, Passion, sobre um diretor de cinema problemático e as duas mulheres que aparecem em sua vida durante as filmagens, sutilmente se refere a A Noite Americana, de Truffaut, no qual os integrantes do elenco têm dificuldade para voltar à vida cotidiana depois das filmagens.

Truffaut morreu de tumor cerebral em 1984. Mesmo assim, Godard continuou seus ataques. Em um necrológio que enviou aos Cahiers du Cinéma, ele louvou o crítico — "Houve Diderot... Baudelaire... Élie Faure... Malraux... e François... E não houve nenhum outro crítico de arte" —, mas agrediu o diretor de cinema: "Sabíamos que um filme tinha que ser feito sozinho... mas éramos quatro... então levou um tempo para admitirmos... Então alguns de nós se separaram... No nosso caso, a tela é o juiz". A tela, Godard suspeitava, tinha julgado Truffaut culpado de perjúrio.

Em 1988, quando a correspondência de Truffaut foi publicada, incluindo a acalorada troca de cartas de 1973, Godard contribuiu com um posfácio em que tecia reminiscências sobre os passeios de ambos aos cinemas Bikini, na place Pigalle, ou ao Artistic, para ver um filme de Edgar Ulmeer ou Jacques Daniel-Norman. Ele também se perguntava: "Por que briguei com François?". E explicava: "Se expressamos aos poucos uma opinião totalmente negativa um do outro, foi porque cada um tinha medo de ser o primeiro a ser devorado vivo".

Nos últimos anos de vida, Truffaut tinha obtido uma rara combinação de sucesso de público e de crítica. A Noite Americana venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1975, Isabelle Adjani recebeu uma indicação de melhor atriz pelo papel principal de A História de Adèle H. Seu drama de guerra O Último Metrô venceu o César (o equivalente francês ao Oscar) de melhor diretor e foi um sucesso mundial. Nos anos seguintes à morte de Truffaut, ele virou nome de rua, de escolas e, com certeza, de cinemas por toda a França.

Um Exilado na Terra do Cinema
Enquanto isso, Godard se mantinha na ativa. Ele é uma referência na arte cinematográfica; assunto de estudos acadêmicos e retrospectivas; mereceu uma exposição no Centro Pompidou, em Paris, em 2006; é também o símbolo vivo da Nouvelle Vague e de suas ambições. No entanto, seus filmes recentes, como Rei Lear (1987) e In Praise of Love (2001) — sempre esteticamente mais radicais que os antecessores —, amargaram baixo público.

Em dezembro de 2007, Godard recebeu um prêmio pelo conjunto da obra em Berlim. Ele não foi à festa, mas deu uma entrevista na qual falou de sua herança artística e das diferenças com seus colegas. "Eu jamais teria a ideia, como François Truffaut e Claude Chabrol tiveram, de assistir a Hitchcock", disse. Dos tempos da Nouvelle Vague, disse manter viva a vontade de pesquisar a linguagem cinematográfica. "A beleza disso chamado cinema é que ele ainda permite uma investigação." E revelou o preço que pagou por tantos conflitos ao longo da carreira: "Hoje eu me sinto como um exilado em sua própria terra. E a minha terra é a terra do cinema".


Richard Brody é crítico e escritor. É autor de Everything Is Cinema: The Working Life of Jean-Luc Godard (Tudo É Cinema: A Vida Profissional de Jean-Luc Godard). O artigo acima foi publicado originalmente na revista americana The New Yorker.

 

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