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Tony Rivetti Jr/© 2008 Universal Studios
Angelina Jolie como Christine Collins em cena do filme. A luta da heroína contra a injustiça
Angelina Jolie como Christine Collins em cena do filme. A luta da heroína contra a injustiça

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2008

O Clássico de Hollywood

Em “A Troca”, Clint Eastwood mostra como se tornou o guardião das tradições do cinema americano

Por André Nigri

Em uma época em que Hollywood continua a apostar em animações, adaptações de quadrinhos e comédias românticas como garantia de bilheteria, o cinema de Clint Eastwood nada em uma maré aparentemente contrária. Ele se tornou um dos últimos representantes de uma espécie em extinção: o diretor clássico hollywoodiano. Sua prioridade é levar à tela histórias bem contadas, de forma clara e linear, com bons atores em atuações convincentes. Algo que parece simples, mas que hoje virou artigo raro. Palmas para o conservadorismo (no bom sentido) de Clint. A Troca, seu novo filme, que estreia neste mês no Brasil, mostra que ele é, hoje, o mais clássico e um dos melhores diretores da Hollywood atual.

Mais do que em filmes anteriores, em A Troca o flerte com as grandes produções dos anos 20 e 30 — época de ouro do cinema americano — é mais do que evidente. Em um dos raros momentos menos tensos do filme, ele chega a citar Aconteceu Naquela Noite (1934), com direção de Frank Capra, produção consagrada na época e modelo copiado por inúmeros filmes nos anos seguintes. Aconteceu Naquela Noite pode ser considerado um dos filmes mais otimistas já realizados nos Estados Unidos. Otimista e ousado por enfrentar o puritanismo da época mostrando como uma mocinha de boa sociedade podia se apaixonar por um jornalista boêmio e beberrão. O enfrentamento da América conservadora dos anos 20 é um traço forte do novo filme de Clint.    

A Troca começa em meados dos anos 20 em Los Angeles. A cenografia é um dos pontos altos do filme, com uma perfeição de detalhes raramente vista. A Los Angeles do início do século foi reconstruída em estúdio, e as cenas nunca aparecem muito fechadas, como é comum em filmes de época. Christine Collins (papel de Angelina Jolie que certamente a coloca como uma das favoritas ao Oscar pela atuação excepcional) é mãe solteira e trabalha como supervisora em uma central telefônica. Um dia, ao voltar do trabalho, ela chega em casa e descobre que o filho desapareceu. Christine recorre ao Departamento de Polícia de Los Angeles, cuja atuação e reputação na época encontravam-se manchadas pela corrupção generalizada. Corrupção denunciada insistentemente pelo reverendo Gustav Briegleb (em outra estupenda performance de John Malkovich). O pastor, além de pregar em sua igreja, mantém um programa de rádio no qual faz pesadas críticas à atuação policial. Para limpar seu nome, a polícia encara como questão de honra recuperar o menino. Não consegue. Em vez disso, devolve à mãe um órfão que tem alguma semelhança física com seu filho.

Além da trama envolvente, estão em cena os ingredientes do filme clássico. O roteiro impecável, a fotografia exuberante que deixa o sol de Los Angeles pálido como nunca se vê no cinema e, principalmente, a ótima direção de atores. Esse é um dos fortes de Clint em quase todos os seus filmes. Em uma das cenas mais fortes de A Troca, a personagem de Angelina Jolie é trancafiada em um manicômio e, completamente nua, é submetida a uma ducha fortíssima. Sua angústia e dor são impressionantes. Até um coadjuvante, Jason Butler, que interpreta um assassino de crianças, impressiona pela loucura incorporada ao personagem — a qualquer momento, parece que ele vai saltar da tela para atacar o público. Isso o coloca em boa posição numa galeria de atores especialistas em psicopatas, como Javier Bardem e Anthony Hopkins.

Consagrado como ator de filmes de faroeste nos anos 50 e 60, Clint Eastwood surgiu em Hollywood, como diretor, na mesma época de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola — a década de 1970. Seus dois companheiros geracionais renovaram a narrativa no cinema americano. Coppola reinventou a épica de Orson Welles nos três episódios de O Poderoso Chefão. Scorsese se especializou nos roteiros que vão e voltam no tempo, e apresentam diferentes pontos de vista, em filmes como Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988) e Cassino (1995). Clint nunca foi tão inovador. Dentro de sua ótica clássica, é autor de obras-primas como Os Imperdoáveis, agraciado com o Oscar de melhor filme em 1992, e sucessos de bilheteria como As Pontes de Madison (1995). No século 21, as carreiras de Coppola e Scorsese entraram em decadência, enquanto Clint faturou recentemente um Oscar de melhor diretor por Menina de Ouro (2004). De volta agora com o ótimo A Troca, ele mostra que, ironicamente, o clássico sobreviveu aos rebeldes.


O FILME
A Troca, de Clint Eastwood. Com Angelina Jolie, John Malkovich e Jason Butler. Estréia prevista para este mês.

 

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