Por Jonas Lopes
Quando publicou Meridiano de Sangue (1985), o americano Cormac McCarthy era um escritor para poucos. Mesmo elogiados, seus quatro romances lançados até então sofriam, segundo os críticos, com o excesso de influência dos ícones da chamada "ficção do Sul profundo", de William Faulkner e Flannery O'Connor. Premiado com uma bolsa em 1981, McCarthy dedicou algum tempo à pesquisa histórica daquela que viria a ser sua obra-prima e, nas palavras do ensaísta Harold Bloom, "o autêntico romance apocalíptico norte-americano". Releitura sangrenta da conquista do Oeste pelos americanos no século 19, o romance ganha nova edição no Brasil agora, depois que a primeira, lançada em 1991, se tornou raridade. Não era sem tempo. Meridiano de Sangue, cujo subtítulo é O Rubor Crepuscular no Oeste, pode ser inserido não apenas nas listas de grandes obras recentes dos Estados Unidos, mas também na linhagem mítica iniciada por Moby Dick, de Herman Melville, e sucedida por O Som e a Fúria, de Faulkner. O enredo acompanha a formação de um jovem de 19 anos do Tennessee que fugira de casa aos 14. Durante um culto em Nacogdoches, no Texas, ele depara com o juiz Holden, um homem enorme, albino e assustador, sem nenhum pelo no corpo, tão impenetrável e arrogante quanto carismático. O garoto acaba numa caravana errante, liderada pelo juiz e por John Joel Glanton, mercenário inspirado em um oficial do exército que realmente existiu. Enquanto ruma em direção ao Pacífico, na fronteira com o México, a trupe promove estupros, assassinatos e saques. A violência é personificada pelas aparições de Holden. Por meio de monólogos e discursos semelhantes à pregação religiosa, esse herdeiro literário do Capitão Ahab, de Moby Dick, disserta sobre a natureza do mal e sobre como o ser humano nasce condenado à guerra. O homem, explica ele, vive um jogo de azar no qual o destino está em suas mãos ou na de um adversário, e deixar transparecer qualquer clemência significa entregar-se à morte. Somente lutando e impelindo o outro à derrota, um indivíduo pode impedir a própria derrocada. "Vista dessa forma, a guerra é a forma mais legítima de divinação", completa o demoníaco juiz. "A guerra é deus." Recheado de referências do Antigo Testamento, o romance tem o tom bíblico acentuado pela prosa barroca do autor - as frases longas, adjetivadas e cheias de descrições quase sumiriam nos trabalhos seguintes de McCarthy, como a Trilogia da Fronteira (1992-1998) e A Estrada (2006). O que faz de Meridiano de Sangue, em todos os sentidos, uma obra única. Jonas Lopes é repórter de Veja São Paulo e autor do blog http://gymnopedies.blogspot.com. O LIVRO
Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Alfaguara, 352 págs., R$ 49,90.