
Revista BRAVO!
Por Manoela Sawitzki
Não saberia lhe dizer adeus de novo.
Capelinha do Perpétuo Coração. Domingo chuvoso. Entre as noivinhas de Cristo que partilhariam do seu corpo naquela manhã, nenhuma mais aflita e afogueada que a menina normalmente pálida, de olheiras profundas.
Foi a tal promessa, somente ela, o que convenceu Júlia Capovilla a ir sábado após sábado às aborrecidas aulas de catecismo: ser noiva de Cristo — o moço ruivo e esguio, cuja beleza estranha a distraía dos sermões intermináveis do padre Federico. E agora esquecia o quanto lhe doíam os pés, metidos nos sapatos maciços que tia Cândida a obrigara a usar, tamanha a excitação que a consumia. Depois de um ano inteiro sacrificando as tardes mais preciosas da semana, receberia a recompensa (um dia antes, no confessionário, o padre, ruminando uma baba branca, pastosa, disse-lhe que mentir para um sacerdote era pecado mortal, e ela, angelical como nunca, mentiu mais, tanto quanto pôde, e com todo o capricho que a ocasião exigia — estava condenada desde então?).
A Arquidiocese Central tinha enviado um Cristo barroco, esculpido em madeira no tamanho natural, para a cerimônia. Puseram-no, solenemente, diante do púlpito, sobre uma cama de vidro. Quando Júlia subiu ao altar e viu-o de perto, não compreendeu aquela secura na boca, o tremor que lhe sacudia pernas e braços castigando com cera quente a mão que segurava a vela, o peito disparado e a vista turva. Pensou que morreria fulminada por alguma doença rara. Procurou se conter. Porém, como a morte e a fila se demoravam, foi tomada de uma vontade louca que nem cogitou negar: abandonou o lugar que ocupava à espera da eucaristia, correu resoluta até seu noivo e, equilibrando-se sobre as pontas dos pequenos dedos torturados, deu-lhe um beijo de novela. Tia Cândida, que assistia a tudo incrédula, gritou que descesse do altar, o padre empalideceu, a missa parou: Pecado de morte! E Júlia? Júlia continuou beijando a boca de Jesus até que a arrancaram da capela aos beliscões. Vergonha nenhuma:
— Arrependa-se, Júlia! — gritava a madre.
— Peça perdão! Tenha compostura, criança! — suplicava o bispo.
Vergonha nenhuma — nem depois de quatro dias de castigo. O que Júlia experimentou foi um prazer extraordinário diante daquela mobilização repentina. Evidente que, se quisesse, poderia fingir um arrependimentozinho qualquer ou mesmo derramar-se em lágrimas e pedir clemência, mas, dessa vez, justo dessa vez, não quis fazê-lo. Diante de tal teimosia, interpretada por muitos como manifestação diabólica, padre e bispo, em coro, sentenciaram: enquanto não estivesse sinceramente contrita, lhe seria negado o corpo do Senhor e o acesso à capela. Porém, não foram as ameaças de danação eterna e os desalentos do inferno que bispo, padre, freiras e a cidade inteira lhe rogaram o que a estremeceu por semanas, e sim a aventura do primeiro beijo.
Agora a menina excomungada estava de volta. E entrava na Capela do Perpétuo Coração trazendo consigo, intactas, todas as manchas daquela sua alma maldita. Prescindia das brasas do inferno: queimava por si.
Klaus correu até Ariana assim que atravessaram o pórtico de entrada. Júlia não lembrava tê-los visto tão próximos em nenhum outro momento. Achava até alguma graça naqueles irmãos que se comportavam como colegas de escola que se sentam em extremos opostos da sala de aula — você sabe quem é, sabe onde mora, que era mais baixo antes das férias e come balas de morango depois do recreio, mas faz questão de tratá-lo feito um desconhecido quando o ultrapassa na rua.
Preferiu manter-se à distância. Ariana, muitos quilos mais magra, alguns tons mais pálida, chorava ruidosamente. Ela não. Em contrapartida, sabia que a extensão da sua dor era a maior de todas, e que nada, nenhum gesto ou palavra, a poderia traduzir ou aliviar. Carregava consigo o peso imensurável da reconciliação impossível, o fardo de um amor que jamais chegaria ao seu destino.
Meio tonta, buscou a parede mais próxima e se recostou. Dali viu o caixão diante do púlpito. Estava no mesmo ponto onde um dia esteve a cama do seu primeiro prometido. Ao redor, os pais de Ariana e Klaus, a irmã e a mãe de Leonardo, com a neta agarrada à barra de sua saia, toda vestida de negro como uma miniatura de Dama das Camélias. Aqueles que menos o conheceram agora flanavam sobre seus despojos, solenes e emplumados como corvos. E Júlia, a verdadeira viúva, não podia sequer encará-lo.
Em vão, procurou a mão invisível de Deus nos quatro cantos da capela. Nada parecia ter se alterado naquele lugar: um anfitrião ausente, os folhetos pardos sobre a bancada, as bacias de água benta vazias, sem frescor nem bênção a oferecer. Ela mesma, ainda a menina inadequada de antes: só então percebia que, ao invés de luto, vestia lilás — o vestido lilás de que Leon mais gostava. Tinha se vestido para um encontro com ele.
Se permanecesse ali, imóvel e ausente. Se apenas não se fizesse notar naquele grande túmulo... Mas o vestido lilás parecia um carro alegórico deslizando por uma avenida sombria. Era evidente o quanto estava viva, no fundo, lá no fundo do seu abismo estava tão viva. Mas por que ainda se negava a usufruir a própria riqueza?
Fez, contudo, o que se esperava dela: o mínimo — conhecendo-a, ninguém esperava mais. Deu alguns passos e cumprimentou as famílias, mas sem, em momento algum, olhar para o corpo no caixão. Em seguida, deu-lhes as costas e prostrou-se num nicho afastado da sala (óculos escuros às oito da noite, de lilás, estranha a tudo ali, a si mesma, sobretudo a si).
Percebeu que Ariana, ainda entre os braços de Klaus, a investigava — o rosto turvo, ressentido — e não demonstrou fraqueza quando ela se desembaraçou do irmão e foi ao seu encontro. Removeu os óculos e esperou pela rival.
(a irmãzinha de Klaus, a mulherzinha de Leon, o bibelozinho francês de antiquário)
Ariana quase colou o corpo ao de Júlia e segurou suas mãos. Ficaram ambas mudas e imóveis até que Júlia sentisse o peso do metal sobre uma das palmas. Era o anel que deu a Leon dez anos depois de sua primeira noite juntos: Oroboro, a víbora que se devora.
— Quero que fique com o anel. O Leonardo nunca se separava dele. Sei que foi um presente seu, mas agora é comigo, o que ficou é comigo, Júlia. Pra debaixo da terra, ele não vai com esse negócio.
Júlia não respondeu de imediato. Agora tinha certeza: diante da morte de Leon, não poderia mentir. Quis perguntar: Ele me amava? E fazer acusações, ser a pessoa mais ofensiva e vulgar. De fato gritava e blasfemava em seu silêncio quando a palavra veio, primitiva e limpa, percorrendo dutos atrofiados, ventando através da garganta:
— O Leon morreu por sua causa!
Ariana, que se afastava, reteve o passo e voltou-se, mirando o centro dos olhos de Júlia. A raiva contida desalinhava os traços precisos de sua boca.
— Errado! Se o Leonardo viveu até ontem, foi por minha causa. Você? Você foi outra coisa, uma coisa que o deixava doente.
A certeza, nunca antes visitada, de que Ariana sabia sobre sua ligação com Leon a paralisou. Viu-a novamente se afastar e encontrar abrigo no peito de Klaus — era sua traição, embora ele a ignorasse, o que os fazia mais irmãos do que jamais puderam ser. E agarrada ao irmão traído, ciente e piedosa como uma santa, Ariana velava o marido traidor.
Júlia, aturdida, contemplou por algum tempo a joia que deu a Leon numa madrugada de verão, na última viagem que fizeram juntos, pouco antes do primeiro adeus definitivo que disseram (jamais deixaria de lamentar aqueles falsos adeuses que não passavam de súplicas por permanência). Foi o seu jeito de lhe falar sobre a eternidade do que sentia.
Escondeu o anel na bolsa e colocou outra vez os óculos escuros. Não podia compreender a imagem de Ariana diante da perda de Leonardo e da deslealdade de ambos, a placidez daquele luto. Fez um breve sinal para Klaus, que cochichou algo no ouvido da irmã e se aproximou:
— Olha, Júlia, aquilo que eu disse vindo pra cá... Eu fiquei nervoso, isso mexeu comigo, sabe? Não queria aceitar que o Leonardo... Não podia esperar que... Isso tudo sem que tivéssemos tentado ser amigos de novo. Você me desculpa? Estou sofrendo tanto, querida. Viu como ele está magro? Quase não o reconheci. Não parece o nosso Leonardo.
Júlia abraçou-o, rígida: O nosso Leonardo.
— Klaus, não me sinto muito bem... Não se preocupe com o que disse... Claro que entendo, mas não me sinto bem... Preciso ver meu pai, dar um abraço nele, falar com a Cândida... Sinto tanto, mas está tudo em ordem, não está? Não sou mais necessária aqui, não é?
— Claro, o seu pai... Fique com o carro, eu vou continuar aqui. O velório deve atravessar a noite.
E Júlia Capovilla deixou a capela sem se despedir do Leon morto, barroco, o Leon de Ariana.
Não saberia lhe dizer adeus de novo.
Manoela Sawitzki é colaboradora de BRAVO!. Escritora, dramaturga e jornalista, publicou o romance Nuvens de Magalhães e a peça Calamidade. O Corpo de Cristo é um trecho de Suíte Dama da Noite, romance que será lançado em julho pela editora Record.