Edição do mês Assine Bravo!
Feed RSS e Newsletter RSS Bravo! Neswletter Bravo!Folheia Bravo!
Literatura > A Revista
Literatura
FOTOS ACERVO FAMÍLIA TESS
GUIMARÃES ROSA E SUA MULHER, ARACY DE CARVALHO, em uma viagem de férias ao sul da Itália, em 1950. Eduardo Tess, filho de Aracy, acredita que o retrato — tirado por um fotógrafo não identificado — foi feito na cidade de Paestum, próxima a Nápoles, local que encantou profundamente o casal. Na mesma viagem, visitaram também Florença, Roma e Pompéia. Posteriormente, Rosa definiu a Itália como sua “paixão dos 40 anos”
GUIMARÃES ROSA E SUA MULHER, ARACY DE CARVALHO, em uma viagem de férias ao sul da Itália, em 1950. Eduardo Tess, filho de Aracy, acredita que o retrato — tirado por um fotógrafo não identificado — foi feito na cidade de Paestum, próxima a Nápoles, local que encantou profundamente o casal. Na mesma viagem, visitaram também Florença, Roma e Pompéia. Posteriormente, Rosa definiu a Itália como sua “paixão dos 40 anos”

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

AS VEREDAS DE ROSA E ARACY

Fotos inéditas revelam a intimidade do escritor mineiro e sua companheira, a mulher que salvou a vida de judeus na Alemanha nazista

POR SHEYLA MIRANDA

Em Grande Sertão: Veredas, um velho Riobaldo recupera, em um longo depoimento, o fio da vida. Na obra prima de Guimarães Rosa, é a memória que organiza o mundo — são as miudezas da vida que desvendam o universo, são as "veredas" que abrem o caminho do "grande sertão". Como se espelhassem essa travessia, os detalhes da vida de seu criador, além das anotações esparsas que ele deixou em vida, vêm sendo usados para desvendar a trajetória e a obra de um gênio brasileiro. No ano do seu centenário, a Nova Fronteira lança o inédito Zôo, um livro infantil ilustrado com observações de Rosa sobre animais; também reedita Relembramentos, em que Vilma Guimarães Rosa, filha do escritor, reconstitui a trajetória do pai.

As fotos que ilustram esta reportagem — em sua maioria inéditas — fazem parte do mesmo esforço. Recentemente catalogadas, pertencem a Eduardo Tess, filho de
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, segunda mulher do escritor mineiro. Organizado pelos pesquisadores Daniel Bonomo e Ricardo de Melo ao longo de dez meses, o acervo inclui mais de 2 mil fotos e documentos pessoais. No conjunto, revela a intimidade de um casal cuja importância, literária e histórica, é cada vez mais estudada. Em boa parte, isso se deve ao papel de Aracy em salvar judeus na Alemanha nazista, quando ela trabalhava em Hamburgo, cidade em que Rosa exercia seu primeiro cargo diplomático, como cônsul-adjunto.

Quando o Brasil entrou na guerra com os países do Eixo, em 1942, Rosa e Aracy foram enviados de volta ao país. Já separado da primeira mulher, o escritor casou-se com "Ara" — como ele a chamava — por procuração, no México, já que não havia na divórcio no país. Depois de um breve período morando no Rio de Janeiro, Rosa foi enviado para a embaixada brasileira em Bogotá, na Colômbia, onde ficou por dois anos. Designada pelo Itamaraty para tarefas no Brasil, Aracy não pôde acompanhá-lo — voltou para São Paulo e recebeu dezenas de cartas apaixonadas do marido. Essa correspondência também faz parte do acervo da família Tess, mas não é pública.

Nos anos que se seguiram, Guimarães Rosa conciliou a carreira diplomática com a de escritor — que, finalmente, deslanchava. A procura por Sagarana, em 1946, foi tão grande que no mesmo ano foi publicada uma segunda e dição. Dois anos depois, em agosto, o escritor foi transferido para a embaixada do Brasil em Paris — e, dessa vez, foi acompanhado por Aracy. Lá viveram por dois anos e meio. Da capital francesa, fi zeram uma série de viagens por países europeus, em cenas de turismo reveladas em muitas das fotografias de família. Na volta ao Brasil, Rosa começa a empreender as viagens pelo sertão mineiro que seriam cruciais para as suas obras posteriores: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambas de 1956. Na dedicatória deste último livro, anotou: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro".

Vitimado por um infarto, Rosa morreu em 19 de novembro de 1967 — três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Com 59 anos, Aracy continuou morando no apartamento do casal, em Copacabana, no Rio. Foi lá que ela — lembrando os tempos de Hamburgo — escondeu o compositor Geraldo Vandré, em 1968, perseguido pela ditadura militar. Segundo o jornalista René Decol, Aracy conheceu Vandré quando ele participou, como ator e compositor da trilha musical, do fi lme A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1956), adaptado da obra de Rosa. Vandré ficou no apartamento dois meses, antes de partir para o exílio no Uruguai. Hoje, Aracy está com 100 anos, completados em abril. Nos últimos anos, por sofrer do mal de Alzheimer, passou a viver em São Paulo com o fi lho, Eduardo, e sua mulher, Beatriz. É uma mulher reclusa, inacessível em seu mundo. As histórias que ela já não pode contar, contudo, têm, nas imagens que anos atrás ela ajudou a identificar, um registro que resiste à passagem do tempo.

Veja galeria com fotos do casal e escritos pessoais de Rosa


 

 

Expediente | Assine BRAVO! | Newsletter | Fale conosco | Mapa do site | Política de Privacidade | Anuncie na Bravo!