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Revista BRAVO! | Setembro/2008

Primeiro capítulo de ''A Mulher de Jerusalém'', de Abraham Yehoshua

1.
Mesmo que o encarregado de recursos humanos não tivesse procurado para si esta missão, agora, na suave radiação da manhã, compreendeu que dela provinha um significado inesperado. E quando, junto à fogueira agonizante, lhe foi traduzido e esclarecido o espantoso pedido da velha senhora em hábito de freira, foi tomado de entusiasmo. E esta Jerusalém desgastada e sofredora, da qual partira havia uma semana, renovou-se para ele repentinamente com o esplendor de sua importância, aquela dos dias da infância.

A extraordinária missão tivera origem em um erro burocrático simples, remediável — depois da advertência prévia do editor de um semanário de Jerusalém — com uma explicação aceitável, talvez acompanhada de um breve pedido de desculpa. Mas o dono da fábrica, um velho resoluto, de oitenta e sete anos, foi tomado de um pavor exagerado quanto à sua reputação; e aquela desculpa simples que seria capaz de fazer com que a questão toda fosse esquecida, não lhe era suficiente; ele exigiu de si mesmo e dos subordinados um arrependimento concreto, uma demonstração nítida de expiação que acabou originando aquela viagem a um horizonte distante.

Mas o que foi que aborreceu o velho? O que lhe despertou um ímpeto quase religioso? Terá sido por que os dias sinistros que traspassavam todo o país, e Jerusalém em especial, não haviam reduzido as suas rendas, mas justamente o contrário? E o seu sucesso o obrigava, ante as dificuldades e até os colapsos das fábricas ao redor, a se preservar sete vezes mais de um ressentimento público que, por enorme ironia, ainda seria impresso em papel que ele próprio fornece ao jornal? É verdade que o jornalista, um eterno doutorando de ciências humanas, radical da moralidade local, cuja intimidade com Jerusalém o deixava à vontade, inicialmente não imaginava qual a origem do papel em que a sua reportagem mordaz seria publicada; e, mesmo se soubesse, teria abrandado alguma palavra? Porém o editor, que também era o dono do jornal, leu o rascunho, examinou a foto do holerite manchado encontrado na sacola da mulher morta, e prontamente achou conveniente se antecipar e solicitar uma resposta ou desculpa do próprio dono da fábrica, para não surpreender um amigo — ainda mais na véspera do sábado — com uma história que empanaria suas relações.

Era de fato uma história difícil e especial? Com certeza não. Mas em dias tão terríveis, quando se transformava em rotina o estraçalhamento de transeuntes, era justamente de lugares inesperados que irrompia uma sensibilidade moral. E, por isso, ao final de um dia de trabalho, quando o encarregado de recursos humanos tentou escapar do chamado do dono da fábrica, porque pela manhã havia jurado à ex-mulher voltar cedo do trabalho e ficar o fim de tarde e a noite inteira completamente à disposição da filha única, a secretária do velho não lhe permitiu adiar o encontro. Como percebera a inquietação que tomara o dono da fábrica, ela tratou de sugerir ao funcionário queixoso que arranjasse um substituto para os deveres familiares dessa noite.

É verdade que, em geral, reinavam relações afetuosas e de confiança entre o encarregado e o dono da fábrica, desde o período em que o encarregado ainda era representante de vendas e tinha descoberto mercados surpreendentes no Terceiro Mundo para o novo ramo de produtos de papel e papelaria. Porém, quando o casamento do encarregado começou a desmoronar, inclusive, talvez, em razão de suas muitas viagens, o velho concordou, ainda que com o coração pesado, em liberá-lo de sua função e realocá-lo, por enquanto, como encarregado dos assuntos de recursos humanos da fábrica inteira, a fim de que pudesse ao menos dormir em casa e tentar consertar o que havia se deteriorado. No entanto, a hostilidade que se acumulara em sua ausência acabou se destilando em veneno com sua presença, e a separação deles, inicialmente emocional, depois intelectual e, por fim, também sexual, já fluía por si. Depois do divórcio, porém, ele não se apressou em retornar ao cargo anterior, que apreciava, pois queria recuperar ao menos a confiança da filha única.

Já à porta da grande sala da diretoria, em que habitualmente se conservava uma obscuridade suave e nobre durante todas as horas do dia e em todas as estações do ano, foi-lhe lançada, num tom dramático, a essência da história que estava para ser publicada no semanário no fim de semana.

"Nossa funcionária?" O encarregado resiste em aceitar o fato. "Não é possível. Eu saberia. É um engano."

O dono da fábrica não responde, apenas lhe entrega o rascunho da reportagem, que o funcionário lê, ainda de pé, rapidamente, e cujo título difamatório era: Chocante falta de humanidade dos produtores e fornecedores do nosso pão.

Uma mulher de cerca de quarenta anos, que não portava nenhum documento de identificação, exceto o holerite da fábrica do último mês, roto, manchado e sem nome, na semana anterior fora atingida na feira de forma fatal, e durante dois dias lutara pela vida sem que nenhum de seus companheiros de trabalho ou superiores se interessasse por seu estado. Ainda depois da morte ela continua anônima e sozinha no necrotério do hospital, enquanto a diretoria da fábrica segue ignorando seu destino, sem que ninguém se ocupe de seu enterro. E aqui vinha uma descrição breve da fábrica — a grande e famosa panificadora fundada no início do século pelo avô do velho, com seu novo ramo de papel e papelaria. Havia duas fotografias que identificavam nitidamente os responsáveis: uma era do dono da fábrica, oficial e antiga, de muitos anos antes, a outra do encarregado de recursos humanos, recente, escura e borrada, tirada sem o seu conhecimento, acrescida de uma observação maldosa, de que merecera a atual função apenas por causa do divórcio.

"Uma verdadeira víbora", balbucia o funcionário, "quanto veneno é possível condensar numa reportagem curta..."

O velho, porém, exige ação e não apenas descontentamento. Se hoje as coisas funcionam assim, não é isso que se deve combater, mas a acusação. E como o editor os trata de forma correta e concorda em publicar junto à reportagem uma resposta ou uma desculpa, a fim de aplacar uma condenação que poderá se instalar nos corações se esperarem o jornal da semana seguinte, é preciso se organizar imediatamente e esclarecer tudo a respeito da funcionária que foi morta, e como e por que passara despercebida. E, talvez, por que não?, tentar um encontro com o próprio jornalista, para verificar o que mais ele sabe. Pois pode haver mais alguma armadilha escondida ali.

Em outras palavras, o encarregado devia deixar de lado qualquer outro assunto e dedicar-se somente a esse caso. Porque não só férias e doenças, partos e demissões estão sob a responsabilidade do setor do pessoal, mas também a própria morte. E a estocada de "falta de humanidade", de alheamento por sovinice, se fosse publicada sem explicação ou mesmo desculpa, poderia despertar um protesto que talvez se refletisse nas vendas. Afinal, aquela não era uma panificadora anônima; e o nome da família dos fundadores está colado em cada pão que sai dali.

Logo, para que oferecer uma pequena tentação aos concorrentes sequiosos de vingança...

"Vingança?" O encarregado dá um risinho. "O senhor está exagerando bastante. A quem é que acha que isso tudo interessa?, ainda mais em dias como estes..."

"A mim isso interessa", responde irado o dono da fábrica, "e justamente em dias como estes..."

O encarregado inclina a cabeça, dobra a reportagem e, com o gesto apropriado, a faz desaparecer no bolso, numa tentativa de encerrar a conversa antes que a intempestividade do velho o transforme em responsável não somente por uma pequena negligência administrativa, mas também pelo próprio atentado. "Não se preocupe", ele o acalma com um breve sorriso, "vou tratar do caso. Amanhã de manhã. A primeira coisa."

Então o velho, alto, pesado, muito pálido, em um terno elegante e com um antigo topete pairando na obscuridade como uma pomba majestosa, se endireita. O temor pelo seu bom nome pesa enormemente na mão que agarra o ombro do subordinado. "Não amanhã de manhã" — a ordem é dita lentamente e com bastante nitidez — "mas agora. Esta noite. Não há tempo. A história toda deve estar esclarecida ao amanhecer, para que seja possível enviar uma resposta concreta ao jornal pela manhã."

"Esta noite?", o encarregado explode, "não, desculpe, já é tarde..." Ele precisa voar para casa. A mulher, isto é, a ex, não estará em Jerusalém, e ele lhe tinha jurado buscar a filha para que a menina não se arriscasse no transporte público. "E qual a urgência? Esse maldito jornaleco só sai na sexta-feira, e hoje ainda é terça. Há tempo."

No entanto, a preocupação do dono da fábrica por sua humanidade o endurece. "Não, não há tempo. Amanhã à noite eles fecham o jornal e, se a resposta demorar, não será publicada neste fim de semana, somente no próximo, e assim vamos ficar expostos durante uma semana inteira. Portanto, se você se recusa a assumir imediatamente essa história, é só avisar, e posso encontrar um substituto. Talvez também para o seu cargo..."

"Mas... um momento... desculpe...", atrapalha-se o encarregado, ferido pela ameaça lançada com tanta facilidade: "E a minha filha? Quem é que poderá me substituir nisso? E a mãe dela", acrescenta com amargura, "você a conheceu um pouco, ela vai me matar...".

"Ela substituirá você", o dono da fábrica o interrompe e aponta um dedo firme para a chefe do escritório, cujo rosto enrubesce ao escutar a função que lhe fora repentinamente imposta sem que se perguntasse se estava de acordo.

"Me substituirá? Como?"

"É o que você está ouvindo. Ela levará sua filha onde ela quiser e cuidará dela como se fosse sua. Porque a partir deste momento todos nós estamos engajados em demonstrar que também somos humanos, não menos do que esse peçonhento, e que nossa humanidade nos é cara. Pense, homem, há outro jeito? Não."

 

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