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Leia trecho do livro ''O Dia Mastroianni'', de João Paulo Cuenca

19:01

Saímos abraçados pela rua cantarolando o adágio do concerto numérico cinco para piano e orquestra de Beethoven. A melodia é puxada por um ébrio Tomás que se apóia no meu ombro com dificuldade. Eu já tenho cinco tentáculos da mão direita agarrados à cintura fina de Verônica.
- Verônica, perdoe Tomás! É um esteta que gosta de música erudita e acha que isso impressiona as moças.
- Pois então conseguiu.
- Táxi!
Abro a porta do carro amarelo e digo "bingo". Saltamos pelo outro lado, já no nosso destino: uma casa de nome Palácio e fachada Luís XV, postada a poucos quarteirões do Divã do Mundo. Entramos por um portal de vidro fume, sob o olhar de seguranças engravatados, e logo mergulhamos numa mixórdia de luzes azuladas, caça-níqueis amazônicos, espelhos convexos e sinos eletrônicos. As portas automáticas de um reservado abrem-se: caminhamos por um aquário esfumaçado com telões nas paredes indicando os números sorteados, ditados por uma voz feminina e suave. Somos as únicas criaturas com menos de setenta anos e noventa quilos dentro do salão, onde ocupamos a única mesa ainda vazia.
- Parece o cenário de um filme ruim - Verônica ergue as sobrancelhas finas e gira o periscópio pelo salão.
Compramos cartelas e deixamos o som monocórdio dos números ninar os nossos reflexos, altura dessas equivalentes aos de uma lontra com hemorragia cerebral. Divido uma cartela com Verônica, que risca com um círculo:
27,
 18,
  28,
   40,
    98,
     02,
      82,
91,
 
21,
 55,
  31,
   87,
    34,
     09,
      65.

Tomás Anselmo grita "linha!" e eu desperto como de um sonho.
Há um murmúrio de frustração quase inaudível. Todos os olhares se concentram em nós - são como bichos entocados. Saídas de uma trincheira de metal, duas moças de saia marrom e cabelos presos com gel se aproximam da mesa e conferem o número da cartela de Tomás.
- O senhor errou. A última bola sorteada foi 68 e não 86.
- Mas puta que me pariu! - Tomás bate com a cabeça na mesa.
A voz do alto-falante diz, robótica e nasal, com um tom de interrogação interrompida no fim das palavras:
- Linha não confereumn. Sigoumn.
E todos abaixam o rosto, a conferir a chuva de algarismos. Depois da linha mal cantada, dois seguranças empalhados plantam os pés ao lado da nossa mesa, com braços cruzados e olhos ocos apontados para nós.
- E se houvesse um videotape com a filmagem de toda a sua vida? - dou início à sofismática de bingo.
O pitéu continua a prestar atenção ns números, cravando a caneta preta nos sorteados, mordendo graciosamente os lábios e a caneta preta nos intervalos, numa série de gestos espontaneamente ensaiados:
- Ah. Eu já pensei nisso...!
- É claro que já pensou, chuchu. Se houvesse essa fita, caso você desistisse de qualquer coisa, como entrar nesse bingo, isso levaria à destruição de uma seqüência do filme.
- De um plano.
- Exato, Verônica!
- Mas essa cena seria rapidamente substituída por outra. Eu fora daqui, lendo Schopenhauer à beira do rio, fumando haxixe num banco sob uma ponte de metal, ou correndo dos pombos na praça (eu morro de medo dos pombos, sabia?), ou ainda...
- Si, è vero, Verônica. De qualquer forma tudo seria permanente. Você percebe a diferença?
- Entre o quê?
- O registro e o não-registro. Vivemos sem registro algum! Sequer temos a ilusão da permanência, Verônica - digo em tom grave, epifânico, enquanto a menina veste espirais de indiferença pelos poros das bochechas. - O videotape daria a nós a certeza de que continuamos existindo! Eu e você, sob as luzes brancas do bingo e o som dos números caindo sobre nós, eu me aproximando de você enquanto Tomás jaz semi-inconsciente na mesa engordurada, eu começando a brincar com a sua cartela de bingo, talvez impedindo você de assinalar os números, ou ditando outros no seu ouvido pra te confundir, ou pachorrento, invadindo sua nuca com a palma da minha mão, encostando os meus sapatos nos seus sob a mesa, ou, numa mudança brusca de plano, beijando seus lábios inerentes...
- Acho que eu não iria querer, Pedro.
Um senhor com soro espetado no braço reúne suas forças  e solta um grito rouco de "bingo!", dessa vez legítimo. Após breve burburinho, volta a se fazer silêncio e tudo recomeça, com novas cartelas e renovadas esperanças.
- Não quereria o quê?
- Imagina se não pudéssemos apagar o videotape?
Ou não quiséssemos? Ou se vivêssemos em dúvida?
- Sim. O videotape seria indelével! Quanto mais você quisesse apagar o videotape, mais ele seria projetado em todos os lugares, como as bolas estampadas nos telões do bingo.
- Isso seria um pesadelo. Olha, acho que vou fazer uma linha aqui.
- Não vai fazer nada!
- Você é completamente maluco, garoto. Eu mal te conheço.
Quando ela disse "garoto", insuflei-me de certeza.
Liguei o videoclipe.

 

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