
Revista BRAVO! | Outubro/2008
Arlete Lorini
Leia trecho do livro Cordilheira, de Daniel Galera
Leia trecho do livro Pó de Parede, de Carol Bensimon
Leia reportagem sobre Carol Bensimon publicada na edição de agosto
Entre os ex-alunos do mestre Assis Brasil, o consenso é que as oficinas aceleraram tremendamente o aprendizado literário. "Eu certamente levaria 15 anos para aprender o que consegui em um ano de oficina", diz a gaúcha Cíntia Moscovich, 50 anos, ex-oficineira, já com seis livros publicados, entre eles Arquitetura do Arco-Íris (2004), com o qual levou o Prêmio Jabuti. "Aprendi que a idéia é uma coisa fugaz, que você só consegue transformar em literatura usando a técnica." A opinião é compartilhada por Daniel Galera, de 29 anos, que já lançou títulos como Até o Dia em que o Cão Morreu (2003), adaptado para o cinema no ano passado por Beto Brant e Renato Ciasca com o título Cão sem Dono. "A oficina do Assis me passou de forma rápida o que demoraria cinco anos para aprender por conta própria", diz. "Passei a compreender como funcionam os tipos de narrativas, os gêneros literários, como cortar frases e usar os clichês."
Outro mérito de Assis Brasil mencionado por ex-alunos é o fato de o escritor respeitar os estilos de cada um. "Ao contrário do Assis, que trabalha o regionalismo, a identidade cultural, as minhas histórias se passam em lugares não nomeados", diz Carol Bensimon, 26 anos, que estreou neste ano na literatura com Pó de Parede e acaba de concluir o seu segundo livro. "A oficina me deu a auto-estima literária."
Público jovem
Para Assis Brasil, unir as atividades acadêmicas com as de um escritor é um fenômeno universal, observado principalmente nos Estados Unidos, Canadá e Europa. "Os escritores hoje estão saindo das universidades, fazem mestrado e doutorado", diz. Ele se considera um autor à moda antiga, que tem o seu emprego de professor em tempo integral e escreve depois do expediente, por cerca de duas horas e meia diárias, além de fins de semana e férias.
Leia trecho do livro Cordilheira, de Daniel Galera
Leia trecho do livro Pó de Parede, de Carol Bensimon
Leia reportagem sobre Carol Bensimon publicada na edição de agosto
Porto-alegrense, filho de descendentes açorianos, Assis Brasil passou a infância numa cidade do interior gaúcho, de colonização alemã. Foi uma criança muito protegida, criada entre quatro paredes. De volta a Porto Alegre, estudou os clássicos em colégio de jesuítas. Aprendeu também violoncelo e por 15 anos integrou a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Acabou se formando advogado, profissão que pouco exerceu. Logo migrou para a carreira acadêmica, inicialmente dando aulas na Faculdade de Direito e depois na de Letras, onde obteve o seu título de doutor, em 1987. A essa altura, já estava no seu sétimo livro.
Lançada em 1976, sua primeira obra, Um Quarto de Légua em Quadro, abordava o povoamento açoriano no Rio Grande do Sul. A partir daí, livros ambientados no passado histórico gaúcho, principalmente nos séculos 18 e 19, têm permeado a sua obra. "Até a minha geração, o Rio Grande do Sul era um problema a ser resolvido", diz Assis Brasil. "Os jovens autores gaúchos estão libertos disso. Podem até tomar chimarrão, mas a literatura deles não tem nada a ver com o estado."
Com 17 obras publicadas e cerca de 160 mil exemplares vendidos, é no estado gaúcho que Assis Brasil concentra o seu grande público leitor no que ele também difere de alguns de seus ex-alunos. Ele diz que já passou da fase de procurar reconhecimento em outras praças. "A minha grande ambição é escrever melhor, e não ser um autor nacional", diz. Se no passado as referências de Assis Brasil estavam em escritores como Eça de Queirós, Machado de Assis e Erico Verissimo, hoje são autores como o francês Pascal Quignard, o italiano Alessandro Baricco, alguns portugueses contemporâneos e americanos. Todos adeptos do texto conciso e essencial, que provocou uma mudança radical na sua obra, a partir do livro O Pintor de Retratos (2001). Aqui, ele abandonou os parágrafos abundantes e detalhistas e buscou uma escrita enxuta. Como resultado, seus últimos três livros não passaram de 130 páginas, algo inédito para o autor de Videiras de Cristal (1990), que tinha 526 páginas.
Foi um desafio para o autor, que na época tinha mais de 50 anos e corria o risco de perder o seu público cativo. "Não estava satisfeito com o resultado dos meus livros", diz. "A partir disso, passei a receber os maiores prêmios nacionais, o que significa que eu estava certo em mudar." A crítica aprovou, e aconteceu de seu público ficar mais jovem. Um prêmio que surpreendeu o autor foi o Copa de Literatura Brasileira, em 2007, por sua última obra, Música Perdida (2006). "É uma votação feita por blogueiros, gente muito jovem", diz.
A recente mudança no estilo de escrever do autor o aproximou, em certo sentido, da obra de muitos de seus ex-alunos, marcadas pela concisão. Mas não afetou características do ofício que ele, por sua vez, procurou transmitir a seus oficineiros: planejamento e disciplina. Tão importantes, no seu caso, quanto o conhecimento das técnicas de escrita. "O talento é imprescindível e indefinível, a pessoa tem ou não tem", diz Assis Brasil. "Mas é a técnica que liberta o talento."
O que ler
Do professor Assis Brasil: Música Perdida (L&PM, 222 págs., R$ 25,20).
Dos alunos: Cordilheira, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 176 págs., preço a definir); Arquitetura do Arco-Íris, de Cíntia Moscovich (Record, 176 págs., R$ 28); Pó de Parede, de Carol Bensimon (Não Editora, 128 págs., R$ 25).
Leia trecho do livro Cordilheira, de Daniel Galera
Leia trecho do livro Pó de Parede, de Carol Bensimon
Leia reportagem sobre Carol Bensimon publicada na edição de agosto