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O escritor alemão W. G. Sebald, morto precocemente em 2001. No livro, os narradores enfrentam as vertigens e as armadilhas da memória
O escritor alemão W. G. Sebald, morto precocemente em 2001. No livro, os narradores enfrentam as vertigens e as armadilhas da memória

 

Revista BRAVO! | Outubro/2008

Os Passados

Primeiro romance de W. G. Sebald, ''Vertigem'' traz um narrador que coteja as próprias recordações com as dos escritores Kafka e Stendhal. A memória é um tema recorrente na curta mas grandiosa obra do alemão

Heitor Ferraz

Quando morreu em 2001, W. G. Sebald (1944-2001) tinha escrito apenas quatro romances: Vertigem (1990), Os Emigrantes (1993), Os Anéis de Saturno (1999) e Austerlitz (2001). No Brasil só faltava ser traduzido o primeiro — o que acontece agora. No livro, já se vê a marca do autor alemão — um narrador em suas errâncias pelo mundo, buscando desenterrar do passado a sua memória e a memória coletiva. Além disso, já faz o casamento entre coisa narrada e material iconográfico — fotografias, desenhos, pedaços de jornal etc. Em Sebald, a imagem dialoga com o texto como se fosse um documento que lançasse uma luz de realidade num universo ficcional.

Vertigem é uma obra costurada com fios narrativos que se amarram apenas depois, no momento em que o leitor, terminado o livro, reflete sobre os quatro capítulos do romance, que pareciam ser independentes. No primeiro deles, temos a história de Henri Beyle — nome do escritor francês Stendhal — e suas andanças pela Itália. O narrador toma como fonte os diários do escritor, em especial aqueles em que ele, aos 53 anos, tentava se recordar de sua participação na travessia dos Alpes com o exército de Napoleão. Segundo o narrador, essas notas "dão prova das diversas armadilhas da memória". Eis aí uma pista para o leitor: estamos diante dos truques da memória, fonte do romance.

Roteiros
Na alternância dos capítulos, a história sai de 1800 e pula para 1980. Qual a relação com o anterior? Como o personagem de Beyle que registrava "as oscilações de estado de espírito", este narrador também enfrenta suas vertigens e que remontam ao seu passado em uma viagem pela Itália. Um trecho parece ser uma chave para a compreensão do livro: "Sentei-me a uma mesa perto da porta aberta do terraço, papéis e notas espalhados ao meu redor, traçando correspondências entre acontecimentos muito distantes entre si, mas que me pareciam parte da mesma ordem".

No capítulo seguinte já estamos numa narrativa sobre a passagem de Kafka pelas mesmas cidades citadas. No último capítulo, nos reencontramos com o narrador em primeira pessoa seguindo vertiginosamente de trem e a pé para sua cidade de infância, nomeada apenas como W., mas que coincidentemente fica na mesma região de Wertach im Allgaü, onde Sebald nasceu. Ficção e realidade mais uma vez trocam papéis na narrativa, questionando o presente e o passado, o real e o imaginário. Como escreve o autor no livro: "Quanto mais imagens coleciono do passado, eu disse, mais improvável me parece que o passado tenha de fato ocorrido dessa maneira, pois nada nele podia ser chamado normal: a maior parte dele era ridícula e, quando não ridícula, aterradora". 


Heitor Ferraz é jornalista, professor e poeta, autor de Coisas Imediatas.

O livro
Vertigem, de W. G. Sebald. Tradução de José Marcos Macedo, preço a definir.

Leia também
Do mesmo autor, Austerlitz. Companhia das Letras, 296 págs., R$ 44.

 

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