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Ernst Jünger na Segunda Guerra. A águia que era símbolo do 3o Reich e a suástica nazista são visíveis em sua boina
Ernst Jünger na Segunda Guerra. A águia que era símbolo do 3o Reich e a suástica nazista são visíveis em sua boina

 

Revista BRAVO! | Novembro/2008

O Bom Nazista

Sai no Brasil ''Nos Penhascos de Mármore'', de Ernst Jünger - um oficial de Hitler que era contra o totalitarismo e condenava o anti-semitismo

Jonas Lopes

 No período em que Adolf Hitler permaneceu no poder na Alemanha, quase todos os escritores e intelectuais hoje considerados importantes foram perseguidos e tiveram seus trabalhos banidos. Uma das exceções foi Ernst Jünger (1895-1998). O motivo? A fotografia ao lado denuncia: herói do país na Primeira Guerra Mundial, oficial do exército nazista na Segunda, o escritor alemão contava com o ditador entre seus admiradores — que, na época, não eram poucos. De lá para cá, a popularidade de Jünger só fez decrescer. No Brasil isso começa a mudar com o lançamento de Nos Penhascos de Mármore. Intrincada alegoria sobre poder e dominação, o livro nos permite compreender a admiração de gente bem diferente de Hitler — como o franco-americano George Steiner e o brasileiro Antonio Candido, críticos que têm o autor entre os grandes escritores alemães.

Fascinante e contraditória, sua trajetória ajuda a explicar a queda de prestígio mundo afora. Jünger passou para a história como um militarista — coisa que, nas décadas posteriores, de intensificação do pacifismo como valor civilizatório, era imperdoável. Egresso de uma família pequeno-burguesa, com menos de 20 anos Jünger se alistou para lutar na Primeira Guerra Mundial. Foi ferido em ação, o que lhe rendeu uma série de condecorações. Em 1920, com apenas 25 anos, virou celebridade nacional com a publicação de Tempestades de Aço, relato vigoroso do front baseado em fatos de sua própria participação na batalha. A obra glorificava o mecanismo da guerra e prestava homenagem à vida nos quartéis. Jünger, nacionalista fervoroso, acreditava em um governo disciplinador como solução para o país, em ruínas com a derrota na Primeira Guerra. Para ele, a democracia seria incapaz de manter a ordem.

Quase como se fosse eco de suas palavras, o Partido Nacional-Socialista assumiu o poder, em 1933, com uma política de combate ao desemprego e à inflação, calcada no sentimento de amor à pátria e no militarismo. Contudo, era um eco distorcido: embora partilhasse de muitas idéias do nazismo, Jünger era contrário à perseguição dos judeus. Humanista e defensor das liberdades individuais, também se incomodou com a tentativa de se estabelecer uma única ideo­logia em toda a Alemanha.

Ainda assim, serviu à Alemanha na Segunda Guerra como capitão. Atuou principalmente na França ocupada pelos nazistas, onde mostrou, nos círculos em que freqüentava, quanto podia se distanciar do partido. Em Paris, manteve contato com os oficiais que, em 20 de julho de 1944, promoveriam um atentado — frustrado — contra Hitler. Jünger não participou do atentado, mas sua proximidade com os conjurados tornou-o um homem sob suspeita. Ainda na capital francesa, conviveu com intelectuais como o pintor espanhol Pablo Picasso e o escritor francês Louis-Ferdinand Céline. Com o brilhante criador de Viagem ao Fim da Noite, chegou a ter alguns problemas. Em diários publicados anos depois, Jünger criticava Céline por seu anti-semitismo. O francês não deixou por menos e processou a editora do alemão.
 
MARINA GRANDE x MAURITÂNIA
Nos Penhascos de Mármore saiu no primeiro ano da guerra, 1939. O pequeno romance tem como personagem principal um morador de Marina Grande, uma aldeia idílica e civilizada de camponeses. Esse narrador é um botânico, assim como Jünger (que, aliás, chegou a visitar o Brasil em 1936 e se impressionou com a flora do país). A paz em Marina é ameaçada com o avanço do monteiro-mor, líder de um grupo de homens violentos da Mauritânia, região vizinha, separada por uma montanha de mármore, repleta de florestas primitivas. A caracterização desse homem não podia ser mais eloqüente para a época e o lugar: um líder demoníaco e sedento pela expansão de seus domínios, um lugar em que havia esfoladouros cheio de cadáveres.

A prosa da novela, barroca e atenta a detalhes da natureza (como seria de esperar de um botânico), ajuda a compor a perturbação da narrativa. Por ser lenta e reflexiva, não tem o imediatismo avassalador do "inimigo" Céline. Seu impacto está na expectativa gerada e desenvolvida aos poucos.

Os que resistem ao autor ainda enxergam nessa excelência de estilo uma estetização do horror. Jünger, porém, estava distante das idéias do passado: o jovem que via na guerra "um reflexo da alma humana" agora reclamava, em Nos Penhascos de Mármore, que, "quando a dúvida se une ao excesso, voltamo-nos à violência". Dessa forma, escreve, "começamos a sonhar com o poder e com a supremacia, e com as formas que intrepidamente se confrontam na luta mortal da vida, seja para a queda, seja para o triunfo".


O Livro
Nos Penhascos de Mármore, de Ernst Jünger. Tradução de Tercio Redondo. Cosac Naify, 198 págs., R$ 49.

 

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