Paula Barcellos
Estava de certa maneira a fazê-la, como em tempos fizera a criadita que servia na casa dos pais. Uma violação não sexual, mas contínua, aquela que agarra e jamais larga; primeiro destrói, amassa, torna informe, colocando todos os valores antigos ao mesmo nível, e depois, sim, começa a dar uma outra forma, conduz e infiltra uma outra força. Aquela mulher abandonava, dia após dia, por completo a ingenuidade." É esse retrato brutal do amadurecimento, marcado pela busca obsessiva de controlar os próprios sentimentos e os sentimentos do mundo, que o escritor português Gonçalo M. Tavares desenvolve em Aprender a Rezar na Era da Técnica. No livro, o último da tetralogia Reino, o autor expõe o leitor ao âmago da perversidade humana.
O estado de fascínio doentio pela degradação do outro é representado pelo médico Lenz Buchmann personagem cuja inteligência indecente conduz o livro. Filho de um militar suicida, Lenz foi obrigado a aprender, ainda na infância, que ter medo era uma atitude reprovável. A cada sinal de demonstração de medo, era preso pelo pai em um quarto escuro. "O medo é o segredo que a velocidade esconde", catequizava o pai. Para o militar, a vida deveria ser controlada. É essa idéia que acompanhará a trajetória do personagem até o fim da vida.
Büchner
Orgulhoso do seu modo violento de tomar as coisas para si, o personagem carrega no nome uma referência direta à primeira descrição detalhada de um estado esquizofrênico na literatura alemã: a obra Lenz, do dramaturgo Georg Büchner (1813-1837), autor cujo sobrenome também serviu de inspiração ao personagem. Tal qual o Lenz de Büchner baseado na vida do dramaturgo Reinhold Lenz (1751-1792) , a criação de Gonçalo também é conduzida pela questão da loucura. "Só no louco se via um rosto conquistado pela auto-admiração e pela confiança inabalável no seu modo particular de ver o mundo. Um soberano, de fato", comenta Lenz Buchmann, que cultiva, ao longo do livro, uma relação de atração e repulsa por um pedinte louco.
É a loucura, justamente, a tônica da tetralogia Reino. Em Jerusalém (2005), "loucos e racionais" confrontam-se em um hospício local marcado por uma violência sã. Ao louco, em ambos os livros, associa-se apenas a liberdade. É a loucura como forma de ausência da perversidade, como tão bem retratada na personagem Xalak, de Um Homem: Klaus Klump, outro livro da tetralogia, que se completa com A Máquina de Joseph Walser. No fecho desse audacioso projeto, Aprender a Rezar na Era da Técnica mostra um autor que, aos 38 anos e com mais de 20 títulos publicados, construiu uma obra como poucas, dialogando com o universo da loucura e do horror do tcheco Franz Kafka.
Paula Barcellos é jornalista.
O livro
Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares. Companhia das Letras, 356 págs., R$ 50.
Leia também
Outros livros da tetralogia Reino, publicados no Brasil pela mesma editora: Um Homem: Klaus Klump (120 págs., R$ 32) e Jerusalém (232 págs., R$ 43).