
Revista BRAVO! | Abril/2009
Por Carol Bensimon
Saiba mais sobre os escritores que passaram pela livraria
Sylvia Beach Whitman tem algo de intimidador. Desconfio disso antes mesmo de chegar à livraria administrada por ela, a lendária Shakespeare and Company, especializada em livros de língua inglesa e ponto de encontro de escritores célebres do século 20. Cruzo a ponte que me leva à Île de la Cité enquanto retomo mentalmente as perguntas que pretendo fazer. Na verdade, talvez eu esteja atrás de uma única resposta: será que ainda pode haver algo de legítimo na livraria ou o seu destino é ser apenas uma sombra do que já foi, tal como tantos cafés parisienses frequentados por intelectuais de outrora que hoje viraram armadilhas para turistas?
Diante da Notre-Dame, as ciganas repetem seu bordão, na tentativa de obter alguns tostões dos desavisados: "Speak English?". Ainda assim, nem elas, nem os jovens que distribuem folhetos de passeios fluviais, nem os japoneses com câmeras fotográficas são capazes de arranhar essa atmosfera de mito que reina em Paris, cidade que recentemente escolhi para morar. Como a própria Sylvia logo me dirá, ao sentarmos nas velhas cadeiras de seu escritório em desordem: "Há tanta gente cheia de sonhos que vem a Paris. São elas, na verdade, que tornam a cidade mágica".
Nesse sentido, a Shakespeare and Company é uma instituição poderosa, um misto de território de expatriados e sonho hippie. Desde os anos 50, jovens escritores de passagem dormem em camas instaladas em meio aos livros, em troca de duas horas de trabalho por dia. Calcula-se que mais de 40 mil já o fizeram.
Atravesso a segunda ponte. A livraria ocupa o lugar de um antigo mosteiro, na margem esquerda do Sena. George Whitman, seu proprietário, está com 95 anos. Desde que se aposentou, aos 89, é sua filha Sylvia quem administra o lugar. Ela tem 28 anos. Talvez seja isso, seus 28 tão próximos dos meus 26, o que me deixa intimidada. Uma garota com um grande mito nas mãos. Vejo-a através do vidro. Bato à porta e entro.
Atmosfera Boêmia
A história da Shakespeare and Company começa de fato em 1919, quando a norte-americana Sylvia Beach — de quem mais tarde Sylvia Beach Whitman herdaria o nome, numa homenagem prestada por seu pai — inaugura a loja na rue de l'Odéon, não muito distante de onde é hoje. Uma porção de escritores expatriados passa a frequentar o lugar: Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Ezra Pound, T. S. Eliot. Sylvia Beach toma conta de suas correspondências, envia seus textos a revistas literárias, empresta-lhes livros. Seu ato visionário, no entanto, é publicar Ulisses, o intrincado romance do irlandês James Joyce, em 1922, quando nenhuma editora do mundo anglo-saxão tinha coragem de fazê-lo.
Assim a livraria de Sylvia Beach atravessa o entre- guerras para então sucumbir à ocupação nazista. Na cena final de sua existência, em 1941, há uma Sylvia negando-se a vender seu último exemplar de outro livro de Joyce, Finnegans Wake, a um oficial alemão. Decreta-se o fechamento imediato da loja. Sylvia Beach jamais a reabrirá.
Em 1951, outra livraria especializada em literatura de língua inglesa instala-se na margem esquerda do Sena. Seu dono é George Whitman, também norte-americano. Ele e Sylvia tornam-se amigos e encontram-se algumas vezes. Após a morte dela, em 1964, a loja de George, denominada Le Mistral, é rebatizada Shakespeare and Company, conforme o desejo da antiga proprietária.
Os escritores beats Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso fazem do lugar um ponto de encontro. Corso, aliás, será posteriormente banido por roubar livros e tentar revendê-los fora dali. O romancista Henry Miller e a poetisa Anaïs Nin também circulam por lá, e um sem-número de artistas anônimos vem e vai em meio a essa atmosfera boêmia, muitos instalando-se na própria loja por semanas ou meses a fio.
George Whitman sempre se declarou partidário do socialismo. Na fachada da loja, em um texto escrito a mão, ele se compara a um Dom Quixote. Acredita, até hoje, que sua loja é "uma utopia socialista mascarada de livraria". Exagero ou não, o certo é que o lugar está no imaginário de muitos escritores. E também em qualquer guia de viagem.
Catálogo informatizado
Minha conversa com Sylvia é interrompida uma única vez: uma funcionária mostra-lhe alguns livros de Hemingway arruinados por uma infiltração. Sylvia os folheia. Todas as páginas descolaram-se da lombada. "Baixo o preço?", pergunta a funcionária (em inglês, é claro; sou a única pessoa ali a falar em francês). "Não, não podemos vendê-los. Precisamos tirar do sistema."
O fato de agora haver um sistema já diz muito sobre a administração de Sylvia. Quando ela desembarcou em Paris, em 2004, a livraria não tinha nem mesmo telefone. Sylvia então pôs a casa em ordem, pagou faturas atrasadas, informatizou o catálogo. Além disso, criou um festival literário bianual, que já contou com a participação de figuras como Paul Auster e Alain de Botton. Há também eventos literários nas segundas à noite.
Sylvia tem um sotaque britânico carregado. Ela partiu da França ainda menina com a mãe — sobre quem prefere não falar — para viver na Inglaterra. Foram raras as vezes que veio a Paris. O pai era quase um estranho. Quando decidiu aproximar-se dele, pareceu-lhe que o único modo de fazê-lo era através da livraria: "Meu pai é a livraria. Cada pedaço daqui diz algo sobre ele". George hoje vive quase recluso no terceiro andar, e eu não tenho a sorte de vê-lo de pijama indo buscar o jornal no térreo, como dizem que é possível acontecer.
Citando as vantagens de seu pequeno negócio, Sylvia afirma: "Nós oferecemos uma atmosfera muito diferente e original". Talvez possa soar despropositado, mas a verdade é que sua frase me incomoda, pois lembra o slogan de algo muito falso. Como um bar caríssimo construído para assemelhar-se a um botequim ou um hotel de luxo que investiu pesado a fim de parecer rústico. Sabemos quanto o mundo de hoje está cheio de lugares cuidadosamente pensados para parecerem espontâneos. E mesmo o que é legítimo, com um passado boêmio carregado de escritores contando tostões, pode acabar tornando-se mero artifício para consumo turístico. De modo que começo a me sentir um pouco descrente. Então Sylvia me convida para conhecer o segundo piso.
destino inspirador
A escada é estreita. Quem sobe precisa aguardar quem está descendo, ou vice-versa. O andar é abarrotado de livros, sem ordem aparente, livros que não estão à venda, mas que podem ser lidos por qualquer visitante. Há fotos nas paredes, bilhetes e um estranho cubículo de madeira, envolto em tecido, que abriga uma mesinha, uma cadeira e uma máquina de escrever. Turistas boquiabertos fazem ranger o piso. No entanto, mesmo com suas câmeras no pescoço, eles não tiram fotos. É como se estivessem dentro da Notre-Dame. Reina, no segundo andar da Shakespeare and Company, um silêncio respeitoso.
Isso não fossem as vozes dos jovens sentados nas camas estreitas em meio aos livros, conversando sobre literatura. Eles passam seu tempo mais dentro do lugar, a ler, escrever e discutir, do que a flanar pelos bulevares.
Desde a inauguração, George Whitman acolhe jovens com pretensões literárias que estão de passagem por Paris — e que não costumam, é claro, ter muito dinheiro. Muitos cultivam há tempos o plano de passar uma temporada na lendária livraria, outros a descobrem por acaso. Para a admissão, a única exigência é que escrevam uma autobiografia de uma página.
No momento, há três norte-americanos, três ingleses e uma holandesa. Todos estão escrevendo algo: romances, roteiros, peças de teatro. Embora confessem que é difícil concentrar-se em razão do entra-e-sai e dos debates literários, ninguém põe em dúvida o valor da experiência de viver a literatura em comunidade. Eles, definitivamente, adoram estar ali.
Os jovens que vivem temporariamente na livraria têm em comum um forte sentimento de inadequação. É o que descubro em nossas conversas e o que confirmo mais tarde, ao ler as biografias submetidas a George (veja um exemplo acima). Eram inadequados em suas famílias, suas cidades, seus países. A inadequação — que, aliás, está na origem de todo artista — levou-os à evasão. E Paris, mais pelo seu passado do que pelo seu presente, pareceu-lhes um destino inspirador.
Ainda faz sentido acreditar nesse mito? Um dos jovens que está lá, Thomas Oliver Graham, talvez responda à questão: "Reconheço que haja um elemento falso na Shakespeare and Company. Mas a livraria ainda soa muito verdadeira para nós".
Eu, no fim de minha tarde nesse pequeno mundo inadequado, não poderia deixar de concordar. E creio que saio da livraria um pouco mais idealista, impregnada dos sonhos concretos de George Whitman e dos 40 mil jovens que já passaram por lá.
Carol Bensimon é escritora, autora de Pó de Parede (livro de contos), e faz doutorado em literatura na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Sinuca embaixo d'Água, seu primeiro romance, será publicado em setembro.