Edição do mês Assine Bravo!
Feed RSS e Newsletter RSS Bravo! Neswletter Bravo!Folheia Bravo!
Música > A Revista
Música
Divulgação
Dolores Duran na década de 1950. Cantora foi uma das atrações no Beco
Dolores Duran na década de 1950. Cantora foi uma das atrações no Beco

 

Revista BRAVO! | Outubro/2008

Clássico do mês - Beco das Garrafas

Viela de Copacabana quer voltar a ser sinônimo de boa música

Fábio Rodrigues

O lugar, um corredor aberto entre dois prédios na rua Duvivier, em Copacabana, a poucos metros da famosa praia carioca, é mais simpático do que se costuma imaginar. Na época em que o Beco das Garrafas construía sua mitologia, quatro minúsculas boates dividiam o tal corredor. Três delas — Little Club, Bottle's e Baccarat — se dedicavam à música ao vivo, prática comum no fim dos anos 50 e início dos 60. A quarta oferecia moças a uma clientela bem diferente e foi esquecida pela história.

Numa das boates, o Little Club, Dolores Duran cantou até morrer, em 1959, diante do olhar apaixonado e platônico de um garçom. O garçom era Alberico Campana, que, com o irmão Giovanni, arrendou duas das casas e viu o lugar transformar-se primeiro em sinônimo de música instrumental, com feras como Sergio Mendes, Luis Carlos Vinhas, Luiz Eça, Paulo Moura, Raul de Souza, Edson Machado, Ed Maciel, J. T. Meirelles, Dom Salvador e Dom Um Romão. Depois, em berço do pocket show à brasileira, inventado pela dupla Miele & Bôscoli, e de cantores como Jorge Ben, Elis Regina, Nara Leão e Leny Andrade.

Já em meados da década de 1960, o Beco começou a decair. Os músicos foram tocar nos EUA e até passaram a receber cachê, coisa que não fazia parte do hábito local. Os cantores explodiram em programas de televisão ou palcos bem maiores do que os tablados de dois por dois metros onde se espremiam entre músicos e dançarinos. Até os produtores Ronaldo Bôscoli e Luís Carlos Miele foram ganhar dinheiro em outra freguesia, cansados da falta de grana e do excesso de precariedade. Miele lembra que, no Beco, a mesa de luz era uma velha caixa de sapato "com quatro ou cinco interruptores" e os canhões de luz eram lanternas, "daquelas com três pilhas". Para conseguir ver sentados o show que dirigiam, ele e Bôscoli usavam um estratagema. Ligavam para a boate e reservavam mesa, se passando por jornalistas famosos da época, como Ibrahim Sued e Nina Chavs. Ocupavam o lugar, com as respectivas namoradas, enquanto o figurão não chegava. E ele não chegava nunca.

Agora, depois de longo período às moscas, o Beco começa a renascer, com Miele outra vez à frente, como diretor artístico. Três empresários — Fernando Motta, Carlos Henrique Pollo e Sergio Martino — compraram o espaço. O arquiteto e compositor Carlos Pingarrilho, autor de Astronauta, entre outras músicas, cuida da obra. Ele uniu duas das três boates e criou um espaço para 110 pessoas. No terceiro, com capacidade para 40 passageiros sentados, vai funcionar um misto de museu e local para jam sessions. A data da reinauguração é incerta. Provavelmente, no início do ano que vem, desde que se arranje um patrocinador. Mas o público em vista é muito bem definido, japoneses, europeus e norte-americanos, aquela gente que ainda cultua a bossa nova e assemelhados e estranha enormemente que no Rio de Janeiro, onde esse tipo de música nasceu, não haja um único lugar dedicado a ele.

 

Expediente | Assine BRAVO! | Newsletter | Fale conosco | Mapa do site | Política de Privacidade | Anuncie na Bravo!