
Revista BRAVO! | Outubro/2008
José Flávio Júnior
A crítica é quase unânime em apontar Sonny Rollins como o maior saxofonista de jazz vivo. Na ativa desde o fim da década de 1940, o nova-iorquino de 78 anos dividiu discos e palcos com mitos como John Coltrane, Miles Davis, Thelonious Monk e Coleman Hawkins. Nas searas do bebop e do hard-bop é ele quem tem a carreira mais longeva. As inovações harmônicas nascidas em seu tenor ajudaram inclusive a formatar esses estilos. Rollins ganhou status de ícone sem que para isso praticasse uma música difícil ou tivesse uma história de vida conturbada. Atração principal do Tim Festival 2008, Rollins deu a seguinte entrevista a Bravo!:
BRAVO!: Qual sua opinião sobre o jazz atual? Você acompanha os artistas novos? Ouve discos recentes?
Sonny Rollins: Não. Eu não ouço música nenhuma. Não estou falando só de jazz. Eu apenas não escuto música. Faço a minha própria.
Você lê sobre música?
Não muito freqüentemente. De vez em quando, leio uma resenha sobre algum trabalho meu ou de outras pessoas. Na verdade, também não leio sobre música.
Quando você toca em festivais, pelo menos vai assistir a outros shows?
Sim. Isso, sim.
Algum artista chamou sua atenção em alguma ocasião mais recente?
O último festival em que toquei foi o de Newport. Quem tocou antes de mim foi a banda de Herbie Hancock. Fazia tempo que eu não via o Herbie. Então eu fui conferir. E claro que ele é um ótimo músico. Ele estava fazendo o que sempre faz. Tinha algo de comercial, mas Herbie é tão bom que pode fazer o que quiser. Não estou querendo diminuí-lo. Acho que ele tem o direito de expandir o jazz para alcançar os que não estão familiarizados com o estilo.
Todos esses músicos vêem você como uma lenda viva do jazz. Como você se sente nessa condição?
(Rindo) Eu não sei como me sentir com relação a isso. Ainda sou apenas eu. Não sei como agir. É bem difícil ser uma lenda viva, sabe? Mas acho que isso deve ser bom. Provavelmente eles me respeitam por causa disso. Pelo menos assim espero.
Você acha que o jazz ainda tem uma força política? Que os músicos de jazz podem contribuir para a eleição do Barack Obama, por exemplo?
Essa é uma pergunta interessante. Provavelmente seria bom para os Estados Unidos ter o Obama como presidente. Se o Obama fosse eleito, seria um bom sinal no aspecto social. 'Oh, tem um presidente negro nos Estados Unidos...". Seria uma mensagem para diminuir o preconceito vigente. Sobre a questão da força política do jazz, eu a entendo de forma um pouco mais ampla do que ajudar a eleger um candidato. O jazz é político mesmo sem tentar ser. Jazz é a música da liberdade. As pessoas que controlam o mundo muitas vezes não querem liberdade. Preferem dizer o que as pessoas têm de fazer. O conceito do jazz é o oposto disso. Jazz é improvisação. Eu toco o que chega até mim. Fecho os olhos e liberto o que está na minha mente.
Uma revista americana pediu as dez canções favoritas dos dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, e Obama colocou na lista uma canção interpretada pela Nina Simone. Isso pelo menos indica que ele gosta de jazz, não?
Alguém me disse que ele curte jazz e que conhece a obra de John Coltrane. Mas eu tenho minhas dúvidas. Isso tanto pode ser verdade como mentira. Os conselheiros do Obama podem ter dito para ele dizer que gosta de jazz, rock alternativo, hip hop e Bob Dylan para ele conquistar o eleitorado mais jovem. Na verdade, tenho o pé atrás com todos os políticos. Mas não quero cortar o entusiasmo das pessoas. Obama pode ser melhor do que a mesma coisa de sempre, mas acho que ele não vai ter capacidade de lutar contra todas as pessoas mesquinhas e egoístas que mandam no planeta.
Você ainda tem a chama da criação? Ainda tem prazer em escrever música nova?
Com certeza. Escrever música é uma das coisas mais difíceis de fazer. Atualmente, para mim, é a coisa mais difícil. Eu adoro escrever coisas novas e fico tentando fazer isso a todo instante. Mas preciso me concentrar bastante. Exige muito de mim.
A morte da sua mulher o inspirou a escrever algo?
Espero que sim. Ainda não escrevi nada com ela em mente. Mas tenho certeza de que tudo que faço é um reflexo da nossa longa relação. Fomos casados por 45 anos. Tudo o que escrevo acaba sendo dedicado a ela, de um jeito ou de outro.
Alguma coisa na música pop interessa a você?
Eu gosto de hip hop. Para mim, é uma outra encarnação do jazz. É jazz sem instrumentos. Tem muita improvisação, está sob o mesmo guarda-chuva do jazz.
Você acha que seus colegas jazzistas concordam com essa afirmação? Muitos não parecem tão abertos para a música negra contemporânea.
É que eles não têm a perspectiva certa. O hip hop é geracional. É o resultado de várias coisas que aconteceram nos Estados Unidos. Instrumentos como trombones e saxofones foram tirados das escolas. Houve uma conspiração para varrer as escolas de qualquer traço de música negra. Acredito que a intenção era essa, apesar de os responsáveis dizerem que não havia dinheiro para manter a educação musical no ensino básico. O fato é que a arte foi tirada da escola e os garotos jovens não tinham nada para se expressar. Então eles começaram a rabiscar nos discos. Isso é jazz. Não é o jazz instrumental como o que eu faço, mas é jazz. Eles arrumaram um jeito de colocar sua criatividade para fora.
O show
Sonny Rollins se apresenta no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 21 (R$ 250) e 25 (grátis), e na Marina da Glória, no Rio, no dia 23
(R$ 120 e R$ 250).
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