
Revista BRAVO! | Outubro/2008
José Flávio Júnior
A história de Mallu Magalhães é sensacional. Talvez a melhor do ano. Mas não valeria nada caso seu disco de estréia fosse um grande desapontamento. E isso é justamente o que ele não é.
Desde o início de sua confecção, tudo deu certo. O empresário de Mallu sonhava com Mario Caldato Jr. na produção e mandou o link do MySpace dela para que fosse avaliado. Mario achou o trabalho interessante e quis ir a um show para ver Mallu em ação. Percebeu então que ela era "de verdade". Que tinha controle da situação e fazia algo genuíno.
No estúdio A.R., na Barra da Tijuca (RJ), Mario, Mallu e seus músicos conviveram por duas semanas. Apelidado por ela de Marioca, o produtor logo entendeu que estava lidando com uma artista extremamente criativa e travessa. Quando ouviu a balada jazzy Noil, lembrou de Nina Simone. E ficou ainda mais fascinado pelo tesouro que tinha em mãos. Queria terminar logo as gravações para mostrar o material ao amigo Jack Johnson, que, além de músico, lança talentos pela gravadora Brushfire Records.
Noil é "lion" (leão) ao contrário. A música fala de uma garota que tem o espírito dominado por um leão e sai fazendo coisas inimagináveis. É, sem dúvida, a faixa mais impactante das 14 registradas no début, além de ser a que resume o que foi a trajetória de Mallu até aqui. Num arranjo que tem tudo a ver com o primeiro disco de Angela Ro Ro, a menina do Morumbi canta com uma dor que parece não ser dela. Mas talvez seja.
O leão está na capa do CD, em desenho da própria cantora. A cada faixa finalizada no A.R., Mallu fazia um desenho correspondente e o pregava num mural. Seu traço infantil cativou as filhas de Mario, que o visitaram no último dia de gravação. Assim que pisaram no estúdio, Isabella, de 7 anos, e Luiza, de 4, correram para o mural e ficaram observando os desenhos. Mario aproveitou para gravá-las tocando apitos em Angelina, outro destaque do disco. As meninas já tinham ouvido a música em casa e se apaixonado, provando que Mallu dialoga tanto com um experiente produtor de 47 anos quanto com a criançada.
Uma pena ter registrado apenas duas composições em português: Preço da Flor, que remete a Los Hermanos e no disco ganhou um verniz de rock psicodélico, e Vanguart, um countryzinho singelo. Depois da gravação do álbum, Mallu passou a escrever mais em português e já fala em voltar para o estúdio no ano que vem. Contudo, o que temos agora é J1, Get to Denmark, Sualk, Dry Freezing Tongue, It Takes Two to Tango... Bonitas melodias da Mallu de 15 anos, que entrou carnívora no A.R. e saiu vegetariana (assim como Marioca), mostrando-se em constante mutação. Se tudo continuar dando certo, a Mallu de 16 será ainda melhor.