
Revista BRAVO! | Novembro/2008
Por Arthur Dapieve
Michael Stipe não tem idéia do estrago que causou quando esteve no Brasil pela primeira vez. Na hora em que o vocalista do R.E.M. encerrava It's the End of the World as We Know It (and I Feel Fine) no festival Rock in Rio 3, o publicitário Bernardino de Oliveira olhou de uma maneira diferente para a estagiária ruiva da agência Milano & Associados, Adelaide Torres Novaes. Era a madrugada de 14 de janeiro de 2001.
Nas 15 semanas seguintes, a esfingética e calipígia lolita de cabelos (e pêlos) vermelhos acabou com o mundo de Bernardino, tal como Stipe predissera. O quarentão, porém, nem se sentiu tão bem assim. Louco de tesão, ele jogou a pá de cal no terceiro casamento, entrou em parafuso profissional, bebeu todas, cheirou muitas, sujou a barra das calças no inferno. Foi daquelas histórias das quais se diz que daria um livro. Deu, aliás. Dino e Laide são os personagens principais de meu primeiro romance, De Cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo, lançado em 2004.
Hoje, quando o R.E.M. está novamente a caminho do Brasil, o velho homem de publicidade o gênio que criou a lendária campanha da Margarina Napoleão III, todo mundo se lembra dela, não é? tem 54 anos, mas ainda adora rock'n'roll. A ex-candidata a publicitária sim, ex, porque a ninfeta trocou de habilitação na faculdade na semana em que a agência faliu tem 27 anos e ainda adora música popular brasileira, quanto mais velha guarda melhor. Certas paixões nunca terminam. Outras apenas se esbarram por aí.
Oi, Dinooo!
(Ferrei-me, pensa o cinqüentão ao escutar a voz por sobre o ombro.)
Hã, Adelaide, tudo bem contigo? Quanto tempo...
Que surpresa te encontrar logo aqui! Lembro você dizendo que odiava botequim pé-limpo... E aí eu encontro Bernardino de Oliveira no balcão do Alambique Mauriçola!
Era o balcão mais perto de casa... Deu sede... Aí...
Agora você mora no Jardim Botânico, então? Legal, eu trabalho aqui, lá em cima, numa assessoria de imprensa. Viemos comemorar a assinatura com um cliente importante.
(Ela olha para trás, para uma mesa com duas barangas mais velhas e três rapazes barbudinhos. Aproveito e dou-lhe um confere na bunda. Parece permanecer de pé. Devem ter revogado a lei da gravidade numa das semanas em que eu não li jornal.)
Mas o mais incrível de te encontrar é que ontem mesmo eu pensei em você!
Sua privada entupiu?
(Eu me odeio por ter dito isso.)
Dã... Foi quando soube que o R.E.M. ia voltar. Só podia me lembrar de você, né?
Só ontem você soube que o R.E.M. estava voltando? Superantenada, hein?
Vai ficar me sacaneando ou admitir que também pensou em mim quando soube?
(Touché.)
Não, lamento, mas não pensei. Você vai sobreviver,
Adelaide, juro.
Sei... Eu não só ainda tenho aquele CD-R que você me gravou depois do show, para eu conhecer o trabalho do R.E.M., como carreguei ele todinho no meu iPod.
(Sete anos depois, a facilidade da moça trocar de assunto continua surpreendente.)
Diz aí o que está rolando no seu iPod, Dinooo, diz. Chego em casa e baixo tudo.
E eu sou lá homem de ter iPod? Tenho um discman quebrado e olhe lá.
E depois a superantenada sou eu...
Vem cá, Laide. Me diz qual é a graça de se escutar um arquivo que você não pode enxergar? Sem capa, sem ficha técnica, sem encarte com as letras. Eu sou um publicitário, lembre-se. Para mim, a embalagem é tão importante quanto o conteúdo, é ela quem me ajuda a vender o peixe. O que seria da música do Pink Floyd sem as capas da Hipgnosis?
A capa é acessória, Dinooo, a ficha é acessória. O que importa é a música, e a música é imaterial. Pensa em Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Roberta Sá...
Olha, eu penso muito na Roberta Sá...
Dã... Tarado. Até a música do R.E.M. é imaterial! Você me disse que nos discos não havia encarte com letras e que nos primeiros clipes eles nem apareciam. Imagem agora importa, então?
Eles mudaram, ainda bem. Você viu o clipe de Losing my Religion, aquela coisa linda, não viu? Além do mais, com o tempo, eles passaram a botar letras nos encartes. Primeiro, apenas uma, a de World Leader Pretend, do álbum Green, de 88. Por quê? Era o reconhecimento de que a letra sobre os senhores da guerra precisava chegar direito às pessoas, sem correr o risco de ficar soterrada pelos instrumentos ou pelas letras herméticas do Stipe... Dez anos depois, a partir de Up, todos os álbuns deles passaram a vir com todas as letras no encarte. Com quase três décadas de carreira, o R.E.M. finalmente atinou que pode dizer coisas relevantes às pessoas, inclusive é o que as pessoas esperam. Não que não dissessem coisas relevantes antes. It's the End of the World as We Know It (and I Feel Fine), por exemplo, diz muito, não diz? E é de antes de tudo isso, é de Document, o álbum de 87.
Pelo visto, você está muito animado pro show...
(Pode apostar seu traseiro que sim, honey.)
Já consegui ótimos ingressos na área vip com um dos patrocinadores, que é meu cliente. Você sabe que eu sou fã dos caras desde que ouvi Pilgrimage pela primeira vez, na velha Fluminense FM... Deve ter sido em 83, 84... Não posso usar o clichê de que eles só foram ficando melhores porque fizeram uns álbuns bem fraquinhos, tipo Monster, de 94, ou Around the Sun, de 2004. Mas os álbuns do comecinho dos anos 90, uau! Out of Time e Automatic for the People são estupendos, o sarcasmo pós-punk convivendo com incursões na tradição musical americana... Se não me falha a memória, pus muita coisa desses dois discos naquele CD-R. Radio Song, Low, Shiny Happy People, Texarkana, Drive, Man on the Moon, Everybody Hurts... Você lembra do clipe dessa? O Stipe passeando por entre os carros num engarrafamento, ouvindo os dramas, como os anjos de Asas do Desejo, do Wim Wenders... E a letra? E a letra? "Quando você acha que teve o bastante dessa vida, bem, segure a onda, não se vá, porque todo mundo chora e todo mundo às vezes sente dor"?!
É sobre suicídio, né?
É, Laide, mas não é só sobre suicídio, é sobre a barra pesada que é sobreviver. Se Automatic for the People, que é de 92, já era maduro, o que esperar dos caras agora?
Três velhinhos assanhados?
(Comigo, quatro.)
Como é que você faz? Dã? A banda sentiu demais a saída do baterista original, Bill Berry, em 97. Ele tinha tido um aneurisma cerebral e decidiu largar a vida cansativa, a estrada, pôr o boi na sombra. Literalmente. Ele vive enfurnado num rancho. Para complicar, o baixista Mike Mills teve um tumor no intestino pouco depois, e o próprio Stipe teve de operar uma hérnia. Só o grande Peter Buck, um dos meus heróis da guitarra, não entrou na faca. Essas coisas põem a gente pra pensar na transitoriedade da vida...
Não vai virar o bêbado melancólico agora não, né?
Bêbado, eu?! Estás me estranhando? Além do mais, o chope daqui é um lixo.
Tá bom, você não está bêbado, só fala assim sobre as coisas que ama... Sempre gostei desse teu jeito, você sabe. E o CD que eles vêm vender na turnê, o que você achou?
(A troca de assunto às vezes surge para o nosso próprio bem.)
Pois é, este é um ponto importante. O R.E.M. é um grupo que ainda lança álbuns dignos desse nome. Parece obviedade falar, mas na era do MP3... É raridade. Os álbuns hoje voltaram a soltar as músicas na vida, para ver qual delas se dá melhor sozinha nas paradas ou nos iPods, como nos primórdios do LP. Vinil, no seu idioma. O R.E.M. não produz faixas para serem fatiadas em arquivos digitais únicos, sem relação entre si. São de uma velha guarda, a minha. Não que os álbuns dele sejam conceituais, sabe, com as faixas todas interligadas, contando uma historinha. Você se lembra que publicitário se amarra num conceito, né? E as letras do Stipe flertam muito com o incompreensível para costurar algo... Mas cada CD tem um clima próprio, de acordo com o espírito da banda. Ou do tempo. Já ouviu falar em Zeitgeist? Os grandes artistas captam, recriam e devolvem pra audiência.
Tá, mas você rodou, rodou e não me falou de Accelerator...
Accelerate, Laide. É do cacete. É a perfeita tradução do título. Acelera, roqueiro, pesado, direto ao ponto, seja nas músicas, que vêm quase emendadas, seja nas letras, mais diretas do que nunca, acho. E a capa é em preto-e-branco, o essencial. De som, são menos de 35 minutos ininterruptos, o que, pensando bem, talvez seja uma concessão à turma que não consegue ouvir nada com mais de três minutos, esse povo do iPod... Quatro das 11 músicas têm menos de dois minutos e meio!
Ei, gostei disso.
A letra de Accelerate descreve um homem que afunda rapidamente, com pesos amarrados aos pés, mas avisa que há milhares de outros afundando mais rápido. "Eu vi o futuro de cabeça para baixo e hesitei", ele diz. "A paisagem que vejo agora está mudando, a incerteza está sufocando." O tema pode ser o mundo pós-11 de Setembro, certo, pode ser a crise das hipotecas nos Estados Unidos, certo, mas pode ser também a declaração de um roqueiro veterano tentando se manter à tona depois de uma má fase, não pode? É quase explícito. Duas faixas antes, em Hollow Man, Stipe tinha cantado "você confiou em mim, eu vou lhe mostrar que não quero ser o homem oco". Você já leu T. S. Eliot?
Quem?
Esquece, não importa. Em I'm Gonna DJ, a última faixa deste álbum, mas que já tinha aparecido no duplo R.E.M. Live, lançado no ano passado, outra música que fala da inexorabilidade da morte, por sinal, ele conta que está colecionando vinil para tocar como DJ no fim do mundo. Saca a ironia? O refrão oferece esperança. "A música fornecerá a luz, você não poderá resistir", ele avisa. Fecha direitinho com uma declaração parecida, da primeira faixa, Living Well Is the Best Revenge. "O futuro é nosso e você nem merece uma nota de pé de página", promete. Se o Michael Stipe promete, eu só posso esperar. Você lembra dele erguendo os braços no Rock in Rio, como Moisés abrindo o Mar Vermelho?
Lembro. Legal, né? Bom, Dinooo, adorei te reencontrar. Quer sentar com a gente?
(Nem morto.)
Não, Laide, obrigado, já vou pedir a minha saideira...
Ah, lembrei agora, como está o PH, seu parceiro de copo lá na agência?
O Pedro Henrique está bem. Morreu faz três anos. Cirrose, claro. As coisas se aceleram com a idade. Adeus.
Arthur dapieve é jornalista e escritor. Bernardino e Adelaide são personagens de seu primeiro romance, De Cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo (Objetiva, 2004). O escritor está lançando novo romance, Black Music, pela mesma editora.
Onde e Quando
O R.E.M. se apresenta em Porto Alegre (dia 6, no Estádio do São José. R$ 80 a R$ 300), Rio de Janeiro (dia 8, na HSBC Arena. R$ 138 a R$ 483) e São Paulo (dias 10 e 11, no Via Funchal. R$ 200 a R$ 500).