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Jesse Froman/ Bunko
A cantora Meredith Monk. Ela integra várias linguagens artísticas em seu trabalho
A cantora Meredith Monk. Ela integra várias linguagens artísticas em seu trabalho

 

Revista BRAVO! | Novembro/2008

A Musa de Todos

A cantora americana Meredith Monk, que se apresenta neste mês no Brasil, é pouco conhecida do grande público. Suas idéias, no entanto, influenciaram criadores de várias áreas, da vanguarda erudita ao pop de massas

Elisa Tozzi

Em 2002, a constatação de que nada é duradouro atingiu em cheio a multiartista nova-iorquina Meredith Monk: aos 56 anos, sua companheira Mieke van Hoek, uma coreógrafa holandesa com quem Meredith compartilhava suas criações, morreu de câncer. O fato fez com que a cantora, compositora, pianista, cineasta e coreógrafa performática, de 65 anos, passasse a se preocupar não só com a transitoriedade da vida, mas também com a efemeridade de sua própria arte.

A partir dessa inquietação, ela criou o espetáculo Impermanência, que chega neste mês a São Paulo. A apresentação mistura canto, dança, performance, vídeos, sons de clarinetes, piano e até de rodas de bicicletas. Se antes a cantora se restringia às rodinhas dos iniciados, agora reviu suas limitações e parece querer construir um legado musical. As palestras e workshops que fazem parte da turnê de Impermanência e a doação de seus arquivos artísticos à Biblioteca Pública de Nova York só reforçam sua vontade de ampliar seu já estrelado leque de influenciados. Nos últimos anos, Meredith esteve longe das paradas de sucesso. À medida que seu nome deixava de ser evocativo para o grande público, crescia em prestígio entre os artistas. De compositores de vanguarda a cantores pop como a islandesa Björk, são vários os criadores que prestam tributo ao seu legado. 
Aos 22 anos, Meredith notou que a voz poderia ser um poderoso instrumento musical. Aperfeiçoou-se no estudo da técnica vocal, mas sua grande contribuição foi criar um trabalho musical que integrava artistas de diversas áreas. Em 1969, foi pioneira na arte performática unindo 85 artistas para cantar e dançar atrás de um cavalo guiado por uma amazona na Quinta Avenida. Na década de 1980, aventurou-se ainda pelo cinema, dirigindo Ellis Island e Book of Days.

Entre os anos 70 e 80, o trabalho de Meredith se tornou referência entre os músicos eruditos de vanguarda. Vivia-se a decadência da dissonante escola dodecafônica, e os jovens compositores procuravam algo que fosse menos cerebral. O trabalho de Meredith vinha a calhar, por propor a integração da música com outras áreas da arte. Quando o papa da vanguarda brasileira Gilberto Mendes colocou no palco um homem e uma mulher nus se beijando em frente a um microfone superamplificado (na música Der Küss, ou O Beijo) ou compôs mesclando os sons de locutores esportivos e de torcidas dos estádios de futebol a acordes orquestrais (em Santos Football Music), estava de certa forma aludindo a procedimentos consagrados por Meredith nos anos 60.

A concepção formulada pela americana de que a música não precisa ser compreendida racionalmente foi apropriada pelo grupo paulistano Mawaca. Fundado em 1993 pela musicista Magda Pucci, o Mawaca busca em idiomas desconhecidos a inspiração para suas composições. Em seu novo trabalho, o disco Rupestres Sonoros, a irracionalidade textual é levada ao extremo com músicas que brincam com palavras de diferentes línguas. "Esses vários ruí­dos ininteligíveis são ligados conceitualmente à música de Meredith, que vê o som como uma entidade que não precisa de tradutores nem de palavras", explica Magda.

O que é fascinante na trajetória de Meredith é a maneira como sua influência caminha para a arte de massa.Sua faceta de artista múltipla seduziu, nos anos 80, uma islandesa que mais tarde se tornaria popstar. Björk tinha apenas 16 anos quando ouviu a música de Meredith pela primeira vez, e deve isso a um namoradinho da adolescência. Foi ele quem lhe mostrou o CD Domen Music (1980), com a qual a jovem — na época interessada mais por música instrumental — se maravilhou. O encantamento foi tamanho que, anos depois, em 2001, ela gravou a música Gotham Lullaby, uma das faixas do disco. Fã de Meredith, Björk encontrou em sua inspiradora técnicas responsáveis por seu estilo vocal ofegante e visceral. O diálogo da islandesa com outras áreas, como o cinema e as artes plásticas, aumenta ainda mais a semelhança entre a jovem e a veterana que teve, nos anos 90, suas composições descobertas pelos cineastas. O francês Jean-Luc Godard utilizou uma de suas músicas na trilha do longa Nouvelle Vague (1990), e os americanos Joel e Ethan Coen incluíram uma de suas criações no filme O Grande Lebowski (1998). Depois de influenciar tanta gente, o título de seu novo espetáculo, Impermanência, soa no mínimo, paradoxal.  

Onde e Quando
Impermanência. Meredith Monk e Vocal Ensemble se apresentam no Teatro do Colégio Santa Cruz, nos dias 14, às 21h, e 15, às 17h e 21h. Rua Orobó, 277, São Paulo, SP. Tel. 0++/11/ 3024-5199. Preço a definir.

 

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