
Revista BRAVO! | Janeiro/2009
Arthur Dapieve
Assista a uma seleção de vídeos dos discípulos de Elton John
A rua parecia vazia de gentes e de automóveis. Era insólito mesmo para um sábado à noite. O conforto da Mourato Coelho logo sumiu no vidro traseiro do radiotáxi pedido de véspera, para não haver erro, e as ruas do trajeto se sucederam como se vistas na velocidade 18X do aparelho de DVD. Vapt. Luís Murat, Henrique Schaumann, Ásia, Lisboa, avenidas Sumaré e Antártica, marginal Tietê, avenida Santos Dumont, praça Campo de Bagatelle, avenida Olavo Fontoura. Vupt. E, no entanto, o Honda do motorista nissei nem parecia se mover. Só não havia semáforos vermelhos, nem tráfego, nada, apenas a paisagem a voar pela janela. "Onde estão as pessoas?", pensava Vanda, encolhida no banco de trás. "O show foi cancelado e a gente não sabe?! Não posso me desencontrar dele... De novo, não!"
Sua angústia passou dentro do Anhembi. Quando ela deu por si, já estavam postados diante do palco, dois copos de plástico com cerveja nas mãos, à frente de quase todas as 30 mil pessoas. Tudo tão rápido! Ela nem se lembrava de ter descido ou pago o táxi. Rafael deve ter pago, com certeza. Não, ela não iria se desencontrar dele de novo, não. Quatorze anos atrás, em Ribeirão Preto, Vanda tinha passado a noite chorando, por imaginar o que perdia no Ibirapuera. "Mas essa noite, não, Elton John é meu!", brindou silenciosamente ao céu com diamantes, sem nuvens. Ela nem se importava em ter de ver James Blunt choramingar antes. Apesar de reconhecer que o timbre dele às vezes lembrava o da atração principal, ela achava que lhe faltava a energia característica do seu amado Elton.
Quando as luzes se apagaram, Vanda jogou o que sobrava de cerveja para o alto e começou a berrar. Seu sobrinho olhou-a espantado. Ninguém mais pareceu se importar. Nem, muito menos, alguém se importou de não ser James Blunt a aparecer no palco e sim Sir Elton John, em carne, osso, óculos amarelos e uma cauda de pavão saindo das costas do seu paletó roxo. Ele desceu a rampa de lantejoulas e sentou-se ao lendário piano vermelho. Antes do primeiro acorde, Vanda achou que fosse desmaiar. Olhou para Rafael, de modo a se certificar de que ele estava ali mesmo e de que poderia ampará-la, se necessário. Ele estava ali e poderia, sim, ampará-la. Desde, claro, que descruzasse os braços. Fora difícil convencê-lo a ir ao Anhembi. O rapaz de 22 anos achava que ia ficar malfalado entre os amigos de Pinheiros, todos também fãs de Metallica e System of a Down.
"Hey kids, shake it loose together/ The spotlight's hitting something/ That's been known to change the weather/ We'll kill the fatted calf tonight/ So stick around/ You're gonna hear electric music/ Solid walls of sound." O início clássico! Bennie and the Jets. De Goodbye Yellow Brick Road, de 1973, o "seu" disco. Vanda tinha de 13 para 14 anos quando os pais lhe trouxeram aquele álbum duplo, vinil pesado, de uma viagem aos EUA. Disseram que não se ouvia outra coisa por lá. A filha caçula dos Aretini se apaixonou por Elton John à primeira audição e logo descobriu na rádio que Goodbye Yellow Brick Road completara oito semanas seguidas no primeiro lugar da parada da Billboard. Ela teve a impressão de que todo o Anhembi cantava Bennie and the Jets junto com ela, a platéia fazendo papel de platéia, as pessoas chiando em "Jetsss" como se fossem cariocas.
Bennie and the Jets sempre foi uma balada forte, mas naquela noite o piano parecia especialmente poderoso, até no solo de Elton. "Deus, ele já está com quase 62 anos, será que aguenta esse ritmo o show inteiro?", maravilhou-se Vanda. A música, porém, nem chegou a morrer. Ele emendou com outra de Goodbye Yellow Brick Road, Saturday Night's Alright (For Fighting). Se fosse levada numa guitarra, talvez Rafael gostasse dela. Era rock pesado! Só que Elton era só um pianista... Isso sempre o fez ser rejeitado por roqueiros em geral. Isso e, claro, o fato de ser gay. "E daí?", irritava-se Vanda. "A vida é dele!"
Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player, aliás, era o título do disco de onde Elton extraiu e também emendou a terceira canção da noite, Crocodile Rock, com seu jeito de rock ingênuo da década de 50. Lançado anteriormente naquele mesmo 1973, o LP havia sido o segundo de Elton a rodar na vitrola dos Aretini. Vanda deu um jeito de economizar na mesada e comprar os seis LPs anteriores. Seis, lançados desde 1969! Com o tempo, a sua "eltoniana completa" totalizaria 35 títulos, sem contar versões alternativas trazidas de viagem por amigos ou alunos. Ela não confessava a ninguém, nem à irmã mais velha, mas não, não gostava de alguns daqueles discos. Bem, não como gostava dos outros... Eram o Tumbleweed Connection, de 1971, o Captain Fantastic and the Brown Dirty Cowboy, de 1975, e o The Captain and the Kid, de 2006. "Discos para a crítica", torcia o nariz. Ela reprovava tanto a pretensão que desprezava hits quanto a fascinação pelos Estados Unidos. Que essa fascinação fosse mais do letrista Bernie Taupin do que de Elton só piorava as coisas. "Bernie e seu rancho no Colorado, rá!", desdenhava.
Vanda sempre esteve ciente da orientação sexual de seu ídolo. Ninguém se veste de Minnie Mouse ou usa óculos zebrados XXL sem ter alma de vedete. Ainda assim, ela sentia ciúmes de Taupin. Gostava até de acreditar, como ele e Elton sempre apregoaram, que a relação dos dois era platônica. Às vezes, inclusive, Vanda se perguntava se a opção de ficar para titia não era esperança inconsciente de dividir os lençóis na mansão do Sir da chiquérrima vizinhança de Holland Park, em Londres. "Tem fã que é cega...", suspirava.
No palco do Anhembi, o homem da sua vida, que nascera Reginald Kenneth Dwight, mas mudara de nome em cartório para Elton John em 1967, antes de gravar qualquer coisa, não dava mostras de querer lhe dirigir a palavra, a não ser cantando. Sem tirar as mãos das teclas, ele partiu para Philadelphia Freedom, esfuziante exemplar de seu flerte com a discothèque, e Pinball Wizard. Vanda olhou de novo para o sobrinho. Rafael balançava os ombros suavemente, sem querer ser notado. Afinal, ele sabia que aquela não era de Elton John & Bernie Taupin, e sim do The Who. Descobrira Pete Townshend graças a um cover do Limp Bizkit. Vanda descobrira Tommy graças a Elton, partida e chegada de toda a sua vida.
— Boa notche, San Paulo!
Era ele. Era com ela. Finalmente. Vanda traduziu no ouvido de Rafael:
— É um prazer estar de volta, após tanto tempo. Bem, muitos de vocês não deviam nem ser nascidos... Mas espero que todos aproveitem a turnê Rocket Man.
Como mal ouvia algo sob as barragens das guitarras do heavy metal, o rapaz nunca se dera ao trabalho de aprender inglês à vera, mesmo tendo uma tia professora. Elton até ensinara Vanda a falar inglês, com sua pronúncia perfeita, com as letras de Taupin, bonitas, complicadas, às vezes impenetráveis. Se Paul McCartney havia lhe ensinado o bê-á-bá no primário, Elton fora ginásio, clássico, letras no Mackenzie. Vanda defendia em público, inclusive, que ele era um hitmaker mais bem dotado do que o ex-beatle. O casamento perfeito da melodia com a letra facilitava a memorização. E o aprendizado, lógico.
A pausa para as banalidades de praxe foi sucedida por três baladas daquelas, que a platéia acompanhou balançando celulares iluminados: Daniel, I Guess that's Why They Call it the Blues e Don't Let the Sun Go Down on Me. "É perfeito demais!", emocionou-se Vanda. No meio da terceira balada, uma surpresa. George Michael surge dos bastidores e faz um dueto com Elton. Vanda devorara tudo que era possível sobre o show na internet. (Só não confiara nela na hora de comprar os ingressos. Passara duas horas e meia na fila do Pacaembu, os R$ 1.100 para as duas "pista vip" num bolso e muito medo de ser assaltada.) "Como ninguém falou que o George Michael ia dar uma canja, como no clipe?!", espantou-se. "É perfeito demais para ser verdade! Um aluno homenageando o seu mestre!" Aplausos.
"Blue jean baby/ L.A. lady/ Seamstress for the band/ Pretty eyed, pirate smile, you'll marry a music man", entoou Elton em seguida. Tiny Dancer. De novo, Vanda achou que fosse apagar. Era uma das suas três músicas favoritas entre as obras-primas dele. Tanto que a professora nem sentiu falta da orquestra que, no LP Madman Across the Water, de 1971, fazia a canção ir crescendo, crescendo... Rafael continuava ao seu lado, quieto, embora essa fosse outra das que ele conhecia, da cena de reconciliação no ônibus do filme Quase Famosos. Ali, o diretor Cameron Crowe entendera tudo. Talvez fosse isto que Vanda mais amasse em Elton: a capacidade de fazer canções que dão vontade de cantar junto, por mais que falem de solidão, como frequentemente fazem. Caso também da segunda das suas três músicas favoritas, Mona Lisas and Mad Hatters, do LP Honky Château, de 1972...
"And now I know/ Spanish Harlem are not just pretty words to say/ I thought I knew/ But now I know that rose trees never grow in New York City", respondeu Elton. A canção não estava em nenhum roteiro na internet, nem estava entre as 17 faixas de Rocket Man: Number Ones, a antologia que ele viera divulgar, claro. Por isso, Vanda se achou no paraíso. Achou que o bandolim que conversa com o piano era uma harpa de anjo.
"And I thank the Lord for the people I have found", gritou o verso duas vezes e jogou os braços para o céu estrelado. — Obrigado, senhor!
As pessoas se abraçaram aos primeiros acordes da música seguinte, Rocket Man, afinal. Do mesmo disco de 1972. Naquele exato ano, David Bowie imaginara um astronauta se desligando voluntariamente no espaço. Já o de Elton e Bernie sentia saudades da mulher, era humano, não um doidão. Abraçada ao constrangido sobrinho, Vanda começou a chorar quando veio Goodbye Yellow Brick Road e assim continuou durante a pausa para o bis. Bis? Já?! Tudo tão rápido! Onde estava The Bitch Is Back? Onde estava Candle in the Wind? Onde estava a sua terceira música favorita "It's a little bit funny this feeling inside ", respondeu a voz no palco ainda às escuras. Era Your Song, daquele álbum lindamente barroco, o Elton John, de 1970. "Ai, Deus, é emoção demais...", pensou Vanda, no exato momento em que o despertador tocou.