
Revista BRAVO! | Fevereiro/2009
Por José Flávio Júnior
Existe um critério infalível para avaliar uma biografia. Se agrada a todos — inclusive o biografado —, com certeza é ruim. Se irrita muita gente, tem grandes chances de ser boa. Em 2003, o jornalista inglês Philip Norman procurou a artista plástica Yoko Ono com o objetivo de escrever um livro sobre John Lennon. Tinha credenciais para isso: Norman é o autor da melhor biografia já lançada sobre os Beatles, Shout!: The Beatles in Their Generation, publicada em 1981. Yoko topou ajudar, cedendo entrevistas e contatos. Norman então foi atrás de Paul McCartney, de outros familiares, de amigos de infância, de integrantes do entourage dos Beatles... Mas, se em princípio Norman contou com a colaboração da viúva e de Paul (que respondeu a várias perguntas por e-mail), quando o livro ficou pronto ambos decidiram retirar o apoio. Yoko acusou Norman de ter sido muito malvado com Lennon — embora não tenha encontrado nenhuma informação incorreta que abrisse a possibilidade de processar o jornalista. Sinal inequívoco de algo que se confirma com a leitura do livro: John Lennon, previsto para chegar às livrarias brasileiras em março, é uma obra espetacular, a biografia definitiva do mais brilhante e controvertido dos Beatles.
O livro irritou Yoko e Paul pela mesma razão que deslumbrará os interessados em cultura pop em geral e os fãs dos Beatles em particular: ele vasculha a fundo a vida e a mente de um dos maiores mitos da segunda metade do século 20. Todas as informações são checadas, não há o mínimo indício de sensacionalismo, e tudo o que é contado nas 851 páginas do livro é relevante para entender a complexa personalidade de John Lennon. O cantor e compositor nasceu num lar conturbado — e nunca nenhum biógrafo esmiuçou com tanto detalhe a vida familiar de Lennon. Um homem que, já adulto, admitiu para amigos ter chegado perto de fazer sexo com a própria mãe na adolescência. Para entender a mente de Lennon, é fundamental compreender sua complexa sexualidade — e Norman investigou o boato de que o cantor teria tido relações homoeróticas com o empresário Brian Epstein, gay assumido, e também a possível tensão libidinosa entre ele e o parceiro Paul McCartney.
Tendo como base a vasta pesquisa feita para o livro, é possível analisar John Lennon de acordo com os relacionamentos que ele tinha com seus familiares (a mãe, Julia, a tia Mimi, o pai, Alfred), com seus amigos íntimos (Brian Epstein e o baixista Stuart Sutcliffe, o Stu), com suas mulheres (as esposas Cynthia e Yoko e as fãs) e com os outros três rapazes de Liverpool (Paul, George e Ringo). Foi essa soma de experiências que formou um dos maiores compositores da história da música pop, líder do grupo de rock que elevou o gênero, então marginalizado, à condição de arte.
John e a família
O pequeno John Winston Lennon cresceu num subúrbio da cinzenta cidade britânica de Liverpool após o fim da Segunda Guerra. Seu pai, Alfred Lennon, então conhecido como Alf (depois ele mudaria para Freddie, também apelido para Alf), trabalhava como mercador marítimo e passava longas temporadas fora de casa. Numa dessas longas ausências, sua mulher, Julia, engravidou de um soldado galês. Para o marido, Julia alegou ter sido violentada. O soldado negou o estupro, e o episódio levou à separação do casal. Em seu retorno seguinte a Liverpool, Alf encontrou Julia já vivendo com outra pessoa (Bobby Dykins, um garçom de hotel) e decidiu que cuidaria da criação do filho John. Só não avisou isso para ninguém.
O primeiro episódio marcante da vida de John Lennon foi uma espécie de sequestro. Com a desculpa de levar o filho para comprar roupas, Alf foi com ele para a cidade de Blackpool, onde morava um de seus amigos marinheiros. Lá eles permaneceram por três semanas, enquanto Alf burilava o plano de emigrar com o rebento para a Nova Zelândia. Julia acabou localizando o ex-marido e descobrindo seu plano. Segundo a biografia, ela chegou a aceitar a ideia de o filho ser criado na Nova Zelândia pelo pai. Mas Alf quis saber do próprio John, então com 6 anos, com quem ele gostaria de ficar. O menino escolheu o pai, mas, quando viu a mãe indo embora, correu atrás dela, gritando para que o pai viesse junto. John só voltaria a ter notícias de Alf após o estouro dos Beatles.
Impedida de ter filhos por vias naturais, a irmã mais velha de Julia, Mary Elizabeth Smith, a Mimi, pediu para criar John. Ela não acreditava que a irmã fosse capaz de dar uma boa educação para a criança. Enfermeira casada com o leiteiro George, Mimi cuidou de John como se fora sua própria cria, apesar de ele encontrar Julia regularmente e chamá-la de mãe. Com Bobby Dykins (que John odiava), Julia teve outras duas filhas (o fruto do "estupro" acabou sendo adotado por um casal norueguês). John achava a situação estranha, mas tinha um ótimo relacionamento com a rígida e afetuosa Mimi e também com o tio George. Aos 15 anos, quando recebeu a notícia da morte do tio, vítima de uma hemorragia no fígado, John se sentiu perdendo o pai pela segunda vez.
Mas nada se compara à dor que ele sentiu quando, três anos depois, a mãe foi atropelada por um policial alcoolizado. John tinha verdadeiro fascínio pela mãe. Era a única pessoa com dotes musicais na família. Ela cantava e tocava banjo. Ensinou os primeiros acordes do instrumento para o filho, que, conhecendo apenas o básico, montou o grupo The Quarrymen, com alguns amigos do colégio Quarry Bank. Ele necessitava do incentivo materno para seguir a carreira artística — Mimi dizia que fazer música não o levaria a lugar nenhum, além de ter o hábito de jogar suas poesias e desenhos no lixo.
O que mais revoltou John foi o fato de que, quando Julia morreu, ele se entendia cada vez melhor com ela. Os dois estavam cada vez mais íntimos. Dez anos mais tarde, já apaixonado por Yoko Ono, John fez uma confissão chocante. Ele se arrependia de nunca ter feito sexo com a mãe. Quando John era adolescente, costumava deitar com a mãe para descansar. Em determinada ocasião, ele teria encostado o braço no seio dela e sentido que, se avançasse, algo poderia acontecer. Ao ouvir o relato, Yoko sensatamente achou que John precisava de terapia. O casal chegou a Arthur Janov, que desenvolveu a terapia do grito primal e fez fama e dinheiro nos anos 70.
O tratamento foi fundamental para a criação de uma das obras mais impactantes da carreira de Lennon, seu primeiro álbum solo, John Lennon/Plastic Ono Band, de 1970. Ele já tinha escrito sobre a mãe (a delicada Julia aparecera no Álbum Branco, dos Beatles), mas não como na nova canção, Mother. Na letra, John finalmente se despedia dela, não sem antes dizer umas verdades: "Mãe, você me teve/ Mas eu nunca tive você/ Eu queria você/ Mas você não me queria".
A faixa também abordava seu relacionamento com o pai. Os Beatles tinham acabado de estourar quando Alf reapareceu; seu surgimento, segundo os tabloides, não poderia soar mais oportunista. Com o passar dos anos, John foi restabelecendo contato com o pai, chegando até a hospedá-lo por um longo período em sua mansão. Mas no aniversário de 30 anos de John, logo após o tratamento com Janov, pai e filho tiveram uma conversa que findou o relacionamento. Enfurecido, John jogou na cara de Freddie toda a angústia que sentira desde a infância por não ter um pai presente. Pediu-lhe que não o procurasse mais e devolvesse a casa que tinha recebido de presente, além de descrever em detalhes como atiraria o pai ao mar se este voltasse a importuná-lo. Freddie acatou as ordens, morrendo de medo — apesar de ter trabalhado no mar por anos e anos, não havia aprendido a nadar.
John e Paul
(e George e Ringo)
Um ano e meio mais novo do que John, Paul McCartney começou a amizade com Lennon por causa da música. O histórico familiar de John nada tinha a ver com o de Paul. O temperamento de ambos também tinha pouca similaridade. Tanto que até hoje John é visto como o beatle rebelde, e Paul, como o beatle bonzinho. Ao longo da biografia de Philip Norman, Paul é descrito como o mel e John, como o vinagre. A verdade é que esse casamento artístico foi perfeito enquanto durou. E, como não poderia deixar de ser, resultou num divórcio dolorido.
John já era o líder do Quarrymen quando Paul foi convidado para participar do grupo. Quando a brincadeira de colégio evoluiu e virou Beatles, John continuou achando que era o líder. E foi assim até o fim da banda. Mas, se a princípio eles compunham juntos, na segunda metade da década de 1960 começaram a se distanciar como autores, apesar de as canções sempre saírem creditadas como Lennon-McCartney. Houve até um período de dois anos em que todas as músicas lançadas como compactos pelos Beatles eram de autoria de Paul. Era como se John tivesse perdido a liderança dentro do grupo. Paul passou, cada vez mais, a ser o responsável pelas músicas redondinhas e com