
Revista BRAVO! | Fevereiro/2008
Por Marcelo Rezende
O que fazer com Michael Jackson? Os números são expressivos (de vendas e escândalos), e as notícias em torno de suas extravagâncias superam em muito os textos críticos sobre seu talento. Jackson 50 anos em agosto parece hoje um artista com um passado e um músico sem futuro, incapaz de oferecer novas idéias. Neste mês, ele quer provar ao mundo ser um sobrevivente com o lançamento de uma edição comemorativa dos 25 anos do álbum Thriller. Trata-se de uma operação para salvar Michael Jackson da bancarrota financeira e emocional vivida por ele nesta década. Mas Thriller é todo um caso. Um disco capaz de ter inventado o pop como gênero, criado um mito e, se isso não bastasse, mudado o comportamento da indústria musical. Thriller fez de Michael Jackson a união de Elvis e Beatles, reunidos em um pacote brilhante no qual insanidade e genialidade são a música de fundo para um show inesquecível.
Thriller foi e continua sendo um fenômeno. Desde seu lançamento, em 10 de dezembro de 1983, foram comprados cerca de 104 milhões de cópias. É o álbum mais vendido da história. Apenas nos Estados Unidos, a venda média anual é de 60 mil unidades. Pouco importa se Michael Jackson é julgado nos tribunais por pedofilia. Ou se seu rosto, com os anos, tenha se tornado o resultado desastroso aqui seu lado Elvis, o ídolo excêntrico de uma experiência científica. Thriller parece não apenas ter passado pela prova do tempo. O disco é à prova de choques.
São milhões as vítimas da "michaelmania". E os números ajudam a contar essa história. No mesmo período em que Michael Jackson preparava Thriller, a gravadora EMI estimava que os Beatles tinham vendido mais de 1 bilhão de discos desde o surgimento da banda, na década de 60. Dois anos após Thriller chegar às lojas, Michael Jackson se tornou proprietário de 200 canções escritas por John Lennon e Paul McCartney, em um negócio envolvendo US$ 47 milhões. O acontecimento se tornou um instante simbólico de uma transformação nas relações de poder na música e na economia de diversão.
Se os Beatles praticamente inventaram uma indústria pop (um produto para o consumidor jovem, comercializado globalmente), Michael Jackson a transformou de modo irreversível. Com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), a banda britânica abriu uma clareira, mostrando para músicos e gravadoras que ídolos adolescentes podem ter ambições criativas - e que em alguns casos são capazes de dar conta dessa ambição. Thriller dá um passo além, demolindo fronteiras que executivos e artistas acreditavam ser intransponíveis.
Quando Thriller aparece, a distinção entre música negra e branca era algo indiscutível. Em meio a essa regra tão rígida quanto a lei da gravidade, Michael Jackson surge diante de uma platéia extasiada dublando a canção Billie Jean em um show em comemoração aos 25 anos da gravadora Motown - especializada em artistas negros, e onde Michael fez sua carreira de astro mirim ao lado de seus irmãos no grupo Jackson 5. Ele anuncia com passos de dança ter descoberto o novo mundo.
Billie Jean é uma canção negra, com batida dançante, mas estranhamente se aproxima do rock, contando com um solo de guitarra. Depois de Billie Jean viria outro sucesso, Beat it, que traz a participação do guitarrista Eddie Van Halen, da banda do mesmo sobrenome. Van Halen não cobrou pela atuação por ter achado o convite inusitado. E, na verdade, era algo impensável. Rock e funk deveriam ficar separados na mente dos músicos. Isso até Michael Jackson, que com a canção que dá nome ao álbum Thriller promove outra transformação. Faz do videoclipe elemento essencial, e consegue ainda que a MTV exiba um artista negro fora de um horário determinado. Fechando o ciclo, o dueto com Paul McCartney em The Girl Is Mine.
Após mais de duas décadas, a trilha aberta por Thriller é o que fez possível a existência de Justin Timberlake, Pharrell Williams, Kanye West, Beyonce e o grupo Black Eyed Peas, entre dezenas de nomes. Uma geração de um pop sem amarras, roubando de toda a parte e cores o que fosse interessante. Na edição especial de Thriller, Kanye West e membros do Black Eyed Peas fazem duetos com Michael Jackson. É o reconhecimento de uma dívida. Sem Michael Jackson, a trajetória de cada um teria sido muito diferente, e agora eles se oferecem para ajudar o antigo ídolo a ter, mais uma vez, um grande destino.
Como Michael Jackson reinventou a indústria da música e não conseguiu reinventar a si mesmo
• O álbum Thriller não respeita as convenções de separação entre gêneros, como rock e funk. Outros músicos tinham tentado, mas apenas Michael Jackson conseguiu, de modo eficaz, tocar milhões com o novo som.
• A partir de Thriller , o pop é visto como gênero pela indústria de discos. Se não é rock, rap ou eletrônico, então deve ser "pop". O fenômeno Justin Timberlake é a grande conseqüência de Michael Jackson hoje.
• O videoclipe da canção Thriller altera definitivamente esse formato. Michael Jackson o aproxima do cinema, convidando o cineasta John Landis para a direção. Com 14 minutos, e ao custo de US$ 800 mil, teve 1 milhão de cópias vendidas.
• Thriller, apesar de toda a mistura, coloca um artista negro pela primeira vez em décadas no centro da indústria, terminando com o que o produtor Quincy Jones definiu como o "apartheid do pop".
• Após o estouro de Thriller, Michael Jackson repete a fórmula com sucesso nos álbuns seguintes, Bad (1987) e Dangerous (1992). Mas não consegue se adaptar a uma atmosfera na qual o rap é dominante.
• Depois de uma avalanche de discos vendidos, Michael Jackson passa a agir publicamente como um personagem bizarro, parecendo menos interessado na música do que em suas obsessões, como se casar com a filha de Elvis.
• Michael Jackson tenta escrever novas canções para um prometido álbum (há rumores de um lançamento neste ano), mas desde 1993 seu tempo e fortuna têm sido consumidos com advogados que o defendem de acusações de pedofilia.
• O sucesso de Michael Jackson aconteceu quando músicos dependiam da indústria. Hoje, com as novas tecnologias, o caminho é a independência, e até agora ele não conseguiu criar uma estratégia para esse novo cenário.
O CD
Thriller (Sony/BMG), de Michael Jackson. Produtor: Quincy Jones. Preço não divulgado.