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O cantor Jim Reid. Ele diz ter odiado cada minuto da década em que seu grupo apareceu
O cantor Jim Reid. Ele diz ter odiado cada minuto da década em que seu grupo apareceu

 

Revista BRAVO! | Novembro/2008

''Nascemos na Época Errada''

O Jesus and Mary Chain não fez sucesso nos anos 80. Hoje, o grupo é cultuado por ter antecipado tendências do rock. O vocalista Jim Reid fala a Bravo! no mês em que sua banda vem ao Brasil, como principal atração do Festival Planeta Terra

José Flávio Júnior

Nenhuma música do The Jesus and Mary Chain alcançou o topo das paradas de sucesso. Nenhuma nem sequer chegou perto disso. Mas isso não impediu que a banda liderada pelos irmãos escoceses Jim e William Reid entrasse para a história do rock como uma das mais influentes de seu tempo. Tempo esse — os anos 80 — que Jim afirma não ter sido o mais adequado para seu grupo. Enquanto os vizinhos irlandeses do U2 começavam a dar os primeiros passos megalomaníacos em 1984, ano do lançamento de The Unforgettable Fire, os rapazes do Jesus faziam seus primeiros shows de costas para a platéia e tirando o máximo de distorção de seus instrumentos. Esse som distorcido, que soava inovador na época, se tornou comum logo depois. Esteve na raiz de vários movimentos roqueiros posteriores, como o grunge de Seattle.

A postura agressiva e ao mesmo tempo despretensiosa, que ia contra o rock comercial vigente, influenciou toda uma geração de bandas e permaneceu no imaginário coletivo após a separação dos irmãos, no fim da década de 1990. Em 2003, a diretora Sofia Coppola incluiu a ruidosa balada Just Like Honey, destaque do cultuado LP de estréia Psychocandy, na trilha de Encontros e Desencontros. Quatro anos depois, o grupo voltava à ativa, tendo como vocalista convidada do primeiro show a atriz principal do filme, Scarlett Johansson.

No Festival Planeta Terra, Jim, 46 anos, reencontrará o público que o aplaudiu no extinto Projeto SP, em 1990, além de uma nova geração ávida por barulho. Na entrevista a seguir, ele fala do papel do Jesus na história do rock, comenta a relação conturbada com o irmão e assume que a abstinência alcoólica o deprime.

BRAVO! Você vê alguma banda atual abordando o rock da mesma maneira que o Jesus na década de 80?
Jim: Difícil dizer. As coisas mudaram muito, os problemas das bandas são outros. E o tipo de música que a gente fazia em 1985 hoje chega às paradas de sucesso. Você tem bandas com guitarras bem altas tocando para milhões de pessoas. Quando a gente começou, isso era impossível.
 
Como surgiu a idéia de encher as músicas de guitarras ruidosas e distorção?
Nasceu naturalmente. A gente nunca discutiu como a banda deveria soar. A verdade é que não éramos grandes músicos. E, se você não sabe tocar direito, o que dá para fazer? O jeito foi fazer um monte de barulho. A gente já ouvia bandas com guitarras ruidosas, como Velvet Underground, The Stooges, Einstürzede Neubauten. Só que a gente gostava de música barulhenta, mas também gostava de música pop.

Você concorda quando o Jesus é chamado de precursor do indie rock, que hoje virou até tendência?
Queira ou não, fazemos parte dessa cena indie. A gente tentou não ser indie, tentou fazer sucesso. Nos anos 80, muita gente ficava feliz por lançar um álbum que só cem pessoas iriam ouvir. Nossa banda queria estar nas rádios e tevês. Achávamos nossa música melhor do que a de qualquer outro grupo. Eu queria ser um popstar. Quando era criança, via o Marc Bolan, do grupo T-Rex, na tevê e aquele era o meu modelo. Olhava para o David Bowie e dizia: "Um dia isso vai rolar comigo".
 
Mas como virar um popstar apostando no barulho?
Bem, se você for ouvir um disco dos Rolling Stones do fim dos anos 60, vai ver que é a maior barulheira. É que nós surgimos na década errada. Não sei se aparecemos 20 anos mais cedo ou 20 anos mais tarde. Nos anos 80, a gente não conseguia tocar nas rádios nem ter cobertura das tevês. A saída foi aproveitar o boca-a-boca. Na verdade, ninguém parecia muito interessado em discos que soassem esquisitos. Se você quisesse ter uma banda, tinha de ser algo grande, superproduzido.
 
Você sente falta de alguma coisa dos anos 80?
(Rindo) Eu odiei os anos 80. Odiei cada minuto dos anos 80. Foi uma década funesta. Eu tenho nojo dos anos 80. Tudo era ruim. A música era ruim, as roupas das pessoas eram ruins, os filmes eram ruins, os modelos da época eram ruins. E a gente ainda tinha a maldita Margaret Thatcher! Não consigo pensar em algo bom dos anos 80.
 
O Jesus se separou em 1998, então você pôde acompanhar todas as grandes mudanças que aconteceram na indústria da música nos últimos anos estando fora do mercado. Qual é a sua interpretação do que ocorreu?

Acho que é um tempo estranho na música. É difícil sentir pena da indústria porque os executivos das gravadoras maltrataram os ouvintes por anos e anos. Fizeram o cara recomprar toda a sua coleção de álbuns em CD por preços inflacionados. Hoje, sinto pena principalmente do povo das bandas novas. Você gasta um tempão e uma baita grana fazendo um disco e as pessoas pegam aquilo de graça.
 
O que fez a banda se separar em 1998?
Eu não conseguia mais me ver na estrada. Sempre discutia com meu irmão sobre a carreira da banda. A gente bebia muito e tomava drogas. Chegou uma hora em que não conseguíamos mais ficar perto do outro. Se alguém tivesse aparecido para aconselhar que tirássemos dois anos de férias, a história podia ser diferente. Mas as pessoas que deveriam fazer isso estavam mais preocupadas em marcar turnês mundiais para a gente.
 
E o que fez a banda voltar?
As pessoas ficavam tentando juntar a banda desde a separação. Só que eu achava que meu irmão não estava com vontade e ele achava que eu não aceitaria. E o pessoal do (festival californiano) Coachella seguia fazendo propostas. Um dia, minha esposa falou: "Se você não fizer isso agora, será tarde demais. Você não é mais um jovenzinho". Foi aí que eu percebi que deveríamos tentar mais uma vez, fazer mais uns shows e depois voltar para casa.
 
Você mora no interior da Inglaterra e o seu irmão, em Los Angeles. Como está a relação de vocês?
Mais ou menos. Não está perfeita e nunca vai estar. Mas acho que a gente aprendeu a permanecer no mesmo espaço sem provocar o outro. Não tem mais tantas bebidas e drogas entre a gente, o que facilita. O William ainda toma uns drinques, mas eu não bebo há três anos (suspira).
 
E quanto às outras drogas?
Não chego perto de nenhuma. Estou totalmente limpo. Para ser honesto, não sei até quando isso vai durar. Amanhã posso tomar um drinque, não sei. Descobri que é assim que devo encarar a situação. Tentei largar a bebida antes. O problema é que adoro beber. E a idéia de nunca mais poder tomar nada pelo resto da minha vida me deprime. Então me condicionei a pensar que amanhã posso tomar um drinque. E, fazendo isso, acabo não bebendo.
 
A Escócia tem essa tradição de bons bebedores. E, graças aos livros do Irvine Welsh, as pessoas tendem a relacionar o país com as drogas pesadas.
É verdade. A Escócia tem cultura de bebidas e drogas. Como nação, a Escócia não é nada saudável. As pessoas se alimentam mal, bebem muito e se drogam. Deve ter a ver com o fato de não ser um país rico nem terrivelmente pobre. O lance é que já virou parte da nossa cultura.
 
Quando foi a última vez que você escutou o álbum Psychocandy?
De tempos em tempos pego o disco e boto para tocar. E soa diferente toda vez que o ouço. Acho que ainda está muito bom. O fato de ter sido gravado há 23 anos e as pessoas ainda falarem dele faz desse disco algo especial.

Parte da crítica musical aponta o Jesus & Mary Chain como um dos últimos grupos revolucionários no rock. O que você pensa sobre isso?
Bem, eu discordo um pouco. O rock and roll é uma longa revolução, que vinha acontecendo antes da nossa banda e que continuou depois que paramos. A essência do rock and roll é ser revolucionário.

Onde e Quando
The Jesus and Mary Chain se apresenta no Planeta Terra, que terá outras 15 atrações. O festival acontece na Villa dos Galpões (Avenida das Nações Unidas, 20.003, portões 1 e 2, São Paulo, SP), no dia 8, a partir das 16h30. R$ 130.

 

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