
Revista BRAVO! | Agosto/2008
Por Armando Antenore
O camelo, desde que se entende por camelo, tem duas corcundas. O dromedário tem uma. E a Débora não tem nenhuma, mas às vezes parece acreditar que tem, como se, de repente, o Corcunda de Notre Dame ganhasse saias e um discreto sotaque mineiro. Ela é tímida não à maneira dos famosos que alardeiam timidez enquanto abrem portas e janelas para os paparazzi. Débora revela-se tímida de verdade, principalmente quando precisa enfrentar situações novas. Tão logo fareja uma brechinha, o obstinado caramujo que a acompanha assume as rédeas e se manifesta sob pequenos gestos, incômodos porque uma das crueldades da timidez é justamente converter o minúsculo em imenso. Nessas horas, Débora economiza palavras, gagueja de leve, aproxima as mãos da boca e ameaça roer as unhas (que, no entanto, se mantêm intactas), entorta os pés, conserva os olhos baixos e vislumbra coisas inexistentes. A corcunda, por exemplo. "Você esbanja timidez, não?", pergunta-lhe o jornalista. "Sim, infelizmente. Já melhorei à beça, só que continuo derrapando em certos momentos. Uma dificuldade..." O jornalista prossegue (perverso?): "De fato. Sua postura ainda remete à dos tímidos". Ela concorda, enfática: "Totalmente, totalmente. Um jeito de corpo meio errado, né? Uma corcunda...". Mas não há corcunda ali. Há apenas Débora e a timidez. Sete anos atrás, na primeira novela da Globo em que apareceu (Um Anjo Caiu do Céu), contracenava freqüentemente com Paulo José e Tarcísio Meira. Não se atrapalhava durante as gravações. Cumpria, sem um pingo de inibição, o que a personagem lhe exigia. Assim que a cena terminava, porém, o tal do caramujo dominava o pedaço. Débora engolia a língua e não conseguia trocar nem sequer uma frase com os dois veteranos. Na realidade, também penava para abordar os outros colegas de elenco. Virou, claro, motivo de piadas. Se numa manhã, por milagre, dissesse um "oi" menos envergonhado, alguém sempre comentava: "Oba! Hoje a mocinha decidiu tagarelar...".
Sobrenome é destino? No caso dos Falabella, tudo indica que seja. A família, de raízes italianas, está repleta de gente que não foge do trocadilho e cultiva a "fala bela" em cima do palco ou diante das câmeras. Rogério, pai de Débora, desdobra-se há tempos nas funções de diretor, dramaturgo e ator. Cynthia, uma das duas irmãs mais velhas, enveredou primeiro pelo balé e, depois, abraçou igualmente a carreira de atriz. A prima Cida comanda um grupo de teatro. E a mãe, Maria Olímpia, acaba de se aposentar como cantora lírica. Sem contar o Miguel, que não pertence à mesma vertente dos Falabella, mas reforça a sina desde 1975. Na infância, orbitando em torno dos artistas domésticos, Débora estranhava a rotina familiar dos amiguinhos de colégio. "Gozado... Os pais de vocês realmente trabalham de dia?", indagava, surpresa. Com perucas espalhafatosas e figurinos exuberantes, Maria Olímpia integrava o coro das óperas que se apresentavam no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a cidade onde Débora nasceu e se criou. Assistir à mãe durante os ensaios daqueles espetáculos grandiosos impressionava muitíssimo a filha. Hipnotizada, a garota ouvia a música que inundava o auditório e não compreendia direito quem a tocava. Da platéia, à distância, enxergava somente os braços do maestro, que se agitavam um pouco abaixo do palco, dando ordens para instrumentos invisíveis. Uma ocasião, resolveu chegar mais perto e finalmente descobriu o fosso da orquestra, que escondia um batalhão de soldadinhos obedientes.
Está com 29 anos e ainda não entrou de cabeça no mundo dos adultos talvez por duvidar que exista um mundo inteiramente adulto. Costuma jogar videogames, adora parques de diversões e usa vestidos que lembram roupas infantis. No apartamento que divide em São Paulo com o marido (o roqueiro Chuck Hipolitho, guitarrista da banda Forgotten Boys), as paredes são coloridas e os móveis exibem um punhado de brinquedos. Uma miniatura do Robert De Niro destaca-se entre dezenas de bonecos. Não raro, Débora olha em volta e se questiona: "Moro mesmo numa casa ou num quarto de criança?". Gosta de rock. É fascinada não apenas pela mise-en-scène e pela barulheira. Aprecia sobretudo as atitudes inconseqüentes que o gênero desperta e o transe em que os fãs mergulham quando o escutam. Se não julgasse que tatuagens podem impedi-la de aceitar determinados papéis como atriz, iria fazer uma porção delas, à semelhança de Chuck. Agrada-lhe a idéia de inscrever desenhos e letras na própria pele, transformando-a em uma espécie de diário. Agrada-lhe especialmente a certeza de que aquilo é para sempre.
Filmes de terror a perturbam sem perturbá-la. Enquanto os vê, e ama vê-los, apavora-se. Torce os lábios, sente calafrios, esboça uns gritos. Mas, no fundo, sabe que a falta de ar, os sustos e o desassossego não passam de fantasia. Evaporam como éter mal a história termina. Horrores de mentirinha geram medos ilusórios uma percepção que, curiosamente, a tranqüiliza desde cedo. Explica-se, assim, por que conseguiu desbravar O Exorcista e A Profecia antes dos 7 anos. Ou por que, na mesma época, topou participar dos curtas fantasmagóricos que a irmã Cynthia e os primos realizavam com uma câmera de VHS, sangue de ketchup e muita cara-de-pau. Hoje, os receios nada ilusórios que a assombram permanecem idênticos àqueles que a corroíam quando menina. Tem medo de ladrão e medo da morte, o pior dos ladrões. Não se trata de temer a própria morte. Não é isso. Teme a morte de pessoas queridas. Dos quatro avós, só conheceu Irene, mãe de Maria Olímpia. Recorda-se bem do dia em que a perdeu. A avó no ataúde e a neta de 11 anos, tão habituada com os cadáveres dos filmes de terror, sem coragem de observar Irene pela última vez.