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Silvana Marques
A atriz Carolina Virgüez na peça. A cena do espetáculo remete a uma imagem de Ingrid em cativeiro
A atriz Carolina Virgüez na peça. A cena do espetáculo remete a uma imagem de Ingrid em cativeiro

 

Revista BRAVO! | Agosto/ 2008

Choque de Realidade

Peça baseada na vida da franco-colombiana Ingrid Betancourt mostra como o teatro pode se aproximar do gênero documental, levando aos palcos fatos jornalísticos, históricos ou a crônica de vidas comuns

Gabriela Mellão

No dia 2 de julho passado, a atriz colombiana naturalizada brasileira Carolina Virgüez finalizava com sua equipe a montagem de Ingrid quando foi pega de surpresa. A peça — um work in progress criado pelo dramaturgo Fidelys Fraga, o diretor Marco André Nunes e a diretora de movimento Nívea Magno com base em improvisações de texto e corpo da atriz — reunia fragmentos de vida da franco-colombiana Ingrid Betancourt, na ocasião em poder dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) havia seis anos. A libertação de Ingrid, numa ação espetacular do Exército colombiano, colocou os criadores da peça numa situação pouco usual no teatro: refazer toda a concepção de um espetáculo por conta de um dado de realidade, numa forma de criação que se aproxima do modelo de documentário, comum no cinema.


O caráter provisório (e a atualização urgente) do texto de Ingrid, que estréia neste mês no Rio de Janeiro, é o caso extremo de um tipo de teatro cada vez mais permeável à realidade. Nos últimos meses, multiplicaram-se montagens que, de uma maneira ou de outra, faziam uma ponte entre a dramaturgia e o documentário. Outras estréias mostram as variações de uma tendência que, se não é nova, se consolida: As Três Graças — Uma Sátira Menipéia, de Luis Alberto de Abreu, que se baseia em depoimentos de pessoas comuns; e O Amargo Santo da Purificação, criação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que vai na vertente biográfica e histórica ao contar a história do guerrilheiro Carlos Marighella.


Se estas últimas não estão sujeitas à mudança de curso como Ingrid, não deixam, contudo, de se guiar por uma imponderabilidade que só pode nascer da vida real. "O documentário é resultado de um atrito entre o olho do realizador que fragmenta o mundo para depois remontá-lo. É preciso haver porosidade, estar aberto ao acaso", diz o cineasta e documentarista Evaldo Mocarzel. Em Ingrid, a casualidade interferiu no desfecho e na própria essência da peça. O que era fundamentalmente um retrato de desesperança passou, após a libertação da ex-senadora colombiana, a significar exatamente o oposto: "A celebração da vida, o princípio do fim", disse a BRAVO! a eufórica Carolina no dia da libertação de Ingrid.


A mudança, radical, não foi traumática: a sintonia com a realidade fazia parte do projeto desde o início, há quatro anos. Nesse período, Carolina alterou a peça várias vezes. Inicialmente, o texto havia sido criado com base em trechos do livro Coração Enfurecido, de Ingrid, e em depoimentos de diversos políticos seqüestrados pelas Farc. Entre eles, o diário do ex-ministro da Defesa Gilberto Echeverry, morto numa tentativa de resgate militar dos reféns em 2003.


Nessa primeira fase, Carolina usou a imaginação?para preencher as lacunas da história de Ingrid em cativeiro. "Durante os primeiros três anos do seqüestro, só havia silêncio. Eu trabalhava com suposições", conta a atriz. Nesse tempo, para dar provas de que a ex-senadora ainda estava viva, as Farc divulgaram dois vídeos em que Ingrid aparecia — mas eles não traziam muitas informações. Isso mudou em 2005, com o aparecimento de uma carta de 12 páginas escrita por Ingrid para sua mãe, publicada depois no livro Cartas à Mãe — Direto do Inferno. Nela, Ingrid faz um balanço de sua vida, falando sobre seus ideais, sua rotina no cativeiro, a saudade da família.


A essa altura, a atriz se viu impelida a trocar imaginação por realidade, substituindo os trechos do original que havia escrito por outros baseados nas cartas. "Faço um trabalho vivo", diz a atriz: "Não se trata de um fato superado, é impossível olhar para os conflitos atuais da Colômbia com distanciamento. Como a vida, a peça se modificou a todo instante, com cada informação recebida."


A peça não foi a única a se alterar no processo. Carolina também sofreu uma grande transformação. Por dentro, movida pelo exemplo de "dignidade, coragem e valentia" de Ingrid. E, acontecimento curioso, por fora. É difícil não notar a semelhança entre as duas. "Não é a primeira vez que escuto alguém dizer que somos parecidas", diz a atriz, que nada fez para provocar o fato — pelo menos não intencionalmente — além de deixar o cabelo crescer. Tantos anos respirando Ingrid Betancourt tem dessas coisas. "Não sei explicar. Acho que foi muito tempo de trabalho em cima da vida dela. É realmente uma grande surpresa", conta.

O PAPEL DA FICÇÃO

A imaginação que Carolina acabou abandonando em Ingrid é, em contrapartida, essencial em As Três Graças. Inspirada em depoimentos de mulheres comuns, a peça faz um mergulho no universo feminino ao mesmo tempo em que apresenta um registro da criação do espetáculo dentro da sala de ensaio, mostrando como cada personagem nasce de uma mistura entre a realidade do ator e a ficção. "É meu texto mais radical escrito a partir de entrevistas. Propõe a encenação do próprio processo de construção da ficção à vista do público, com os depoimentos reais e a contraparte ficcional", diz Luis Alberto de Abreu. Nesse sentido, As Três Graças faz uma aproximação com o documentário de cinema não apenas pelo uso de depoimentos, mas também pela combinação deles com a ficção. A discussão dos limites entre um e outro foi objeto, por exemplo, do filme Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho, em que histórias reais eram interpretadas por atores consagrados.

Com esse expediente, Abreu radicaliza a experiência de outros grupos de usar depoimentos de pessoas reais para a composição de um texto dramatúrgico. Foi assim, por exemplo, com a premiada A Vida na Praça Roosevelt (2005), de Dea Loher, escrita a partir de histórias dos moradores da praça paulistana e encenada pelo grupo paulista Os Satyros; ou Pequenos Milagres (2007), do mineiro Galpão, que levou ao palco quatro episódios verídicos, encaminhados ao grupo por carta ou e-mail, numa campanha chamada "Conte Sua História".

Neste ano, Os Satyros promoveram um outro tipo de radicalização do documentário no teatro, com A Fauna. Apresentada no último Festival de Teatro de Curitiba, a peça usava os próprios moradores da Villa Verde, periferia de Curitiba, como atores-personagens para contar casos reais de sua comunidade. O recurso lembra, aliás, outro documentário de Coutinho, Cabra Marcado para Morrer. No filme — iniciado em 1964 e só concluído 20 anos depois por causa do golpe militar —, o diretor usou camponeses da Paraíba como atores para contar a história do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962.


"Sinto uma necessidade forte?do teatro de buscar novas formas, fugir dos clichês e das soluções?fechadas", diz Rodolfo García Vázquez, diretor e fundador dos Satyros. O diretor prepara? para março do ano que vem a peça Hipóteses sobre o Amor e a Verdade, que segue a mesma linha de trabalhar histórias de pessoas comuns. Outro diretor, Newton Moreno, do grupo Os Fofos Encenam, está trabalhando em A Memória da Cana, peça que vai levar à cena memórias de famílias pernambucanas. "Queremos dar dimensão dramática àquilo que nem mesmo os protagonistas consideram ser digno de nota, mas que traz uma carga de significados importante para a discussão sobre o mundo contemporâneo", diz Vázquez.


No caso de O Amargo Santo da Purificação, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, a intenção é contar a vida de Carlos Marighella, o guerrilheiro morto em 1969 por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em São Paulo. Como Ingrid, a obra é uma espécie de biografia (no cinema, seria chamada de cinebiografia), com o objetivo de traçar o panorama político brasileiro do período da ditadura. Seu objeto, contudo, está no passado — e, como tal, exige uma pesquisa diversa, consultando-se fontes históricas.


Para Pedro de Camillis, integrante do grupo gaúcho, todo espetáculo que se utiliza desse tipo de fonte para a sua criação e está preocupado com a veracidade dos fatos é documental. A definição poderia ser aplicada, também, a peças como Hysteria (2002), do paulista Grupo XIX de Teatro. O espetáculo, que contava a história de cinco internas em um manicômio, nasceu da pesquisa do grupo em prontuários de hospícios femininos no século 19.


"O que define o documentário é simplesmente a vontade de o criador documentar algo genuíno", diz Evaldo Mocarzel, que não tem dúvidas de que a definição pode ser aplicada ao teatro. Mas há quem discorde. Para o ator e diretor Eduardo Moreira, integrante do Grupo Galpão, que encenou Pequenos Milagres, o teatro é a forma de criação artística que mais se afasta do real, recriando-o de múltiplas formas. "Seu espaço é privilegiado para a imaginação. Nesse sentido, acho que o documentário está muito mais próximo do cinema", diz.


Carolina Virgüez afirma nunca ter pensado em Ingrid sob esse prisma, mas acredita que sua peça tem, de fato, uma relação com o documentário. "É difícil precisar se isso é um gênero", pondera Vázquez. Para Luis Alberto de Abreu,?a confusão acontece pelo simples fato de ficção e realidade serem duas faces da mesma moeda: "Ficção, ao contrário do que comumente se imagina, não é um artifício, mas uma dimensão da realidade".

 

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