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João Wainer
José Wilker com a máscara de Martin Grey, seu personagem na peça A Cabra ou Quem É Sylvia?. “Por que me condenam?”
José Wilker com a máscara de Martin Grey, seu personagem na peça A Cabra ou Quem É Sylvia?. “Por que me condenam?”

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2008

Máscara - Martin Grey

O personagem da peça “A Cabra ou Quem É Sylvia?” incorpora no ator José Wilker e conta a BRAVO! como o amor pode levar à ruína Por Armando Antenore

Por Armando Antenore

Fama, dinheiro no banco, boa saúde, um casamento longo e prazeroso, um grupo de amigos inteligentes. O arquiteto norte-americano Martin Grey chegou à maturidade com todas as bênçãos que almejava. "Um sujeito de sorte. Não precisa de mais nada", decretaria o senso comum. Os ventos lhe sopraram mansamente até o dia em que se enamorou de uma cabra. Outros, no lugar dele, talvez julgassem estar loucos. Só que Martin é um homem de espírito livre, capaz de acolher o inesperado. Sem hesitar, se curvou à inusitada atração e começou um romance com o bicho. O relacionamento tórrido e secreto, no entanto, logo saiu de controle. Tornou-se público. E, como o Jó da Bíblia, o arquiteto de 50 anos perdeu cada um dos tesouros que imaginava possuir.

BRAVO!: O que, afinal, você viu naquela cabra?

Martin Grey: Cabra, não! Ela se chama Sylvia.

Desculpe... O que você viu em Sylvia?

Difícil explicar. Toda vez que nos enfeitiçamos por alguém, não sabemos definir exatamente a razão. No caso de Sylvia, consigo dizer apenas que, mal trocamos olhares, me senti inundar de alegria. Foi um clique, um negócio mágico, que não classificaria propriamente de paixão. Prefiro a palavra "amor". Na verdade, um sentimento igual àquele só pode pintar quando você entende que você é você e que o outro é o outro — quando quem ama identifica muito bem as fronteiras que o distinguem do objeto amado. Gostei de Sylvia não por tomá-la como espelho de mim mesmo. Eu a amei de imediato porque, antes, me convenci de que o Martin é o Martin e a Sylvia é a Sylvia. Ocorreu uma aceitação mútua entre nós. Hoje, penso que o altruísmo sempre nos guiou, talvez como consequência de minha origem familiar.

Origem familiar? Há cabras em sua árvore genealógica?

Não zombe, por favor. O que tento lhe contar é que nasci numa família católica. Meus pais me educaram sob os melhores preceitos do cristianismo. Por isso, creio em fraternidade, desprendimento e doação. Você, quando me observa desse jeito irônico, está me julgando. E é natural que aja assim — nós quase nunca abdicamos de avaliar o próximo. Mas, no dia em que Sylvia me avistou pela primeira vez, o olhar dela expressava justo o contrário. Era puro, generoso. Não havia nenhuma cobrança no ar. Sylvia se entregava sem defesas nem preconceitos. Aquilo me comoveu tão imensamente que retribuí de modo idêntico.

Onde vocês se conheceram?

Num terreno perto de Nova York, distante uns 100 quilômetros do bairro em que moro. Eu procurava uma casa de campo para alugar.

E por que a chama de Sylvia?

Porque os homens receberam de Deus o direito de nomear o mundo. Sylvia se chama Sylvia pelo mesmo motivo de o verde se chamar verde, de o tigre se chamar tigre, de a pedra se chamar pedra.

Você se assustou quando percebeu que a amava?

De maneira nenhuma. Eu me surpreendi, é claro, já que não sonhava viver uma experiência tão intensa na maturidade. Mas susto... Não, não houve susto. Fiquei contentíssimo. Como arquiteto, estou sempre atrás de surpresas. Rabisco curvas e retas, invento ângulos e rasgo o espaço com figuras geométricas por acreditar que um punhado de desenhos irá se concretizar em edifícios surpreendentes. Um arquiteto, à semelhança de qualquer artista, não deve negar ou temer as surpresas.

Depois que Sylvia o fisgou, você deixou de amar Stella, sua mulher?

Não. Continuo amando Stella fervorosamente. Nós nos casamos há 22 anos e, desde então, nunca me considerei prisioneiro da monogamia. Se não saí com outras até Sylvia aparecer, é porque Stella me bastava. Agora, ainda que soe estranho, meu coração se abriu para ambas.

Você cogitou reprimir o que sente por Sylvia?

De início, não. Quis simplesmente gozar aquela plenitude. A culpa e o impulso de me reprimir surgiram apenas quando Stella, meu único filho e um velho amigo descobriram o que se passava e me censuraram. Censurar é pouco. Eles me trucidaram, furiosos. Acabaram comigo. (Acende um cigarro.) Sinceramente, não compreendo tanta raiva...

Você fuma?

Fumo. Peguei o hábito do Wilker, meu intérprete.

É sério que você não compreende a raiva de Stella e dos outros?

Sério. Por que me condenam? Por transgredir? Por abraçar um sentimento maravilhoso, que não prejudica ninguém? Imagine que o cenário se invertesse e Stella anunciasse que ama um bode. Eu não iria atacá-la. Procuraria lidar com a situação. Em 22 anos, criamos uma família sensacional, uma união de rara cumplicidade. Não entendo como, de repente, a tolerância desaparece. O comportamento de Stella e dos outros lembra a atitude que o governo de meu país costuma adotar quando o contrariam. O diferente me incomoda? Vou lá e o massacro.

Mas a tolerância tem limites, não?

Os limites da tolerância se confundem com os da civilização. Para construir uma sociedade, precisamos estabelecer regras. Necessitamos de convenções, de acordos. Acontece que acordos são acordos, não são dogmas. Devemos repensá-los sempre que as circunstâncias exigem.

E o absurdo, tem limites?

Não, o absurdo é ilimitado, como o desejo.

Em quem você votou nas últimas eleições presidenciais?

Em Barack Obama.

Você acha que ele também o condenaria?

Acho.


ONDE ENCONTRAR MARTIN GREY
Na peça A Cabra ou Quem É Sylvia?, de Edward Albee. Direção e tradução de Jô Soares. Com José Wilker, Denise Del Vecchio, Francarlos Reis e Gustavo Machado. Teatro do Parque D. Pedro Shopping (av. Guilherme Campos, 500, Campinas, SP, tel. 0++/19/3756-9890). De 9/1 a 1º/2.

 

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