BRAVO! - Literaturahttp://bravonline.abril.com.br/feed/atom2012-05-18T19:48:33-03:00BRAVO!http://bravo4.abrilm.com.br/imagem/favicon.icoBravo! Cultura no Brasil - Feed LiteraturaCopyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadoshttp://bravonline.abril.com/materia/redescoberta-do-brasilRedescoberta do Brasil2012-05-18T19:48:33-03:00Josélia Aguiar
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Soava estranho, talvez misantropo aquele novo romancista português que só usava letras minúsculas para escrever o próprio nome e os parágrafos caudalosos, de palavras desconhecidas aqui. A estranheza logo se desfez. Primeiro durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) do ano passado, numa mesa que arrebatou a plateia e o tornou campeão de vendas na livraria oficial do evento. Depois, no Twitter e no Facebook, em que costuma aparecer quase diariamente, Valter Hugo Mãe, a partir de agora com maiúsculas, foi mostrando que, além de boa praça, faz rir com seus comentários jocosos sobre si mesmo e seu país. Só o Brasil parece a salvo das anedotas – às bandas de cá, reserva apenas ternura.</p>
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Hugo Mãe, nascido em 1971, é o mais pop em sua geração de ficcionistas de Portugal – turma na faixa dos 40 anos, revelada por prêmios importantes, cujos livros chegam com intervalos cada vez menores ao mercado brasileiro. A crescente popularidade da nova geração lusa entre nós pode ser deduzida pelo fato de Hugo Mãe lançar dois títulos ao mesmo tempo por aqui: <em>O Nosso Reino</em>, de 2004, que trata da infância e marca a estreia do escritor, sai agora pela Editora 34, assim como o mais recente, <em>O Filho de Mil Homens</em>, que aborda a paternidade e que a Cosac Naify publica seis meses após a obra vir à tona na Europa.</p>
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Aqueles que conhecem as incursões do romancista pelas artes plásticas e pela música, como letrista e vocalista – a canja que deu numa festa da Flip cantando o clássico <em>O Fado de Cada Um</em> virou hit no YouTube à época –, podem supor erroneamente que escrever é mais um de seus tantos ofícios. Ao contrário. As demais experiências são complementos, não desvios, do seu projeto de longo curso, que é fazer livros. O próximo está já no horizonte, aliás. “Será o lado lunar de <em>O Filho de Mil Homens</em>, que é muito soalheiro”, conta Hugo Mãe à<strong> BRAVO!</strong>. “Quero pensar na rejeição extrema sofrida por uma criança.”</p>
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Da mesma safra, mas esteticamente muito distinto, José Luís Peixoto (de 1974) acaba de publicar Livro, com a chancela da Companhia das Letras, e é um dos convidados da próxima Flip, em julho. O título prenuncia a metáfora desse romance, que aborda separação e reencontro: o que dá sentido à história de Ilídio e Adelaide, apartados durante o regime salazarista, é justamente um livro. Ditaduras e guerras, aliás, são mais do que pano de fundo na obra desses novos autores. A formação deles se dá sob a influência dessas rupturas e desses recomeços, sobre os quais podem escrever sem restrição. “Minha geração não viveu a ditadura salazarista. Essa característica deu-nos liberdade”, explica Peixoto.</p>
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Um Portugal arcaico e camponês se revela em livros de Hugo Mãe, enquanto outro, o de emigrados fugidos da ditadura ou das guerras coloniais, sobressai nos de Peixoto e de uma autora que os brasileiros vão começar a conhecer melhor a partir de agora. De geração um pouco anterior, Dulce Maria Cardoso (de 1964) é outra convidada da próxima Flip e tem o premiado <em>O Retorno</em> lançado por uma editora portuguesa recém-aportada no Brasil, a Tinta da China.</p>
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Não é coincidência que a história das personagens lembre a da autora, que aos 11 anos, acompanhando a família, embarcou de volta a Lisboa num avião de Luanda. Vistos como quase intrusos a invadir subitamente o país onde nasceram, os portugueses que deixaram Angola e Moçambique quando começou a luta de independência são logo chamados com um apelido depreciativo por quem os recebe: os “retornados”, sob a ótica dos que lá estão, contribuíram para levar o país ao colapso econômico atual. Em sutilezas que o brasileiro nem sempre percebe, o trauma da guerra se pode notar – nascidos em Luanda que tiveram de sair muito cedo do continente africano, como Valter Hugo Mãe, se declaram portugueses.</p>
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<strong>Na mesma estante</strong></p>
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Unidos por laços literários que se esgarçaram no século 20, Brasil e Portugal voltaram a compartilhar autores sobretudo na última década. A bem dizer, o intercâmbio começou um pouco antes. A descoberta pelo leitor brasileiro da obra de José Saramago (1922-2010), agraciado com o primeiro Nobel para um autor de língua portuguesa, despertou a curiosidade para nomes como o de António Lobo Antunes, hoje com 69 anos.</p>
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O clima lusófono se reforçou na última década por causa de um iminente novo acordo ortográfico e, principalmente, em razão da entrada no Brasil de editoras portuguesas fortalecidas numa então pujante União Europeia.O apoio financeiro do governo de Portugal a edições e traduções mundo afora trouxe para cá não só autores tão distintos como Inês Pedrosa e João Tordo mas também os da África que fala o mesmo idioma, como o angolano Ondjaki. Com a recente crise nos países ibéricos, grupos editoriais instalados havia pouco tempo no mercado brasileiro, a exemplo de Leya e Babel, querem ampliar sua presença no país. Editoras menores também chegam – a Tinta da China lança ainda neste ano <em>E a Noite Roda</em>, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho, e outro de Dulce Maria Cardoso, <em>Os Meus Sentimentos</em>.</p>
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Os autores de lá veem no Brasil a possibilidade de encontrar mais leitores que possam compreendê-los num idioma que a princípio soa estranho, mas é o mesmo. “Queiramos ou não, em países como a França, a Alemanha e os Estados Unidos, Brasil e Portugal ocupam a mesma estante. Eu sou dos que estimam essa parceria”, diz Lídia Jorge, outra autora que passa a ter sua obra publicada no país com mais regularidade. Seu recente <em>A Noite das Mulheres Cantoras</em>, publicado em Portugal no ano passado, sai agora pela Leya daqui.</p>
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<strong>Contraste gritante</strong></p>
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Não só os leitores parecem curiosos com a nova onda portuguesa. Os críticos literários também. Luiz Costa Lima, do Rio de Janeiro, ressalta qualidades em dois autores que já avaliou: além de Lobo Antunes, o múltiplo e cerebral Gonçalo M. Tavares, este o mais celebrado de todos de sua geração, o “futuro Nobel daqui a 25 anos”, como previu Saramago. A máquina de fazer pensar de Gonçalo é um assombro não apenas estético como também produtivo – com mais de 30 livros publicados em uma década, lançou outros dois em Portugal em dezembro passado, <em>Short Movies</em> e <em>Canções Mexicanas</em>. “A seriedade, a inventividade e a elaboração intelectual dos romances de ambos são de fato um contraste gritante com a superficialidade temática e o convencionalismo narrativo de nossa prosa”, afirma Costa Lima.</p>
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Os mineiros Silviano Santiago e Maria Esther Maciel também elogiam os portugueses. “Tento evitar generalizações, mas acho que, sim, muitos escritores atuais de Portugal têm nos surpreendido com livros vigorosos, inventivos e incomuns”, diz Maria Esther. “Talvez por se furtarem às exigências de um realismo explícito ou à expressão direta de uma experiência pessoal, eles estejam mais abertos ao exercício da imaginação. O apuro da linguagem, aliado a enredos e estratégias narrativas instigantes, é uma das marcas dessa literatura.”</p>
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Silviano Santiago explica tal distinção pelo fato de Portugal ser ainda um país literário como a França foi até a década de 1960 e a Espanha se tornou a partir de então. Um autor português, acrescenta Santiago, tem motivos para buscar a perfeição formal e de conteúdo ambicionada pelos grandes mestres do passado: “Essa atualidade obsoleta, extremamente simpática aos que ainda amam ler bons livros e digna de elogio da minha parte, autentica a formação rica e rigorosa do escritor português contemporâneo e, principalmente, incentiva-o a se expressar através das palavras e do papel impresso”.</p>
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<strong>Josélia Aguiar</strong> é jornalista e doutoranda em história. Edita o blog <em>Livros</em> <em>Etc</em>. na Folha.com.</p>
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<strong>OS LIVROS</strong></p>
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<em>O Filho de Mil Homens</em>, de Valter Hugo Mãe. Cosac Naify, 256 págs., R$ 39.<em>O Nosso Reino</em>, de Valter Hugo Mãe. Editora 34, 168 págs, R$ 35. <em>Livro</em>, de José Luís Peixoto. Companhia das Letras, 288 págs., R$ 42.</p>
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Depois de José Saramago e António Lobo Antunes, uma nova geração de escritores portugueses cruza o Atlântico. Para a crítica brasileira, os jovens autores d’além-mar se destacam pelo rigor formal e são mais inventivos que os daqui2012-05-18T13:15:56-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 177 - Maio 2012Depois de José Saramago e António Lobo Antunes, uma nova geração de escritores portugueses cruza o Atlântico. Para a crítica brasileira, os jovens autores d’além-mar se destacam pelo rigor formal e são mais inventivos que os daquiLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/no-reino-da-ambiguidadeNo Reino da Ambiguidade2012-05-17T18:59:49-03:00Mariana Delfini
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Retratos sui-generis destacam-se no acervo de 16 mil imagens de Madalena Schwartz (1921-1993), fotógrafa húngara que aportou no Brasil em 1960, depois de viver mais de 20 anos na Argentina. Rostos com purpurina, homens de batom e mulheres misteriosas entrelaçam-se nas 100 fotos em preto-e-branco agora reunidas no livro <em>Crisálidas</em>.</p>
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O volume, que o Instituto Moreira Salles lança neste mês, foi organizado pelo filho da fotógrafa, o professor da Universidade de São Paulo Jorge Schwartz. “As imagens exploram principalmente as ambiguidades do corpo e da sexualidade”, explica. Ele se recorda da mãe como uma senhora tímida que dificilmente seria associada, à primeira vista, aos travestis e artistas libertários que retratou nas décadas de 1970 e 80.</p>
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Madalena descobriu-se fotógrafa aos 45 anos, no lendário Foto Cine Clube Bandeirantes. Em paralelo a trabalhos para a Editora Abril e a Rede Globo, fazia fotos de conhecidos e amigos. Em seu apartamento no edifício Copan, no centro de São Paulo, foram realizadas imagens que integram <em>Crisálidas</em> – nome que evoca o estágio intermediário da metamorfose entre larva e inseto adulto. Alguns dos retratos do livro estavam na primeira exposição individual de Madalena, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1974.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Crisálidas</em>, org. de Jorge Schwartz. Com textos de Bia Abramo e Edgardo Cozarinsky. Instituto Moreira Salles, preço a definir.</p>
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A coletânea <em>Crisálidas</em>, da fotógrafa húngara Madalena Schwartz, reúne imagens que embaralham as noções de masculino e feminino2012-05-17T18:59:49-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 177 - Maio 2012A coletânea Crisálidas, da fotógrafa húngara Madalena Schwartz, reúne imagens que embaralham as noções de masculino e femininoLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/tiro-de-festim-no-peTiro (de festim) no Pé2012-05-16T12:24:00-03:00José Geraldo Couto
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Não existe hoje na Europa um autor mais controvertido do que o romancista, poeta, ensaísta, compositor e cineasta Michel Houellebecq. Desde que publicou seu primeiro romance,<em> Extensão do Domínio da Luta</em>, em 1994, o francês acumulou com a mesma prodigalidade inimigos e admiradores. Acusado de racista e misógino pelo que já disse e escreveu – “O Islã é a religião mais estúpida do mundo”, por exemplo –, o autor de <em>Partículas Elementares</em> (1998) criou fama de arrogante e intratável.</p>
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O romance <em>O Mapa e o Território</em> (2010), que sai agora no Brasil, é o novo round do embate entre o escritor e a intelligentsia de seu tempo. É um livro ambicioso, onívoro, em que Houellebecq faz uma leitura irônica e crítica do mercado de arte às mutações tecnológicas, das crises econômicas aos desastres climáticos, do império midiático às relações entre campo e cidade.</p>
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Narrado num tempo ligeiramente futuro, o romance tem como protagonista o artista visual Jed Martin, cuja produção passa por fases bem distintas: ele primeiro, fotografa máquinas da era industrial em extinção; depois, sobrepõe fotos de mapas dos guias Michelin a imagens aéreas das regiões mapeadas; por fim, recorre à pintura a óleo, retratando profissionais de várias áreas, incluindo ícones como os artistas Jeff Koons e Damien Hirst e os magnatas da informática Bill Gates e Steve Jobs.</p>
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Um tanto misantropo, quase indiferente à repercussão crítica e financeira de sua obra, Martin parece ter apenas duas relações importantes na vida: com o pai, arquiteto aposentado que se recolhe voluntariamente a uma casa de repouso, e com uma namorada russa, executiva da Michelin, que ele no entanto deixa escapar.</p>
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<strong>Tartaruga Doente</strong></p>
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A certa altura, quando prepara uma grande retrospectiva de seu trabalho, Martin é convencido por seu galerista a convidar um escritor importante para fazer o texto do catálogo, e o nome escolhido é... Michel Houellebecq. A partir daí, o livro ganha uma volta a mais no parafuso da autoironia e do sarcasmo. O Houellebecq do romance é descrito como um sujeito desleixado, antissocial, bêbado e malcheiroso. Com sua barriga proeminente e seus braços curtos, parece “uma tartaruga doente”. Quem ler o livro verá que isso é apenas o começo da crueldade reservada pelo escritor a si mesmo.</p>
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Mas aquilo que, à primeira vista, pareceria um tiro no pé revela-se um golpe de gênio. Apesar de tolas acusações, como a de ter “plagiado” textos da Wikipedia e dos guias Michelin, Houellebecq (o verdadeiro) desarmou os críticos e seduziu o público com este romance formidável. E de quebra ganhou o principal prêmio literário de seu país, o <em>Goncourt</em>.</p>
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<strong>José Geraldo Couto</strong> é jornalista e assina uma coluna no Blog do Instituto Moreira Salles</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>O Mapa e o Território</em>, de Michel Houellebecq. Tradução: André Telles. Editora Record, 400 págs, R$ 49,90.</p>
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Em <em>O Mapa e o Território</em>, o romancista Michel Houellebecq traça um retrato impiedoso de nossa época enquanto zomba de si mesmo – estratégia que acaba se revelando genial2012-05-16T12:24:00-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 177 - Maio 2012Em O Mapa e o Território, o romancista Michel Houellebecq traça um retrato impiedoso de nossa época enquanto zomba de si mesmo – estratégia que acaba se revelando genialLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/o-chiclete-como-atitudeO Chiclete como Atitude2012-05-14T12:16:10-03:00Redação Bravo!
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Em novembro de 2002, a imprensa internacional noticiou que o fim da proibição, mesmo parcial, da venda e do consumo de chiclete em Cingapura, pequeno país do sudeste asiático, havia gerado polêmica porque o país tinha regras rígidas de comportamento e muitas pessoas foram contra a medida, considerada resultado de uma pressão comercial – e política – do governo norte-americano. Assim, ficou decidido que seria permitida a venda do produto apenas para uso médico, a partir de 2004. A decisão dividiu a opinião pública nacional, segundo apurou a jornalista brasileira Sonia Ambrosio, que esteve em Cingapura na época. Ela conversou com vários moradores locais para saber o que tinham achado da medida, como a vendedora Milini Choo, 23 anos, para quem o governo deveria liberar todos os tipos de chicletes. Já o comerciante Chia Che Keng, 38 anos, queria que a proibição integral fosse mantida.</p>
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Cingapura havia banido a importação, fabricação e venda de chicletes dez anos antes, alegando que gastava milhões de dólares com limpeza pública, por causa da dificuldade de remover as gomas de mascar das ruas. O recuo na decisão foi um dos mais difíceis pontos discutidos nos dois anos de intensas negociações comerciais com os Estados Unidos, segundo Tommy Kho, que representou o governo cingapuriano nas discussões. Kho contou que os dois lados chegaram a uma “solução habilidosa” ao classificar certos tipos de goma de mascar como produtos de uso médico. Desse modo, apenas chicletes sem açúcar e prescritos por médicos e dentistas, com fins terapêuticos, poderiam ser vendidos em farmácias. (...)</p>
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<strong>Rebeldia no Pós-guerra</strong></p>
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A história do chiclete registra resistência ao seu consumo até mesmo nos Estados Unidos, onde o produto foi patenteado no século 19. Para alguns norte-americanos, era uma vergonha que a maior potência do mundo ganhasse dinheiro e ficasse conhecida no exterior como o lugar onde se fazia borracha açucarada para as pessoas mastigarem. Na opinião desses críticos, mascar goma parecia muito com o ruminar de um bovino ou caprino que, incansável e demoradamente, digeria o capim na boca. Uma opinião, aliás, dividida com os estrangeiros que combatiam o regime capitalista norte-americano.</p>
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Na contramão dessa visão, o chiclete adquiriu um sentido de símbolo de rebeldia da juventude norte-americana a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. O humorista, colunista de jornal, ator e editor Robert Benchley (1889-1945) disse certa vez que o maior de todos os movimentos da história sempre fora “o das mandíbulas mascando chicletes ou goma”, tamanha era a popularidade do produto na época em todas as classes sociais e idades.</p>
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Na verdade, desde a década de 1930, no cinema, não foram poucos os filmes de gângsteres que traziam criminosos e até mesmo alguns policiais menos convencionais mascando chicletes. Depois da guerra, personagens jovens desajustados usavam o chiclete para ruminar e, assim, provocar seus interlocutores: pais, professores e autoridades. Eram supostamente os rebeldes sem causa, filhos da classe média de um país que se tornara a maior potência do mundo. Se a América vivia o esplendor da prosperidade econômica, a juventude do pós-guerra tinha de enfrentar a angústia de um destino que lhe parecia usurpado e inevitável: a impossibilidade de futuro, de viver até a velhice, de fazer planos para atravessar todas as etapas da vida, uma vez que pairava sobre suas cabeças a ameaça de se dizimar a existência na Terra por causa de uma guerra com bombas atômicas.</p>
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Aos poucos, mudanças de comportamento sinalizavam para a máxima “viva intensamente o hoje porque pode não haver amanhã”. Um preceito que seria radicalizado depois para a tríade sexo, drogas e rock’n roll. A partir dessa premissa, surgiu uma série de movimentos e tendências que desaguariam na contracultura dos anos 60: desde o próprio rock e a literatura beatnik, os quadrinhos de humor da Mad e de terror da EC Comics, com seus monstros comedores de cérebros, ao que se poderia chamar de cinema transviado. Jovens inconformados ignoravam o perigo dos rachas de carros e da liberdade sobre quatro ou duas rodas (...). Nesse universo, o chiclete se tornou um elemento importante de provocação.</p>
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Surgiam as gangues de motocicletas, que queriam viver livremente, beber, brigar, mascar chicletes (e colar a goma usada em lugares públicos) e cuspir em cima da lei. Quando circulavam pelo interior, esses motoqueiros causavam pânico nos pacatos e muitas vezes conservadores moradores das prósperas cidades da América. Além do estilo agressivo, até mesmo no visual, eles davam muito trabalho às autoridades. Para o jovem, porém, ser rebelde era principalmente adotar um novo modo de vida, distinto de seus pais, responsáveis, de certa forma, por aquele estado de coisas, pela bomba atômica e por defenderem um jeito de viver ancorado na prosperidade e na riqueza. Ia-se de encontro ao ideal de vida norte-americano, que pretendia ser a referência planetária para seu sistema político e econômico de sucesso, o capitalismo, ante a ameaça do comunismo de Moscou.</p>
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Já no final da década de 1940, John Garfield (1913-1952), o primeiro astro com cara de operário, fazia filmes sobre o levante juvenil da América, como O Destino Bate à Sua Porta (1946). Em sua curta carreira, consagrou a imagem de enfant terrible do cinema – seria acusado de comunista e incluído na lista negra da indústria cinematográfica, o que teria sido o principal motivo para o infarto fulminante que sofreu. No auge da paranoia da caça aos comunistas, Marlon Brando (1924-2004) foi o rebelde que mais teve sua imagem ligada ao chiclete, desde que sugeriu um visual displicente no filme Um Bonde Chamado Desejo (1951) e transformou a camiseta branca em um símbolo juvenil, enquanto James Dean (1931-1955), no filme Juventude Transviada (1955), com blusão de couro, jeans e chiclete na boca, plantava a semente da contracultura.</p>
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<strong>BOBO desmoralizado</strong></p>
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O chiclete marcaria para sempre a imagem do ícone criado pelo inconformado e turrão Brando. Em O Selvagem (1953), de Laslo Benedeck, ele interpretava John Strabler, líder de uma gangue de motociclistas chamada Black Rebel Motorcycle Club, que percorria a América em busca de diversão em todos os sentidos do termo – de festas e garotas a brigas e arruaças. A goma de mascar, claro, era a sua companhia constante. Em Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan, ele fez o papel de Terry Malloy, um ex-boxeador que era usado, sem saber, para atrair à morte um jovem trabalhador do cais do porto que ousou desafiar o chefão do sindicato. Só que ele se apaixona pela irmã da vítima.</p>
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(O pesquisador) Miguel Angel Schmitt Rodriguez lembrou que o ator fazia um bobo desmoralizado, tido como um “vadio” pelos criminosos que o conheciam. “Pensamos que a característica de Terry como pessoa de coração puro, e que tem a missão de conquistar e resolver os problemas de Edie, não combinava com cigarros. Parece que para substituir esse acessório o diretor preferiu outra marca que o distinguisse dos demais: o hábito de mascar chicletes.” Numa das cenas do filme, quando é encontrado por agentes, Terry conversa normalmente com eles, mas mantém uma postura de pouco caso, “mascando chiclete e olhando para os lados, como se não desse a mínima para os policiais”, escreveu (o crítico) Antonio Junior. (...)</p>
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Foi um Brando mais maduro que interpretou uma das cenas mais famosas do cinema ligadas à goma de mascar. Em O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, ele faz um norte-americano de 45 anos que mora na capital francesa e vive atormentado pelo suicídio de sua esposa. Até que conhece uma beldade parisiense de 20 anos (interpretada por Maria Schneider), noiva de um jovem cineasta, e parte, com ela, para satisfazer seus desejos sexuais em um apartamento vazio, disponível para alugar. Ao final, depois de ser baleado pela ex-amante, seu personagem caminha lentamente até o balcão do quarto e, antes de morrer em posição fetal, tira o chiclete da boca, grudando-o na grade à sua frente.</p>
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<strong>Sabor Torta de Amora</strong></p>
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Na mesma época do filme de Bertolucci, a goma de mascar ganhou vida e apareceu num assustador clássico dos contos de fadas contemporâneo, o filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, do diretor Mel Stuart (1971), baseado na obra do escritor inglês Roald Dahl. Charlie é um garoto que vive com seus pais e avós numa pequena casa na Inglaterra, e tem o sonho de encontrar um bilhete premiado que lhe permita visitar a maior fábrica de chocolates do mundo, pertencente ao excêntrico e lunático Willy Wonka. (...). O garoto acaba sendo o último de cinco crianças a conseguir o bilhete, que veio na barra de chocolate que ganhou dos avós como presente de aniversário.</p>
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Charlie, além de pobre, era bonzinho, enquanto os outros, ricos e mimados, não tinham limites para conseguir o que desejavam. Não respeitavam os pais e eram mal-educados. Um dos premiados era um menino muito guloso. Outra, uma garota riquíssima e egoísta. O terceiro era viciado em televisão e a quarta, uma menina apaixonada por chiclete. Durante o passeio, cujo início foi transmitido pela TV para todo o planeta, Wonka deu uma lição em todas aquelas crianças insuportáveis – menos no pobre e bom Charlie, claro. O primeiro a ser castigado foi o guloso Augustus Gloop, que, desobediente, ao cair num rio de chocolate, foi sugado por um cano que levava o doce para o resto da fábrica.</p>
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A próxima vítima seria Violet Beauregarde, a mocinha louca por chiclete. Wonka levou seus convidados para a sala das últimas invenções, onde mostrou um chiclete que valia por três refeições. Violet, descontrolada, pegou um e começou a mascar, sem dar atenção ao aviso do anfitrião de que a invenção não estava concluída. Depois de provar a entrada e o prato principal, Violet se maravilhou com o chiclete sabor torta de amora, que deveria ser a sobremesa. De repente, no entanto, a menina começou a ficar azul e inchar, até que... virou uma amora! Os pequenos duendes Woompa Loompas (que trabalhavam na fábrica) apareceram e cantaram uma música cuja mensagem era: mascar chiclete o dia inteiro pode ser prejudicial à saúde.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Ora, Bolas! – A Inusitada História do Chiclete no Brasil</em>, de Gonçalo Junior. Alameda, 192 págs., R$ 42.</p>
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Marlon Brando e James Dean se imortalizaram no cinema com personagens que não dispensavam a goma de mascar. Símbolode rebeldia, o produto é tema de “Ora, Bolas!”, livro-reportagem de Gonçalo Junior. Leia aqui um trecho da obra 2012-05-14T12:16:10-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 177 - Maio 2012Marlon Brando e James Dean se imortalizaram no cinema com personagens que não dispensavam a goma de mascar. Símbolode rebeldia, o produto é tema de “Ora, Bolas!”, livro-reportagem de Gonçalo Junior. Leia aqui um trecho da obra LiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/prosa-dalem-marProsa d'além mar2012-05-08T18:27:47-03:00Redação
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Uma nova leva de ficcionistas portugueses atravessou o Atlântico para aportar no mercado editorial brasileiro. Entre os autores, todos na faixa dos 40 anos, estão nomes como Gonçalo M. Tavares (que arrancou elogios de José Saramago), Valter Hugo Mãe (sensação na Flip de 2011) e José Luís Peixoto<em> (foto)</em>.</p>
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Veja abaixo um vídeo em que Peixoto lê um trecho de seu mais recente romance, <em>Livro</em>, sobre um casal que teve de se separar durante o regime salazarista.</p>
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O escritor português José Luis Peixoto lê um trecho de <em>Livro</em>, seu novo romance, para as câmeras de <strong>BRAVO!</strong>. Assista ao vídeo2012-05-08T12:49:59-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosSó no SiteO escritor português José Luis Peixoto lê um trecho de Livro, seu novo romance, para as câmeras de BRAVO!. Assista ao vídeoLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/o-que-groucho-marx-tem-a-ver-com-faroesteO que Groucho Marx tem a ver com Faroeste?2012-04-30T12:19:29-03:00Antônio Xerxenesky
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Entre os escritores norte-americanos contemporâneos que, de acordo com o crítico nova-iorquino Harold Bloom, se tornarão clássicos, três são vastamente conhecidos e lidos. Philip Roth é o primeiro da lista, apesar dos trechos pornográficos de livros como <em>O Complexo de Portnoy</em> e<em> O Animal Agonizante</em>. Em seguida vêm Don DeLillo, autor de <em>Ruído Branco e de Submundo</em>, adorado por pesquisadores da cultura de massa, e Cormac McCarthy, que passou a receber muita atenção da mídia graças às adaptações cinematográficas de suas obras, como o filme <em>Onde os Fracos Não Têm Vez</em>, dos irmãos Coen.</p>
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Já Thomas Pynchon, apesar de também integrar a lista de Bloom, de contar com um considerável número de seguidores e de, dizem, ser cotado para o Nobel, é menos popular que os demais. Primeiro por sua própria persona, qualificada de “misteriosa” e “enigmática”. Famoso pela reclusão, Pynchon não concede entrevistas, e suas únicas fotos públicas, antigas, podem muito bem ser falsas. Sua prosa não se caracteriza pela fluência, muito pelo contrário: adjetivos como “hermética”, “complexa” e “verborrágica” são frequentemente associados a ela.</p>
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Há, sim, alguns livros leves na produção de Pynchon. É o caso de <em>V.</em>, seu primeiro romance (1963), de <em>Vineland</em> (1990) e de<em> Vício Inerente</em>, seu trabalho mais recente, de 2009. Os três são mais curtos e menos experimentais que seus outros títulos – possuem protagonistas claros e um enredo fácil de acompanhar, afundado na contracultura norte-americana. Mas o maior valor de Pynchon está em sua outra vertente: a dos romances ambiciosos e enormes, de 500 a mais de mil páginas, com centenas de personagens e diversas tramas paralelas. O tresloucado <em>O Arco-Íris da Gravidade</em>, publicado em 1973 e considerado a obra-prima do autor, encaixa-se nesse universo. Assim como<em> Mason & Dixon,</em> que se vale de um inglês arcaico, corajosamente vertido para o português pelo tradutor Paulo Henriques Britto.</p>
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Com 1.088 páginas em sua versão brasileira, quatro tramas centrais e temas que vão da espionagem à matemática, passando pelo faroeste, Contra o Dia, que chega às livrarias neste mês, é o ápice do escritor. O romance reúne todas as características (elevadas à décima potência) de um livro pynchoniano – a ponto de Michiko Kakutani, premiada crítica literária do jornal The New York Times, insinuar que<em> Contra o Dia</em> parece ter sido escrito por um fã do autor, responsável por juntar todas as suas particularidades em um único volume.</p>
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<strong>Pop e Ciência</strong></p>
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Das características tão definidoras da prosa de Pynchon há, em primeiro lugar, aquilo que o teórico norte-americano Fredric Jameson declarou ser a marca registrada do pós-modernismo: a mescla entre alta e baixa cultura. Na trama de Contra o Dia, um dos principais núcleos narrativos é a rivalidade entre duas famílias. No encalço do chefão Scarsdale Vibe, responsável pelo assassinato do patriarca Webb Traverse, surgem balonistas de uma turma chamada Amigos do Acaso, detetives com poderes paranormais, cientistas, músicos e algumas celebridades, como o ator húngaro Béla Lugosi, que em 1931 viveu o conde Drácula no filme de Tod Browning, e o comediante norte-americano Groucho Marx.</p>
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A cultura pop está espalhada pela obra, por vezes de forma anacrônica, como no personagem Pádjitnov, obcecado por arremessar blocos compostos de fragmentos de quatro tijolos. Ele remete ao russo Alexey Pajitnov, um dos criadores do popular jogo Tetris, surgido nos anos 80, décadas depois da época em que se passa o romance, entre o final do século 19 e a Primeira Guerra Mundial.</p>
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O nascimento do jazz (“uma organização anarquista”) e digressões sobre a luz e as descobertas científicas ligadas à eletricidade são contemplados nos momentos mais eruditos do romance. Ainda assim, mesmo quando trata de um assunto sério, como as mudanças sociais trazidas pelos avanços tecnológicos, Pynchon emprega uma prosa carregada de diálogos coloquiais e cômicos, alguns deles cheios de gírias.</p>
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PERSONAGENS DE PAPELÃO</p>
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A artificialidade, outra grande marca pynchoniana, transparece nos personagens caricatos, dignos de um desenho animado, que conduzem as ações. O crítico inglês James Wood, um dos poucos detratores do escritor, apontou, em <em>Como Funciona a Ficção</em>, que os vilões de Pynchon (como o capitão nazista Blicero, em <em>O Arco-Íris da Gravidade</em>, e Scarsdale Vibe, de <em>Contra o Dia</em>) não assustam por não serem suficientemente críveis e bem desenvolvidos. Wood, que apelida o estilo de Pynchon de “realismo histérico”, critica no romancista norte-americano “seu gosto vaudevilliano por nomes bobos, piadinhas, reveses, disfarces, erros farsescos” – os personagens não passariam de criaturas de papelão no universo picaresco do autor.</p>
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“Picaresca” parece uma palavra adequada para resumir as mirabolantes narrativas de Pynchon – mas é um tanto reducionista. Em vez de costurar as aventuras de personagens espertinhos, o autor realiza uma espécie de assimilação tresloucada de diversos gêneros literários. Em Vício Inerente, ele trabalha com o policial; em Mason & Dixon, com o romance histórico. Já em Contra o Dia, há uma alternância brutal: um capítulo é um faroeste, o seguinte, uma aventura aérea, o outro, uma ficção tão embebida de discussões científicas que parece mais um ensaio. E assim o escritor vai enfileirando referências, citações obscuras, descrições de eventos esquecidos e piadas que oscilam entre o incompreensível e o pastelão, entre o refinado e o pop.</p>
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<strong>WIKIPYNCHON</strong></p>
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Por seus excessos, os livros de Pynchon podem ser um teste de paciência: parece impossível não sentir que, em diversos momentos, trechos inteiros podiam ser cortados e que algumas descrições soam repetitivas. Trata-se de uma reação comum, mas não dá para considerar a obra do autor sem levar em conta que a desmedida é uma característica essencial de sua prosa. Estamos diante de um escritor enciclopédico que jogará em nossa cara, sem filtros, as toneladas de informação que carrega. Isso gera cansaço, até exaustão, e nem sempre o humor do norte-americano salva.</p>
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O livro demanda dedicação quase exclusiva de quem sente necessidade de ir fundo na leitura, buscando a origem e os significados de cada referência – pode ser proveitoso ter um caderninho de apoio. Fãs experientes criaram um gigantesco banco de dados em forma de Wikipédia, uma “wikipynchon” que serve de guia para as obras: http://pynchonwiki.com.<em> Contra o Dia</em>, publicado em inglês em 2006, está lá. Aventureiros pacientes e leitores interessados por uma prosa desvairadamente experimental serão recompensados com momentos sublimes e poéticos, que emergem nas situações mais inesperadas.</p>
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Tão fácil quanto temer Pynchon é se tornar obcecado por ele. A lenda conta que o autor só interage com tradutores e editores através do obsoleto sistema de fax. Sua agente é a responsável por todos os detalhes das publicações. Como não se interessar por um escritor tão misterioso e irreverente a ponto de suas únicas aparições na mídia nos últimos anos terem sido em um episódio do desenho <em>Os Simpsons</em> (com um saco de papel na cabeça), como narrador de um vídeo de divulgação de Vício Inerente, e escrevendo um texto no site da Amazon sobre o seu <em>Contra o Dia</em>?</p>
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Figura fantasma nos meios de comunicação e ausência confirmada na cena literária, Pynchon não oferece respostas e interpretações. Tudo que temos são as obras dessa criatura megalomaníaca e pretensiosa, que construiu um universo próprio com as palavras. Na definição do próprio autor, se<em> Contra o Dia</em> “não é igual ao nosso mundo, é como ele seria depois de um pequeno ajuste ou dois”.</p>
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<strong>Antônio Xerxenesky</strong> é escritor, autor de A Página Assombrada por Fantasmas (Rocco).</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Contra o Dia</em>, de Thomas Pynchon. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 1.088 págs., R$ 98.</p>
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O romance “Contra o Dia”, de Thomas Pynchon, é o exemplo máximo da prosa descontrolada do misterioso autor, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea2012-04-30T12:19:29-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 176 - Abril 2012O romance “Contra o Dia”, de Thomas Pynchon, é o exemplo máximo da prosa descontrolada do misterioso autor, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporâneaLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/angustia-da-influenciaAngústia da Influência2012-04-20T18:35:51-03:00Noemi Jaffe
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O Cristo de Elqui, personagem criado e encarnado pelo andarilho Domingo Záte Vega, circulava pelo Vale de Elqui, no norte do Chile, durante as primeiras décadas do século 20, pregando um evangelho apócrifo, apresentando-se como reencarnação de Jesus e oferecendo proteção aos trabalhadores explorados. Com essa base histórica, Hernán Rivera Letelier escreveu <em>A Arte da Ressurreição</em>, romance protagonizado justamente pelo Cristo de Elqui, ganhador na Espanha do Prêmio Alfaguara de 2010.</p>
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A habilidade estrutural do livro o inscreve sem dificuldade na tradição da narrativa fantástica latino-americana. O trabalho segue a linhagem de autores como o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, pelas entradas inesperadas do maravilhoso e do sensual em meio à história real e pela astúcia de uma trama que mantém o leitor em permanente estado de curiosidade. Duas principais marcas, porém, diferenciam esse romance da tradição que ele representa: as mudanças súbitas de foco narrativo e a ação intercalada, em que os capítulos não obedecem a uma sequência, mas vão e voltam no tempo e no espaço.</p>
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No entanto, nem essas duas características impedirão que “angústia da influência”, de que fala o crítico norte-americano Harold Bloom, se abata impiedosamente sobre Letelier. A sensação inevitável do leitor é que, mesmo reconhecendo a competência narrativa do autor, essa história já foi lida. Em meio às peregrinações, às adversidades e aos delírios do Cristo de Elqui, estão personagens já conhecidos como a prostituta beata e generosa, o louco cuja missão é varrer o deserto, os bêbados infiéis, os exploradores cruéis e finalmente o Cristo reencarnado, que justifica religiosamente o desejo sexual.</p>
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<strong>Prostituta Magalena</strong></p>
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O Cristo de Elqui é um personagem bem constituído e interessante sob muitos aspectos, sobretudo porque realmente existiu. O romance abre novas portas com o encontro do protagonista com uma prostituta beata, de nome Magalena, em busca de quem o pregador parte como se ela fosse a bíblica Madalena que o transformaria no novo filho de Deus. Cria-se uma história dentro da história, que acompanha dezenas de outras, que vão surgindo ao longo da narrativa entrecortada.</p>
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As mudanças repentinas e hábeis de foco narrativo também fazem com que não se saiba, muitas vezes, se o eu é individual, coletivo ou histórico, mudando, em função disso, o recorte do romance e da leitura. Mas nenhum desses recursos torna o livro capaz de fazer o melhor que a literatura pode criar, que é dizer o já conhecido de forma nova e desconhecida.</p>
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<strong>Noemi Jaffe</strong> é escritora, autora de Quando Nada Está Acontecendo, entre outros livros. É também crítica literária e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>A Arte da Ressurreição</em>, de Hernán Rivera Letelier. Tradução de Bernardo Ajzenberg. Editora Alfaguara, 216 págs., R$ 39,90.</p>
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No premiado <em>A Arte da Ressurreição</em>, o chileno Hernán Rivera Letelier filia-se à escola da narrativa fantástica, mas não se liberta do peso dessa tradição2012-04-20T15:13:04-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 176 - Abril 2012No premiado A Arte da Ressurreição, o chileno Hernán Rivera Letelier filia-se à escola da narrativa fantástica, mas não se liberta do peso dessa tradiçãoLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/a-internet-abastarda-a-literatura''A Internet abastarda a literatura"2012-03-28T16:16:58-03:00Sérgio Rodrigues
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Millôr Fernandes, o grande filósofo brasileiro (a definição é do jornalista Sérgio Augusto), vai completar 85 anos no dia 27 de maio de 2009. Esta é a versão oficial. Na verdade, nascido no subúrbio carioca do Méier em 16 de agosto de 1923, Milton Viola Fernandes já passou dessa idade. Foi registrado com quase um ano de atraso pelo pai, o engenheiro espanhol Francisco Fernandes, e sua certidão de nascimento merece respeito. É o mesmo documento que, numa bem-vinda combinação entre a caligrafia torta do escrivão e uma decisão tomada por ele mesmo no fim da adolescência, transformou Milton em Millôr.</p>
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Qualquer que seja a idade, o ano que vem será de festa. Não para o próprio Millôr, que continua trabalhando todo dia em seu estúdio numa cobertura do bairro de Ipanema, perto da praia, onde cria suas colunas para a revista Veja. Foi na militância diária do profissionalismo que, órfão muito cedo de pai e mãe, esse autodidata radical construiu desde o início dos anos 40 — "há 250 anos", como ele diz — sua obra fabulosa de escritor, humorista, desenhista, artista plástico, dramaturgo, tradutor e mais um número indefinido de títulos menos vistosos, entre eles o de inventor do frescobol. Não adianta lhe pedir que mude a esta altura. Aliás, Millôr se arrepia quando ouve falar de obra: "Obra é com o pedreiro".Mas é a obra monumental de Millôr Fernandes — não existe outra palavra — o centro da festa. Há dois anos, a Desiderata, hoje um selo do grupo Ediouro, vem repondo nas prateleiras, em edições de capricho inédito, títulos que sofriam com a dispersão por diversas casas editoriais. Millôr nunca esteve ausente das livrarias, mas é a primeira vez que o mercado lhe concede esse balanço luxuoso de uma vida de intensa produção intelectual e artística. Nunca é tarde para reconhecer um gênio.</p>
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"No ano que vem, teremos três lançamentos, desta vez todos inéditos em livro", diz Gabriela Javier, editora da Desiderata. O primeiro título será Poesia Matemática, um híbrido inclassificável de trocadilhos sofisticados com a linguagem dos números e ilustrações singelas de livro infantil. Também estão previstos um novo volume de haicais e uma coletânea de crônicas publicadas em Veja. A dramaturgia e uma seleta de traduções teatrais entram na agenda de 2010. Em entrevista exclusiva a <strong>BRAVO!</strong>, Millôr faz um balanço de sua carreira e fala da Ipanema de sua juventude, literatura, humor e política. Lula ganha um elogio, mas não escapa de deitar no divã: "É o maior ego do mundo".</p>
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<strong>BRAVO!: Você pegou todos os presidentes desde Getúlio Vargas. Quem sofreu mais com o Millôr? José Sarney, que você destruiu naquela série de textos no Jornal do Brasil sobre o romance Brejal dos Guajas (mais tarde reunidos no livro Crítica da Razão Impura)?</strong></p>
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Millôr: Não tenho essa consciência. A gente vai fazendo... O Sarney não sofreu como presidente, mas como escritor. Terminei a série perguntando: "Afinal de contas, Sir Ney escreveu ou não escreveu um livro? Escreveu, porque segundo a Unesco livro é uma publicação não periódica de mais de 49 páginas. E quando Sir Ney chegou, depois de muito esforço, à qüinquagésima página, fechou a máquina e gritou lá para dentro: 'Mãe, acabei!'".</p>
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<strong>Você prometeu se candidatar à vaga dele na Academia Brasileira de Letras. Pretende cumprir?</strong></p>
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Cadeira 38, é verdade. Um perigo. Claro que vou ter que cumprir.</p>
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<strong>Promessas à parte, já lhe passou pela cabeça se candidatar à Academia? </strong></p>
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Não é que não me passe pela cabeça: não passa por nenhuma parte do corpo. Aliás, não tenho muita admiração por aquela frase do Machado de Assis: "Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola". Bastaria dizer: "Esta é a glória que fica". Consola? Só se for um consolador de borracha.</p>
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<strong>Você costuma dar cascudos em Machado. Sua crônica sobre a suposta relação homossexual de Bentinho e Escobar em Dom Casmurro é famosa. Considera o Bruxo um escritor medíocre?</strong></p>
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A palavra não é "medíocre". Desde criança, nunca fui induzido pelo nome. Diziam: "Você não vai gostar do Euclides da Cunha, aquela primeira parte de Os Sertões é muito chata". Um dia fui ler e achei sensacional. Guimarães Rosa eu li com certa dificuldade, mas insisti e vi que a dificuldade era minha, não dele. O Proust eu li em português, francês, inglês e espanhol: é toda uma dimensão literária. Mas o Machado não me diz nada, como o Joyce, que eu nunca consegui ler. Não acredito em ler com esforço.</p>
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<strong>A cultura escrita está perdendo prestígio no mundo inteiro. Isso é ruim?</strong></p>
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O volume de escritos está numericamente maior e percentualmente menor. Com a internet, cada um tem seu blog, e, quando há um volume muito grande de gente praticando, tudo se abastarda. Quando se deliberou que não haveria mais métrica e rima na poesia, toda senhora de 50 anos começou a fazer poesia. Hoje o marketing é violento. Quando o cara consegue explodir, como o Paulo Coelho, está feito: nada faz mais sucesso que o sucesso. Eu só li um livro dele, um com nome árabe [O Zahir]. Outro dia ele disse que não liga para o que os tradutores fazem com seus livros. Pô, o tradutor só pode melhorar aquilo! Mas vai melhorar o Guimarães Rosa...</p>
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<strong>Você é famoso por não ser saudosista. Existe algo em que o mundo tenha sido melhor do que hoje?</strong></p>
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Ah, sem dúvida: Ipanema nos anos 60. Fui morar lá em 1954. Meu edifício foi o primeiro, tive que espantar os índios da praia. Não havia sinal de trânsito. O Rio era uma aldeia. Antes disso eu morava na avenida Atlântica, a duas quadras do meu amigo Sérgio Porto. É impressionante o modo como a gente trabalhava. Eu ficava na praia até as onze. Todo dia tinha mil coisas para fazer, mas às sete da noite estava no bar Vilariño, às nove no Juca's Bar. Como pode? Não sei. Levava para a praia um cestinho com os jornais, ia escrevendo uns negócios e guardando ali, enquanto a gente conversava. Foi quando inventamos o frescobol.</p>
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<strong>Como foi essa história?</strong></p>
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No começo era só peteca e mar, isto é, jacaré. No Arpoador começavam a chegar as primeiras pranchas, de dez metros. Um dia apareceu uma pessoa com uma caixa, que tinha dentro uma bola e uma raquete pesada. A gente batia e a bola voltava, como um bumerangue. Chamava-se "la pelote basque sans fronton" [pelota basca sem paredão]. A raquete já estava ali, e apareceu alguém com uma bola de tênis. A gente pegava essas bolas e esfregava com querosene, para deixá-las carecas. Nunca mais deixei de jogar frescobol. Cheguei a jogar muito bem.</p>
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<strong>Você é o maior tradutor brasileiro de teatro. Já encarou Shakespeare e Tchekov, Molière e Ibsen, entre muitos outros, mas começou traduzindo quadrinhos. É um autodidata também em línguas estrangeiras?</strong></p>
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Autodidata é um louvor. Sou audacioso e tenho instinto, sensibilidade. E não tenho medo. Quero que o Shakespea­re se dane, para não dizer coisa pior. Uma vez encontrei o Nelson Rodrigues na cidade e ele disse: "Ô Millôr, é verdade que tu melhora o Molière?". Respondi: "Nelson, sou mais velho que o Molière. Traduzo com absoluta fidelidade, mas, se ele deixar uma bola na cara do gol, eu chuto".</p>
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<strong>É mais importante para um tradutor dominar seu idioma do que a língua-fonte?</strong></p>
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O importante é a língua para a qual se traduz. No teatro, então... Um dia o [diretor de teatro] Gianni Rato chegou aqui com A Megera Domada. Eu falei que não sabia traduzir aquilo. Aí fui pesquisar as traduções que existiam. Olha, é inacreditável: o pessoal cortava trechos, dizia uma coisa pela outra, e humor ninguém sabia. Fiz uma Megera Domada melhor e aprendi o valor do trocadilho. Dizem que o trocadilho é a mais baixa forma de humor, mas, se você tirar o trocadilho de Shakespeare, ele desaparece. O Agrippino Grieco escreveu: "Menotti del Picchia, fecha a braguilha do teu nome!". Isso é ótimo! Não dá para dizer de outra forma.</p>
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<strong>Quais humoristas brasileiros você admirava quando começou? Era fã do Barão de Itararé?</strong></p>
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Não era e fui ficando cada vez menos. Ele tem meia dúzia de coisas, o marketing do Rio Grande do Sul e aquela bobeira fundamental: você diz que uma coisa é boa e as pessoas acreditam. Em São Paulo, houve um humorista popular muito bom, o Juó Bananere, que ninguém conhece.</p>
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<strong>Quem faz o Millôr rir no humor brasileiro de hoje?</strong></p>
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Hoje está tudo espalhado, existe muita gente boa por aí que eu não conheço. Mas dos meus colegas tem o Jaguar, o Chico e o Paulo Caruso, os paulistas como o Laerte e o Angeli, muita gente. Escrevendo é que eu vejo poucos além do Verissimo, que está consagrado.</p>
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<strong>Você conviveu com Nelson Rodrigues. Concorda que ele é o maior dramaturgo brasileiro?</strong></p>
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Ninguém vai desfazer esse mito, mas é um mito com fundamento. O Nelson tem humor. Com meia dúzia de frases, liquida o Barão de Itararé: "Eu não sou machista, machista é a natureza".</p>
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<strong>Qual é a melhor peça de teatro do Millôr?</strong></p>
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Flávia, Cabeça, Tronco e Membros. Foi encenada uma vez só, com direção do [Luiz Carlos] Maciel. Um dia fui ver um ensaio e nunca mais apareci, nem na estréia. Não entenderam nada. Acho excelente, mas morreu. Foi a única peça que não escrevi de encomenda. Minha vocação é essa. Não trabalho por dinheiro, mas sem dinheiro eu não trabalho.</p>
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<strong>É por isso que você nunca escreveu um romance? Porque nunca pediram?</strong></p>
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Até pediram, mas não sei... A Luciana Villas-Bôas, editora da Record, foi uma que pediu. Como a minha autobiografia. Eu acho que seria uma biografia precoce. Mas já tenho um título, para o caso de um dia escrever: Ecmnésia. É aquele passado edulcorado. Tudo parece bonito no passado, mas volta lá para você ver.</p>
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<strong>É mais difícil fazer humor com o governo Lula do que com a ditadura militar?</strong></p>
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O problema é insistir em coisas ultrapassadas. O Lula ocupou seu espaço. Acho que o Fernando Henrique é intelectualmente pior, mas no começo pensei que o Lula fosse pedir auxílio a ele para as ligações internacionais. E hoje ele é um embaixador do Brasil como não existe igual. Descobriu que, com o tradutor automático, pode falar as maiores besteiras porque vão corrigir. O Freud ficaria besta com o Lula: é o ego maior do mundo.</p>
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<strong>Você ficou feliz com a eleição de Barack Obama?</strong></p>
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"Feliz" não é a palavra, não é algo pessoal. Queira ou não, ele é parte da história. O mundo mudou. E eu já tenho todo o direito de fazer a brincadeira do racismo ao contrário. De agora em diante vou botar em todo lugar: White is beautiful. Aliás, black is beautiful é um belo slogan. Isso é que é linguagem: não se pode tirar nenhuma palavra. Gosto de uma frase minha: "Livre como um táxi". Não dá para tirar nenhuma palavra, e não há nada menos livre que um táxi...</p>
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<strong>Daqui a 200 anos, quando se mencionar o nome do Millôr, em que parte da sua obra vão pensar primeiro?</strong></p>
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Não acredito em obra, mas depois de 250 anos escrevendo, com aquele negócio de fazer uma frase hoje e outra amanhã, tenho muita coisa, muito pensamento espalhado por aí. "Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem", por exemplo. É evidente que algumas dessas frases persistirão.</p>
Em 2008, numa conversa com <strong>BRAVO!</strong>, Millôr Fernandes negou ter uma obra - "é coisa de pedreiro" - e lamentou o fato de a tecnologia franquear a escrita à gente sem talento. O tradutor, escritor, desenhista e humorista carioca morreu ontem, aos 87 anos, de falência múltipla dos órgãos. Leia, a seguir, a entrevista2012-03-28T15:14:36-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEm 2008, numa conversa com BRAVO!, Millôr Fernandes negou ter uma obra - "é coisa de pedreiro" - e lamentou o fato de a tecnologia franquear a escrita à gente sem talento. O tradutor, escritor, desenhista e humorista carioca morreu ontem, aos 87 anos, de falência múltipla dos órgãos. Leia, a seguir, a entrevistaLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/a-revolucao-que-deixamos-escaparA Revolução que Deixamos Escapar2012-03-27T15:46:11-03:00
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Nasci na Inglaterra, em 1948, tarde o suficiente para me livrar do serviço militar obrigatório, encerrado anos antes, mas a tempo de conhecer os Beatles: tinha 14 anos quando eles lançaram <em>Love Me Do</em>. Três anos depois apareceram as primeiras minissaias: eu já era velho o bastante para apreciar suas virtudes e jovem o bastante para tirar proveito delas. Cresci numa era de prosperidade, segurança e conforto — e, portanto, ao completar 20 anos, em 1968, me rebelei. Como tantos jovens do <em>baby boom</em>, eu me conformei com o meu não conformismo.</p>
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Sem dúvida, os anos 60 foram uma bela época para ser jovem. Tudo parecia estar mudando num ritmo sem precedentes, e tínhamos a impressão de que o mundo pertencia aos jovens (uma observação estatisticamente comprovável). Por outro lado, ao menos na Inglaterra, a transformação podia ser enganosa. Como estudantes, nos opúnhamos ruidosamente ao apoio do governo trabalhista à guerra do Vietnã de Lyndon Johnson [<em>presidente norte-americano</em>]. Lembro-me de pelo menos um protesto do tipo em Cambridge, após um discurso de Denis Healey na cidade, na época ministro da Defesa. Perseguimos o carro dele até a saída da cidade — uma amiga minha, hoje casada com o alto representante da União Europeia para a política externa, subiu no capô e esmurrou o para-brisa, furiosa.</p>
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Só depois que Healey foi embora nos demos conta de como já era tarde — o jantar na faculdade começaria a ser servido em poucos minutos, e não queríamos perdê-lo. Ao voltar para o centro, quando reparei, caminhava a passos largos ao lado de um policial fardado designado para monitorar a multidão. Trocamos olhares. “Acha que a manifestação foi boa?” Ele respondeu sem hesitar nem estranhar a questão: “Creio que foi tudo muito bem, senhor”.</p>
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Cambridge, sem dúvida, ainda não estava pronta para a revolução. Nem Londres: na famosa manifestação em Grosvenor Square, na frente da embaixada dos Estados Unidos (mais uma vez, por causa do Vietnã — como a maioria dos meus contemporâneos, eu me mobilizava com mais disposição contra injustiças cometidas a milhares de quilômetros dali), espremido entre um entediado cavalo da polícia e a cerca da praça, senti uma sensação quente e úmida na perna. Incontinência? Ferimento sangrando? Não dei sorte. A bomba de tinta vermelha que eu pretendia jogar na direção da embaixada estourara no meu bolso.</p>
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Naquela mesma noite, fui jantar com minha futura sogra, uma senhora alemã de modos impecavelmente conservadores. Duvido que sua visão cética a meu respeito tenha mudado quando bati na casa dela coberto com uma substância vermelha pegajosa da cintura para baixo — ela já estava assustada por ter descoberto que a filha estava namorando um daqueles esquerdistas cabeludos que cantavam “Ho, Ho, Ho Chi Minh”, os quais vira na televisão, com algum desgosto, naquela tarde. Claro, eu teria preferido que fosse sangue, e não tinta. Para chocar a burguesia.</p>
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<strong>PSICODRAMA</strong></p>
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Com o intuito de viver a revolução de verdade, íamos a Paris, claro. Como tantos amigos e colegas, viajei para lá na primavera de 1968, a fim de observar — e inalar — a genuína revolta. Ou, pelo menos, uma imitação bem fiel da versão genuína. Ou, ainda, nas palavras céticas de Raymond Aron, um psicodrama representado no palco onde um dia encenaram a peça genuína. Como Paris havia sido o local de uma revolução — e, de fato, boa parte de nossa compreensão visual do termo deriva do que acreditamos saber dos eventos transcorridos ali entre os anos 1789 e 1794 —, por vezes era difícil distinguir entre política, paródia, pastiche e... atuação.</p>
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Por determinada perspectiva, tudo estava como devia: paralelepípedos de verdade, problemas reais (ao menos para os participantes), violência real e, ocasionalmente, vítimas reais. Mas, num outro nível, nada parecia muito sério: mesmo quando eu me esforçava muito, não dava para acreditar que uma comunidade estudantil descaradamente obcecada pelas viagens nas férias de verão — no meio das manifestações e debates falava-se bastante nas temporadas em Cuba — pretendia derrubar seriamente o presidente Charles de Gaulle e a Quinta República.</p>
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Nada ocorreu, se usarmos parâmetros sérios, e todos voltamos para casa. Na época, considerei Aron injustamente desdenhoso. Hoje eu estaria inclinado a compartilhar seu desdém, mas na época ele me pareceu um pouco exagerado. O que mais parecia incomodar Aron era que todos se divertiam. Por mais brilhante que fosse, não conseguiu perceber que, embora se divertir não seja a mesma coisa que fazer uma revolução, muitas revoluções realmente começaram com risos e divertimento.</p>
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Um ano ou dois depois, fui visitar um amigo que estudava numa universidade alemã — Göttingen, creio. “Revolução” na Alemanha Ocidental significava algo bem diferente. Ninguém estava se divertindo. Para a visão inglesa, todos pareciam indescritivelmente sérios — e escandalosamente preocupados com sexo. Aquilo era novidade: os estudantes ingleses pensavam muito em sexo, mas o praticavam pouquíssimo; os estudantes franceses, mais ativos sexualmente (minha impressão), mantinham uma boa separação entre sexo e política. Exceto pela exortação ocasional do “faça amor, não faça a guerra”, sua atuação política era intensamente, quase absurdamente, teórica e árida. As mulheres participavam — quando participavam — fazendo café e dormindo com os militantes (e como papagaio de pirata, acessórios visuais para deleite dos fotógrafos da imprensa). Não admira o surgimento do feminismo radical logo depois.</p>
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Contudo, na Alemanha, a política tratava de sexo — e o sexo, em grande parte, da política. Descobri assombrado, ao visitar um dormitório coletivo alemão (todos os estudantes alemães que conheci, pelo jeito, moravam em comunidade, compartilhando apartamentos grandes e antigos e as parceiras uns dos outros), que meus contemporâneos da Bundesrepublik [<em>a Alemanha Ocidental</em>] realmente acreditavam em sua própria retórica. Uma abordagem rigorosamente livre de complexos no caso do sexo casual era, segundo eles, a melhor maneira de se livrar das ilusões a respeito do imperialismo americano — e representava uma purificação da herança nazista dos pais, caracterizada pela repressão sexual mascarada de machismo nacionalista.</p>
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A noção de que um sujeito de 21 anos na Europa Ocidental pudesse exorcizar a culpa dos pais se livrando da roupa e das inibições (e de sua parceira) — desfazendo-se metaforicamente dos símbolos da tolerância repressiva — pareceu um tanto suspeita a meu esquerdismo inglês empírico. Mas que sorte o antinazismo exigir orgasmos múltiplos. E, pensando bem, quem era eu para reclamar? Um universitário de Cambridge em cujo universo político habitavam policiais educados e a consciência limpa de um país vitorioso e que não sofreu ocupação talvez não fosse o sujeito mais indicado para avaliar as estratégias purificadoras alheias.</p>
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<strong>PROVINCIANOS</strong></p>
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Eu talvez tivesse me sentido um pouco menos superior se soubesse o que andava acontecendo a uns 400 quilômetros a leste. O que revela a respeito do mundo na Europa Ocidental hermeticamente fechada por causa da Guerra Fria o fato de eu — estudante de história instruído, descendente de judeus da Europa Oriental, à vontade em diversos idiomas, conhecedor da minha metade do continente graças a viagens constantes — ignorar completamente os eventos cataclísmicos que se desenrolavam na Polônia e na Checoslováquia naquele período? A revolução me atraía? Por que não ir a Praga, inquestionavelmente o lugar mais excitante da Europa de então? Ou a Varsóvia, onde meus jovens contemporâneos corriam risco de expulsão, exílio e prisão por suas ideias e ideais?</p>
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O que nos revela sobre as ilusões de Maio de 68 o fato de eu não me lembrar de uma única menção à Primavera de Praga, e muito menos do levante dos estudantes poloneses, em nossos debates mais sinceramente radicais? Se tivéssemos sido menos provincianos (a 40 anos de distância, o nível da intensidade com que discutíamos a injustiça do horário de fechamento dos portões da faculdade é meio difícil de expressar), teríamos deixado uma marca mais duradoura. Do jeito que foi, avançávamos noite adentro debatendo a Revolução Cultural da China, os levantes mexicanos e as ocupações da Columbia University. Mas, exceto pelo alemão desdenhoso ocasional, que ficava contente em ver no Dubek da Checoslováquia [<em>Alexander Dubek, secretário do Partido Comunista</em>] apenas mais um reformista vira-casaca, ninguém falava na Europa Oriental.</p>
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Ao olhar para trás não posso evitar a sensação de que perdemos o barco. Marxistas? Então, por que não estávamos em Varsóvia discutindo os derradeiros fragmentos do revisionismo comunista com o grande filósofo Leszek Kolakowski e seus alunos? Rebeldes? Em que causa? A que preço? Mesmo aqueles poucos espíritos corajosos que eu conhecia, desventurados o bastante para passar uma noite na cadeia, costumavam voltar para casa na hora do almoço. O que sabíamos a respeito da bravura exigida de estudantes que tinham de suportar semanas de interrogatório nas prisões de Varsóvia, seguidos por sentenças de um, dois ou três anos de detenção, por terem reivindicado direitos que colegas como nós consideravam conquistados?</p>
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Apesar de todas as nossas teorias de história eloquentes, deixamos de notar um dos momentos decisivos seminais. Foi em Varsóvia, no verão de 1968, que o marxismo caiu por terra. Coube aos estudantes rebeldes da Europa Central minar, desacreditar e derrubar não apenas alguns regimes comunistas arruinados mas também a própria ideia de comunismo. Se tivéssemos nos preocupado um pouco mais com o destino das ideias que brandíamos, teríamos talvez prestado mais atenção às ações e opiniões dos que foram criados na sua sombra.</p>
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Ninguém deve sentir culpa por nascer no lugar certo na hora certa. Nós, no Ocidente, pertencíamos a uma geração sortuda. Não mudamos o mundo; a bem da verdade, o mundo mudou obsequiosamente para nós. Tudo parecia possível: ao contrário dos jovens de hoje, nunca duvidávamos de que haveria um emprego interessante para nós, e por isso não precisávamos perder tempo com cursos degradantes como o de administração e negócios. A maioria seguia carreira na educação, ou entrava para o funcionalismo público. Concentrávamos nossa energia na discussão sobre o que havia de errado no mundo e em como transformá-lo. Protestávamos contra as coisas de que não gostávamos e estávamos certos em fazer isso. Aos nossos olhos, éramos uma geração revolucionária. Pena que tenhamos deixado escapar a revolução.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>O Chalé da Memória</em>, de Tony Judt. Tradução ­Celso Nogueira. Editora Objetiva, 224 págs., R$ 32,90.</p>
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Em <em>O Chalé da Memória</em>, o historiador inglês Tony Judt (1948-2010) constrói um retrato muito pessoal da Europa no século 20.<strong> BRAVO! </strong>reproduz um dos capítulos do livro, que foi lançado este mês no Brasil. O ensaio autobiográfico trata do clima de contestação que tomou conta da juventude europeia em 19682012-03-27T13:07:31-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 175 - Março 2012Em O Chalé da Memória, o historiador inglês Tony Judt (1948-2010) constrói um retrato muito pessoal da Europa no século 20. BRAVO! reproduz um dos capítulos do livro, que foi lançado este mês no Brasil. O ensaio autobiográfico trata do clima de contestação que tomou conta da juventude europeia em 1968LiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/por-um-fioPor um Fio2012-02-28T13:12:02-03:00Kelvin Falcão Klein
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Em <em>A Insustentável Leveza do Ser</em>, o escritor checo Milan Kundera refuta a ideia de Deus baseado no pressuposto de que nenhum Deus criaria uma vida na qual fosse necessário defecar. <em>Guia de Ruas Sem Saída</em>, novo romance de Joca Reiners Terron, cria um mundo que aboliu qualquer traço de Deus. “Um mar de merda. Remexo e nada. Vomito. Espaguete. Vomito mais”, registra um dos personagens. Cinzas, fezes, sangue – esses são alguns dos materiais que formam o cerne do livro. Evocando o odor da mortalidade e da decadência, o excremento aparece como uma piada universal, que serve de alerta a todos, leitores e personagens, como uma lembrança da morte certa. A morte, protagonista do <em>Guia</em>, é a rua sem saída por excelência – voltar é impossível.</p>
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A história se alterna entre dois homens: um cartunista barbudo, que cria um super-herói de sucesso, o Homem-Escada, e um que procura um transplante de fígado no exterior. As tramas se desenvolvem em paralelo entre capítulos breves de texto e outros com ilustrações de André Ducci, que recebeu orientações do próprio autor. Frases curtas, onomatopeias e repetições de vozes narrativas contribuem para deixar o discurso sempre por um fio, convulsivo, na iminência de um abandono. Os desenhos evocam uma atmosfera onírica, sensação potencializada pelo desconforto com os ambientes que nasce e cresce dentro do próprio texto. As imagens não estão ali para ilustrar uma história coesa e linear, mas para provocar ainda mais ruído, fazendo do <em>Guia</em> um intrigante jogo de armar, uma caçada ao sentido, que sempre escapa.</p>
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<strong>Gorilas e Beckett</strong></p>
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A escritura do livro acompanha a progressiva perda de consciência dos personagens, que já não se reconhecem (“Tem um homem refletido na parede interna da geladeira. Quem será esse barbudo?”) e não sabem mais para onde ir (“O outro lado do mundo é um lugar distante demais para morrer”). Surgem gorilas assassinos, prostitutas, intervenções cirúrgicas, chips com GPS – todos produtos dessa voragem narrativa que impede o estabelecimento de qualquer explicação ou motivo.</p>
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Nossos tempos de vertiginosos estímulos aparecem nas descrições com metáforas inesperadas. Os diálogos rápidos e áridos, de palavras enigmáticas, carregam marcas beckettianas e de recriações posteriores, como a peça <em>O Gordo e o Magro Vão Para o Céu,</em> de Paul Auster: “Ninguém. Néquem. E você? – Não sei – Não-Sei e Ninguém. Podíamos montar um grupo musical. Nosso maior sucesso iria ser ‘Nunca’”.</p>
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O <em>Guia</em> é, no fim das contas, um exercício de contato com a morte. Sua construção, no entanto, mostra que grande parte dos tormentos está na vida – e deve ser resolvida enquanto ela ainda existe. </p>
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<strong>Kelvin Falcão Klein</strong> é crítico literário, autor do blog Um Túnel no Fim da Luz (falcaoklein.blogspot.com).</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Guia de Ruas Sem Saída</em>, de Joca Reiners Terron. Ilustrações de André Ducci. Selo Edith, 256 págs., R$ 35.</p>
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O romance “Guia de Ruas Sem Saída” mescla texto do escritor Joca Reiners Terron a ilustrações de André Ducci para falar da decadência em vida e do acerto definitivo com a morte2012-02-28T13:12:02-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 174 - Fevereiro 2012O romance “Guia de Ruas Sem Saída” mescla texto do escritor Joca Reiners Terron a ilustrações de André Ducci para falar da decadência em vida e do acerto definitivo com a morteLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/manual-de-instrucoesManual de instruções2012-02-24T18:52:13-02:00Redação
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Com o conto <em>Rudimentos de Sadomasoquismo Comparado</em>, Glauco Mattoso assina a seção Ficção Inédita deste mês. O texto, no entanto, não foi escrito de maneira convencional. O ficcionista sofre de glaucoma – seu nome artístico é um trocadilho com o termo<em>glaucomatoso</em>, usado para portadores da doença. Desde o começo da década passada, o escritor utiliza um programa de computação, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, para ler e escrever. No podcast abaixo, saiba como funciona:</p>
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<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F37712582"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F37712582" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p>
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Leia o conto <em>Rudimentos de sadomasoquismo comparado </em>na edição de março/175.</p>
O escritor Glauco Mattoso, que ficou cego nos anos 90, explica como faz para ler e escrever2012-02-24T18:52:13-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosO escritor Glauco Mattoso, que ficou cego nos anos 90, explica como faz para ler e escreverLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/ela-se-sentia-intelectualmente-insegura“Ela se sentia intelectualmente insegura”2012-02-24T13:08:32-02:00
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As cenas ainda se espalham pela internet, em resquícios de telejornais e inúmeras fotografias: na Sala São Paulo, a grandiosa casa paulistana de concertos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproximou de um prostrado Fernando Henrique Cardoso, que olhava o corpo inerte da mulher. A antropóloga Ruth Cardoso, de 77 anos, morrera um dia antes. Portadora de doença coronariana, sofreu uma arritmia cardíaca grave e desmaiou na cozinha do apartamento que dividia com o marido. Quando o socorro chegou, já não havia o que fazer. Eram 20h40 de uma terça-feira bastante fria. Na quarta, 25 de junho de 2008, ao longo do velório, Fernando Henrique não se cansava de acariciar a fronte de Ruth e tirou os óculos diversas vezes para enxugar as lágrimas. Mal avistou Lula, permitiu que o sucessor lhe desse um abraço prolongado. O petista ficou na cerimônia por uns 30 minutos. Ao partir, consolou novamente o tucano e lhe disse: “Se precisar de mim, peça. Estou à disposição”. Durante aquele breve período, os dois principais líderes políticos do Brasil contemporâneo baixaram armas e abdicaram das farpas que costumam trocar.</p>
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O velório atraiu, igualmente, acadêmicos de múltiplas tendências e variados espécimes do Distrito Federal, alguns até mais antagônicos do que Lula e FHC. Navegantes das redes sociais, blogueiros e a mídia convencional enxergaram na comunhão temporária de adversários um símbolo daquilo que Ruth despertou enquanto viveu: a unanimidade. Conforme tais interpretações, a ex-primeira-dama e uma das fundadoras do PSDB se notabilizou por conquistar, dentro e fora da universidade, o respeito e a admiração de gregos e troianos, seja sob a faceta de professora e orientadora, seja à frente do Comunidade Solidária. O programa do governo Fernando Henrique, engendrado pela antropóloga, estimulou as ações conjuntas entre ONGs, empresários, movimentos populares e o Estado com o objetivo de erradicar a pobreza.</p>
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Como poetas, romancistas, músicos e pintores, os intelectuais – e os políticos – sobrevivem à morte não apenas por conta do que produziram mas também graças à imagem póstuma que se constrói deles. A da pesquisadora ganhou os contornos iniciais justamente na Sala São Paulo. Em setembro de 2009, o desenho adquiriu maior nitidez com a criação do Centro Ruth Cardoso, que se impôs a meta de preservar e disseminar o legado da homenageada. Um ano depois, apareceu <em>Fragmentos de uma Vida</em>, perfil da docente que a editora Globo encomendou para o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Agora, chega às livrarias <em>Ruth Cardoso </em>–<em> Obra Reunida</em>. A coletânea de 567 páginas, lançada pela Mameluco, agrupa todos os artigos acadêmicos da ex-primeira-dama. São 41 textos – o mais velho, de 1959; o mais recente, de 2004. A antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira, amiga e discípula de Ruth que leciona na Universidade da Califórnia, em Berkeley, se encarregou de organizar e apresentar o volume. Um time de quatro renomadas pensadoras a ajudou: Céline Sachs-Jeantet, Esther Império Hambúrguer, Eunice Ribeiro Durham e Helena Sampaio.</p>
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Quem vasculha o site do Centro, atravessa o perfil assinado por Loyola ou destrincha o prefácio da coletânea sai com uma impressão francamente positiva da professora. Sobram aprovações, faltam pontos de vista menos parciais. Espirituosa, discreta, sempre atenta às novidades, educadora nata, cosmopolita, vocacionada para a atuação em equipe, interlocutora brilhante, exímia dona de casa, mãe e avó carinhosas são as qualificações que vêm à cabeça de internautas e leitores. Uma <em>boutade</em>, cunhada pela própria Ruth, resumiria à perfeição o seu caráter, segundo Loyola. “Isto não está de acordo com nossos padrões araraquarenses”, proclamava, irônica, quando se flagrava diante de circunstâncias em que o recato e a ética despencavam ladeira abaixo. O gracejo, claro, se refere à cidade do interior paulista onde a acadêmica nasceu e se criou. Ela só trocaria Araraquara pela capital do estado em 1946, aos 15 anos, para ingressar num tradicional colégio católico, o extinto Des Oiseaux.</p>
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<strong>Cozinhas comunitárias</strong></p>
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Filha única de um guarda-livros com uma farmacêutica que dava aulas de botânica, química e biologia, Ruth Corrêa Leite Cardoso estudou ciências sociais entre 1949 e 1952. À época, as turmas que frequentavam o curso da Universidade de São Paulo somavam uma dúzia de alunos, se tanto. Foi também na USP que, em 1957, a jovem socióloga virou assistente do lendário Egon Schaden, catedrático de antropologia. Começou, assim, uma duradoura carreira no ensino superior. Perto de intelectuais da mesma geração, escreveu pouco e publicou menos ainda. Divulgou o grosso de seus ensaios nos círculos restritos da “alta cultura”: mesas de reuniões científicas, jornais e revistas de pequena tiragem, seminários e debates. Sobressaiu-se bem mais como orientadora de pós-graduandos e como agente política em contínuo diálogo com a sociedade civil.</p>
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Muitos lhe conferem o mérito de introduzir no país a antropologia urbana – pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das áreas pobres. Não à toa, se debruçou sobre a rotina das favelas, a integração dos migrantes japoneses no Brasil, as novas configurações da juventude, o feminismo, os meios de comunicação, o terceiro setor, as cozinhas comunitárias e a adoção de crianças pelas classes baixas.</p>
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Em fevereiro de 1953, se casou com FHC, que mais tarde despontaria como sociólogo. Os dois geraram Paulo Henrique, Luciana e Beatriz. Não raro, a trajetória do marido exigiu renúncias da antropóloga. De 1964 a 1968, por exemplo, Ruth morou no Chile e na França, já que a ditadura militar empurrou Fernando Henrique para o exílio. O afastamento compulsório da USP fez a pesquisadora adiar o doutorado, só concluído em 1972. Na década de 1990, voltou a abandonar as pesquisas, agora premida pela eleição do cônjuge à presidência da república. Tornou-se primeira-dama a contragosto, mas acabou revitalizando a função, que exerceu durante oito anos (1995-2002). Até então, nenhuma intelectual alcançara aquele status no país. De modo idêntico, nunca a mulher de um presidente concebera e dirigira um programa social tão intrincado e abrangente quanto o Comunidade Solidária.</p>
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<strong>Panegírico</strong></p>
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Semanas atrás, o jornalista e curador Marcelo Rezende, colaborador de <strong>BRAVO!</strong>, redigiu um artigo em que comenta o abrupto e prematuro falecimento de outro jornalista: Daniel Piza. A reflexão se encontra no blog do Instituto Moreira Salles. Ali, Rezende analisa o substantivo “panegírico”: “Trata-se de um discurso, de uma louvação (...). É geralmente aquilo que os vivos decidem realizar quando estão diante da evidência concreta da morte”. Tributos do gênero, pondera o autor, transcendem o mero elogio, uma vez que se escoram apenas no superlativo. O panegírico desumaniza o morto. Santifica-o, lhe esculpe feições de herói. Já o elogio “permite a contradição, o contraponto infeliz na existência de alguém e do personagem desse mesmo alguém”. Certamente, Ruth Cardoso merece vários dos adjetivos risonhos que lhe imputam. Mas será que fazia jus aos exageros? Como ela própria avaliaria a mitificação latente nos panegíricos que inspirou?</p>
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Para discutir a questão e relembrar a professora, <strong>BRAVO!</strong> entrevistou Fernando Henrique durante três horas, em São Paulo. Uma parte da conversa ocorreu no instituto que leva o nome do sociólogo. A outra, no apartamento onde o ex-presidente – que completou 80 anos – viveu com a antropóloga.</p>
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<strong>O legado intelectual</strong></p>
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<strong>BRAVO!: Está em curso um movimento para consolidar a imagem de dona Ruth Cardoso como a de uma figura exemplar...</strong></p>
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<strong>Fernando Henrique Cardoso:</strong> <em>(Interrompendo o repórter) </em>Sim, mas nenhuma iniciativa partiu da família. As homenagens nasceram de maneira espontânea. São os amigos, os alunos e os colaboradores de Ruth que se atribuem a tarefa de reverenciá-la. Eu e meus filhos não pedimos nada a ninguém.</p>
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<strong>De que modo a ex-primeira-dama reagiria diante de tantos aplausos? O senhor já pensou no assunto?</strong></p>
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Já. Imagino que reagiria bem, ainda que timidamente. Ruth não almejava os holofotes. Nunca sonhou, por exemplo, que implantariam uma cátedra com o nome dela na Universidade Columbia, em Nova York, como aconteceu há uns três anos. Aquela antropóloga toda aplicada, na verdade, não se preocupava nem sequer em arquivar o que escrevia. Não ficava lambendo a cria. Era mais desleixada do que eu nesse sentido – e menos autoconfiante. Padecia de insegurança.</p>
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<strong>Insegurança? Não dava a menor impressão.</strong></p>
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De fato: os inseguros costumam parecer afirmativos. No fundo, Ruth ignorava o próprio valor. Não possuía uma autoestima muito elevada. A minha sempre se revelou maior. Tanto que, em casa, meus filhos brincam: “Pai, você precisa fazer uma lipoaspiração no ego!” <em>(risos)</em> É engraçado... As pessoas me chamam de vaidoso, de ambicioso, de sei lá o quê. Falam que, desde criancinha, eu queria ocupar a presidência. Bobagem! Pura fantasia! Quando jovem – e mesmo na maturidade –, jamais cogitei me eleger presidente. As coisas foram se desenrolando. Tampouco me considero vaidoso. Ou, pelo menos, não do jeito que o senso comum define a palavra. Tenho vaidade intelectual. Sob outros ângulos, porém, sou mais descuidado do que cuidadoso. Não cultivo vaidade física, pessoal. Nunca liguei além da conta para esse negócio de roupa, de elegância.</p>
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<strong>Dona Ruth se sentia insegura em que aspectos?</strong></p>
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Apenas intelectualmente. No papel de mulher, de mãe ou de professora, não. Desempenhava-os com tranquilidade e confiança. Só nutria dúvidas sobre sua competência como pensadora.</p>
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<strong>Por isso escreveu pouco?</strong></p>
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É provável. Ela adorava lecionar. Preparava as aulas demoradamente, expressava-se bem em classe, zelava pelos alunos. Entretanto, sofria para escrever. Talvez até desconhecesse o prazer da escrita. Era muito crítica. E quem é muito crítico acaba se descobrindo autocrítico demais. Não por acaso, Ruth normalmente rejeitava o que produzia – rabiscava o texto, mexia e remexia nas frases, torturava-se. Também não ambicionava publicar. Tinha ideias relevantes, mas nem sempre julgava necessário estruturá-las num ensaio, construir teorias. Preferia ensinar, fazer observações de campo e agir socialmente.</p>
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<strong>O senhor, em contrapartida, escreveu bastante e publicou trabalhos de grande repercussão. Conviver com um intelectual tão fértil inibiu dona Ruth? </strong></p>
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Não acredito. Tratava-se mais de uma exigência dela em relação a si própria. Mesmo porque nós não competíamos. Pelo contrário: nos ajudávamos, um apoiava o outro. Encontro tanto casal disputando espaço... Nós, não. Eu, inclusive, mostrava a Ruth tudo o que escrevia: livros, ensaios e artigos de jornal. Ela os lia antes da publicação. E opinava, corrigia, discordava.</p>
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<strong>Não há o risco de se estar supervalorizando o legado acadêmico de dona Ruth por razões políticas?</strong></p>
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De maneira nenhuma. Os que resgatam a contribuição de Ruth não têm relações diretas com o jogo partidário. Pegue a série de artigos recém-lançada. As organizadoras da coletânea são pesquisadoras de alto nível, que se conservam longe da política. Ninguém de bom senso negará a importância de Ruth para a modernização da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice <em>(Durham)</em> constituíram o time de antropólogos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina se dedica à análise dos povos ágrafos, que não dispõem da escrita. Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiuçar o universo das cidades, talvez por ser de uma geração que viu o país se urbanizar.</p>
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<strong>A ex-primeira-dama influenciou o senhor como intelectual?</strong></p>
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Sim. Vou lhe citar alguns exemplos. Eu estudei as teses de Claude Lévi-Strauss <em>[antropólogo]</em> superficialmente. Mas a Ruth as conhecia muito. Em 1962 e 63, frequentou seminários dele na França. Ela, então, me ensinava o que sabia. Conversávamos sobre Lévi-Strauss e outros autores que me são menos familiares: o Manuel Castells <em>[sociólogo]</em>, o Michel Foucault <em>[filósofo]</em> e o próprio Alain Touraine <em>[sociólogo]</em>, com quem tive aulas. Ruth ainda me alertou para a força dos movimentos sociais. Recordo que, lá pela década de 1970, grupos da periferia de São Paulo reivindicavam do governo avanços na área da saúde pública. Eu olhava aquilo e previa: “Não vai resultar em nada”. Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o estado à toa porque as exigências populares se perderiam no gabinete do burocrata. Ruth não raciocinava desse jeito. Ela já notava que existia a chance de aquelas ações causarem – como realmente causaram – mudanças mais profundas, mais políticas na estrutura do estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideranças capazes de agir efetivamente dentro da máquina estatal. Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transformações só iriam decorrer da luta de classes – do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: “Não, a luta não precisa ser apenas de classes. A luta também pode ser do povo contra o Estado”.</p>
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<strong>Quer dizer que ela se opunha à predominância das interpretações marxistas na USP da época?</strong></p>
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Exato. Eu, Ruth, Paul Singer <em>[economista]</em>, José Arthur Gianotti, Bento Prado Júnior <em>[ambos filósofos],</em> Octavio Ianni <em>[sociólogo] </em>e outros participamos do famoso seminário sobre <em>O Capital</em>, de Karl Marx, que se iniciou em 1958. Ao longo de seis anos, nossa turma se reunia periodicamente para debater os diversos volumes do livro. Ruth, portanto, tinha intimidade com as teorias de Marx. Acontece que nunca adotou uma visão estritamente marxista. Ela ia na contramão de todos nós e não enxergava a luta de classes como o único motor da história. Daí se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil – uma ideia extramarxista, digamos.</p>
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<strong>A atuação como primeira-dama</strong></p>
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<strong>Dona Ruth não desejava que o senhor virasse político. Por quê? </strong></p>
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Na década de 1950, quando a gente se formou, havia o consenso de que a carreira acadêmica é uma espécie de sacerdócio. Deveríamos viver para o ensino e a pesquisa. Eu próprio considerava pecado receber dinheiro por qualquer atividade que não a de professor. Embora descenda de uma família com larga trajetória política (meu bisavô governou Goiás, meu tio-avô ocupou o cargo de ministro da guerra, meu pai se elegeu deputado), procurei evitar tal caminho na juventude. Não participei nem mesmo do movimento estudantil enquanto cursava ciências sociais. Os militares só me mandaram para o exílio após o golpe de 1964 porque eu defendia reformas na universidade – mudanças que os conservadores taxavam de subversivas. Não me expulsaram do país em razão de militância partidária ou algo do gênero. Logo depois que voltei, resisti à ditadura intelectualmente, fazendo pesquisas, escrevendo artigos em jornais de oposição e promovendo conferências. Ruth também se comportava desse modo. Queríamos protestar, mas continuávamos sem a intenção de ingressar na política propriamente dita. Ocorre que, com o passar dos anos, as circunstâncias me levaram para o Senado e, depois, para o Executivo. Ruth, sobretudo no início, discordava de minha resolução. Temia perder a privacidade. Arrepiava-se diante da ideia de nossa vida se tornar mais pública, mais institucional, repleta de pompa. Mesmo assim, nunca deixou de se engajar em minhas campanhas eleitorais. E, quando cheguei à presidência, desempenhou brilhantemente as funções que atribuiu para si.</p>
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<strong>Entretanto, não gostava que a chamassem deprimeira-dama.</strong></p>
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Ruth, na verdade, refutava o conceito muito norte-americano de que a primeira-dama ocupa um cargo. “Não, quem ocupa um cargo é o presidente da República”, argumentava. “Ele, sim, tem obrigações previstas pela lei. A primeira-dama precisa apenas se manter autônoma e desempenhar os papéis que julgar adequados. Cada uma deve agir como achar melhor, sem tarefas definidas.” Tanto que Ruth sempre defendeu a Marisa <em>[Letícia, mulher de Lula]</em>. As duas se portaram de forma bem diferente em Brasília. Marisa, todos sabemos, abdicou de qualquer protagonismo. E Ruth a apoiava: “Ela está se respeitando. Não trai a própria personalidade, não é exibida, não interfere no governo. Por que vou criticá-la?”</p>
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<strong>Como dona Ruth lidava com o gigantesco cerimonial da presidência?</strong></p>
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Não apreciava nada daquilo, lógico, mas se conformava. Curiosamente, no final de meu segundo mandato, já demonstrava grande apreço pelas seguranças que a acompanhavam. Professora em tempo integral, quando resolvia ver um espetáculo, fazia questão de que as moças assistissem à peça também. Não deixava que a esperassem na porta do teatro. Depois, lhes indagava sobre a montagem e dava explicações sobre o dramaturgo, o diretor e o elenco. Às vezes, havia atores nus em cena – e as seguranças se horrorizavam. No enterro de Ruth, algumas viajaram para São Paulo e quiseram carregar o caixão. Criou-se uma relação de afeto.</p>
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<strong>O senhor dividia com dona Ruth os problemas do governo?</strong></p>
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Não sei se o verbo correto é dividir, porque Ruth evitava se meter diretamente na minha administração. Ela observava à distância. Não bancava o pistolão em área nenhuma. Dirigia o Comunidade Solidária e ponto. Agora, nós conversávamos intensamente sobre quase tudo. Certos temas a seduziam menos. Economia, por exemplo – o câmbio, as estratégias do Banco Central. As atenções de Ruth se voltavam mais para a educação, a saúde e a cultura.</p>
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<strong>Ela discordava muito do senhor?</strong></p>
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Ô! E abertamente! Em inúmeras ocasiões.</p>
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<strong>Mencione uma, pelo menos.</strong></p>
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Ruth detestava os partidos clientelistas – aqueles que não abraçam propriamente uma ideologia, um programa, e só almejam mamar nas tetas do Estado. Os adesistas, né? Em virtude disso, ela jamais suportou determinados setores do extinto PFL e não aceitava o acordo que firmei com os pefelistas. Na teoria, Ruth tinha consciência de que apenas os ditadores governam sem alianças. Só que na prática... Ela reclamava: “Como assim?! Você precisa dizer tal coisa para fulano!” Eu respondia: “Um político não deve ir tão direto ao ponto. Se disser tal coisa, me derrubarão!” Quem está fora da disputa partidária analisa as situações e as pessoas sob a ótica dos estereótipos. No entanto, quando se aproxima delas, termina reformulando o julgamento. Vai soar estranho, mas em qualquer partido existem canalhas do bem e canalhas do mal, canalhas que traem e canalhas que não traem, canalhas inteligentes e canalhas obtusos, canalhas competentes e canalhas incompetentes. Para distinguir uns dos outros, é preciso estrada. Ruth, no começo, não dispunha de tanta vivência. Depois, foi aprendendo.</p>
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<strong>Em 1994, a futura primeira-dama criticou publicamente o senador Antônio Carlos Magalhães, um dos caciques do PFL. Associou-o à ditadura e às oligarquias.</strong></p>
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Pois é... Ruth não se permitia intimidades com o ACM. Conhecedor das restrições dela, Antônio Carlos tratava de agradá-la. Ele podia ser uma serpente ou um encantador de serpentes. Dependia dos ventos. Com a Ruth, costumava exibir os melhores modos. Mas não adiantava. Certa vez, o convidei para tomar um café em casa. Tasso Jereissati <em>[um dos líderes do PSDB]</em> nos acompanhou. Ruth, que se encontrava no apartamento, resolveu preparar o café e se dirigiu à cozinha. Pronto: o Antônio Carlos subiu na tribuna do Senado e proferiu um discurso sobre o episódio. “A mulher do presidente abre mão de empregados e tem o desprendimento de fazer o próprio café.”</p>
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<strong>Como dona Ruth encarava as privatizações que o governo do senhor incentivou? O processo sempre recebeu pesadas críticas. Agora, inclusive, um livro-reportagem que aborda o assunto se transformou em best-seller: </strong><strong><em>A Privataria Tucana</em></strong><strong>, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.</strong></p>
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Ela concordava com as privatizações. À época, todo mundo concordava. Somente um pequeno grupo de ultranacionalistas, não apenas do PT, se posicionava contra. Preconizava que iríamos sucatear as indústrias brasileiras. Imagine! Sobre o livro do rapaz...</p>
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<strong>O senhor o leu?</strong></p>
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Não.</p>
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<strong>Pretende lê-lo?</strong></p>
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Não. Vou ler livro de malandro? O autor trabalhava para os petistas <em>[durante as eleições presidenciais de 2010, a Polícia Federal indiciou Ribeiro Jr. sob a acusação de que ele quebrou o sigilo fiscal de tucanos com o intuito de produzir dossiês; o jornalista nega]</em>. O propósito da reportagem é criar uma cortina de fumaça, tirar o foco da herança deixada por Lula: as corrupções que pipocam no governo federal. Você leu o livro? Conte-me algo que aparece lá.</p>
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<strong>O repórter procura demonstrar que o ex-governador José Serra, do PSDB, e alguns parentes se beneficiaram financeiramente das privatizações.</strong></p>
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O Serra? Impossível! Coloco minha mão no fogo. Serra não teve nenhuma relação com as privatizações. Nada! Zero! Zero! E outra coisa: quem rouba uma hora se entrega. Nunca vi ladrão que, cedo ou tarde, não transpareça. Vamos verificar se algo mudará no padrão do Serra. Vamos verificar se a família dele ostentará riqueza...</p>
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<strong>A vida doméstica</strong></p>
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<strong>Dona Ruth apoiava com veemência as causas feministas. Como tal engajamento reverberava dentro de casa?</strong></p>
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Desde o namoro, e até antes, nós transitávamos num círculo ilustrado, culto, que preconizava a equivalência entre homens e mulheres. Compartilhávamos, portanto, de ideias similares sobre o tema. Mas existia uma diferença importante em nossas posturas – a mesma que distingue o liberal do igualitário. O liberal aceita, tolera. O igualitário bota em prática. Eu, liberal, concordava teoricamente com as reivindicações do feminismo. Ruth, igualitária, tratava de fazê-las acontecer. Ela sempre quis, por exemplo, que todos da família ajudassem no trabalho doméstico. Para um homem da minha geração, assumir atribuições dessa natureza beira o absurdo. Mesmo assim, às vezes, eu tirava a louça da mesa após as refeições. Foi o máximo de concessão que me permiti. Ainda hoje, recolho a louça no meu apartamento ou no de amigos. À época da presidência, também recolhia. Já lavar os pratos me custa mais. Se necessário, lavo – só que me desagrada. Na década de 1980, passamos uma temporada em Berkeley <em>[Estados Unidos]</em>. Há uma foto do período que me flagra lavando louça <em>(veja páginas 24 e 25)</em>. Ruth garantia que a imagem é falsa, que aquele milagre jamais ocorreu. <em>(risos)</em></p>
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<strong>Os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil em 1960. Na ocasião, o senhor os recebeu para um jantar. O que dona Ruth sentiu quando travou contato com uma lenda do feminismo?</strong></p>
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Decepcionou-se. Simone nos pareceu tão bonita quanto distante, fria e dura. Antipática, enfim. Para piorar, tratava o Sartre – um tipo sorridente, carismático – como criança: “Não faça isso, não faça aquilo!” E titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou. Na hora da sobremesa, nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação. Apesar de feminista e intelectual, Ruth prezava as tarefas de casa. Cozinhava bem, tricotava, costurava e adorava jardinagem. Só não entendia direito de contas. Não gastava excessivamente, mas se atrapalhava com cheques e números. Não tinha noção de preço.</p>
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<strong>Na contramão de Lula e dona Marisa, que costumam demonstrar carinho em público, o senhor e dona Ruth se comportavam de maneira sóbria. Faltava romantismo entre vocês?</strong></p>
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Não. Na intimidade, nos mostrávamos calorosos. A discrição se manifestava apenas publicamente – um recato que cultivamos desde a juventude. Além do mais, em casamentos longos como o nosso, cria-se uma base afetiva que é estável, independentemente das aparências, dos altos e baixos, das oscilações pontuais.</p>
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<strong>Em 2009, o senhor reconheceu como filho o adolescente Tomás, que teria nascido de uma relação extraconjugal. O rapaz já fez 20 anos. Recentemente, porém, testes de DNA demonstraram que o senhor não é o pai dele. Em que momento dona Ruth soube da história?</strong></p>
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No momento em que o filho surgiu.</p>
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<strong>E qual a reação dela?</strong></p>
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Ruim, né? Mas também compreensiva. Ruth conhecia a vida. Estava ciente de que o ser humano passa por períodos de variação.</p>
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<strong>O senhor cogitou se separar?</strong></p>
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Não. Nunca me enxerguei sem a Ruth. Desculpe... Não gostaria de alongar o assunto, em nome da reserva que pautava meu casamento. Acrescento apenas que, a despeito do DNA, sigo mantendo um relacionamento muito bom com Tomás, tanto em termos afetivos quanto cíveis. Posso afirmar igualmente que Ruth morreu numa ótima fase de nossa união. À semelhança de qualquer casal, atravessamos etapas de maior e menor cumplicidade. Até criar nossos filhos, nos conservamos bem próximos. Depois, houve certo distanciamento. E, nos últimos 15 anos, uma reaproximação intensa – de tal maneira que a morte dela me afetou como um raio em dia de sol.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Ruth Cardoso – Obra Reunida</em>. Organização e apresentação de Teresa Pires do Rio Caldeira. Editora Mameluco, 567 págs., R$ 78.</p>
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O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro2012-02-24T13:08:32-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 174 - Fevereiro 2012O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livroLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/jovens-envelhecamJovens, Envelheçam!2012-02-22T13:17:52-02:00Ronaldo Bressane
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Cruel, torcida brasileira: Jennifer Egan é cruel. Escreve tão bem que chega a irritar; seu A<em> Visita Cruel do Tempo</em> dá vontade de esfregar nas fuças da crítica que, vez em quando, decreta preguiçosamente o “fim do romance”. Miss Egan, 49 anos, jornalista especializada em música, prova ser possível reinventar o gênero, oxigenando-o com temas novos (os personagens secundários da música pop) com altas octanagens de ironia e melancolia – ao mesmo tempo que mostra um tarantinesco senso de construção de cena, personagem e diálogo. Para aspirar à condição de clássico contemporâneo, o livro remete à tradição. Relê muito peculiarmente <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, de Marcel Proust, e seu tópico principal é mais velho do que a literatura: a passagem do tempo.</p>
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“Jovens, envelheçam” – eis um possível mote rodrigueano para o livro, que levou o Pulitzer de 2011, entre outros prêmios. Egan constrói a narrativa entre a São Francisco dos anos 1970 e a Nova York de cerca de 2020, ao redor da ascensão e queda da fictícia banda punk The Conduits. Sempre de uma perspectiva lateral, de olho nos personagens menores à medida que trocam sonhos, loucuras, cabelos longos e guitarras por rugas, carecas, panças, desastres e leitos de hospital.</p>
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<strong>“ciclos de contos”</strong></p>
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O painel é formado por Sasha, a cleptomaníaca assessora de Bennie, um superprodutor de música pop, responsável por descobrir os Conduits; a turma adolescente de Bennie, músicos e fãs de música que orbitam Lou, um figurão da indústria pop dos anos 1970; os filhos e as namoradas de Lou, seduzidos/massacrados por seu lifestyle hollywoodiano... Enfim: fama e obscuridade, efemeridade e permanência, princípios motores da cultura pop, são as forças que agitam esse caleidoscópio.</p>
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O virtuosismo de Egan vai e volta no tempo, mudando a cada um dos 13 capítulos o foco sobre dado personagem (a própria autora já chamou o romance de “ciclo de contos”, no que lembra obras polifônicas, como <em>Três Tristes Tigres</em>, de Guillermo Cabrera Infante, e <em>Os Detetives Selvagens</em>, de Roberto Bolaño). Narra na primeira pessoa, na terceira, na dificílima segunda (!), quase sempre lançando mão do flaubertiano estilo transitivo indireto livre. Egan chega a usar um divertido esquema de PowerPoint para devassar a mente de uma menina de 12 anos. Porém, diferentemente do que pode parecer, essa verdadeira máquina de pinball narrativa nunca cansa o leitor – por causa do amor com que Egan magnetiza seus tragicômicos personagens. Ao fim da leitura, como todo clássico pop, <em>A Visita Cruel do Tempo</em> tem o misterioso condão que nos faz pedir e pedir: de novo.</p>
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<strong>Ronaldo Bressane</strong> é jornalista e escritor, autor de <em>Céu de Lúcifer</em>, entre outros.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>A Visita Cruel do Tempo</em>, de Jennifer Egan. Intrínseca, 335 páginas, R$ 29 (e-book: R$ 19,90).</p>
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Em “A Visita Cruel do Tempo”, a norte-americana Jennifer Egan faz um deslumbrante caleidoscópio da cultura pop dos últimos 40 anos (e dos próximos dez)2012-02-22T13:17:52-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 174 - Fevereiro 2012Em “A Visita Cruel do Tempo”, a norte-americana Jennifer Egan faz um deslumbrante caleidoscópio da cultura pop dos últimos 40 anos (e dos próximos dez)LiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/memorias-do-presidenteMemórias do Presidente2012-01-27T15:06:23-02:00Redação
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Na edição de fevereiro/174, Fernando Henrique Cardoso relembra a rotina ao lado da antropóloga Ruth Cardoso, falecida em 2008. Durante os 55 anos em que foram casados, eles se influenciaram política e intelectualmente. Confira partes da entrevista e imagens do casal.</p>
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A antropóloga Ruth Cardoso como dona de casa:</p>
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A professora Ruth Cardoso e a insegurança:</p>
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O encontro da dona Ruth Cardoso e Simone de Beauvoir:</p>
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Leia entrevista completa de Fernando Henrique Cardoso à <strong>BRAVO!</strong> na edição de fevereiro/174.</p>
Em entrevista à <strong>BRAVO!</strong>, Fernando Henrique fala sobre sua vida com a antropóloga Ruth Cardoso2012-01-27T15:06:23-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosFevereiro de 2012Em entrevista à BRAVO!, Fernando Henrique fala sobre sua vida com a antropóloga Ruth CardosoLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/animal-inquietoAnimal Inquieto2012-01-27T12:49:55-02:00Tony Monti
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Literatura é um esforço formal coerente para expressar faltas e inadequações. São múltiplas as configurações desse esforço no romance <em>Habitante Irreal</em>, o segundo do gaúcho Paulo Scott, autor também do livro de contos <em>Ainda Orangotangos</em>. As descrições da miséria de populações indígenas, da política partidária inconsequente, da intolerância e da marginalidade produzem, na narrativa, imagens do descompasso entre os personagens e seu meio. Mas é sobretudo a costura do texto que faz a assinatura do autor e constrói a figura do ser humano como um animal inquieto e, em geral, pouco ajustado ao ambiente em que vive.</p>
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A história começa em 1989. Paulo é um jovem militante que, às vésperas da eleição presidencial, deixa o PT por não se identificar com os rumos do partido. Desterrado pela <em>realpolitik</em>, ele experimenta, em um encontro com uma índia adolescente, o sonho ingênuo de uma vida alternativa aos padrões do capital e do consumo. Maína mal fala português, habita um tempo quase mítico, fora da história, alheia ao processo de redemocratização e ao fim da Guerra Fria. Após um período de convivência, uma série de pequenas catástrofes os separa. Paulo acaba em Londres, vivendo em subempregos e aventuras escusas.</p>
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<strong>Máscara</strong></p>
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A segunda parte do livro narra a infância e juventude de Donato, filho biológico de Maína e Paulo. Ele é o habitante irreal, a síntese intranquila da marginalidade da índia e da conflituosa integração de Paulo ao mundo. Adotado por uma família branca, Donato tenta conformar-se às maneiras do novo ambiente. Apesar do esforço, sua vida vai desmontando. Aos poucos, Donato assume o exotismo que o olhar dos outros atribui a ele.</p>
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Como se por fim cumprisse um destino, o personagem compõe um ritual e apresenta-se na rua, um pouco mais índio e um pouco menos branco, mascarado, cantando baixo, quase imóvel. Sem utilizar nem negar os estereótipos com os quais é em geral rotulado, constrói uma identidade precária que aprofunda suas contradições. Donato é o estranho, é artista, índio, louco, marginal, revolucionário, todo um espectro de imagens relacionadas ao sentimento de inadequação que percorre o livro.</p>
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Assim, um ciclo iniciado na dissolução da identidade política do pai termina na afirmação provisória da identidade múltipla e escorregadia do filho. Paulo e Donato completam-se e figuram a força motriz do livro, uma tendência pendular a afastar-se da vida ordinária e a voltar para ela como um invasor. Esse mecanismo, por sinal, pode ser visto como alegoria do próprio fazer artístico (e literário), que em parte adere à normalidade como maneira de se propagar, embora sua principal condição de existência, para se constituir arte, seja evitar o aprisionamento das normas.</p>
<div class="descricao-autor">
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<strong>Tony Monti</strong> é doutor em literatura brasileira e autor do livro de contos eXato acidente.</p>
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<strong>O ROMANCE</strong></p>
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<em>Habitante Irreal</em>, de Paulo Scott. Editora Alfaguara, 264 págs., R$ 39,90.</p>
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O sentimento de inadequação permeia ”Habitante Irreal”, novo romance do gaúcho Paulo Scott2012-01-27T12:49:55-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 173 - Janeiro 2012O sentimento de inadequação permeia ”Habitante Irreal”, novo romance do gaúcho Paulo ScottLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/lucido-alucinadoLúcido Alucinado2012-01-24T12:25:11-02:00Inês Pedrosa
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Antônio Vieira (1608-1697), o padre português, foi um prestidigitador do Verbo, um teórico pragmático, um conservador revolucionário: tudo acatava e tudo subvertia. Torcia os versículos da <em>Bíblia</em> à medida dos seus desejos e construía com palavras o império perfeito que a vida lhe recusava. Se vivesse hoje escreveria, em jornais ou blogs, textos incendiários sobre o estado do mundo. As suas opiniões pró-israelitas o impediriam de ganhar o Nobel da Literatura, que merecia. E os críticos o desdenhariam, pelo excesso barroco da sua escrita ou pela vertigem acrobática das suas ideias – bem como pelo furor da sua intervenção pública, que o tornaria, talvez não um padre, mas um político autêntico, pregador e profeta.</p>
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Deixou-se fascinar pelas crenças milenaristas em voga no século 17 porque o empurravam para o futuro, salvando-o do nevoeiro resignado da época. Era um homem de ação, com uma vontade indômita de transformar o mundo e de restituir a Portugal a glória perdida. Dos 33 aos 44 anos, correu as cortes da Europa, como embaixador informal de dom João IV, tentando vender aos amigos da Espanha a ideia de Portugal independente. Não foi muito feliz nessas peregrinações diplomáticas. Em certo momento, chegou a aconselhar o rei a que subornasse os altos funcionários holandeses para comprar Pernambuco da Holanda (com o dinheiro dos judeus, que sempre se esforçou por fazer regressar a Portugal) ou, finalmente, que entregasse definitivamente Pernambuco a troco da paz e da independência do resto da colônia – o que fez com que o apelidassem de “o Judas do Brasil”. Mas o seu talento de orador impressionava, e os ensinamentos e contatos que foi fazendo pela Europa se revelariam extremamente úteis.</p>
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Na sua formação ideológica avultaram as conversas tidas em Amsterdã com o rabino Menasse Ben Israel, que o levaram a acreditar numa segunda vinda do Messias, para reconduzir à Palestina as Dez Tribos da Dispersão, que estariam nas Américas, e proceder assim à salvação temporal do mundo. Essas teorias atearam o espírito desesperadamente otimista de Vieira, lançando nele o projeto de um Quinto Império português. A ideia alimentaria os seus dois magnos e heterodoxos projetos de escrita (ambos inconclusos): a <em>História do Futuro</em> e a <em>Clavis Prophetarum</em> (Chave dos Profetas). Pouco antes de morrer, definiria os seus sermões como meras “choupanas”, por contraste com os “palácios altíssimos” que sonhava edificar com a sua <em>Clavis Prophetarum</em>. Na magnífica introdução à nova edição dos Sermões de Vieira, escreve o crítico Alfredo Bosi, organizador do volume: “Que a sublimação de tantas decepções fosse alentada pelo desejo de um povo que viu sepultas nas areias de Alcácer Quibir as últimas esperanças de manter a glória de mais de um século de navegações, descobertas e conquistas, parece hipótese plausível”. Mas os tais “palácios” celestes foram o pretexto utilizado por aqueles que o invejavam para o perseguirem e descredibilizarem.</p>
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Ainda hoje há quem procure diminuir ideologicamente a grandeza do seu legado literário e filosófico. Mas os delírios proféticos de Vieira ajudaram-no a pensar livremente em temas então impensáveis, como o da essencial igualdade de todos os seres humanos. Consciente de que o sucesso econômico do Brasil da época dependia da escravatura, não chegou a ser antiescravagista, mas tentou convencer os senhores a deixarem de usar a tortura e escandalizou-os ao pregar aos escravos, na Bahia, comparando o martírio deles ao Calvário de Cristo: “Em um Engenho sois imitadores de Cristo crucificado”. Não hesitou sequer em xingar o próprio Deus, num sermão de valente beleza <em>(Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda</em>, na Bahia, em 1640), por abandonar os portugueses e dar a vitória aos “hereges” holandeses, arrasando assim os seus créditos divinos: “Quero eu, Senhor, converter-vos a vós”. Pugnou arduamente pela liberdade dos índios do Brasil (que queria catequizar, mas não destruir nem escravizar), entre os quais viveu, por longos períodos. Escreveu um catecismo elementar em seis idiomas tribais. Os índios tratavam-no por Paiaçu, isto é, “Pai Grande”.</p>
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Consciente de que, como escreveu, “só se governa pelos sentidos”, empregou os bons dinheiros que granjeara durante o seu período de agente publicitário de Portugal em “muitos sinos, muitas imagens de Cristo e de Nossa Senhora e de vários santos (…) e até máscaras e cascavéis para as danças das mesmas procissões, para mostrar aos gentios que a lei dos cristãos não é triste”. As desilusões e ataques que sofreu tornaram-no muitas vezes furioso, mas nunca o vergaram à tristeza. Nessa determinação para a alegria, Vieira foi, de fato, muito mais brasileiro do que português – e não será por acaso que o Brasil o lê e estuda muito mais do que Portugal.</p>
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<strong>RELÂMPAGO MENTAL</strong></p>
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Além da “política do céu” (na expressão certeira do crítico Alcir Pécora), ocupou-se Vieira em analisar todos os assuntos eternos da humanidade: o amor e a morte, a ambição e a inveja, o poder e a justiça. Refletiu também, com inultrapassável clareza e brilho, sobre a própria escrita: “O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O Corpo retrata-se com o Pincel, a Alma com a Pena” <em>(Sermão de Santo Inácio</em>, 1669). O <em>Sermão da Sexagésima</em>, de 1655, mais do que uma análise crítica da pregação e dos pregadores, é um tratado sobre a arte de bem escrever.</p>
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O reconhecimento que teve em vida, conquistou-o Antônio Vieira graças ao seu talento oratório – tão inquietante que acabou por ser proibido de o praticar, depois de julgado pela Inquisição. A sua única vitória política foi a criação da Companhia de Comércio para o Brasil, em 1649, que se manifestaria de grande utilidade para a reconquista de Pernambuco, em 1654. Conseguiu autorização do rei para que os cristãos-novos investissem nessa companhia os seus capitais – o que a Inquisição não lhe perdoou. Anos mais tarde, depois da morte de dom João IV (em 1656), uma carta em que profetizava a ressurreição do rei forneceria aos atentos e vingativos senhores do Santo Ofício o pretexto para a sua prisão e julgamento. Exilou-se em Roma, onde foi acarinhado pela convertida rainha Cristina da Suécia, que o convidou para permanecer como seu confessor particular. Vieira declinou os convites e as mordomias para regressar a Portugal, munido de um documento papal que o libertava de qualquer jurisdição da Inquisição portuguesa.</p>
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Em 1681, com 73 anos, Antônio Vieira embarcou pela sétima e derradeira vez para a Bahia, para se entregar novamente ao trabalho missionário. Aí morreria, 16 anos depois, desgostoso, roído por intrigas que, de novo, lhe haviam retirado o direito a pregar. Seria ilibado dessas últimas acusações – mas a notícia chegou já depois da sua morte. Desaparecia assim, no desassossego solitário que escolheu como modo de vida, o menino que aportara a São Salvador da Bahia aos 6 anos de idade e que se deixara seduzir pelo espírito empreendedor e ávido de conhecimento dos jesuítas, a ponto de fugir de casa aos 15 anos para se juntar a eles – segundo reza a lenda, depois de um “estalo”, um relâmpago mental que terá sentido diante da imagem da Senhora das Maravilhas. Foi um lúcido alucinado. “Definir-se e arder, isso é amar”, escreveu. Afogou todas as decepções no mar sem fundo da língua portuguesa, que transfigurou: ainda hoje as suas palavras caminham diante de nós como trovões de uma verdade maior do que o tempo.</p>
<div class="descricao-autor">
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<strong>Inês Pedrosa </strong>é jornalista e escritora portuguesa, autora do romance Fazes-me Falta, entre outros.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Essencial – Padre Antônio Vieira</em>. Organização e introdução de Alfredo Bosi. Editora Penguin Classics Companhia das Letras, 760 págs., R$ 35.</p>
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Dedicado não apenas à análise de assuntos eclesiásticos mas também a questões como o amor, a morte e a justiça, o padre <strong>Antônio Vieira</strong> ganha nova edição de seus sermões2012-01-24T12:25:11-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 173 - Janeiro 2012Dedicado não apenas à análise de assuntos eclesiásticos mas também a questões como o amor, a morte e a justiça, o padre Antônio Vieira ganha nova edição de seus sermõesLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/confissoes-de-nelsonConfissões de Nelson2012-01-11T12:19:55-02:00Redação
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Em 23 de agosto de 2012, o escritor e polemista pernambucano Nelson Rodrigues completaria 100 anos. Entre as comemorações do centenário, que incluem montagens de suas 17 peças, exposições e relançamento de sua obra pela editora Nova Fronteira, está a divulgação do curta-metragem <em>Fragmentos de Dois Escritores</em>.</p>
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Dirigido pelo dramaturgo João Bethencourt em 1969, o filme mostra Nelson falando sobre si e em algumas cenas de sua rotina e também o dramaturgo norte-americano Edward Albee. A fita, que era considerada perdida inclusive por Bethencourt, foi encontrada pelo historiador brasileiro Carlos Fico no Arquivo Nacional dos EUA. </p>
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Assista a trechos de <em>Fragmentos de Dois Escritores</em>:</p>
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<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="360" width="480"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/TlOBVe6yE80?version=3&hl=pt_BR"/><embed allowscriptaccess="always" height="360" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="http://www.youtube.com/v/TlOBVe6yE80?version=3&hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" width="480"/></object></p>
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Leia a matéria <em>Nelson Rodrigues, o Eterno</em> sobre a contemporaneidade do escritor pernambucano na edição de janeiro / 173.</p>
Curta-metragem <em>Fragmentos de Dois Escritores</em> mostra Nelson Rodrigues contando sua história e suas indagações2012-01-11T12:17:35-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosJaneiro de 2012Curta-metragem Fragmentos de Dois Escritores mostra Nelson Rodrigues contando sua história e suas indagaçõesLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/inadequacao-e-marginalidadeInadequação e marginalidade2012-01-09T17:26:55-02:00Redação
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Em <em>Habitante Irreal</em>, o escritor gaúcho Paulo Scott percorre a vida de dois personagens, pai e filho, entre 1989 e os dias de hoje. A narrativa começa quando Paulo, um jovem militante desiludido com os rumos de seu partido, conhece a índia Maína e se encanta com a possibilidade de uma vida alternativa. E segue acompanhando Donato, filho do casal, e síntese das contradições apresentadas no romance.</p>
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<a href="http://www.calameo.com/read/0002783116229622359ba " rel=" Leia um trecho de Habitante Irreal" target="_blank">Leia um trecho de <em>Habitante Irreal</em></a></p>
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Confira crítica do livro <em>Habitante Real</em>, de Paulo Scott, na edição de janeiro/173</p>
Novo romance de Paulo Scott aborda assuntos como a miséria de populações indígenas e a intolerância2012-01-09T16:36:42-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosJaneiro de 2012Novo romance de Paulo Scott aborda assuntos como a miséria de populações indígenas e a intolerânciaLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/queremos-tanto-o-blue-jeans-quanto-a-cultura-islamica"Queremos tanto o <strong>Blue Jeans</strong> quanto a cultura islâmica”2012-01-09T13:32:19-02:00Marcelo Musa Cavallari
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Minha literatura não é do tipo que se preocupa com o que acontece no próximo capítulo”, diz o escritor Orhan Pamuk. “O que importa não é o que vem em seguida, mas, sim, do que se trata a vida.” Aos 59 anos, com mais de 15 milhões de livros vendidos em cerca de 60 países, consagrado com o Nobel de Literatura de 2006, Pamuk continua vivendo na cidade em que nasceu: a Istambul turca. Meio Europa e meio Ásia, muçulmana e secular, meio Ocidente e meio Oriente Médio, ex-império e país emergente, a Turquia que o autor costuma retratar é o cenário para personagens à procura da própria identidade – uma busca que também move o romancista.</p>
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E é com os olhos de quem escreve sob o compromisso de “entender as pessoas, colocar-se no lugar delas, compreendê-las sem as julgar”, que Pamuk assistiu, pela TV, como quase todo mundo, à derrubada de regimes ditatoriais do norte da África, O fenômeno teve início há pouco mais de um ano, em dezembro de 2010, e logo recebeu o nome de Primavera Árabe. Para o escritor, o fundamental nesse evento eminentemente político é, mais uma vez, a busca da identidade – ou como acomodar tendências tradicionais e modernizantes no coração de cada habitante desses países de cultura islâmica que, agora, tentam abraçar a democracia.</p>
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De passagem por São Paulo, onde proferiu uma palestra e lançou o livro <em>O Romancista Ingênuo e o Sentimental</em>, compêndio de aulas ministradas na Universidade Harvard (Estados Unidos), Pamuk conversou com<strong> BRAVO!</strong>.</p>
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<strong>BRAVO!: Como você reagiu ao saber dos primeiros acontecimentos que dariam origem à Primavera Árabe?</strong></p>
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<strong>Orhan Pamuk:</strong> Fiquei muitíssimo feliz, especialmente no dia em que <em>(o presidente egípcio Hosni)</em> Mubarak caiu. Quando todas as TVs internacionais mostraram a praça Tahrir, no Cairo, e a imensa alegria da multidão, havia quase lágrimas nos meus olhos. Em primeiro lugar, por ver que os árabes estavam retomando sua dignidade. Depois, por algo que afeta todo o Islã. Os povos árabe, turco e persa são povos diferentes, mas estão entre as principais nações da cultura islâmica. Mesmo sendo uma pessoa secular, fiquei bem contente em ver destruído o preconceito orientalista de que os povos islâmicos são obedientes, de que cultuam a autoridade. Pena que, mais tarde, tive algumas suspeitas em relação ao movimento. Já vi tanta coisa acontecer do mesmo jeito na Turquia ao longo dos últimos 50 anos que comecei a identificar certos problemas no Egito também.</p>
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<strong>Que problemas?</strong></p>
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Depois da derrocada de Mubarak, a elite governante egípcia está usando a mesma chantagem junto ao Ocidente e às classes médias secularizadas que o próprio Mubarak usou: “Por favor, apoiem-me ao governar este país por meio do totalitarismo. Do contrário, ele cairá no inferno e nas mãos do Islã político”.</p>
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<strong>Mas os partidos islâmicos são fortes e se revelaram importantes na Primavera Árabe. Não há realmente o risco de que assumam o poder?</strong></p>
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Talvez. Esse é um dilema ético de uma situação política. Nós queremos a democracia porque ela é a escolha ética, e não porque legitima o Ocidente ou porque é boa para a economia. A democracia é para as pessoas, deve estar a serviço das pessoas. Não é algo para mostrar ao Ocidente. Os grupos políticos islâmicos têm uma conexão com o povo, e eles sabem prestar serviços. Essa é uma das razões de estarem em ação na Primavera Árabe. A segunda razão é que eles são mártires, são reprimidos. Por isso, podem fazer pose, se apresentar como vítimas e, assim, despertar a simpatia das pessoas. O pior dessa situação é que intelectuais liberais, pró-Ocidente, semimodernos, seculares, ficam confusos. Vi tanto disso na Turquia... Na esquerda turca, alguns ainda põem a esperança em golpes militares, em prender pessoas para que a nação seja secular. Outros, e estou ao lado desses, avaliam que se deve criticar ambos os lados: o governo <em>(atualmente em mãos de um partido islâmico)</em>, por não ser democrático o bastante, e os militares, que posam de defensores do secularismo, mas agem de maneira brutal e radicalmente nacionalista.</p>
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<strong>Nos últimos anos, o Islã político ganhou força na Turquia, ainda que adaptado à democracia. Você acha isso possível no Egito?</strong></p>
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Parece-me fútil fazer previsões. Há tantas variações de sombras e cores interessantes... No fim das contas, é preciso ver como os dilemas de que falei se refletem na mentalidade de cada um. Eu exploro e dramatizo essa tensão no meu romance <em>Neve</em>, em que um personagem tem os dois lados: ele faz parte da nação, de seus valores, não quer parecer um agente ocidental, mas também defende a democracia, os direitos das mulheres, a liberdade de expressão e o respeito pela diversidade, o que aparenta estar em contradição política com a comunidade islâmica conservadora. Devemos encarar isso não como dois partidos da Primavera Árabe, mas como dois sentimentos no espírito de uma única pessoa. No fundo, todos nós queremos modernidade, sofás confortáveis, água quente encanada e <em>blue jeans</em> – à semelhança da juventude soviética, que queria <em>blue jeans</em>. No entanto, também gostamos de nossas casas e de roupas antigas. Queremos abraçar o passado cultural de nossa nação. São desejos contraditórios, que cada um de nós carrega no coração.</p>
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<strong>Se a democracia, como você diz, é uma escolha ética e a religião é, para muita gente, a principal fonte de escolhas éticas, pode-se considerar que o Islã seja uma fonte para a democracia?</strong></p>
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Sim. Muitas pessoas começam a entender e discutir o que chamamos de <em>shura</em> <em>(“consulta”, em árabe, um conceito presente no </em>Corão<em> que aconselha governantes islâmicos a ouvir aqueles que serão afetados por suas decisões)</em>. Tornar o Islã compatível com a democracia é também uma questão de interpretação. A interpretação torna qualquer coisa possível. Não sou uma pessoa religiosa, mas prefiro argumentar a favor da democracia para um país islâmico por meio da <em>shura</em>, ou de qualquer outro mecanismo que se encontre na cultura clássica. Melhor isso do que Bush nos mandando aviões e bombas sob o pretexto de que trarão a democracia.</p>
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<strong>O que é de fato real na maneira como o mundo está vendo a Primavera Árabe e a celebrando?</strong></p>
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Há muita coisa com que se pode ficar feliz. Os ditadores caíram e o mais importante é que, agora, o povo está claramente no jogo. Isso é o suficiente por um ano. Vamos ver o que acontece daqui para a frente.</p>
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<strong>Marcelo Musa Cavallari</strong> é jornalista.</p>
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O romancista turco <strong>Orhan Pamuk </strong>reflete sobre as contradições que cada protagonista da Primavera Árabe enfrenta ao lutar pela democracia em países muçulmanos2012-01-09T13:30:19-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 173 - Janeiro 2012O romancista turco Orhan Pamuk reflete sobre as contradições que cada protagonista da Primavera Árabe enfrenta ao lutar pela democracia em países muçulmanosLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/crente-cetico-e-cinicoCrente, Cético e Cínico2011-12-29T11:07:42-02:00André Nigri
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Imaginemos três avatares de Umberto Eco sentados em uma sala repleta de livros. Um deles é o semioticista. Outro, o cético inabalável. O terceiro é o cínico, com um sorrisinho no canto dos lábios. Enquanto o primeiro garante que o mundo é uma teia de signos a serem decodificados, o segundo afirma que o Universo é uma soma absurda de acasos cujo controle não nos é facultado. Quando chega sua vez, o cínico sentencia: “As pessoas só creem naquilo que sabem”. Qual dos três é o verdadeiro Umberto Eco? Os três.</p>
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A frase pronunciada pelo cínico consta do mais recente livro do autor italiano, <em>O Cemitério de Praga</em>, romance lançado no Brasil no mês passado com explosivo sucesso de crítica e de público – no total, já vendeu mais de 1 milhão de exemplares, e, por aqui, bateu o número das 40 mil cópias e caminha para a terceira edição. Com esse novo “suspense erudito”, gênero que Eco fundou e de que é mestre, sua literatura destila uma bile debochada.</p>
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Conhecidos há muito tempo nos meios intelectuais, os ensaios de semiótica de Eco eram, nas décadas de 1960 e 70, missais nas carteiras de universitários mundo afora. Em um de seus livros mais incensados, <em>Obra Aberta</em>, de 1962, ele teoriza sobre a arte contemporânea, analisando o conteúdo ambíguo das criações e a possibilidade de o público ser o seu intérprete supremo. Estamos diante do Eco semioticista, que acredita piamente na decifração dos signos.</p>
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Em 1980, o autor surpreendentemente publica <em>O Nome da Rosa</em>, seu primeiro <em>best-seller</em>. O romance, que alcançou a casa dos milhões de cópias vendidas e virou filme em 1986, gira em torno de monges envenenados e um livro desconhecido de Aristóteles sobre a comédia. Nas décadas seguintes, o intelectual vê desalentado o surgimento dos genéricos de seu suspense erudito: títulos do brasileiro Paulo Coelho e do norte-americano Dan Brown, autor de <em>O Código da Vinci</em>. Chegou ironicamente a lamentar ter sido o responsável por esses fenômenos em uma entrevista ao jornal espanhol <em>El País</em> – disse que escreveu <em>O Nome da Rosa</em> não porque acreditasse em teorias conspiratórias, mas porque é um medievalista leitor de livros de suspense e queria divertir os outros. “Você pode admirar uma comunidade de rãs, mas não precisa crer que é uma delas.” Aqui, fala o Eco cético.</p>
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No final de 2010, passados 30 anos de seu primeiro romance, Eco lança <em>O Cemitério de Praga</em>, repleto de mistério, falsos documentos, erudição, personagens históricos e um narrador fictício, o tempo todo eivado de amargura e de um humor ácido, que aponta o escritor francês Alexandre Dumas como um profundo conhecedor do espírito humano por saber que sempre achamos que existe uma conspiração contra nós. Eis o Eco cínico.</p>
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<strong>Truque Repugnante</strong></p>
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Se, em princípio, os três Ecos parecem não se misturar, eles se embaralham de tal forma que confundem os críticos. Quando se converteu num romancista de sucesso, o italiano se tornou alvo de colegas acadêmicos. Alguns o viram como um esforçado – e fracassado – herdeiro de Jorge Luis Borges e Italo Calvino, ficcionistas que mobilizaram um vasto repertório da Antiguidade clássica e medieval na costura de suas obras.</p>
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Já Ian Thomson, biógrafo de Primo Levi, um dos mais importantes escritores italianos do pós-guerra, considera Eco um equivalente bruto do francês Roland Barthes, papa da semiótica e fonte na qual o italiano bebeu. Mas um Barthes sem o talento para subverter e um pós-moderno sem o tino de Borges, como registra uma reportagem do jornal britânico <em>The Guardian</em>. Romancistas de porte como o anglo-indiano Salman Rushdie e o inglês Will Self veem Eco com grandes ressalvas. Para Self, ele lança mão de um truque repugnante: produz uma obra superficial e pretensamente “intelectual”, embora faça os leitores acreditarem que se trata de literatura elevada.</p>
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A vasta produção é outro ponto de atenção dos críticos. Para os padrões acadêmicos – mais inclinados a corridas longas e de fundo –, Eco é um velocista e tanto. Só em ficção, publicou entre 1980 e 2010 seis romances. Em cinco décadas de universidade, mais de 30 livros acadêmicos.</p>
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<strong>Idade média e disneylândia</strong></p>
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Alçado ao estrelato na década de 1980, Eco ainda é, aos 79 anos, uma espécie de celebridade que transita da alta cultura ao pop. Desde o início de sua carreira acadêmica, revelou-se um sofisticado analista dos produtos feitos para a sociedade de consumo. Sua leitura sobre fenômenos de massa – como o filme <em>Casablanca</em>, que acredita ser uma recriação da mitologia em versão moderna – é um requinte a que poucos intelectuais se permitem. O italiano nunca escondeu também o fascínio pela Disneylândia: escreveu sobre a cidade inventada e suas atrações no ensaio <em>Viagem na Irrealidade Cotidiana</em>.</p>
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Da mesma forma, estamos diante de um dos maiores eruditos e conhecedores de religião e história medieval da Europa, paixão que começou quando ainda era estudante na Universidade de Turim, onde defendeu sua tese de doutorado sobre são Tomás de Aquino, publicada em 1956. Nessa mesma década de 1950, Eco fazia programas culturais na nascente RAI, a rede de televisão italiana, enquanto intelectuais liderados pelo alemão Theodor Adorno atacavam pesadamente essa mídia. Os ensaístas da chamada Escola de Frankfurt pregavam que a TV era um meio alienador para as massas e ele contra-atacava: “Elaborei uma visão de que esse instrumento poderia ser usado de diferentes maneiras. A televisão desempenhou um papel imenso na unificação linguística da Itália, que ainda era um país de dialetos”.</p>
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O Eco cético, admirador das rãs, que atribui ao fim do milênio, e não ao mero acaso, a responsabilidade por hoje as pessoas acreditarem em qualquer coisa, se enche de cinismo e faz de <em>O Cemitério de Praga</em> uma obra representante de seu lado mais debochado. No novo livro, o ponto central da trama é a elaboração de <em>Os Protocolos dos Sábios de Sião</em>, um texto falso que detalha um congresso entre poderosos rabinos europeus no cemitério de Praga para destruir a civilização cristã e as instituições do Ocidente.</p>
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Calcado em personalidades e fatos históricos, tem um único personagem fictício, segundo Eco: Simone Simonini, o tabelião rabugento, violento, desconfiado e nada confiável. Aparentemente, o autor nos conta uma história que questiona e demole tudo: anticlerical, antipsicanalítica, antissemita, anticomunista e anticapitalista. Mas, no fundo, está pregando justo o contrário: já que nossas crenças nunca são inabaláveis, podemos acreditar no que quer que seja.</p>
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<strong>André Nigri </strong>é jornalista.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>O Cemitério de Praga, </em>de Umberto Eco. Record, 480 págs., R$ 49,90</p>
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As três facetas se alternam na vasta produção do escritor italiano Umberto Eco. Em “O Cemitério de Praga”, seu romance mais recente, a que predomina é a debochada2011-12-29T11:07:42-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 172 - Dezembro 2011As três facetas se alternam na vasta produção do escritor italiano Umberto Eco. Em “O Cemitério de Praga”, seu romance mais recente, a que predomina é a debochadaLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/obra-prima-em-quadrinhosObra-Prima em Quadrinhos2011-12-29T11:02:19-02:00Antônio Xerxenesky
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Já faz um bom tempo que as histórias em quadrinhos deixaram de ser vistas como um produto da “baixa cultura” e associadas a escapismo e entretenimento barato. <em>Maus</em>, de Art Spiegelman, uma <em>graphic novel</em> sobre o Holocausto, foi fundamental para essa mudança de paradigma. Em 1992, rendeu a Spiegelman o prêmio Pulitzer e provou para o mundo que os quadrinhos podem ser veículos de narrativas complexas e sérias. Desde então, poucas HQs provocaram tanto estardalhaço como <em>Asterios Polyp</em>, do norte-americano David Mazzucchelli. Recheada de referências históricas, literárias e gráficas, venceu prêmios importantes de seu gênero, como o Eisner Awards, e vem sendo considerada uma obra-prima.</p>
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O livro conta a história de Asterios Polyp, um professor de arquitetura de meia-idade que nunca teve nenhum de seus projetos construídos. Após ver sua casa pegar fogo, ele parte em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. O leitor vai conhecendo o que o levou até esse ponto por meio de <em>flashbacks </em>narrados por Ignazio, o gêmeo natimorto de Asterios. Seus dramas giram em torno do relacionamento com Hana, a mulher que o abandonou. Enquanto Asterios é frio e racional, Hana se revela uma pessoa prática e emocional – apenas um dos inúmeros dualismos que a obra apresenta.</p>
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<strong>Modernismo e Mitologia Grega</strong></p>
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Cada personagem, no traço de Mazzucchelli, tem contornos e cores diferentes, além de falarem com variadas fontes tipográficas. Asterios é pintado em azul, com traços retos de clara influência modernista, enquanto a silhueta de Hana está composta em vermelho, com contornos fluidos. Esse uso simbólico de tons e traços ultrapassa a caracterização dos personagens para mostrar também o quanto cada um deles está aferrado a seus pontos de vista: Asterios verá o mundo de forma ordenada e quadrada, enquanto Hana enxergará fusão e desordem. São seres incapazes de se comunicar, e toda a HQ pode ser lida como uma narrativa que progride na busca de romper essa dificuldade.</p>
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Essa, porém, é apenas uma de muitas maneiras de ler <em>Asterios Polyp</em>, que já foi analisada de todos os ângulos possíveis pela crítica. Calcada na mitologia grega, como o sobrenome de Asterios sugere (Polyp é derivado de Polyphemus, o ciclope), a HQ pode ser interpretada, por exemplo, como um eco da jornada de Ulisses em <em>A Odisseia</em> pelas diversas provações que os protagonistas enfrentam. Mas se engana quem pensa que isso faz de <em>Asterios Polyp </em>uma obra hermética ou demasiadamente cerebral. Mesmo lida como uma simples história de amor, a obra ainda traz um forte impacto emocional. Talvez o rótulo de “obra-prima dos quadrinhos” não seja um exagero, afinal de contas.</p>
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<strong>Antônio Xerxenesky</strong> é escritor, autor de A Página Assombrada por Fantasmas (Rocco).</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Asterios Polyp, </em>de David Mazzucchelli. Companhia das Letras. 344 págs., R$ 63.</p>
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“Asterios Polyp”, de David Mazzucchelli, revela-se uma “graphic novel” ambiciosa, repletade dualismos e referências eruditas2011-12-29T11:02:19-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 172 - Dezembro 2011“Asterios Polyp”, de David Mazzucchelli, revela-se uma “graphic novel” ambiciosa, repletade dualismos e referências eruditasLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/escritor-movido-polemica-alcoolUm escritor movido a polêmica e álcool2011-12-16T16:48:16-02:00Paulo Nogueira
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Christopher Hitchens esteve recentemente em Lisboa para uma concorrida palestra e protagonizou uma saturnal que incluiu os três restaurantes lusos mais colunáveis: Bica do Sapato, Gambrinus e Fialho. Hitchens não para: dias depois, em Londres e Nova York, lançou as suas memórias (como o cronista Carlos Heitor Cony com as dele, não quer chamá-las de autobiografia e pela mesma razão: demasiado fragmentárias). Sim, Hitchens não para, embora nem sempre avance em linha reta. Primeiro, porque parece movido a álcool (não necessariamente etanol). Segundo, por causa das suas guinadas temáticas e ideológicas. Um ponto, pelo menos, fixei: "Qual seu uísque preferido?" (gosto de checar o combustível dos outros pilotos). "Johnnie Walker!" Ele pede para reabastecer o copo sempre com a mesma senha: "Um xerox, por favor".Não digo que as memórias saiam agora para evitar que a amnésia alcoólica borre tudo. Até porque a metralhadora giratória do crítico e ensaísta anglo-americano continua a cuspir fogo em trincheiras como as revistas <em>Slate</em>, <em>The New Republic</em> e <em>Vanity Fair</em>. Reza a lenda que, desde a década de 1970, ele produz mil irrepreensíveis palavras por dia, mesmo depois de várias rondas por pubs e de várias "penúltimas". A sua confraria em Londres é ilustre: os romancistas Salman Rushdie, Ian McEwan e Martin Amis (os quatro mosqueteiros ou, dependendo da perspectiva, os cavaleiros do Apocalipse). Havia ainda um quinto mosqueteiro: Julian Barnes, excluído da trupe depois de um arranca-rabo com Amis. Hitchens é o único que não se aventurou na ficção (se não contarmos com as armas de destruição em massa no Iraque, que ele acreditava sinceramente existirem). O livro de memórias intitula-se <em>Hitch 22</em> e deve chegar ao Brasil no começo de 2011, pela Agir. O nome remete ao clássico antibélico de Joseph Heller, o romance <em>Ardil 22</em>. É uma obra pouco confessional: Hitchens passa quase batido pelos pais, não obstante a sua mãe, já depois da maturidade dos filhos, ter deixado o marido pelo amante, com o qual cometeu suicídio em Atenas. Em relação às mulheres, é lacônico (droga, nem uma vírgula picante sobre o seu caso com a dominatrix Anna Wintour, a editora da revista <em>Vogue</em> americana que gerou o papel de Meryl Streep no filme <em>O Diabo Veste Prada</em>!). A inopinada exceção é Margaret Thatcher, ex-primeira ministra britânica, a quem ele adorava odiar e era pago na mesma moeda. Durante o governo da Dama de Ferro, Hitchens bancava o rei Arthur da esquerda literária, brandindo a sua Excalibur sem dó nem piedade. Fatiou o diplomata Henry Kissinger (Prêmio Nobel da Paz em 1973) e Madre Teresa de Calcutá. Alinhavou análises penetrantes sobre os escritores George Orwell e Tom Paine. Pausa para mais um xerox ser regado no copo. "Não sou um dependente", grunhe Hitchens. "Bebo para tornar as pessoas menos chatas." Uma frase que lembra um epigrama do crítico teatral George Jean Nathan: "Bebo para tornar os outros interessantes". Alguém observa que, se é assim, quando Hitchens está com o sedutor Martin Amis, não bebe. "Hum, na verdade, bebo…" Com o 11 de Setembro de 2001, tudo mudou, tipo epifania. Hitchens formulou o conceito de "islamo-fascismo" e apoiou a invasão do Iraque, mas sem deixar em nenhum momento de se proclamar marxista. Ao contrário de outros intelectuais norte-americanos, como Susan Sontag, Noam Chomsky e Gore Vidal, não transferiu a culpa dos ataques terroristas para os Estados Unidos, que teriam colhido o que semearam. Por isso, acabou estigmatizado como vira-casaca. Ainda assim, continuou a escrever - não com luva de pelica, mas de boxe. Sem dúvida, um dos páreos mais duros dele foi Deus, com quem se engalfinhou em <em>Deus Não É Grande</em> (2007), o seu best-seller. Ganhou um dinheirão e brotaram outros anátemas: de que "sempre" fora um capitalista, obcecado com as coisas boas da vida. Acha que a riqueza afeta a opinião? "Claro! Afinal, sou um marxista!" A verdade é que Hitchens não fustiga "apenas" a imolação assassina dos terroristas suicidas e o obscurantismo da burca e da lapidação das mulheres no fundamentalismo islâmico. "Se considero a nossa civilização superior? Sim! Se acho que vale a pena lutar por ela? Sim!"</p>
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<strong>"Migração ritual para a direita"</strong></p>
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Hitchens é sobretudo um literato, com uma cultura vasta e uma retórica demoníaca e espirituosa: "Os homicidas do 11/9 foram tentados pelas virgens do Paraíso muçulmano. No entanto, o mais revoltante é que, como muitos dos seus pares da jihad, eles próprios eram virgens". Nas suas memórias, propõe a si mesmo o célebre "questionário de Proust". À pergunta "qual a sua característica mais marcante?", a desconcertante resposta: "A insegurança". Ele admite ter "vivido consistentemente uma vida de inconsistência". No contexto brasileiro, lembra o jornalista Paulo Francis.</p>
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No último capítulo de <em>Hitch 22</em>, o autor responde à acusação de Julian Barnes de que tenha feito "a migração ritual para a direita". Alega que evoluiu como pensador político, trocando as ilusórias e contraproducentes utopias da juventude pela sofrida e realista sabedoria da meia-idade.</p>
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Outro dia, o poeta Ferreira Gullar desabafou: "Sou incoerente, e a minha obra é incoerente". Eureca! Eis a pista que faltava. Não só no caso de Hitchens, mas de outros autores discutíveis e discutidos, temos três opções: 1) Baixamos o sarrafo, 2) Entronizamos o autor, 3) Ficamos em cima do muro, desde que ele não seja nem os cacos de Berlim nem a Muralha da China.</p>
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PAULO NOGUEIRA <em>é escritor e jornalista. Vive em Lisboa e é autor de</em> O Suicida Feliz<em>, entre outros romances.</em></p>
Num contundente livro de memórias, Christopher Hitchens demonstra por que se tornou o flagelo da esquerda intolerante, da direita raivosa e das garrafas de uísque Johnnie Walker2011-06-02T14:27:21-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosDezembro/2010Num contundente livro de memórias, Christopher Hitchens demonstra por que se tornou o flagelo da esquerda intolerante, da direita raivosa e das garrafas de uísque Johnnie WalkerLiteraturaALFABRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/noticias-tumorlandiaNotícias da Tumorlândia2011-12-16T14:31:12-02:00
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á acordei mais de uma vez com a sensação de morte. Mas não estava preparado para aquela manhã de junho passado, quando despertei sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver. Todo o interior do meu peito parecia ter sido escavado e depois preenchido com cimento de secagem lenta. Eu podia ouvir levemente meu respirar, mas não conseguia inflar os pulmões. Meu coração batia demais ou de menos. Qualquer movimento, por mais tênue que fosse, exigia prudência e planejamento. Foi necessário um esforço intenso para atravessar o meu quarto de hotel em Nova York e chamar o serviço de emergência. Eles chegaram com rapidez e se comportaram com imensa cortesia e profissionalismo. Tive tempo para pensar por que eles precisavam de tantas botas e capacetes e equipamentos pesados, mas agora, quando vejo a cena em retrospecto, entendo tudo como uma deportação muito tranquila e firme, que me leva do país do bem-estar e cruza a austera fronteira que delimita a terra da doença. Em algumas horas, pois tiveram que fazer muitos procedimentos de emergência em meu coração e meus pulmões, os médicos dessa triste fronteira mostraram-me alguns cartões-postais do interior e disseram-me que minha próxima parada teria que ser em um oncologista. Uma sombra caiu sobre os negativos. Na noite anterior, eu lançara meu último livro em um grande evento em New Haven. Na noite dessa terrível manhã, eu deveria aparecer no <em>The Daily Show (programa televisivo que satiriza as notícias do dia) e, depois, participar de um evento no Upper East Side, juntamente com Salman Rushdie. Minha curta campanha de negação teve a seguinte forma: não iria cancelar esses compromissos ou desapontar meus amigos e nem perder a chance de vender um monte de livros. Consegui passar por esses dois eventos sem que ninguém percebesse nada de estranho, apesar de ter vomitado duas vezes - com uma combinação extraordinária de precisão, clareza, violência e profusão - pouco antes de cada apresentação. Isso é o que os habitantes do país da doença fazem enquanto ainda estão desesperadamente agarrados a seu antigo domicílio. A nova terra é bastante acolhedora a seu modo. Todo mundo sorri encorajadoramente e parece não haver racismo de forma alguma. Um espírito igualitário generalizado prevalece e, obviamente, aqueles que administram o local chegaram aonde estão por mérito e trabalho duro. A desvantagem é que o humor é um tanto fraco e repetitivo, parece não haver quase nenhuma referência a sexo, e a comida é a pior de todos os lugares que já visitei. O país tem uma linguagem própria - uma língua franca que consegue ser chata e difícil e que contém nomes como Ondansetron, uma medicação antináusea - bem como alguns gestos inquietantes (...). Por exemplo, um funcionário que você acabou de conhecer poderá afundar abruptamente os dedos em seu pescoço. Foi assim que descobri que meu câncer havia se espalhado para os linfonodos e que uma dessas belezas deformadas, localizada na minha clavícula direita, era grande o suficiente para ser vista e apalpada. Não é nada bom quando o câncer é "palpável". Especialmente quando, nessa fase, não se sabe onde é sua fonte primária. O carcinoma trabalha astuciosamente de dentro para fora. A detecção e o tratamento muitas vezes agem mais lenta e cautelosamente, de fora para dentro. Muitas agulhas foram enfiadas na região da minha clavícula - "O tecido é o que importa" poderia ser um bom slogan no linguajar da Tumorlândia - e me disseram que os resultados da biópsia sairiam em uma semana. Esôfago O trabalho com as escamosas células cancerígenas descobertas nos primeiros resultados levou mais tempo do que isso para mostrar a desagradável verdade. A palavra "metástase" foi a primeira do relatório que chamou minha atenção. O alienígena colonizara um pedaço do meu pulmão, além de uma parte do meu nódulo linfático. E sua base de operações original localizava-se - já havia algum tempo - no meu esôfago. Meu pai morreu, e muito rapidamente, também de câncer do esôfago. Ele tinha 79 anos. Eu tenho 61. Independentemente do tipo de "corrida" que a vida seja, tornei-me abruptamente um finalista. Tinha planos reais para a minha próxima década e sinto que havia trabalhado duro o suficiente para merecê-la. Será que não viverei para ver meus filhos casados? Para assistir ao World Trade Center subir de novo? Para ler - ou mesmo escrever - os obituários de velhos calhordas, como Henry Kissinger e Joseph Ratzinger? Mas entendo esse tipo de não-pensamento como aquilo que ele é: sentimentalismo e autopiedade. Logicamente, meu livro chegou à lista dos best-sellers no dia em que recebi a mais cruel das notícias e, além disso, meu último voo como uma pessoa saudável (para um público bem grande na Feira do Livro de Chicago) foi o que resultou em 1 milhão de milhas voadas pela United Airlines, com uma vida inteira de upgrades gratuitos pela frente. A ironia é o meu negócio, mas não consigo ver nenhuma ironia aqui: seria menos triste ter câncer no dia em que minhas memórias fossem um fiasco de bilheteria ou em que eu fosse excluído da classe econômica e largado na pista? À pergunta idiota "por que eu?", o universo indiferentemente responde: por que não? ----------------------------- Tradução de Diana Ricci Aranha</em></p>
Christopher Hitchens voltou a chacoalhar a intelligentsia norte-americana ao revelar, num artigo da revista "Vanity Fair", que sofre de câncer. BRAVO! reproduz uma parte do texto, publicado originalmente em setembro2011-06-02T14:28:59-03:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosDezembro/2010Christopher Hitchens voltou a chacoalhar a intelligentsia norte-americana ao revelar, num artigo da revista "Vanity Fair", que sofre de câncer. BRAVO! reproduz uma parte do texto, publicado originalmente em setembroLiteraturaALFABRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/como-te-amo-deixa-eu-contar-os-modos"Como te amo? Deixa eu contar os modos”2011-12-14T12:50:38-02:00Mariana Delfini
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Em meados do século 19, nascia na Inglaterra o cocker spaniel dourado Flush. Depois eternizado como o sensível protagonista que dá nome a um livro de Virginia Woolf, o cachorrinho já em vida prestou-se a importante papel. Foi companhia da poeta Elizabeth Barrett Browning (1806-1861) e cúmplice de sua fuga para a ensolarada Itália com o marido, Robert Browning (1812-1889). Se o romance de Virginia usa o ponto de vista do cão para descrever os ambientes e os restritivos costumes da era vitoriana, na vida real Flush se tornou personagem das cartas trocadas entre os amantes. Aconchegado ao pé de Elizabeth em sua alcova de Londres, que Virginia compara a uma “cripta incrustrada de mofo, escorregadia de limo, exalando cheiros acres de apodrecimento e de antiguidade”, o mascote testemunhou uma das mais românticas histórias de amor registradas pela literatura.</p>
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Pouco lida hoje no Brasil, Elizabeth foi um dos principais nomes da poesia vitoriana, contemporânea dos romancistas Charles Dickens, Lewis Carroll e das irmãs Brontë. Ainda adolescente, escreveu e traduziu poemas e, em 1844, depois de publicar versos em periódicos, lançou uma coletânea de suas produções. Em janeiro do ano seguinte, cumpria sua rotina intelectual – sempre reclusa, em resguardo motivado por doenças misteriosas e baques emocionais sucessivos – quando um remetente desconhecido lhe endereçou uma carta. Robert Browning, também poeta, seis anos mais jovem do que ela, escreveu: “Amo seus versos com todo o meu coração (...) e amo você igualmente”.</p>
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Primeira das centenas de cartas que ambos compartilhariam, a missiva de Browning se derrama em uma paixão que tomaria conta também de Elizabeth. Mais do que transmitir o amor dos poetas, as correspondências o constroem e alimentam com palavras; estimulam Elizabeth a tal ponto que, mesmo proibida pelo pai viúvo de se casar, ela marca encontros clandestinos com Browning. Em poucos meses, casa-se em segredo e foge com ele para a Itália.</p>
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A reclusão, as cartas e a fuga valeriam apenas um rodapé biográfico caso Elizabeth não tivesse feito dessa aventura romântica sua obra mais atemporal. <em>Sonetos da Portuguesa</em>, que ela publica três anos depois do casamento, registra em 44 poemas cada momento do relacionamento dos Browning – “...o da recusa inicial da amada, o do contágio do amor que se propaga (...) e o do coroamento glorioso do encontro”, descreve o tradutor Leonardo Fróes em posfácio da edição lançada recentemente pela Rocco.</p>
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<strong>Temperamento romântico</strong></p>
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Leitora de sonetistas e de Lord Byron, Elizabeth recupera os temas autobiográficos, que esmoreciam com o fim do romantismo, e os encaixa nos sonetos. Também inverte a posição comum da mulher amada: de objeto de contemplação, passa a ser o eu lírico feminino que ativamente deseja seu amado. “Meu palpite é de que ela era muito forte e tinha um temperamento romântico”, arrisca Fróes, apoiado não só nas desventuras biográficas de Elizabeth mas também nos <em>Sonetos</em> e no progressista romance em verso <em>Aurora Leigh</em> (1857), sobre uma mulher que busca firmar sua independência.</p>
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O recato vitoriano, no entanto, a leva a optar pelo título ambíguo <em>Sonetos da Portuguesa</em>: seria a própria Elizabeth a “portuguesa” que assinava os versos ou ela atuava apenas como tradutora da misteriosa poeta lusa? Diante da história da fuga amplamente conhecida pela sociedade londrina, o enigma mal se sustenta. Elizabeth passa a ser constantemente reeditada em língua inglesa. Seu soneto mais famoso, cujo primeiro verso dá título a esta reportagem, ilustra cartões de Valentine’s Day (ou Dia dos Namorados) nos Estados Unidos.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Sonetos da Portuguesa, </em>de Elizabeth Barrett Browning. Rocco, 128 págs., R$ 19,50.</p>
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A poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning, que fugiu da reclusão para se casar, retratou em “Sonetos da Portuguesa” seu romance epistolar com o marido2011-12-14T12:50:38-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 172 - Dezembro 2011A poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning, que fugiu da reclusão para se casar, retratou em “Sonetos da Portuguesa” seu romance epistolar com o maridoLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/cha-com-elizabeth-bishopChá com Elizabeth Bishop2011-12-02T09:09:01-02:00Por Michael Sledge Tradução Diana Ricci Aranha
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O prefeito tinha jeito com as portas. Com um aceno de mão, com um simples olhar, elas se abriam magicamente para ele. Era o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, e ele me levava de uma bela casa para a outra, para concertos, jantares e comemorações. Eu tinha vindo ao Brasil, em julho deste ano, para lançar meu livro sobre a poeta Elizabeth Bishop, que passou a maior parte das décadas de 50 e 60 no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Encantada com Ouro Preto, ela tinha comprado uma casa lá, sua última residência no Brasil antes de retornar de vez aos Estados Unidos. Então também eu vim, para seguir os passos dela.</p>
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Oito anos atrás, em 2003, eu chegava a Ouro Preto pela primeira vez e todas as suas portas estavam decididamente fechadas. Do centro da cidade, segui pela mesma estrada para Mariana até chegar à casa que tinha cativado Elizabeth Bishop. Reconheci das fotos a maravilha do século 18, erguida ao lado de um córrego e cercada por jardins, com “um telhado bem comprido, inclinado, que parece um dragão ou um iguana”, como a poeta o havia descrito a um amigo, e que eu tinha visto apenas em fotografias.</p>
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Mas não cheguei a entrar na casa nessa viagem. Uma parte de mim não queria isso. Era através da lente da ficção que eu desejava ver a vida de Elizabeth Bishop, e a ficção é um caminho de investigação que busca certas brechas nos fatos, nas quais a imaginação possa se infiltrar e florescer. Além disso, eu relutava em contar a qualquer pessoa o que estava fazendo, com vergonha da minha presunção de tentar escrever um livro baseado na vida de uma escritora querida e icônica, cujo status nas letras norte-americanas cresce notadamente com o tempo, e cujo compromisso de dominar sua arte tornou-se lendário.</p>
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Apesar do receio, no entanto, senti-me compelido pela história pessoal da poeta e pelo seu grande amor pela ardente Lota de Macedo Soares. Os primeiros anos da vida de Elizabeth foram dolorosamente solitários – fugindo de uma infância órfã e desolada e em constante luta contra o alcoolismo, sua vida privada era um problema mesmo quando a sua poesia começou a atrair a atenção da crítica. Duas semanas após sua chegada ao Rio, Elizabeth correu com Lota para a casa que esta construía fora da cidade, encravada nas montanhas de Petrópolis. Na década seguinte, as duas viveram em um paraíso doméstico. Elizabeth começava o que provavelmente foi a fase mais produtiva de sua carreira como escritora, que acabou lhe dando o prêmio Pulitzer.</p>
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Minha primeira visita a Ouro Preto foi terrível. Assim como Elizabeth, perambulei pelas ruas da cidade, sempre perdido. Eu estava sozinho, com pouca ou nenhuma capacidade de comunicação na língua local e caía uma chuva deprimente. Lutei muito para não desanimar do meu livro.</p>
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Hospedei-me na pousada Chico Rei, o pouso de todos que peregrinam a Ouro Preto por causa de Elizabeth. A pousada foi aberta por Lilli Correa de Araújo, uma grande amiga de Lota e Elizabeth, e foi lá que Elizabeth ficou enquanto sua casa era restaurada. Lilli, eu descobri, ainda estava viva. O destino havia me trazido até uma pessoa íntima de Elizabeth, alguém que eu conhecia apenas das páginas de biografias. Era um sinal. Mas Lilli, no fim das contas, estava com 96 anos e não saía de seu quarto.</p>
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Eu também mal saía do meu. No quarto número 6, enquanto a tempestade continuava lá fora e nuvens negras pairavam sobre os telhados vermelhos de Ouro Preto, espalhei meus papéis sobre a cama, examinando as anotações da minha pesquisa. O que eu mais gostava eram os pequenos fatos da vida diária de Elizabeth que descobri em sua papelada reunida, como uma lista de compras, as anotações concisas em um calendário de 1957 e uma folha de papel rasgada com a letra de um samba, escrita com a caligrafia peculiar de Elizabeth.</p>
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A obra de um artista, ou mesmo a impressão que temos de um artista, inscreve um caminho indelével em nossa consciência e imaginação e abre portas que não poderíamos abrir sozinhos, alterando sutilmente o modo como compreendemos o mundo. O encontro entre um artista e um leitor ou observador é sempre profundamente pessoal e misterioso. Em uma pequena anotação, a voz de Elizabeth me chamava através dos tempos: <em>I’ll lose you; I’ll find you./ I’ll lose you; I’ll find you</em> (Eu te perco; eu te acho).</p>
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Na segunda vez que vim a Ouro Preto, em julho deste ano, a última porta que se abriu para mim foi a da casa de Elizabeth. Um dos amigos do prefeito que conhecia os atuais donos me levou até lá. Quase uma década tinha se passado desde a primeira vez que estive na frente dessa porta. Naquela época, eu lia tanto as cartas dela sobre sua casa em Ouro Preto que sentia que podia andar vendado pelas salas, que podia até ouvir as conversas que aconteceram entre os moradores.</p>
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Encontrei uma entrada modesta. Através de um hall estreito, passei por vários quartos de ambos os lados. O quarto de Elizabeth era pequeno como a cela de uma noviça, com espaço apenas para uma cama e uma escrivaninha, mas estava arrumado, perfeito. Mais adiante, chego a uma grande sala com várias janelas que convidam a contemplar a vista espetacular da cidade. Lá está a Igreja de São Francisco de Assis; todos os dias ela admirava a fachada esculpida por Aleijadinho, que adorava.</p>
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Tudo tinha sido mantido como Elizabeth deixou. Até partes da mobília vieram da casa que ela tinha com Lota no Rio. A presença dela era palpável e eu não conseguia ficar parado, andava de novo por todas as salas, meus olhos e minhas mãos querendo absorver superfícies, texturas, cores. Estava em uma das “three loved houses” (três casas excelentes) citadas no poema <em>One Art</em> (<em>A Arte de Perder</em>), talvez o mais famoso de Elizabeth.</p>
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A empregada serviu chá na sala, em uma mesa tão apertada que as xícaras se tocavam. Escolhi um lugar. Sentei na cadeira de Elizabeth Bishop. Examinando a sala, percebi como cada detalhe foi perfeitamente pensado, escolhido com extremo cuidado, arrumado de maneira harmoniosa no conjunto. Do mesmo modo que os seus poemas.</p>
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Estar nesse lugar, nesse momento de delicada comunhão, foi o mais próximo que cheguei e jamais chegarei da pessoa que havia se tornado o assunto de meu livro. Senti-me profundamente emocionado. Como Elizabeth Bishop, eu havia chegado ao Brasil como turista. E, como ela, descobri um país intoxicante em sua beleza, na generosidade de seu povo, na linda e louca poesia que permeia sua vida diária. Elizabeth Bishop abriu a porta para o Brasil e eu entrei.</p>
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<strong>Michael Sledge</strong> é escritor norte-americano, autor de A Arte de Perder, romance que tem Elizabeth Bishop como personagem</p>
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Em meus dias de estrangeiro em Ouro Preto, peguei chuva, remexi papéis e me aproximei do universo da poeta que foi tema de meu romance2011-11-28T15:05:32-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 171 - Novembro 2011Em meus dias de estrangeiro em Ouro Preto, peguei chuva, remexi papéis e me aproximei do universo da poeta que foi tema de meu romanceLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/dicas-da-semana-grantaDicas da semana: <em>Granta </em>2011-12-02T09:08:11-02:00Redação Bravo!
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Editora de Literatura de <strong>BRAVO!</strong>, Mariana Delfini fala sobre a oitava edição em portugês da revista inglesa <em>Granta.</em> Criada no século 19 por alunos da Universidade de Cambridge, a revista é temática e nesta edição reúne 16 textos sobre <em>Trabalho.</em><em/></p>
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Ouça o podcast:</p>
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Leia um trecho da revista <a href="http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/1061.pdf" rel="clicando aqui" target="_blank">clicando aqui</a>.</p>
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<em>Granta - Volume 8(248 págs.)</em></p>
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<em>Editora Alfaguara</em></p>
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<em>Preço sugerido: R$ 34,90 </em></p>
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Editora de Literatura de <strong>BRAVO!,</strong> Mariana Delfini indica a revista literária inglesa <em>Granta</em>2011-11-17T19:16:40-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados17 de NovembroEditora de Literatura de BRAVO!, Mariana Delfini indica a revista literária inglesa GrantaLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/em-busca-de-um-pais-de-maravilhasEm busca de um País de Maravilhas2011-12-02T09:07:53-02:00João Gabriel de Lima
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Nossos olhares se cruzaram, e num único segundo senti aflorar a minha intimidade mais secreta. Se me perguntassem, eu saberia precisar o exato momento em que tudo se definiu, só não saberia especificar o que nela me despertou a transformação: o olhar de esguelha? A forma meio atabalhoada de andar? Os dentes querendo escapulir da boca? A maneira como jogou a bolsa no chão? O olhar doce e grave? A longa cicatriz unindo os seios ao pescoço?” Desde que o francês Gustave Flaubert (1821-1880) colocou o sarrafo lá no alto em sua obra-prima <em>A Educação Sentimental</em>, ficou difícil para qualquer autor descrever o momento capital em que um ser humano entra na vida de outro para modificá-la de forma avassaladora. Em seu romance <em>Dois Rios</em>, a carioca Tatiana Salem Levy se sai muito bem do desafio – e uma amostra é a frase que abre esta crítica.</p>
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A primeira parte do livro começa quando a brasileira Joana encontra a francesa Marie-Ange na praia de Copacabana. Até esse momento, Joana é uma mulher de 30 e poucos anos que mora com a mãe num apartamento atulhado de objetos – e das memórias que a eles correspondem. Aparecida, a mãe de Joana, sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, e a filha, responsável por cuidar dela, acaba acorrentada a um mundo de pequenas manias e nenhuma perspectiva. Marie-Ange vem romper esse ciclo aparentemente sem saída. O leitor cai no campo gravitacional armado por Tatiana de forma irresistível – como a Alice de Lewis Carrol no momento em que, ao seguir o coelho, lhe falta o chão – e entende por que a escritora é considerada uma das melhores da nova geração (Tatiana venceu em 2008 a primeira edição do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com o romance <em>A Chave de Casa)</em>.</p>
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<strong>Fincar bandeirinha</strong></p>
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A segunda parte de <em>Dois Rios</em> coloca em destaque o personagem Antônio, irmão gêmeo de Joana – e que assombra, de maneira discreta, a primeira parte do romance. A simetria entre os dois é bem construída, e a expectativa que a presença do irmão cria em relação ao desfecho é bastante interessante. O próprio Antônio, no entanto, é o maior senão do livro. Joana e Marie-Ange são personagens pelas quais o leitor se apaixona, seguindo fascinado o caminho das duas em busca de um país de maravilhas particular. Já Antônio é aquele chato de galochas que qualquer um de nós enxotaria de uma mesa de bar. Sua presença instaura o tédio em vários pontos da segunda parte do livro, que resultam pontuadas de lamúrias românticas – num forte contraste com a relação sensual e vibrante entre Joana e Marie-Ange. Num romance que, feitas as contas, é bastante bom, Antônio não está à altura do talento de Tatiana – uma narradora vertiginosa e criativa, capaz de invadir e fincar bandeirinha num terreno colonizado por Flaubert.</p>
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Dois Rios</em>, de Tatiana Salem Levy. Editora Record, 224 págs., R$ 34,90.</p>
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Duas mulheres fascinantes – e um homem que é um chato de galochas – são os personagens centrais de “Dois Rios”, um bom romance de Tatiana Salem Levy 2011-11-11T16:13:49-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 171 - Novembro 2011Duas mulheres fascinantes – e um homem que é um chato de galochas – são os personagens centrais de “Dois Rios”, um bom romance de Tatiana Salem Levy LiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/quando-o-homem-coelho-encontra-a-mulher-gazelaQuando o Homem-Coelho encontra a Mulher-Gazela2011-12-02T09:07:51-02:00Armando Antenore
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A série com 12 fotografias mal iluminadas, que não disfarçam o amadorismo de quem as tirou, espalha-se pela internet e, de relance, lembra uma inofensiva história infantil. As primeiras imagens limitam-se a apresentar os personagens da “trama” que se acompanhará em seguida, todos representados por pequenos bonecos de pelúcia. O simpático Ursinho Puff – ou Pooh, como informa a legenda em inglês – lidera a turma. Alaranjado, veste uma singela camisa cor-de-rosa e tem as feições ingênuas que o caracterizam desde 1926, quando o escritor britânico Alan Alexander Milne o inventou. Depois, vêm três amigos de Puff, um mais fofo do que o outro: Leitão (ou Piglet,), Tigrão (Tigger) e Bisonho (Eeyore), o burro. Travessos, os animaizinhos parecem doidos para brincar. De pega-pega? Esconde-esconde? Duro ou mole? Não exatamente... Logo na quinta foto da sequência, Puff surge deitado de costas sobre uma superfície branca e lisa, que remete à maciez de um lençol. Entre as patas traseiras generosamente abertas, aconchega o focinho atrevido de Leitão. Na sexta imagem, Bisonho está de quatro e dá a impressão de não ser nem um pouco bisonho... “Qual o problema?”, você indagará. “Burros estão sempre de quatro.” Estão, mas dificilmente permitem que um ursinho tão sapeca quanto Puff coloque-se atrás deles e se transforme no mais diligente dos garanhões. Da sétima à 12a foto, a baderna esquenta um bocado, demonstrando que a rotina no Bosque dos Cem Acres, onde o quarteto mora, anda bastante movimentada. Ah, sim, a farra recebeu o título de O Kama Sutra do Puff (The Kama Sutra of Pooh).</p>
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O nome, dispensável frisar, não prima pela criatividade. Há tempos, os ocidentais associam o Kama Sutra – clássico da literatura hindu – à libidinagem. No mercado editorial, o antiquíssimo compêndio se tornou sinônimo de sexo extravagante e atlético. Ou melhor: de manual fartamente ilustrado, em que casais se contorcem de inúmeros jeitos para driblar o tédio do papai-e-mamãe, como se praticassem uma espécie de ioga obscena. Das nove adaptações que a argentina Alicia Gallotti publicou, por exemplo, a mais nova promete ensinar “101 posições sensuais”. Já a de Nicole Bailey oferece “52 posições ardentes”. Na própria Índia, o termo kama sutra se banalizou e virou marca de camisinha.</p>
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O livro original, porém, revela-se bem menos acrobático e nada vulgar. Escrito em sânscrito por volta do século 3, possui 36 capítulos, distribuídos ao longo de sete partes. Deles, só um discorre sobre as posições adotadas pelos parceiros durante o sexo. São 19 no total, muitas triviais e cada uma detalhada exclusivamente com palavras. Não há ilustrações. Tal capítulo pertence à segunda parte, que também descreve outras formas de contatos íntimos: os abraços, os beijos, as mordidas e até os arranhões, tapas ou socos desferidos no auge da excitação. As demais partes abordam diferentes facetas da vida a dois e do cotidiano, nem sempre de cunho sexual.</p>
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No Brasil, há décadas, é possível adquirir o Kama Sutra completo, ainda que os exemplares nacionais derivem invariavelmente de edições em inglês. A primeira tradução do sânscrito para o português chega apenas agora às livrarias do país, por iniciativa do selo Tordesilhas, que integra a editora Alaúde. Trata-se, no entanto, de uma versão parcial. Embora ostente o nome Kama Sutra na capa, o volume de 96 páginas abriga unicamente os dez capítulos que compõem a segunda parte do clássico, ilustrados pelo artista portenho Alfredo Benavídez Bedoya (confira alguns de seus desenhos ao longo desta reportagem). Mesmo assim, o lançamento merece toda a atenção. O esforço pioneiro dos tradutores Daniel Moreira Miranda e Juliana Di Fiori Pondian, ambos egressos da Universidade de São Paulo (USP), resultou num texto enxuto, preciso e elegante, que traz expressivas mudanças em relação àqueles oriundos do inglês.</p>
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Adeptos do hinduísmo, os indianos contemporâneos do Kama Sutra acreditavam que só mereceriam alcançar o moksha – quer dizer: escapar dos ciclos sucessivos (e dolorosos) de nascimento, morte e reencarnação para atingir a comunhão plena com o Universo – se apoiassem a existência carnal numa tríade: as práticas espirituais (dharma), a aquisição de bens materiais (artha) e o cultivo dos prazeres (kama). As três metas deveriam estar igualmente na mira de qualquer indivíduo. Entretanto, ninguém poderia esquecer que o dharma supera o artha em importância e que o artha supera o kama. “Quem exercitar a tríade desfrutará de felicidade neste mundo e no vindouro”, pregava-se à época.</p>
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O Kama Sutra nada mais é, portanto, do que uma coletânea de reflexões e conselhos acerca do kama. Literalmente, o título significa “aforismos sobre o amor”. Mas “amor”, no caso, representa toda sorte de gozo: os do corpo, do intelecto e, em consequência, da alma. Afinal, para os hindus do século 3, não havia prazer fora da dimensão religiosa, uma vez que ler poemas, namorar, comer ou beber pressupunha colocar um tijolinho na tríade que conduzia à transcendência.</p>
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<strong>Papagaios, galos e perdizes</strong></p>
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Do sábio que concebeu o Kama Sutra, se conhece muito pouco. É certo que habitava o norte da Índia, que vivia em castidade quando criou o livro e que carregava o sobrenome Vatsyayana. O prenome, infelizmente, se perdeu. Valendo-se de um estilo direto, sem nenhum rebuscamento, procurou fazer um guia francamente didático, repleto de categorizações e quase tão objetivo quanto os que hoje classificamos de científicos ou técnicos. Nos 36 capítulos, trechos em prosa abrem pequenos espaços para explanações em versos. O escritor, além de expor as próprias ideias a respeito dos assuntos que analisa, cita as de vários outros especialistas, como Babhravya e Auddalaki Svetaketu, provavelmente um autor mítico. Depois do Kama Sutra, a Índia presenciou o aparecimento de, no mínimo, seis tratados similares. O mais famoso entre nós, do Ocidente, é o Anunga Runga (O Palco do Amor), redigido pelo poeta Kullianmull durante o século 15 ou 16.</p>
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Tudo leva a crer que o trabalho de Vatsyayana tinha por alvo homens e mulheres de elite, cultos e refinados, com tempo e recursos para saborear a vida. Mal começa, o livro recomenda que os leitores o estudem em paralelo à aprendizagem de 64 artes. A simples enumeração delas já atiça a imaginação e os sentidos. A lista abarca desde itens previsíveis – o canto, a dança, a culinária, o corte e a costura, a ginástica, a jardinagem, a pintura, o desenho, a carpintaria e a arquitetura – até a habilidade de resolver enigmas, de pronunciar frases difíceis, de deduzir, de apreciar dicionários, de preparar limonadas, sorvetes e licores, de confeccionar brincos, de arrumar camas, de colorir dentes, unhas, cabelos e roupas, de aplicar essências na pele, de ladrilhar o chão, de produzir flores artificiais, de fazer o algodão parecer seda e de tocar música em copos com água.</p>
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O Kama Sutra explicita, ainda, a rotina ideal dos chefes de família. Indica onde devem morar, de que maneira devem dispor adornos e móveis pela casa, quais hábitos de higiene devem adotar, de que modo devem se divertir e quando devem se alimentar ou tirar um cochilo. Entre as tarefas diárias que lhes atribui, destaca-se promover brigas de galos, perdizes ou carneiros e ensinar papagaios a falar.</p>
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Mas o melhor do livro está mesmo nos trechos em que Vatsyayana ataca de conselheiro erótico-afetivo (veja quadros). Não bastassem as considerações sobre carícias e posições sexuais, o autor receita afrodisíacos e substâncias capazes de aumentar o pênis ou alargar a vagina. Sugere igualmente uma série de feitiçarias que, num átimo, tornariam irresistível a mais insossa das criaturas. Também classifica os humanos de acordo com a dimensão de seus genitais. Os cavalheiros podem ser “coelhos”, “touros” ou “cavalos”, em ordem crescente de tamanho. As damas, “gazelas”, éguas” ou “elefantas”. Os capítulos que discutem o casamento esclarecem como os homens devem agir para arranjar uma boa noiva ou seduzir a mulher alheia e como as esposas devem se comportar diante dos maridos. Por fim, o Kama Sutra traça um minucioso e intrigante perfil das cortesãs – “aquelas que extraem do sexo o prazer e o próprio sustento”.</p>
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A sequência em que Vatsyayana relata os momentos derradeiros de um encontro íntimo é, talvez, a mais bonita do guia. “Tão logo o desejo se apaga”, escreve, “o casal vai para a sala de banhos sem coragem de se olhar. Estão envergonhados. Mas, quando retornam de lá, a timidez desaparece. Os dois se sentam num lugar aprazível e mascam a noz-de-areca. Ele passa óleo de sândalo no corpo dela, diz palavras doces e lhe oferece água. Em seguida, os parceiros se servem de petiscos, sopas, mingau de arroz, grelhados, sucos, mangas, carne-seca e frutas cítricas com açúcar mascavo. Ela se deita no colo dele e contempla a Lua. Enquanto narra histórias para agradá-la, ele lhe aponta estrelas e constelações.</p>
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”Na opinião da acadêmica norte-americana Wendy Doniger, estudiosa do hinduísmo e do sânscrito, o Kama Sutra surpreende por não se mostrar tão machista como outros livros do período. Há, sim, trechos em que Vatsyayana preconiza ações violentas contra as mulheres. Um dos mais gritantes: se uma virgem não aceita “contrair núpcias”, o autor afirma que, após esgotar as tentativas de conquistá-la, o pretendente pode raptá-la e deflorá-la. Em contrapartida, o texto rejeita a tradição já no terceiro capítulo da primeira parte, quando Vatsyayana aconselha às jovens lerem sempre o Kama Sutra, ainda que “alguns sábios” as desautorizem e aleguem que não lhes cabe aprender “qualquer tipo de ciência”. Do mesmo jeito, aceita que as moças façam sexo oral, apesar de “os mestres” proibirem o ato, sob o pretexto de as infratoras levarem a desgraça àqueles que as beijarem. Também aprova o lesbianismo em determinadas circunstâncias e se preocupa com o orgasmo feminino. Ensina, inclusive, os homens a proporcioná-lo e reconhecê-lo. De quebra, no capítulo 8 da segunda parte, não vê problema em as amantes assumirem as rédeas de uma transa e incorporarem o papel masculino, ficando por cima do parceiro. </p>
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<strong>Lingam e yoni</strong></p>
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Foi o lendário sir Richard Burton (1821-1890) quem trouxe o clássico hindu para o Ocidente. Célebre por descobrir as nascentes do rio Nilo na África e traduzir As Mil e Uma Noites, pérola da literatura árabe, o explorador e linguista britânico desafiou a rígida moral da Era Vitoriana e lançou a versão inglesa do Kama Sutra em 1883. Embora a assine sozinho, sabe-se que três indianos o ajudaram a destrinchar o compêndio. Praticamente a totalidade das edições brasileiras advém do trabalho deles. Nadando contra a corrente, os paulistanos Daniel Miranda, 41 anos, e Juliana Pondian, 28 – que, entre 2003 e 2006, dividiram a mesma classe de sânscrito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – utilizaram apenas o original de Vatsyayana para empreender a tradução da segunda parte. A tarefa lhes tomou cinco meses.</p>
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A versão de ambos se distingue da britânica em poucos, mas eloquentes aspectos. O principal: no século 13, um autor de nome Yasodhara escreveu o livro Jayamangala, que disseca cada parágrafo do Kama Sutra. Burton conhecia tal análise. Por isso, quando transpôs o texto de Vatsyayana para o inglês, acrescentou-lhe alguns comentários de Yasodhara sem deixar claro que o fizera. Daniel e Juliana também citam trechos do Jayamangala, só que de maneira explícita, em notas de rodapé.</p>
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<strong>Outras distinções interessantes:</strong></p>
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• Sempre que precisava mencionar “pênis” ou “vagina”, Burton evitava os equivalentes em inglês. Preferia trocá-los respectivamente por lingam e yoni. No hinduísmo, as palavras em sânscrito se referem à genitália do deus Shiva e de sua segunda mulher, Parvati. Ocorre que Vatsyayana nunca usa o termo yoni e raramente emprega lingam como sinônimo de “pênis”. Em geral, para designar os órgãos sexuais, lança mão de um substantivo neutro, jaghana, que significa pélvis ou quadris. Os tradutores de São Paulo optaram por redigir “pênis” e “vagina” quando necessário. </p>
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• Originalmente, o Kama Sutra chama os homossexuais masculinos de “pessoas do terceiro sexo”. Daniel e Juliana agem de modo idêntico e avisam, numa nota de rodapé, que a qualificação identifica tanto os gays travestidos de mulher quanto os não travestidos. Burton, porém, substituiu “pessoas do terceiro sexo” por “eunucos”.</p>
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• Vatsyayana diz que, durante o coito com homens, as moças podem se valer de “instrumentos artificiais” caso queiram usufruir de mais prazer. A dupla paulistana mantém o sentido da frase. Já o britânico traduziu “instrumentos artificiais” como “drogas”.</p>
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O que explica as diferenças? “Possivelmente, Burton censurou por conta própria as expressões que julgava menos palatáveis para os europeus do século 19”, arrisca Daniel. De qualquer maneira, tal qual os brasileiros, o explorador inglês preservou intacto um trecho que resume à perfeição o espírito de todo o Kama Sutra: “O terreno dos manuais serve enquanto o desejo é baixo. Mas, quando a roda da paixão gira, não há regras nem ordem”.</p>
<div class="onde-quando">
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<strong>O LIVRO</strong></p>
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<em>Kama Sutra</em>, de Vatsyayana. Tradução de Daniel Moreira Miranda e Juliana Di Fiori Pondian. Selo Tordesilhas, 96 págs., preço a definir.</p>
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Nova tradução do “Kama Sutra” demonstra que o clássico hindu é bem mais do que um manual de posições sexuais2011-11-15T13:55:13-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosEdição 171 - Novembro 2011Nova tradução do “Kama Sutra” demonstra que o clássico hindu é bem mais do que um manual de posições sexuaisLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/pilulas-filosoficasPílulas Filosóficas2011-12-02T09:07:09-02:00Redação
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O filósofo pop Alain de Botton assina a ficção inédita de <strong>BRAVO!</strong> em novembro. Ele colabora com <em>A Natureza do Amor</em>, trecho do livro <em>Cenas de Casamento</em>, ainda sem previsão de lançamento. Na trama, o escritor narra a trajetória amorosa de Ben, tecendo reflexões sobre as paixões platônicas do personagem e as origens e desafios do amor. </p>
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Para conhecer melhor o escritor, reconhecido por propagar uma "filosofia para o dia-a-dia" em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alain_de_Botton" rel="seus livros" target="_blank">seus livros</a> e até numa escola (a <a href="http://www.theschooloflife.com/" rel="Scholl of Life" target="_blank">Scholl of Life</a>, que tem como objetivo resolver problemas de temas que aflingem todos os seres humanos, como morte, dinheiro, amor, trabalho e família), <strong>BRAVO! </strong>seleciona dois vídeos: o primeiro, uma palestra na conferência <a href="http://www.ted.com" rel="TED" target="_blank">TED</a>, problematiza o conceito de sucesso no mundo moderno; o segundo faz parte da série de televisão <em>Filosofia: Um guia para a Felicidade</em>, narrada pelo autor e inspirada no livro <em>As Consolações da Filosofia</em>, que aproxima obras de grandes filósofos a sentimentos, procurando aliviar frustrações da vida cotidiana através da reflexão.</p>
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Se você quiser filosofia em 140 caracteres, siga <a href="http://twitter.com/#!/alaindebotton" rel="@alaindebotton" target="_blank">@alaindebotton</a> no twitter.</p>
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<em>Alain de Botton profere palestras em São Paulo e Porto Alegre nos dias 21 e 22 de novembro pelo ciclo de conferências <a href="http://www.fronteirasdopensamento.com.br" rel="Fronteiras do Pensamento" target="_blank">Fronteiras do Pensamento</a>.</em></p>
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<em>A ficção inédita está na <strong>BRAVO! </strong>171. Já nas bancas.</em></p>
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Se você não conseguiu assistir ao vídeo, <a href="http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success.html" rel="clique aqui." target="_blank">clique aqui.</a></p>
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Assista a vídeos do filósofo Alain de Botton2011-11-04T17:34:50-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosNovembro de 2011Assista a vídeos do filósofo Alain de BottonLiteraturaBRAVO!BRAVO!http://bravonline.abril.com/materia/bravo-no-forum-das-letras-de-ouro-preto<strong>BRAVO! </strong>no Fórum das Letras de Ouro Preto2011-12-02T09:06:58-02:00Por Redação
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Entre os dias 11 e 15 de novembro acontece o Fórum das Letras de Ouro Preto, organizado pela Universidade Federal de Ouro Preto. Pelo terceiro ano seguido, <strong>BRAVO! </strong>participará da festa com o <em>Ciclo Bravo! de Jornalismo Cultural</em>, com debates sobre jornalismo e literatura. Confira a programação.</p>
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<strong><em>Ciclo Bravo! de Jornalismo Cultural</em></strong></p>
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11/11, às 11h</p>
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<em>Quando o crítico é autor</em></p>
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Arthur Dapieve, João Gabriel de Lima e Paulo Roberto Pires. Mediação: Matthew Shirts</p>
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Local: Espaço Petrobras (Auditório do GLTA - Rua Paraná, 136 - Centro)</p>
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12/11, às 11h</p>
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<em>A arte do perfil</em></p>
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Fred Melo Paiva e Paulo Markun. Mediação: Carlos Herculano</p>
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Local: Espaço Petrobras (Auditório do GLTA - Rua Paraná, 136 - Centro)</p>
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13/11, às 11h</p>
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<em>A narrativa jornalística em diversos meios</em></p>
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Eliane Brum, Mona Dorf, João Gabriel de Lima. Mediação: Rachel Bertol</p>
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Local: Espaço Petrobras (Auditório do GLTA - Rua Paraná, 136 - Centro)</p>
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14/11, às 11h</p>
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<em>Oficinas de jornalismo Bravo!</em></p>
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Jornalismo Cultural – Paulo Roberto Pires*</p>
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Local: Anexo do Museu da Inconfidência (Praça Tiradentes, s/nº)</p>
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*Necessária a retirada de senha no local com uma hora de antecedência</p>
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15/11, às 11h</p>
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<em>Oficinas de jornalismo Bravo!</em></p>
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Crônicas - Matthews Shirts*</p>
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Local: Anexo do Museu da Inconfidência (Praça Tiradentes, s/nº)</p>
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*Necessária a retirada de senha no local com uma hora de antecedência</p>
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Mais informações em <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/" rel="http://www.forumdasletras.ufop.br/" target="_blank">http://www.forumdasletras.ufop.br/</a></p>
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Confira a programação 2011-11-03T15:07:56-02:00Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservadosNovembro de 2011Confira a programação LiteraturaBRAVO!BRAVO!