BRAVO! - Literatura http://bravonline.abril.com.br/feed/atom 2012-05-18T19:48:33-03:00 BRAVO! http://bravo4.abrilm.com.br/imagem/favicon.ico Bravo! Cultura no Brasil - Feed Literatura Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados http://bravonline.abril.com/materia/redescoberta-do-brasil Redescoberta do Brasil 2012-05-18T19:48:33-03:00 Josélia Aguiar <p> Soava estranho, talvez misantropo aquele novo romancista portugu&#xEA;s que s&#xF3; usava letras min&#xFA;sculas para escrever o pr&#xF3;prio nome e os par&#xE1;grafos caudalosos, de palavras desconhecidas aqui. A estranheza logo se desfez. Primeiro durante a Festa Liter&#xE1;ria Internacional de Paraty (Flip) do ano passado, numa mesa que arrebatou a plateia e o tornou campe&#xE3;o de vendas na livraria oficial do evento. Depois, no Twitter e no Facebook, em que costuma aparecer quase diariamente, Valter Hugo M&#xE3;e, a partir de agora com mai&#xFA;sculas, foi mostrando que, al&#xE9;m de boa pra&#xE7;a, faz rir com seus coment&#xE1;rios jocosos sobre si mesmo e seu pa&#xED;s. S&#xF3; o Brasil parece a salvo das anedotas &#x2013; &#xE0;s bandas de c&#xE1;, reserva apenas ternura.</p> <p> Hugo M&#xE3;e, nascido em 1971, &#xE9; o mais pop em sua gera&#xE7;&#xE3;o de ficcionistas de Portugal &#x2013; turma na faixa dos 40 anos, revelada por pr&#xEA;mios importantes, cujos livros chegam com intervalos cada vez menores ao mercado brasileiro. A crescente popularidade da nova gera&#xE7;&#xE3;o lusa entre n&#xF3;s pode ser deduzida pelo fato de Hugo M&#xE3;e lan&#xE7;ar dois t&#xED;tulos ao mesmo tempo por aqui: <em>O Nosso Reino</em>, de 2004, que trata da inf&#xE2;ncia e marca a estreia do escritor, sai agora pela Editora 34, assim como o mais recente, <em>O Filho de Mil Homens</em>, que aborda a paternidade e que a Cosac Naify publica seis meses ap&#xF3;s a obra vir &#xE0; tona na Europa.</p> <p> Aqueles que conhecem as incurs&#xF5;es do romancista pelas artes pl&#xE1;sticas e pela m&#xFA;sica, como letrista e vocalista &#x2013; a canja que deu numa festa da Flip cantando o cl&#xE1;ssico <em>O Fado de Cada Um</em> virou hit no YouTube &#xE0; &#xE9;poca &#x2013;, podem supor erroneamente que escrever &#xE9; mais um de seus tantos of&#xED;cios. Ao contr&#xE1;rio. As demais experi&#xEA;ncias s&#xE3;o complementos, n&#xE3;o desvios, do seu projeto de longo curso, que &#xE9; fazer livros. O pr&#xF3;ximo est&#xE1; j&#xE1; no horizonte, ali&#xE1;s. &#x201C;Ser&#xE1; o lado lunar de <em>O Filho de Mil Homens</em>, que &#xE9; muito soalheiro&#x201D;, conta Hugo M&#xE3;e &#xE0;<strong> BRAVO!</strong>. &#x201C;Quero pensar na rejei&#xE7;&#xE3;o extrema sofrida por uma crian&#xE7;a.&#x201D;</p> <p> Da mesma safra, mas esteticamente muito distinto, Jos&#xE9; Lu&#xED;s Peixoto (de 1974) acaba de publicar Livro, com a chancela da Companhia das Letras, e &#xE9; um dos convidados da pr&#xF3;xima Flip, em julho. O t&#xED;tulo prenuncia a met&#xE1;fora desse romance, que aborda separa&#xE7;&#xE3;o e reencontro: o que d&#xE1; sentido &#xE0; hist&#xF3;ria de Il&#xED;dio e Adelaide, apartados durante o regime salazarista, &#xE9; justamente um livro. Ditaduras e guerras, ali&#xE1;s, s&#xE3;o mais do que pano de fundo na obra desses novos autores. A forma&#xE7;&#xE3;o deles se d&#xE1; sob a influ&#xEA;ncia dessas rupturas e desses recome&#xE7;os, sobre os quais podem escrever sem restri&#xE7;&#xE3;o. &#x201C;Minha gera&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o viveu a ditadura salazarista. Essa caracter&#xED;stica deu-nos liberdade&#x201D;, explica Peixoto.</p> <p> Um Portugal arcaico e campon&#xEA;s se revela em livros de Hugo M&#xE3;e, enquanto outro, o de emigrados fugidos da ditadura ou das guerras coloniais, sobressai nos de Peixoto e de uma autora que os brasileiros v&#xE3;o come&#xE7;ar a conhecer melhor a partir de agora. De gera&#xE7;&#xE3;o um pouco anterior, Dulce Maria Cardoso (de 1964) &#xE9; outra convidada da pr&#xF3;xima Flip e tem o premiado <em>O Retorno</em> lan&#xE7;ado por uma editora portuguesa rec&#xE9;m-aportada no Brasil, a Tinta da China.</p> <p> N&#xE3;o &#xE9; coincid&#xEA;ncia que a hist&#xF3;ria das personagens lembre a da autora, que aos 11 anos, acompanhando a fam&#xED;lia, embarcou de volta a Lisboa num avi&#xE3;o de Luanda. Vistos como quase intrusos a invadir subitamente o pa&#xED;s onde nasceram, os portugueses que deixaram Angola e Mo&#xE7;ambique quando come&#xE7;ou a luta de independ&#xEA;ncia s&#xE3;o logo chamados com um apelido depreciativo por quem os recebe: os &#x201C;retornados&#x201D;, sob a &#xF3;tica dos que l&#xE1; est&#xE3;o, contribu&#xED;ram para levar o pa&#xED;s ao colapso econ&#xF4;mico atual. Em sutilezas que o brasileiro nem sempre percebe, o trauma da guerra se pode notar &#x2013; nascidos em Luanda que tiveram de sair muito cedo do continente africano, como Valter Hugo M&#xE3;e, se declaram portugueses.</p> <p> <strong>Na mesma estante</strong></p> <p> Unidos por la&#xE7;os liter&#xE1;rios que se esgar&#xE7;aram no s&#xE9;culo 20, Brasil e Portugal voltaram a compartilhar autores sobretudo na &#xFA;ltima d&#xE9;cada. A bem dizer, o interc&#xE2;mbio come&#xE7;ou um pouco antes. A descoberta pelo leitor brasileiro da obra de Jos&#xE9; Saramago (1922-2010), agraciado com o primeiro Nobel para um autor de l&#xED;ngua portuguesa, despertou a curiosidade para nomes como o de Ant&#xF3;nio Lobo Antunes, hoje com 69 anos.</p> <p> O clima lus&#xF3;fono se refor&#xE7;ou na &#xFA;ltima d&#xE9;cada por causa de um iminente novo acordo ortogr&#xE1;fico e, principalmente, em raz&#xE3;o da entrada no Brasil de editoras portuguesas fortalecidas numa ent&#xE3;o pujante Uni&#xE3;o Europeia.O apoio financeiro do governo de Portugal a edi&#xE7;&#xF5;es e tradu&#xE7;&#xF5;es mundo afora trouxe para c&#xE1; n&#xE3;o s&#xF3; autores t&#xE3;o distintos como In&#xEA;s Pedrosa e Jo&#xE3;o Tordo mas tamb&#xE9;m os da &#xC1;frica que fala o mesmo idioma, como o angolano Ondjaki. Com a recente crise nos pa&#xED;ses ib&#xE9;ricos, grupos editoriais instalados havia pouco tempo no mercado brasileiro, a exemplo de Leya e Babel, querem ampliar sua presen&#xE7;a no pa&#xED;s. Editoras menores tamb&#xE9;m chegam &#x2013; a Tinta da China lan&#xE7;a ainda neste ano <em>E a Noite Roda</em>, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho, e outro de Dulce Maria Cardoso, <em>Os Meus Sentimentos</em>.</p> <p> Os autores de l&#xE1; veem no Brasil a possibilidade de encontrar mais leitores que possam compreend&#xEA;-los num idioma que a princ&#xED;pio soa estranho, mas &#xE9; o mesmo. &#x201C;Queiramos ou n&#xE3;o, em pa&#xED;ses como a Fran&#xE7;a, a Alemanha e os Estados Unidos, Brasil e Portugal ocupam a mesma estante. Eu sou dos que estimam essa parceria&#x201D;, diz L&#xED;dia Jorge, outra autora que passa a ter sua obra publicada no pa&#xED;s com mais regularidade. Seu recente <em>A Noite das Mulheres Cantoras</em>, publicado em Portugal no ano passado, sai agora pela Leya daqui.</p> <p> <strong>Contraste gritante</strong></p> <p> N&#xE3;o s&#xF3; os leitores parecem curiosos com a nova onda portuguesa. Os cr&#xED;ticos liter&#xE1;rios tamb&#xE9;m. Luiz Costa Lima, do Rio de Janeiro, ressalta qualidades em dois autores que j&#xE1; avaliou: al&#xE9;m de Lobo Antunes, o m&#xFA;ltiplo e cerebral Gon&#xE7;alo M. Tavares, este o mais celebrado de todos de sua gera&#xE7;&#xE3;o, o &#x201C;futuro Nobel daqui a 25 anos&#x201D;, como previu Saramago. A m&#xE1;quina de fazer pensar de Gon&#xE7;alo &#xE9; um assombro n&#xE3;o apenas est&#xE9;tico como tamb&#xE9;m produtivo &#x2013; com mais de 30 livros publicados em uma d&#xE9;cada, lan&#xE7;ou outros dois em Portugal em dezembro passado, <em>Short Movies</em> e <em>Can&#xE7;&#xF5;es Mexicanas</em>. &#x201C;A seriedade, a inventividade e a elabora&#xE7;&#xE3;o intelectual dos romances de ambos s&#xE3;o de fato um contraste gritante com a superficialidade tem&#xE1;tica e o convencionalismo narrativo de nossa prosa&#x201D;, afirma Costa Lima.</p> <p> Os mineiros Silviano Santiago e Maria Esther Maciel tamb&#xE9;m elogiam os portugueses. &#x201C;Tento evitar generaliza&#xE7;&#xF5;es, mas acho que, sim, muitos escritores atuais de Portugal t&#xEA;m nos surpreendido com livros vigorosos, inventivos e incomuns&#x201D;, diz Maria Esther. &#x201C;Talvez por se furtarem &#xE0;s exig&#xEA;ncias de um realismo expl&#xED;cito ou &#xE0; express&#xE3;o direta de uma experi&#xEA;ncia pessoal, eles estejam mais abertos ao exerc&#xED;cio da imagina&#xE7;&#xE3;o. O apuro da linguagem, aliado a enredos e estrat&#xE9;gias narrativas instigantes, &#xE9; uma das marcas dessa literatura.&#x201D;</p> <p> Silviano Santiago explica tal distin&#xE7;&#xE3;o pelo fato de Portugal ser ainda um pa&#xED;s liter&#xE1;rio como a Fran&#xE7;a foi at&#xE9; a d&#xE9;cada de 1960 e a Espanha se tornou a partir de ent&#xE3;o. Um autor portugu&#xEA;s, acrescenta Santiago, tem motivos para buscar a perfei&#xE7;&#xE3;o formal e de conte&#xFA;do ambicionada pelos grandes mestres do passado: &#x201C;Essa atualidade obsoleta, extremamente simp&#xE1;tica aos que ainda amam ler bons livros e digna de elogio da minha parte, autentica a forma&#xE7;&#xE3;o rica e rigorosa do escritor portugu&#xEA;s contempor&#xE2;neo e, principalmente, incentiva-o a se expressar atrav&#xE9;s das palavras e do papel impresso&#x201D;.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Jos&#xE9;lia Aguiar</strong> &#xE9; jornalista e doutoranda em hist&#xF3;ria. Edita o blog <em>Livros</em> <em>Etc</em>. na Folha.com.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>OS LIVROS</strong></p> <p> <em>O Filho de Mil Homens</em>, de Valter Hugo M&#xE3;e. Cosac Naify, 256 p&#xE1;gs., R$ 39.<em>O Nosso Reino</em>, de Valter Hugo M&#xE3;e. Editora 34, 168 p&#xE1;gs, R$ 35. <em>Livro</em>, de Jos&#xE9; Lu&#xED;s Peixoto. Companhia das Letras, 288 p&#xE1;gs., R$ 42.</p> </div> Depois de José Saramago e António Lobo Antunes, uma nova geração de escritores portugueses cruza o Atlântico. Para a crítica brasileira, os jovens autores d’além-mar se destacam pelo rigor formal e são mais inventivos que os daqui 2012-05-18T13:15:56-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 177 - Maio 2012 Depois de José Saramago e António Lobo Antunes, uma nova geração de escritores portugueses cruza o Atlântico. Para a crítica brasileira, os jovens autores d’além-mar se destacam pelo rigor formal e são mais inventivos que os daqui Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/no-reino-da-ambiguidade No Reino da Ambiguidade 2012-05-17T18:59:49-03:00 Mariana Delfini <p> Retratos sui-generis destacam-se no acervo de 16 mil imagens de Madalena Schwartz (1921-1993), fot&#xF3;grafa h&#xFA;ngara que aportou no Brasil em 1960, depois de viver mais de 20 anos na Argentina. Rostos com purpurina, homens de batom e mulheres misteriosas entrela&#xE7;am-se nas 100 fotos em preto-e-branco agora reunidas no livro <em>Cris&#xE1;lidas</em>.</p> <p> O volume, que o Instituto Moreira Salles lan&#xE7;a neste m&#xEA;s, foi organizado pelo filho da fot&#xF3;grafa, o professor da Universidade de S&#xE3;o Paulo Jorge Schwartz. &#x201C;As imagens exploram principalmente as ambiguidades do corpo e da sexualidade&#x201D;, explica. Ele se recorda da m&#xE3;e como uma senhora t&#xED;mida que dificilmente seria associada, &#xE0; primeira vista, aos travestis e artistas libert&#xE1;rios que retratou nas d&#xE9;cadas de 1970 e 80.</p> <p> Madalena descobriu-se fot&#xF3;grafa aos 45 anos, no lend&#xE1;rio Foto Cine Clube Bandeirantes. Em paralelo a trabalhos para a Editora Abril e a Rede Globo, fazia fotos de conhecidos e amigos. Em seu apartamento no edif&#xED;cio Copan, no centro de S&#xE3;o Paulo, foram realizadas imagens que integram <em>Cris&#xE1;lidas</em> &#x2013; nome que evoca o est&#xE1;gio intermedi&#xE1;rio da metamorfose entre larva e inseto adulto. Alguns dos retratos do livro estavam na primeira exposi&#xE7;&#xE3;o individual de Madalena, no Museu de Arte de S&#xE3;o Paulo (Masp), em 1974.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Cris&#xE1;lidas</em>, org. de Jorge Schwartz. Com textos de Bia Abramo e Edgardo Cozarinsky. Instituto Moreira Salles, pre&#xE7;o a definir.</p> </div> A coletânea <em>Crisálidas</em>, da fotógrafa húngara Madalena Schwartz, reúne imagens que embaralham as noções de masculino e feminino 2012-05-17T18:59:49-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 177 - Maio 2012 A coletânea Crisálidas, da fotógrafa húngara Madalena Schwartz, reúne imagens que embaralham as noções de masculino e feminino Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/tiro-de-festim-no-pe Tiro (de festim) no Pé 2012-05-16T12:24:00-03:00 José Geraldo Couto <p> N&#xE3;o existe hoje na Europa um autor mais controvertido do que o romancista, poeta, ensa&#xED;sta, compositor e cineasta Michel Houellebecq. Desde que publicou seu primeiro romance,<em> Extens&#xE3;o do Dom&#xED;nio da Luta</em>, em 1994, o franc&#xEA;s acumulou com a mesma prodigalidade inimigos e admiradores. Acusado de racista e mis&#xF3;gino pelo que j&#xE1; disse e escreveu &#x2013; &#x201C;O Isl&#xE3; &#xE9; a religi&#xE3;o mais est&#xFA;pida do mundo&#x201D;, por exemplo &#x2013;, o autor de <em>Part&#xED;culas Elementares</em> (1998) criou fama de arrogante e intrat&#xE1;vel.</p> <p> O romance <em>O Mapa e o Territ&#xF3;rio</em> (2010), que sai agora no Brasil, &#xE9; o novo round do embate entre o escritor e a intelligentsia de seu tempo. &#xC9; um livro ambicioso, on&#xED;voro, em que Houellebecq faz uma leitura ir&#xF4;nica e cr&#xED;tica do mercado de arte &#xE0;s muta&#xE7;&#xF5;es tecnol&#xF3;gicas, das crises econ&#xF4;micas aos desastres clim&#xE1;ticos, do imp&#xE9;rio midi&#xE1;tico &#xE0;s rela&#xE7;&#xF5;es entre campo e cidade.</p> <p> Narrado num tempo ligeiramente futuro, o romance tem como protagonista o artista visual Jed Martin, cuja produ&#xE7;&#xE3;o passa por fases bem distintas: ele primeiro, fotografa m&#xE1;quinas da era industrial em extin&#xE7;&#xE3;o; depois, sobrep&#xF5;e fotos de mapas dos guias Michelin a imagens a&#xE9;reas das regi&#xF5;es mapeadas; por fim, recorre &#xE0; pintura a &#xF3;leo, retratando profissionais de v&#xE1;rias &#xE1;reas, incluindo &#xED;cones como os artistas Jeff Koons e Damien Hirst e os magnatas da inform&#xE1;tica Bill Gates e Steve Jobs.</p> <p> Um tanto misantropo, quase indiferente &#xE0; repercuss&#xE3;o cr&#xED;tica e financeira de sua obra, Martin parece ter apenas duas rela&#xE7;&#xF5;es importantes na vida: com o pai, arquiteto aposentado que se recolhe voluntariamente a uma casa de repouso, e com uma namorada russa, executiva da Michelin, que ele no entanto deixa escapar.</p> <p> <strong>Tartaruga Doente</strong></p> <p> A certa altura, quando prepara uma grande retrospectiva de seu trabalho, Martin &#xE9; convencido por seu galerista a convidar um escritor importante para fazer o texto do cat&#xE1;logo, e o nome escolhido &#xE9;... Michel Houellebecq. A partir da&#xED;, o livro ganha uma volta a mais no parafuso da autoironia e do sarcasmo. O Houellebecq do romance &#xE9; descrito como um sujeito desleixado, antissocial, b&#xEA;bado e malcheiroso. Com sua barriga proeminente e seus bra&#xE7;os curtos, parece &#x201C;uma tartaruga doente&#x201D;. Quem ler o livro ver&#xE1; que isso &#xE9; apenas o come&#xE7;o da crueldade reservada pelo escritor a si mesmo.</p> <p> Mas aquilo que, &#xE0; primeira vista, pareceria um tiro no p&#xE9; revela-se um golpe de g&#xEA;nio. Apesar de tolas acusa&#xE7;&#xF5;es, como a de ter &#x201C;plagiado&#x201D; textos da Wikipedia e dos guias Michelin, Houellebecq (o verdadeiro) desarmou os cr&#xED;ticos e seduziu o p&#xFA;blico com este romance formid&#xE1;vel. E de quebra ganhou o principal pr&#xEA;mio liter&#xE1;rio de seu pa&#xED;s, o <em>Goncourt</em>.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Jos&#xE9; Geraldo Couto</strong> &#xE9; jornalista e assina uma coluna no Blog do Instituto Moreira Salles</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>O Mapa e o Territ&#xF3;rio</em>, de Michel Houellebecq. Tradu&#xE7;&#xE3;o: Andr&#xE9; Telles. Editora Record, 400 p&#xE1;gs, R$ 49,90.</p> </div> Em <em>O Mapa e o Território</em>, o romancista Michel Houellebecq traça um retrato impiedoso de nossa época enquanto zomba de si mesmo – estratégia que acaba se revelando genial 2012-05-16T12:24:00-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 177 - Maio 2012 Em O Mapa e o Território, o romancista Michel Houellebecq traça um retrato impiedoso de nossa época enquanto zomba de si mesmo – estratégia que acaba se revelando genial Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/o-chiclete-como-atitude O Chiclete como Atitude 2012-05-14T12:16:10-03:00 Redação Bravo! <p> Em novembro de 2002, a imprensa internacional noticiou que o fim da proibi&#xE7;&#xE3;o, mesmo parcial, da venda e do consumo de chiclete em Cingapura, pequeno pa&#xED;s do sudeste asi&#xE1;tico, havia gerado pol&#xEA;mica porque o pa&#xED;s tinha regras r&#xED;gidas de comportamento e muitas pessoas foram contra a medida, considerada resultado de uma press&#xE3;o comercial &#x2013; e pol&#xED;tica &#x2013; do governo norte-americano. Assim, ficou decidido que seria permitida a venda do produto apenas para uso m&#xE9;dico, a partir de 2004. A decis&#xE3;o dividiu a opini&#xE3;o p&#xFA;blica nacional, segundo apurou a jornalista brasileira Sonia Ambrosio, que esteve em Cingapura na &#xE9;poca. Ela conversou com v&#xE1;rios moradores locais para saber o que tinham achado da medida, como a vendedora Milini Choo, 23 anos, para quem o governo deveria liberar todos os tipos de chicletes. J&#xE1; o comerciante Chia Che Keng, 38 anos, queria que a proibi&#xE7;&#xE3;o integral fosse mantida.</p> <p> Cingapura havia banido a importa&#xE7;&#xE3;o, fabrica&#xE7;&#xE3;o e venda de chicletes dez anos antes, alegando que gastava milh&#xF5;es de d&#xF3;lares com limpeza p&#xFA;blica, por causa da dificuldade de remover as gomas de mascar das ruas. O recuo na decis&#xE3;o foi um dos mais dif&#xED;ceis pontos discutidos nos dois anos de intensas negocia&#xE7;&#xF5;es comerciais com os Estados Unidos, segundo Tommy Kho, que representou o governo cingapuriano nas discuss&#xF5;es. Kho contou que os dois lados chegaram a uma &#x201C;solu&#xE7;&#xE3;o habilidosa&#x201D; ao classificar certos tipos de goma de mascar como produtos de uso m&#xE9;dico. Desse modo, apenas chicletes sem a&#xE7;&#xFA;car e prescritos por m&#xE9;dicos e dentistas, com fins terap&#xEA;uticos, poderiam ser vendidos em farm&#xE1;cias. (...)</p> <p> <strong>Rebeldia no P&#xF3;s-guerra</strong></p> <p> A hist&#xF3;ria do chiclete registra resist&#xEA;ncia ao seu consumo at&#xE9; mesmo nos Estados Unidos, onde o produto foi patenteado no s&#xE9;culo 19. Para alguns norte-americanos, era uma vergonha que a maior pot&#xEA;ncia do mundo ganhasse dinheiro e ficasse conhecida no exterior como o lugar onde se fazia borracha a&#xE7;ucarada para as pessoas mastigarem. Na opini&#xE3;o desses cr&#xED;ticos, mascar goma parecia muito com o ruminar de um bovino ou caprino que, incans&#xE1;vel e demoradamente, digeria o capim na boca. Uma opini&#xE3;o, ali&#xE1;s, dividida com os estrangeiros que combatiam o regime capitalista norte-americano.</p> <p> Na contram&#xE3;o dessa vis&#xE3;o, o chiclete adquiriu um sentido de s&#xED;mbolo de rebeldia da juventude norte-americana a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. O humorista, colunista de jornal, ator e editor Robert Benchley (1889-1945) disse certa vez que o maior de todos os movimentos da hist&#xF3;ria sempre fora &#x201C;o das mand&#xED;bulas mascando chicletes ou goma&#x201D;, tamanha era a popularidade do produto na &#xE9;poca em todas as classes sociais e idades.</p> <p> Na verdade, desde a d&#xE9;cada de 1930, no cinema, n&#xE3;o foram poucos os filmes de g&#xE2;ngsteres que traziam criminosos e at&#xE9; mesmo alguns policiais menos convencionais mascando chicletes. Depois da guerra, personagens jovens desajustados usavam o chiclete para ruminar e, assim, provocar seus interlocutores: pais, professores e autoridades. Eram supostamente os rebeldes sem causa, filhos da classe m&#xE9;dia de um pa&#xED;s que se tornara a maior pot&#xEA;ncia do mundo. Se a Am&#xE9;rica vivia o esplendor da prosperidade econ&#xF4;mica, a juventude do p&#xF3;s-guerra tinha de enfrentar a ang&#xFA;stia de um destino que lhe parecia usurpado e inevit&#xE1;vel: a impossibilidade de futuro, de viver at&#xE9; a velhice, de fazer planos para atravessar todas as etapas da vida, uma vez que pairava sobre suas cabe&#xE7;as a amea&#xE7;a de se dizimar a exist&#xEA;ncia na Terra por causa de uma guerra com bombas at&#xF4;micas.</p> <p> Aos poucos, mudan&#xE7;as de comportamento sinalizavam para a m&#xE1;xima &#x201C;viva intensamente o hoje porque pode n&#xE3;o haver amanh&#xE3;&#x201D;. Um preceito que seria radicalizado depois para a tr&#xED;ade sexo, drogas e rock&#x2019;n roll. A partir dessa premissa, surgiu uma s&#xE9;rie de movimentos e tend&#xEA;ncias que desaguariam na contracultura dos anos 60: desde o pr&#xF3;prio rock e a literatura beatnik, os quadrinhos de humor da Mad e de terror da EC Comics, com seus monstros comedores de c&#xE9;rebros, ao que se poderia chamar de cinema transviado. Jovens inconformados ignoravam o perigo dos rachas de carros e da liberdade sobre quatro ou duas rodas (...). Nesse universo, o chiclete se tornou um elemento importante de provoca&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> Surgiam as gangues de motocicletas, que queriam viver livremente, beber, brigar, mascar chicletes (e colar a goma usada em lugares p&#xFA;blicos) e cuspir em cima da lei. Quando circulavam pelo interior, esses motoqueiros causavam p&#xE2;nico nos pacatos e muitas vezes conservadores moradores das pr&#xF3;speras cidades da Am&#xE9;rica. Al&#xE9;m do estilo agressivo, at&#xE9; mesmo no visual, eles davam muito trabalho &#xE0;s autoridades. Para o jovem, por&#xE9;m, ser rebelde era principalmente adotar um novo modo de vida, distinto de seus pais, respons&#xE1;veis, de certa forma, por aquele estado de coisas, pela bomba at&#xF4;mica e por defenderem um jeito de viver ancorado na prosperidade e na riqueza. Ia-se de encontro ao ideal de vida norte-americano, que pretendia ser a refer&#xEA;ncia planet&#xE1;ria para seu sistema pol&#xED;tico e econ&#xF4;mico de sucesso, o capitalismo, ante a amea&#xE7;a do comunismo de Moscou.</p> <p> J&#xE1; no final da d&#xE9;cada de 1940, John Garfield (1913-1952), o primeiro astro com cara de oper&#xE1;rio, fazia filmes sobre o levante juvenil da Am&#xE9;rica, como O Destino Bate &#xE0; Sua Porta (1946). Em sua curta carreira, consagrou a imagem de enfant terrible do cinema &#x2013; seria acusado de comunista e inclu&#xED;do na lista negra da ind&#xFA;stria cinematogr&#xE1;fica, o que teria sido o principal motivo para o infarto fulminante que sofreu. No auge da paranoia da ca&#xE7;a aos comunistas, Marlon Brando (1924-2004) foi o rebelde que mais teve sua imagem ligada ao chiclete, desde que sugeriu um visual displicente no filme Um Bonde Chamado Desejo (1951) e transformou a camiseta branca em um s&#xED;mbolo juvenil, enquanto James Dean (1931-1955), no filme Juventude Transviada (1955), com blus&#xE3;o de couro, jeans e chiclete na boca, plantava a semente da contracultura.</p> <p> <strong>BOBO desmoralizado</strong></p> <p> O chiclete marcaria para sempre a imagem do &#xED;cone criado pelo inconformado e turr&#xE3;o Brando. Em O Selvagem (1953), de Laslo Benedeck, ele interpretava John Strabler, l&#xED;der de uma gangue de motociclistas chamada Black Rebel Motorcycle Club, que percorria a Am&#xE9;rica em busca de divers&#xE3;o em todos os sentidos do termo &#x2013; de festas e garotas a brigas e arrua&#xE7;as. A goma de mascar, claro, era a sua companhia constante. Em Sindicato de Ladr&#xF5;es (1954), de Elia Kazan, ele fez o papel de Terry Malloy, um ex-boxeador que era usado, sem saber, para atrair &#xE0; morte um jovem trabalhador do cais do porto que ousou desafiar o chef&#xE3;o do sindicato. S&#xF3; que ele se apaixona pela irm&#xE3; da v&#xED;tima.</p> <p> (O pesquisador) Miguel Angel Schmitt Rodriguez lembrou que o ator fazia um bobo desmoralizado, tido como um &#x201C;vadio&#x201D; pelos criminosos que o conheciam. &#x201C;Pensamos que a caracter&#xED;stica de Terry como pessoa de cora&#xE7;&#xE3;o puro, e que tem a miss&#xE3;o de conquistar e resolver os problemas de Edie, n&#xE3;o combinava com cigarros. Parece que para substituir esse acess&#xF3;rio o diretor preferiu outra marca que o distinguisse dos demais: o h&#xE1;bito de mascar chicletes.&#x201D; Numa das cenas do filme, quando &#xE9; encontrado por agentes, Terry conversa normalmente com eles, mas mant&#xE9;m uma postura de pouco caso, &#x201C;mascando chiclete e olhando para os lados, como se n&#xE3;o desse a m&#xED;nima para os policiais&#x201D;, escreveu (o cr&#xED;tico) Antonio Junior. (...)</p> <p> Foi um Brando mais maduro que interpretou uma das cenas mais famosas do cinema ligadas &#xE0; goma de mascar. Em O &#xDA;ltimo Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, ele faz um norte-americano de 45 anos que mora na capital francesa e vive atormentado pelo suic&#xED;dio de sua esposa. At&#xE9; que conhece uma beldade parisiense de 20 anos (interpretada por Maria Schneider), noiva de um jovem cineasta, e parte, com ela, para satisfazer seus desejos sexuais em um apartamento vazio, dispon&#xED;vel para alugar. Ao final, depois de ser baleado pela ex-amante, seu personagem caminha lentamente at&#xE9; o balc&#xE3;o do quarto e, antes de morrer em posi&#xE7;&#xE3;o fetal, tira o chiclete da boca, grudando-o na grade &#xE0; sua frente.</p> <p> <strong>Sabor Torta de Amora</strong></p> <p> Na mesma &#xE9;poca do filme de Bertolucci, a goma de mascar ganhou vida e apareceu num assustador cl&#xE1;ssico dos contos de fadas contempor&#xE2;neo, o filme A Fant&#xE1;stica F&#xE1;brica de Chocolate, do diretor Mel Stuart (1971), baseado na obra do escritor ingl&#xEA;s Roald Dahl. Charlie &#xE9; um garoto que vive com seus pais e av&#xF3;s numa pequena casa na Inglaterra, e tem o sonho de encontrar um bilhete premiado que lhe permita visitar a maior f&#xE1;brica de chocolates do mundo, pertencente ao exc&#xEA;ntrico e lun&#xE1;tico Willy Wonka. (...). O garoto acaba sendo o &#xFA;ltimo de cinco crian&#xE7;as a conseguir o bilhete, que veio na barra de chocolate que ganhou dos av&#xF3;s como presente de anivers&#xE1;rio.</p> <p> Charlie, al&#xE9;m de pobre, era bonzinho, enquanto os outros, ricos e mimados, n&#xE3;o tinham limites para conseguir o que desejavam. N&#xE3;o respeitavam os pais e eram mal-educados. Um dos premiados era um menino muito guloso. Outra, uma garota riqu&#xED;ssima e ego&#xED;sta. O terceiro era viciado em televis&#xE3;o e a quarta, uma menina apaixonada por chiclete. Durante o passeio, cujo in&#xED;cio foi transmitido pela TV para todo o planeta, Wonka deu uma li&#xE7;&#xE3;o em todas aquelas crian&#xE7;as insuport&#xE1;veis &#x2013; menos no pobre e bom Charlie, claro. O primeiro a ser castigado foi o guloso Augustus Gloop, que, desobediente, ao cair num rio de chocolate, foi sugado por um cano que levava o doce para o resto da f&#xE1;brica.</p> <p> A pr&#xF3;xima v&#xED;tima seria Violet Beauregarde, a mocinha louca por chiclete. Wonka levou seus convidados para a sala das &#xFA;ltimas inven&#xE7;&#xF5;es, onde mostrou um chiclete que valia por tr&#xEA;s refei&#xE7;&#xF5;es. Violet, descontrolada, pegou um e come&#xE7;ou a mascar, sem dar aten&#xE7;&#xE3;o ao aviso do anfitri&#xE3;o de que a inven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o estava conclu&#xED;da. Depois de provar a entrada e o prato principal, Violet se maravilhou com o chiclete sabor torta de amora, que deveria ser a sobremesa. De repente, no entanto, a menina come&#xE7;ou a ficar azul e inchar, at&#xE9; que... virou uma amora! Os pequenos duendes Woompa Loompas (que trabalhavam na f&#xE1;brica) apareceram e cantaram uma m&#xFA;sica cuja mensagem era: mascar chiclete o dia inteiro pode ser prejudicial &#xE0; sa&#xFA;de.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Ora, Bolas! &#x2013; A Inusitada Hist&#xF3;ria do Chiclete no Brasil</em>, de Gon&#xE7;alo Junior. Alameda, 192 p&#xE1;gs., R$ 42.</p> </div> <p> &#xA0;</p> Marlon Brando e James Dean se imortalizaram no cinema com personagens que não dispensavam a goma de mascar. Símbolode rebeldia, o produto é tema de “Ora, Bolas!”, livro-reportagem de Gonçalo Junior. Leia aqui um trecho da obra 2012-05-14T12:16:10-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 177 - Maio 2012 Marlon Brando e James Dean se imortalizaram no cinema com personagens que não dispensavam a goma de mascar. Símbolode rebeldia, o produto é tema de “Ora, Bolas!”, livro-reportagem de Gonçalo Junior. Leia aqui um trecho da obra Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/prosa-dalem-mar Prosa d'além mar 2012-05-08T18:27:47-03:00 Redação <p> Uma nova leva de ficcionistas portugueses atravessou o Atl&#xE2;ntico para aportar no mercado editorial brasileiro. Entre os autores, todos na faixa dos 40 anos, est&#xE3;o nomes como Gon&#xE7;alo M. Tavares (que arrancou elogios de Jos&#xE9; Saramago), Valter Hugo M&#xE3;e (sensa&#xE7;&#xE3;o na Flip de 2011) e Jos&#xE9; Lu&#xED;s Peixoto<em> (foto)</em>.</p> <p> Veja abaixo um v&#xED;deo em que Peixoto l&#xEA; um trecho de seu mais recente romance, <em>Livro</em>, sobre um casal que teve de se separar durante o regime salazarista.</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="349" width="620"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=41591334&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=00adef&amp;fullscreen=1&amp;autoplay=0&amp;loop=0"/><embed allowscriptaccess="always" height="349" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=41591334&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=00adef&amp;fullscreen=1&amp;autoplay=0&amp;loop=0" type="application/x-shockwave-flash" width="620"/></object></p> O escritor português José Luis Peixoto lê um trecho de <em>Livro</em>, seu novo romance, para as câmeras de <strong>BRAVO!</strong>. Assista ao vídeo 2012-05-08T12:49:59-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Só no Site O escritor português José Luis Peixoto lê um trecho de Livro, seu novo romance, para as câmeras de BRAVO!. Assista ao vídeo Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/o-que-groucho-marx-tem-a-ver-com-faroeste O que Groucho Marx tem a ver com Faroeste? 2012-04-30T12:19:29-03:00 Antônio Xerxenesky <p> Entre os escritores norte-americanos contempor&#xE2;neos que, de acordo com o cr&#xED;tico nova-iorquino Harold Bloom, se tornar&#xE3;o cl&#xE1;ssicos, tr&#xEA;s s&#xE3;o vastamente conhecidos e lidos. Philip Roth &#xE9; o primeiro da lista, apesar dos trechos pornogr&#xE1;ficos de livros como <em>O Complexo de Portnoy</em> e<em> O Animal Agonizante</em>. Em seguida v&#xEA;m Don DeLillo, autor de <em>Ru&#xED;do Branco e de Submundo</em>, adorado por pesquisadores da cultura de massa, e Cormac McCarthy, que passou a receber muita aten&#xE7;&#xE3;o da m&#xED;dia gra&#xE7;as &#xE0;s adapta&#xE7;&#xF5;es cinematogr&#xE1;ficas de suas obras, como o filme <em>Onde os Fracos N&#xE3;o T&#xEA;m Vez</em>, dos irm&#xE3;os Coen.</p> <p> J&#xE1; Thomas Pynchon, apesar de tamb&#xE9;m integrar a lista de Bloom, de contar com um consider&#xE1;vel n&#xFA;mero de seguidores e de, dizem, ser cotado para o Nobel, &#xE9; menos popular que os demais. Primeiro por sua pr&#xF3;pria persona, qualificada de &#x201C;misteriosa&#x201D; e &#x201C;enigm&#xE1;tica&#x201D;. Famoso pela reclus&#xE3;o, Pynchon n&#xE3;o concede entrevistas, e suas &#xFA;nicas fotos p&#xFA;blicas, antigas, podem muito bem ser falsas. Sua prosa n&#xE3;o se caracteriza pela flu&#xEA;ncia, muito pelo contr&#xE1;rio: adjetivos como &#x201C;herm&#xE9;tica&#x201D;, &#x201C;complexa&#x201D; e &#x201C;verborr&#xE1;gica&#x201D; s&#xE3;o frequentemente associados a ela.</p> <p> H&#xE1;, sim, alguns livros leves na produ&#xE7;&#xE3;o de Pynchon. &#xC9; o caso de <em>V.</em>, seu primeiro romance (1963), de <em>Vineland</em> (1990) e de<em> V&#xED;cio Inerente</em>, seu trabalho mais recente, de 2009. Os tr&#xEA;s s&#xE3;o mais curtos e menos experimentais que seus outros t&#xED;tulos &#x2013; possuem protagonistas claros e um enredo f&#xE1;cil de acompanhar, afundado na contracultura norte-americana. Mas o maior valor de Pynchon est&#xE1; em sua outra vertente: a dos romances ambiciosos e enormes, de 500 a mais de mil p&#xE1;ginas, com centenas de personagens e diversas tramas paralelas. O tresloucado <em>O Arco-&#xCD;ris da Gravidade</em>, publicado em 1973 e considerado a obra-prima do autor, encaixa-se nesse universo. Assim como<em> Mason &amp; Dixon,</em> que se vale de um ingl&#xEA;s arcaico, corajosamente vertido para o portugu&#xEA;s pelo tradutor Paulo Henriques Britto.</p> <p> Com 1.088 p&#xE1;ginas em sua vers&#xE3;o brasileira, quatro tramas centrais e temas que v&#xE3;o da espionagem &#xE0; matem&#xE1;tica, passando pelo faroeste, Contra o Dia, que chega &#xE0;s livrarias neste m&#xEA;s, &#xE9; o &#xE1;pice do escritor. O romance re&#xFA;ne todas as caracter&#xED;sticas (elevadas &#xE0; d&#xE9;cima pot&#xEA;ncia) de um livro pynchoniano &#x2013; a ponto de Michiko Kakutani, premiada cr&#xED;tica liter&#xE1;ria do jornal The New York Times, insinuar que<em> Contra o Dia</em> parece ter sido escrito por um f&#xE3; do autor, respons&#xE1;vel por juntar todas as suas particularidades em um &#xFA;nico volume.</p> <p> <strong>Pop e Ci&#xEA;ncia</strong></p> <p> Das caracter&#xED;sticas t&#xE3;o definidoras da prosa de Pynchon h&#xE1;, em primeiro lugar, aquilo que o te&#xF3;rico norte-americano Fredric Jameson declarou ser a marca registrada do p&#xF3;s-modernismo: a mescla entre alta e baixa cultura. Na trama de Contra o Dia, um dos principais n&#xFA;cleos narrativos &#xE9; a rivalidade entre duas fam&#xED;lias. No encal&#xE7;o do chef&#xE3;o Scarsdale Vibe, respons&#xE1;vel pelo assassinato do patriarca Webb Traverse, surgem balonistas de uma turma chamada Amigos do Acaso, detetives com poderes paranormais, cientistas, m&#xFA;sicos e algumas celebridades, como o ator h&#xFA;ngaro B&#xE9;la Lugosi, que em 1931 viveu o conde Dr&#xE1;cula no filme de Tod Browning, e o comediante norte-americano Groucho Marx.</p> <p> A cultura pop est&#xE1; espalhada pela obra, por vezes de forma anacr&#xF4;nica, como no personagem P&#xE1;djitnov, obcecado por arremessar blocos compostos de fragmentos de quatro tijolos. Ele remete ao russo Alexey Pajitnov, um dos criadores do popular jogo Tetris, surgido nos anos 80, d&#xE9;cadas depois da &#xE9;poca em que se passa o romance, entre o final do s&#xE9;culo 19 e a Primeira Guerra Mundial.</p> <p> O nascimento do jazz (&#x201C;uma organiza&#xE7;&#xE3;o anarquista&#x201D;) e digress&#xF5;es sobre a luz e as descobertas cient&#xED;ficas ligadas &#xE0; eletricidade s&#xE3;o contemplados nos momentos mais eruditos do romance. Ainda assim, mesmo quando trata de um assunto s&#xE9;rio, como as mudan&#xE7;as sociais trazidas pelos avan&#xE7;os tecnol&#xF3;gicos, Pynchon emprega uma prosa carregada de di&#xE1;logos coloquiais e c&#xF4;micos, alguns deles cheios de g&#xED;rias.</p> <p> PERSONAGENS DE PAPEL&#xC3;O</p> <p> A artificialidade, outra grande marca pynchoniana, transparece nos personagens caricatos, dignos de um desenho animado, que conduzem as a&#xE7;&#xF5;es. O cr&#xED;tico ingl&#xEA;s James Wood, um dos poucos detratores do escritor, apontou, em <em>Como Funciona a Fic&#xE7;&#xE3;o</em>, que os vil&#xF5;es de Pynchon (como o capit&#xE3;o nazista Blicero, em <em>O Arco-&#xCD;ris da Gravidade</em>, e Scarsdale Vibe, de <em>Contra o Dia</em>) n&#xE3;o assustam por n&#xE3;o serem suficientemente cr&#xED;veis e bem desenvolvidos. Wood, que apelida o estilo de Pynchon de &#x201C;realismo hist&#xE9;rico&#x201D;, critica no romancista norte-americano &#x201C;seu gosto vaudevilliano por nomes bobos, piadinhas, reveses, disfarces, erros farsescos&#x201D; &#x2013; os personagens n&#xE3;o passariam de criaturas de papel&#xE3;o no universo picaresco do autor.</p> <p> &#x201C;Picaresca&#x201D; parece uma palavra adequada para resumir as mirabolantes narrativas de Pynchon &#x2013; mas &#xE9; um tanto reducionista. Em vez de costurar as aventuras de personagens espertinhos, o autor realiza uma esp&#xE9;cie de assimila&#xE7;&#xE3;o tresloucada de diversos g&#xEA;neros liter&#xE1;rios. Em V&#xED;cio Inerente, ele trabalha com o policial; em Mason &amp; Dixon, com o romance hist&#xF3;rico. J&#xE1; em Contra o Dia, h&#xE1; uma altern&#xE2;ncia brutal: um cap&#xED;tulo &#xE9; um faroeste, o seguinte, uma aventura a&#xE9;rea, o outro, uma fic&#xE7;&#xE3;o t&#xE3;o embebida de discuss&#xF5;es cient&#xED;ficas que parece mais um ensaio. E assim o escritor vai enfileirando refer&#xEA;ncias, cita&#xE7;&#xF5;es obscuras, descri&#xE7;&#xF5;es de eventos esquecidos e piadas que oscilam entre o incompreens&#xED;vel e o pastel&#xE3;o, entre o refinado e o pop.</p> <p> <strong>WIKIPYNCHON</strong></p> <p> Por seus excessos, os livros de Pynchon podem ser um teste de paci&#xEA;ncia: parece imposs&#xED;vel n&#xE3;o sentir que, em diversos momentos, trechos inteiros podiam ser cortados e que algumas descri&#xE7;&#xF5;es soam repetitivas. Trata-se de uma rea&#xE7;&#xE3;o comum, mas n&#xE3;o d&#xE1; para considerar a obra do autor sem levar em conta que a desmedida &#xE9; uma caracter&#xED;stica essencial de sua prosa. Estamos diante de um escritor enciclop&#xE9;dico que jogar&#xE1; em nossa cara, sem filtros, as toneladas de informa&#xE7;&#xE3;o que carrega. Isso gera cansa&#xE7;o, at&#xE9; exaust&#xE3;o, e nem sempre o humor do norte-americano salva.</p> <p> O livro demanda dedica&#xE7;&#xE3;o quase exclusiva de quem sente necessidade de ir fundo na leitura, buscando a origem e os significados de cada refer&#xEA;ncia &#x2013; pode ser proveitoso ter um caderninho de apoio. F&#xE3;s experientes criaram um gigantesco banco de dados em forma de Wikip&#xE9;dia, uma &#x201C;wikipynchon&#x201D; que serve de guia para as obras: http://pynchonwiki.com.<em> Contra o Dia</em>, publicado em ingl&#xEA;s em 2006, est&#xE1; l&#xE1;. Aventureiros pacientes e leitores interessados por uma prosa desvairadamente experimental ser&#xE3;o recompensados com momentos sublimes e po&#xE9;ticos, que emergem nas situa&#xE7;&#xF5;es mais inesperadas.</p> <p> T&#xE3;o f&#xE1;cil quanto temer Pynchon &#xE9; se tornar obcecado por ele. A lenda conta que o autor s&#xF3; interage com tradutores e editores atrav&#xE9;s do obsoleto sistema de fax. Sua agente &#xE9; a respons&#xE1;vel por todos os detalhes das publica&#xE7;&#xF5;es. Como n&#xE3;o se interessar por um escritor t&#xE3;o misterioso e irreverente a ponto de suas &#xFA;nicas apari&#xE7;&#xF5;es na m&#xED;dia nos &#xFA;ltimos anos terem sido em um epis&#xF3;dio do desenho <em>Os Simpsons</em> (com um saco de papel na cabe&#xE7;a), como narrador de um v&#xED;deo de divulga&#xE7;&#xE3;o de V&#xED;cio Inerente, e escrevendo um texto no site da Amazon sobre o seu <em>Contra o Dia</em>?</p> <p> Figura fantasma nos meios de comunica&#xE7;&#xE3;o e aus&#xEA;ncia confirmada na cena liter&#xE1;ria, Pynchon n&#xE3;o oferece respostas e interpreta&#xE7;&#xF5;es. Tudo que temos s&#xE3;o as obras dessa criatura megaloman&#xED;aca e pretensiosa, que construiu um universo pr&#xF3;prio com as palavras. Na defini&#xE7;&#xE3;o do pr&#xF3;prio autor, se<em> Contra o Dia</em> &#x201C;n&#xE3;o &#xE9; igual ao nosso mundo, &#xE9; como ele seria depois de um pequeno ajuste ou dois&#x201D;.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Ant&#xF4;nio Xerxenesky</strong> &#xE9; escritor, autor de A P&#xE1;gina Assombrada por Fantasmas (Rocco).</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Contra o Dia</em>, de Thomas Pynchon. Tradu&#xE7;&#xE3;o de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 1.088 p&#xE1;gs., R$ 98.</p> </div> O romance “Contra o Dia”, de Thomas Pynchon, é o exemplo máximo da prosa descontrolada do misterioso autor, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea 2012-04-30T12:19:29-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 176 - Abril 2012 O romance “Contra o Dia”, de Thomas Pynchon, é o exemplo máximo da prosa descontrolada do misterioso autor, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/angustia-da-influencia Angústia da Influência 2012-04-20T18:35:51-03:00 Noemi Jaffe <p> O Cristo de Elqui, personagem criado e encarnado pelo andarilho Domingo Z&#xE1;te Vega, circulava pelo Vale de Elqui, no norte do Chile, durante as primeiras d&#xE9;cadas do s&#xE9;culo 20, pregando um evangelho ap&#xF3;crifo, apresentando-se como reencarna&#xE7;&#xE3;o de Jesus e oferecendo prote&#xE7;&#xE3;o aos trabalhadores explorados. Com essa base hist&#xF3;rica, Hern&#xE1;n Rivera Letelier escreveu <em>A Arte da Ressurrei&#xE7;&#xE3;o</em>, romance protagonizado justamente pelo Cristo de Elqui, ganhador na Espanha do Pr&#xEA;mio Alfaguara de 2010.</p> <p> A habilidade estrutural do livro o inscreve sem dificuldade na tradi&#xE7;&#xE3;o da narrativa fant&#xE1;stica latino-americana. O trabalho segue a linhagem de autores como o colombiano Gabriel Garcia M&#xE1;rquez e o peruano Mario Vargas Llosa, pelas entradas inesperadas do maravilhoso e do sensual em meio &#xE0; hist&#xF3;ria real e pela ast&#xFA;cia de uma trama que mant&#xE9;m o leitor em permanente estado de curiosidade. Duas principais marcas, por&#xE9;m, diferenciam esse romance da tradi&#xE7;&#xE3;o que ele representa: as mudan&#xE7;as s&#xFA;bitas de foco narrativo e a a&#xE7;&#xE3;o intercalada, em que os cap&#xED;tulos n&#xE3;o obedecem a uma sequ&#xEA;ncia, mas v&#xE3;o e voltam no tempo e no espa&#xE7;o.</p> <p> No entanto, nem essas duas caracter&#xED;sticas impedir&#xE3;o que &#x201C;ang&#xFA;stia da influ&#xEA;ncia&#x201D;, de que fala o cr&#xED;tico norte-americano Harold Bloom, se abata impiedosamente sobre Letelier. A sensa&#xE7;&#xE3;o inevit&#xE1;vel do leitor &#xE9; que, mesmo reconhecendo a compet&#xEA;ncia narrativa do autor, essa hist&#xF3;ria j&#xE1; foi lida. Em meio &#xE0;s peregrina&#xE7;&#xF5;es, &#xE0;s adversidades e aos del&#xED;rios do Cristo de Elqui, est&#xE3;o personagens j&#xE1; conhecidos como a prostituta beata e generosa, o louco cuja miss&#xE3;o &#xE9; varrer o deserto, os b&#xEA;bados infi&#xE9;is, os exploradores cru&#xE9;is e finalmente o Cristo reencarnado, que justifica religiosamente o desejo sexual.</p> <p> <strong>Prostituta Magalena</strong></p> <p> O Cristo de Elqui &#xE9; um personagem bem constitu&#xED;do e interessante sob muitos aspectos, sobretudo porque realmente existiu. O romance abre novas portas com o encontro do protagonista com uma prostituta beata, de nome Magalena, em busca de quem o pregador parte como se ela fosse a b&#xED;blica Madalena que o transformaria no novo filho de Deus. Cria-se uma hist&#xF3;ria dentro da hist&#xF3;ria, que acompanha dezenas de outras, que v&#xE3;o surgindo ao longo da narrativa entrecortada.</p> <p> As mudan&#xE7;as repentinas e h&#xE1;beis de foco narrativo tamb&#xE9;m fazem com que n&#xE3;o se saiba, muitas vezes, se o eu &#xE9; individual, coletivo ou hist&#xF3;rico, mudando, em fun&#xE7;&#xE3;o disso, o recorte do romance e da leitura. Mas nenhum desses recursos torna o livro capaz de fazer o melhor que a literatura pode criar, que &#xE9; dizer o j&#xE1; conhecido de forma nova e desconhecida.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Noemi Jaffe</strong> &#xE9; escritora, autora de Quando Nada Est&#xE1; Acontecendo, entre outros livros. &#xC9; tamb&#xE9;m cr&#xED;tica liter&#xE1;ria e professora da Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica de S&#xE3;o Paulo.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>A Arte da Ressurrei&#xE7;&#xE3;o</em>, de Hern&#xE1;n Rivera Letelier. Tradu&#xE7;&#xE3;o de Bernardo Ajzenberg. Editora Alfaguara, 216 p&#xE1;gs., R$ 39,90.</p> </div> No premiado <em>A Arte da Ressurreição</em>, o chileno Hernán Rivera Letelier filia-se à escola da narrativa fantástica, mas não se liberta do peso dessa tradição 2012-04-20T15:13:04-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 176 - Abril 2012 No premiado A Arte da Ressurreição, o chileno Hernán Rivera Letelier filia-se à escola da narrativa fantástica, mas não se liberta do peso dessa tradição Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/a-internet-abastarda-a-literatura ''A Internet abastarda a literatura" 2012-03-28T16:16:58-03:00 Sérgio Rodrigues <p> Mill&#xF4;r Fernandes, o grande fil&#xF3;sofo brasileiro (a defini&#xE7;&#xE3;o &#xE9; do jornalista S&#xE9;rgio Augusto), vai completar 85 anos no dia 27 de maio de 2009. Esta &#xE9; a vers&#xE3;o oficial. Na verdade, nascido no sub&#xFA;rbio carioca do M&#xE9;ier em 16 de agosto de 1923, Milton Viola Fernandes j&#xE1; passou dessa idade. Foi registrado com quase um ano de atraso pelo pai, o engenheiro espanhol Francisco Fernandes, e sua certid&#xE3;o de nascimento merece respeito. &#xC9; o mesmo documento que, numa bem-vinda combina&#xE7;&#xE3;o entre a caligrafia torta do escriv&#xE3;o e uma decis&#xE3;o tomada por ele mesmo no fim da adolesc&#xEA;ncia, transformou Milton em Mill&#xF4;r.</p> <p> Qualquer que seja a idade, o ano que vem ser&#xE1; de festa. N&#xE3;o para o pr&#xF3;prio Mill&#xF4;r, que continua trabalhando todo dia em seu est&#xFA;dio numa cobertura do bairro de Ipanema, perto da praia, onde cria suas colunas para a revista Veja. Foi na milit&#xE2;ncia di&#xE1;ria do profissionalismo que, &#xF3;rf&#xE3;o muito cedo de pai e m&#xE3;e, esse autodidata radical construiu desde o in&#xED;cio dos anos 40 &#x2014; "h&#xE1; 250 anos", como ele diz &#x2014; sua obra fabulosa de escritor, humorista, desenhista, artista pl&#xE1;stico, dramaturgo, tradutor e mais um n&#xFA;mero indefinido de t&#xED;tulos menos vistosos, entre eles o de inventor do frescobol. N&#xE3;o adianta lhe pedir que mude a esta altura. Ali&#xE1;s, Mill&#xF4;r se arrepia quando ouve falar de obra: "Obra &#xE9; com o pedreiro".Mas &#xE9; a obra monumental de Mill&#xF4;r Fernandes &#x2014; n&#xE3;o existe outra palavra &#x2014; o centro da festa. H&#xE1; dois anos, a Desiderata, hoje um selo do grupo Ediouro, vem repondo nas prateleiras, em edi&#xE7;&#xF5;es de capricho in&#xE9;dito, t&#xED;tulos que sofriam com a dispers&#xE3;o por diversas casas editoriais. Mill&#xF4;r nunca esteve ausente das livrarias, mas &#xE9; a primeira vez que o mercado lhe concede esse balan&#xE7;o luxuoso de uma vida de intensa produ&#xE7;&#xE3;o intelectual e art&#xED;stica. Nunca &#xE9; tarde para reconhecer um g&#xEA;nio.</p> <p> "No ano que vem, teremos tr&#xEA;s lan&#xE7;amentos, desta vez todos in&#xE9;ditos em livro", diz Gabriela Javier, editora da Desiderata. O primeiro t&#xED;tulo ser&#xE1; Poesia Matem&#xE1;tica, um h&#xED;brido inclassific&#xE1;vel de trocadilhos sofisticados com a linguagem dos n&#xFA;meros e ilustra&#xE7;&#xF5;es singelas de livro infantil. Tamb&#xE9;m est&#xE3;o previstos um novo volume de haicais e uma colet&#xE2;nea de cr&#xF4;nicas publicadas em Veja. A dramaturgia e uma seleta de tradu&#xE7;&#xF5;es teatrais entram na agenda de 2010. Em entrevista exclusiva a <strong>BRAVO!</strong>, Mill&#xF4;r faz um balan&#xE7;o de sua carreira e fala da Ipanema de sua juventude, literatura, humor e pol&#xED;tica. Lula ganha um elogio, mas n&#xE3;o escapa de deitar no div&#xE3;: "&#xC9; o maior ego do mundo".</p> <p> &#xA0;</p> <p> <strong>BRAVO!: Voc&#xEA; pegou todos os presidentes desde Get&#xFA;lio Vargas. Quem sofreu mais com o Mill&#xF4;r? Jos&#xE9; Sarney, que voc&#xEA; destruiu naquela s&#xE9;rie de textos no Jornal do Brasil sobre o romance Brejal dos Guajas (mais tarde reunidos no livro Cr&#xED;tica da Raz&#xE3;o Impura)?</strong></p> <p> Mill&#xF4;r: N&#xE3;o tenho essa consci&#xEA;ncia. A gente vai fazendo... O Sarney n&#xE3;o sofreu como presidente, mas como escritor. Terminei a s&#xE9;rie perguntando: "Afinal de contas, Sir Ney escreveu ou n&#xE3;o escreveu um livro? Escreveu, porque segundo a Unesco livro &#xE9; uma publica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o peri&#xF3;dica de mais de 49 p&#xE1;ginas. E quando Sir Ney chegou, depois de muito esfor&#xE7;o, &#xE0; q&#xFC;inquag&#xE9;sima p&#xE1;gina, fechou a m&#xE1;quina e gritou l&#xE1; para dentro: 'M&#xE3;e, acabei!'".</p> <p> <strong>Voc&#xEA; prometeu se candidatar &#xE0; vaga dele na Academia Brasileira de Letras. Pretende cumprir?</strong></p> <p> Cadeira 38, &#xE9; verdade. Um perigo. Claro que vou ter que cumprir.</p> <p> <strong>Promessas &#xE0; parte, j&#xE1; lhe passou pela cabe&#xE7;a se candidatar &#xE0; Academia? </strong></p> <p> N&#xE3;o &#xE9; que n&#xE3;o me passe pela cabe&#xE7;a: n&#xE3;o passa por nenhuma parte do corpo. Ali&#xE1;s, n&#xE3;o tenho muita admira&#xE7;&#xE3;o por aquela frase do Machado de Assis: "Esta &#xE9; a gl&#xF3;ria que fica, eleva, honra e consola". Bastaria dizer: "Esta &#xE9; a gl&#xF3;ria que fica". Consola? S&#xF3; se for um consolador de borracha.</p> <p> <strong>Voc&#xEA; costuma dar cascudos em Machado. Sua cr&#xF4;nica sobre a suposta rela&#xE7;&#xE3;o homossexual de Bentinho e Escobar em Dom Casmurro &#xE9; famosa. Considera o Bruxo um escritor med&#xED;ocre?</strong></p> <p> A palavra n&#xE3;o &#xE9; "med&#xED;ocre". Desde crian&#xE7;a, nunca fui induzido pelo nome. Diziam: "Voc&#xEA; n&#xE3;o vai gostar do Euclides da Cunha, aquela primeira parte de Os Sert&#xF5;es &#xE9; muito chata". Um dia fui ler e achei sensacional. Guimar&#xE3;es Rosa eu li com certa dificuldade, mas insisti e vi que a dificuldade era minha, n&#xE3;o dele. O Proust eu li em portugu&#xEA;s, franc&#xEA;s, ingl&#xEA;s e espanhol: &#xE9; toda uma dimens&#xE3;o liter&#xE1;ria. Mas o Machado n&#xE3;o me diz nada, como o Joyce, que eu nunca consegui ler. N&#xE3;o acredito em ler com esfor&#xE7;o.</p> <p> <strong>A cultura escrita est&#xE1; perdendo prest&#xED;gio no mundo inteiro. Isso &#xE9; ruim?</strong></p> <p> O volume de escritos est&#xE1; numericamente maior e percentualmente menor. Com a internet, cada um tem seu blog, e, quando h&#xE1; um volume muito grande de gente praticando, tudo se abastarda. Quando se deliberou que n&#xE3;o haveria mais m&#xE9;trica e rima na poesia, toda senhora de 50 anos come&#xE7;ou a fazer poesia. Hoje o marketing &#xE9; violento. Quando o cara consegue explodir, como o Paulo Coelho, est&#xE1; feito: nada faz mais sucesso que o sucesso. Eu s&#xF3; li um livro dele, um com nome &#xE1;rabe [O Zahir]. Outro dia ele disse que n&#xE3;o liga para o que os tradutores fazem com seus livros. P&#xF4;, o tradutor s&#xF3; pode melhorar aquilo! Mas vai melhorar o Guimar&#xE3;es Rosa...</p> <p> <strong>Voc&#xEA; &#xE9; famoso por n&#xE3;o ser saudosista. Existe algo em que o mundo tenha sido melhor do que hoje?</strong></p> <p> Ah, sem d&#xFA;vida: Ipanema nos anos 60. Fui morar l&#xE1; em 1954. Meu edif&#xED;cio foi o primeiro, tive que espantar os &#xED;ndios da praia. N&#xE3;o havia sinal de tr&#xE2;nsito. O Rio era uma aldeia. Antes disso eu morava na avenida Atl&#xE2;ntica, a duas quadras do meu amigo S&#xE9;rgio Porto. &#xC9; impressionante o modo como a gente trabalhava. Eu ficava na praia at&#xE9; as onze. Todo dia tinha mil coisas para fazer, mas &#xE0;s sete da noite estava no bar Vilari&#xF1;o, &#xE0;s nove no Juca's Bar. Como pode? N&#xE3;o sei. Levava para a praia um cestinho com os jornais, ia escrevendo uns neg&#xF3;cios e guardando ali, enquanto a gente conversava. Foi quando inventamos o frescobol.</p> <p> <strong>Como foi essa hist&#xF3;ria?</strong></p> <p> No come&#xE7;o era s&#xF3; peteca e mar, isto &#xE9;, jacar&#xE9;. No Arpoador come&#xE7;avam a chegar as primeiras pranchas, de dez metros. Um dia apareceu uma pessoa com uma caixa, que tinha dentro uma bola e uma raquete pesada. A gente batia e a bola voltava, como um bumerangue. Chamava-se "la pelote basque sans fronton" [pelota basca sem pared&#xE3;o]. A raquete j&#xE1; estava ali, e apareceu algu&#xE9;m com uma bola de t&#xEA;nis. A gente pegava essas bolas e esfregava com querosene, para deix&#xE1;-las carecas. Nunca mais deixei de jogar frescobol. Cheguei a jogar muito bem.</p> <p> <strong>Voc&#xEA; &#xE9; o maior tradutor brasileiro de teatro. J&#xE1; encarou Shakespeare e Tchekov, Moli&#xE8;re e Ibsen, entre muitos outros, mas come&#xE7;ou traduzindo quadrinhos. &#xC9; um autodidata tamb&#xE9;m em l&#xED;nguas estrangeiras?</strong></p> <p> Autodidata &#xE9; um louvor. Sou audacioso e tenho instinto, sensibilidade. E n&#xE3;o tenho medo. Quero que o Shakespea&#xAD;re se dane, para n&#xE3;o dizer coisa pior. Uma vez encontrei o Nelson Rodrigues na cidade e ele disse: "&#xD4; Mill&#xF4;r, &#xE9; verdade que tu melhora o Moli&#xE8;re?". Respondi: "Nelson, sou mais velho que o Moli&#xE8;re. Traduzo com absoluta fidelidade, mas, se ele deixar uma bola na cara do gol, eu chuto".</p> <p> <strong>&#xC9; mais importante para um tradutor dominar seu idioma do que a l&#xED;ngua-fonte?</strong></p> <p> O importante &#xE9; a l&#xED;ngua para a qual se traduz. No teatro, ent&#xE3;o... Um dia o [diretor de teatro] Gianni Rato chegou aqui com A Megera Domada. Eu falei que n&#xE3;o sabia traduzir aquilo. A&#xED; fui pesquisar as tradu&#xE7;&#xF5;es que existiam. Olha, &#xE9; inacredit&#xE1;vel: o pessoal cortava trechos, dizia uma coisa pela outra, e humor ningu&#xE9;m sabia. Fiz uma Megera Domada melhor e aprendi o valor do trocadilho. Dizem que o trocadilho &#xE9; a mais baixa forma de humor, mas, se voc&#xEA; tirar o trocadilho de Shakespeare, ele desaparece. O Agrippino Grieco escreveu: "Menotti del Picchia, fecha a braguilha do teu nome!". Isso &#xE9; &#xF3;timo! N&#xE3;o d&#xE1; para dizer de outra forma.</p> <p> <strong>Quais humoristas brasileiros voc&#xEA; admirava quando come&#xE7;ou? Era f&#xE3; do Bar&#xE3;o de Itarar&#xE9;?</strong></p> <p> N&#xE3;o era e fui ficando cada vez menos. Ele tem meia d&#xFA;zia de coisas, o marketing do Rio Grande do Sul e aquela bobeira fundamental: voc&#xEA; diz que uma coisa &#xE9; boa e as pessoas acreditam. Em S&#xE3;o Paulo, houve um humorista popular muito bom, o Ju&#xF3; Bananere, que ningu&#xE9;m conhece.</p> <p> <strong>Quem faz o Mill&#xF4;r rir no humor brasileiro de hoje?</strong></p> <p> Hoje est&#xE1; tudo espalhado, existe muita gente boa por a&#xED; que eu n&#xE3;o conhe&#xE7;o. Mas dos meus colegas tem o Jaguar, o Chico e o Paulo Caruso, os paulistas como o Laerte e o Angeli, muita gente. Escrevendo &#xE9; que eu vejo poucos al&#xE9;m do Verissimo, que est&#xE1; consagrado.</p> <p> <strong>Voc&#xEA; conviveu com Nelson Rodrigues. Concorda que ele &#xE9; o maior dramaturgo brasileiro?</strong></p> <p> Ningu&#xE9;m vai desfazer esse mito, mas &#xE9; um mito com fundamento. O Nelson tem humor. Com meia d&#xFA;zia de frases, liquida o Bar&#xE3;o de Itarar&#xE9;: "Eu n&#xE3;o sou machista, machista &#xE9; a natureza".</p> <p> <strong>Qual &#xE9; a melhor pe&#xE7;a de teatro do Mill&#xF4;r?</strong></p> <p> Fl&#xE1;via, Cabe&#xE7;a, Tronco e Membros. Foi encenada uma vez s&#xF3;, com dire&#xE7;&#xE3;o do [Luiz Carlos] Maciel. Um dia fui ver um ensaio e nunca mais apareci, nem na estr&#xE9;ia. N&#xE3;o entenderam nada. Acho excelente, mas morreu. Foi a &#xFA;nica pe&#xE7;a que n&#xE3;o escrevi de encomenda. Minha voca&#xE7;&#xE3;o &#xE9; essa. N&#xE3;o trabalho por dinheiro, mas sem dinheiro eu n&#xE3;o trabalho.</p> <p> <strong>&#xC9; por isso que voc&#xEA; nunca escreveu um romance? Porque nunca pediram?</strong></p> <p> At&#xE9; pediram, mas n&#xE3;o sei... A Luciana Villas-B&#xF4;as, editora da Record, foi uma que pediu. Como a minha autobiografia. Eu acho que seria uma biografia precoce. Mas j&#xE1; tenho um t&#xED;tulo, para o caso de um dia escrever: Ecmn&#xE9;sia. &#xC9; aquele passado edulcorado. Tudo parece bonito no passado, mas volta l&#xE1; para voc&#xEA; ver.</p> <p> <strong>&#xC9; mais dif&#xED;cil fazer humor com o governo Lula do que com a ditadura militar?</strong></p> <p> O problema &#xE9; insistir em coisas ultrapassadas. O Lula ocupou seu espa&#xE7;o. Acho que o Fernando Henrique &#xE9; intelectualmente pior, mas no come&#xE7;o pensei que o Lula fosse pedir aux&#xED;lio a ele para as liga&#xE7;&#xF5;es internacionais. E hoje ele &#xE9; um embaixador do Brasil como n&#xE3;o existe igual. Descobriu que, com o tradutor autom&#xE1;tico, pode falar as maiores besteiras porque v&#xE3;o corrigir. O Freud ficaria besta com o Lula: &#xE9; o ego maior do mundo.</p> <p> <strong>Voc&#xEA; ficou feliz com a elei&#xE7;&#xE3;o de Barack Obama?</strong></p> <p> "Feliz" n&#xE3;o &#xE9; a palavra, n&#xE3;o &#xE9; algo pessoal. Queira ou n&#xE3;o, ele &#xE9; parte da hist&#xF3;ria. O mundo mudou. E eu j&#xE1; tenho todo o direito de fazer a brincadeira do racismo ao contr&#xE1;rio. De agora em diante vou botar em todo lugar: White is beautiful. Ali&#xE1;s, black is beautiful &#xE9; um belo slogan. Isso &#xE9; que &#xE9; linguagem: n&#xE3;o se pode tirar nenhuma palavra. Gosto de uma frase minha: "Livre como um t&#xE1;xi". N&#xE3;o d&#xE1; para tirar nenhuma palavra, e n&#xE3;o h&#xE1; nada menos livre que um t&#xE1;xi...</p> <p> <strong>Daqui a 200 anos, quando se mencionar o nome do Mill&#xF4;r, em que parte da sua obra v&#xE3;o pensar primeiro?</strong></p> <p> N&#xE3;o acredito em obra, mas depois de 250 anos escrevendo, com aquele neg&#xF3;cio de fazer uma frase hoje e outra amanh&#xE3;, tenho muita coisa, muito pensamento espalhado por a&#xED;. "Como s&#xE3;o admir&#xE1;veis as pessoas que n&#xE3;o conhecemos muito bem", por exemplo. &#xC9; evidente que algumas dessas frases persistir&#xE3;o.</p> Em 2008, numa conversa com <strong>BRAVO!</strong>, Millôr Fernandes negou ter uma obra - "é coisa de pedreiro" - e lamentou o fato de a tecnologia franquear a escrita à gente sem talento. O tradutor, escritor, desenhista e humorista carioca morreu ontem, aos 87 anos, de falência múltipla dos órgãos. Leia, a seguir, a entrevista 2012-03-28T15:14:36-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Em 2008, numa conversa com BRAVO!, Millôr Fernandes negou ter uma obra - "é coisa de pedreiro" - e lamentou o fato de a tecnologia franquear a escrita à gente sem talento. O tradutor, escritor, desenhista e humorista carioca morreu ontem, aos 87 anos, de falência múltipla dos órgãos. Leia, a seguir, a entrevista Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/a-revolucao-que-deixamos-escapar A Revolução que Deixamos Escapar 2012-03-27T15:46:11-03:00 <p> Nasci na Inglaterra, em 1948, tarde o suficiente para me livrar do servi&#xE7;o militar obrigat&#xF3;rio, encerrado anos antes, mas a tempo de conhecer os Beatles: tinha 14 anos quando eles lan&#xE7;aram <em>Love Me Do</em>. Tr&#xEA;s anos depois apareceram as primeiras minissaias: eu j&#xE1; era velho o bastante para apreciar suas virtudes e jovem o bastante para tirar proveito delas. Cresci numa era de prosperidade, seguran&#xE7;a e conforto &#x2014; e, portanto, ao completar 20 anos, em 1968, me rebelei. Como tantos jovens do <em>baby boom</em>, eu me conformei com o meu n&#xE3;o conformismo.</p> <p> Sem d&#xFA;vida, os anos 60 foram uma bela &#xE9;poca para ser jovem. Tudo parecia estar mudando num ritmo sem precedentes, e t&#xED;nhamos a impress&#xE3;o de que o mundo pertencia aos jovens (uma observa&#xE7;&#xE3;o estatisticamente comprov&#xE1;vel). Por outro lado, ao menos na Inglaterra, a transforma&#xE7;&#xE3;o podia ser enganosa. Como estudantes, nos op&#xFA;nhamos ruidosamente ao apoio do governo trabalhista &#xE0; guerra do Vietn&#xE3; de Lyndon Johnson [<em>presidente norte-americano</em>]. Lembro-me de pelo menos um protesto do tipo em Cambridge, ap&#xF3;s um discurso de Denis Healey na cidade, na &#xE9;poca ministro da Defesa. Perseguimos o carro dele at&#xE9; a sa&#xED;da da cidade &#x2014; uma amiga minha, hoje casada com o alto representante da Uni&#xE3;o Europeia para a pol&#xED;tica externa, subiu no cap&#xF4; e esmurrou o para-brisa, furiosa.</p> <p> S&#xF3; depois que Healey foi embora nos demos conta de como j&#xE1; era tarde &#x2014; o jantar na faculdade come&#xE7;aria a ser servido em poucos minutos, e n&#xE3;o quer&#xED;amos perd&#xEA;-lo. Ao voltar para o centro, quando reparei, caminhava a passos largos ao lado de um policial fardado designado para monitorar a multid&#xE3;o. Trocamos olhares. &#x201C;Acha que a manifesta&#xE7;&#xE3;o foi boa?&#x201D; Ele respondeu sem hesitar nem estranhar a quest&#xE3;o: &#x201C;Creio que foi tudo muito bem, senhor&#x201D;.</p> <p> Cambridge, sem d&#xFA;vida, ainda n&#xE3;o estava pronta para a revolu&#xE7;&#xE3;o. Nem Londres: na famosa manifesta&#xE7;&#xE3;o em Grosvenor Square, na frente da embaixada dos Estados Unidos (mais uma vez, por causa do Vietn&#xE3; &#x2014; como a maioria dos meus contempor&#xE2;neos, eu me mobilizava com mais disposi&#xE7;&#xE3;o contra injusti&#xE7;as cometidas a milhares de quil&#xF4;metros dali), espremido entre um entediado cavalo da pol&#xED;cia e a cerca da pra&#xE7;a, senti uma sensa&#xE7;&#xE3;o quente e &#xFA;mida na perna. Incontin&#xEA;ncia? Ferimento sangrando? N&#xE3;o dei sorte. A bomba de tinta vermelha que eu pretendia jogar na dire&#xE7;&#xE3;o da embaixada estourara no meu bolso.</p> <p> Naquela mesma noite, fui jantar com minha futura sogra, uma senhora alem&#xE3; de modos impecavelmente conservadores. Duvido que sua vis&#xE3;o c&#xE9;tica a meu respeito tenha mudado quando bati na casa dela coberto com uma subst&#xE2;ncia vermelha pegajosa da cintura para baixo &#x2014; ela j&#xE1; estava assustada por ter descoberto que a filha estava namorando um daqueles esquerdistas cabeludos que cantavam &#x201C;Ho, Ho, Ho Chi Minh&#x201D;, os quais vira na televis&#xE3;o, com algum desgosto, naquela tarde. Claro, eu teria preferido que fosse sangue, e n&#xE3;o tinta. Para chocar a burguesia.</p> <p> <strong>PSICODRAMA</strong></p> <p> Com o intuito de viver a revolu&#xE7;&#xE3;o de verdade, &#xED;amos a Paris, claro. Como tantos amigos e colegas, viajei para l&#xE1; na primavera de 1968, a fim de observar &#x2014; e inalar &#x2014; a genu&#xED;na revolta. Ou, pelo menos, uma imita&#xE7;&#xE3;o bem fiel da vers&#xE3;o genu&#xED;na. Ou, ainda, nas palavras c&#xE9;ticas de Raymond Aron, um psicodrama representado no palco onde um dia encenaram a pe&#xE7;a genu&#xED;na. Como Paris havia sido o local de uma revolu&#xE7;&#xE3;o &#x2014; e, de fato, boa parte de nossa compreens&#xE3;o visual do termo deriva do que acreditamos saber dos eventos transcorridos ali entre os anos 1789 e 1794 &#x2014;, por vezes era dif&#xED;cil distinguir entre pol&#xED;tica, par&#xF3;dia, pastiche e... atua&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> Por determinada perspectiva, tudo estava como devia: paralelep&#xED;pedos de verdade, problemas reais (ao menos para os participantes), viol&#xEA;ncia real e, ocasionalmente, v&#xED;timas reais. Mas, num outro n&#xED;vel, nada parecia muito s&#xE9;rio: mesmo quando eu me esfor&#xE7;ava muito, n&#xE3;o dava para acreditar que uma comunidade estudantil descaradamente obcecada pelas viagens nas f&#xE9;rias de ver&#xE3;o &#x2014; no meio das manifesta&#xE7;&#xF5;es e debates falava-se bastante nas temporadas em Cuba &#x2014; pretendia derrubar seriamente o presidente Charles de Gaulle e a Quinta Rep&#xFA;blica.</p> <p> Nada ocorreu, se usarmos par&#xE2;metros s&#xE9;rios, e todos voltamos para casa. Na &#xE9;poca, considerei Aron injustamente desdenhoso. Hoje eu estaria inclinado a compartilhar seu desd&#xE9;m, mas na &#xE9;poca ele me pareceu um pouco exagerado. O que mais parecia incomodar Aron era que todos se divertiam. Por mais brilhante que fosse, n&#xE3;o conseguiu perceber que, embora se divertir n&#xE3;o seja a mesma coisa que fazer uma revolu&#xE7;&#xE3;o, muitas revolu&#xE7;&#xF5;es realmente come&#xE7;aram com risos e divertimento.</p> <p> Um ano ou dois depois, fui visitar um amigo que estudava numa universidade alem&#xE3; &#x2014; G&#xF6;ttingen, creio. &#x201C;Revolu&#xE7;&#xE3;o&#x201D; na Alemanha Ocidental significava algo bem diferente. Ningu&#xE9;m estava se divertindo. Para a vis&#xE3;o inglesa, todos pareciam indescritivelmente s&#xE9;rios &#x2014; e escandalosamente preocupados com sexo. Aquilo era novidade: os estudantes ingleses pensavam muito em sexo, mas o praticavam pouqu&#xED;ssimo; os estudantes franceses, mais ativos sexualmente (minha impress&#xE3;o), mantinham uma boa separa&#xE7;&#xE3;o entre sexo e pol&#xED;tica. Exceto pela exorta&#xE7;&#xE3;o ocasional do &#x201C;fa&#xE7;a amor, n&#xE3;o fa&#xE7;a a guerra&#x201D;, sua atua&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica era intensamente, quase absurdamente, te&#xF3;rica e &#xE1;rida. As mulheres participavam &#x2014; quando participavam &#x2014; fazendo caf&#xE9; e dormindo com os militantes (e como papagaio de pirata, acess&#xF3;rios visuais para deleite dos fot&#xF3;grafos da imprensa). N&#xE3;o admira o surgimento do feminismo radical logo depois.</p> <p> Contudo, na Alemanha, a pol&#xED;tica tratava de sexo &#x2014; e o sexo, em grande parte, da pol&#xED;tica. Descobri assombrado, ao visitar um dormit&#xF3;rio coletivo alem&#xE3;o (todos os estudantes alem&#xE3;es que conheci, pelo jeito, moravam em comunidade, compartilhando apartamentos grandes e antigos e as parceiras uns dos outros), que meus contempor&#xE2;neos da Bundesrepublik [<em>a Alemanha Ocidental</em>] realmente acreditavam em sua pr&#xF3;pria ret&#xF3;rica. Uma abordagem rigorosamente livre de complexos no caso do sexo casual era, segundo eles, a melhor maneira de se livrar das ilus&#xF5;es a respeito do imperialismo americano &#x2014; e representava uma purifica&#xE7;&#xE3;o da heran&#xE7;a nazista dos pais, caracterizada pela repress&#xE3;o sexual mascarada de machismo nacionalista.</p> <p> A no&#xE7;&#xE3;o de que um sujeito de 21 anos na Europa Ocidental pudesse exorcizar a culpa dos pais se livrando da roupa e das inibi&#xE7;&#xF5;es (e de sua parceira) &#x2014; desfazendo-se metaforicamente dos s&#xED;mbolos da toler&#xE2;ncia repressiva &#x2014; pareceu um tanto suspeita a meu esquerdismo ingl&#xEA;s emp&#xED;rico. Mas que sorte o antinazismo exigir orgasmos m&#xFA;ltiplos. E, pensando bem, quem era eu para reclamar? Um universit&#xE1;rio de Cambridge em cujo universo pol&#xED;tico habitavam policiais educados e a consci&#xEA;ncia limpa de um pa&#xED;s vitorioso e que n&#xE3;o sofreu ocupa&#xE7;&#xE3;o talvez n&#xE3;o fosse o sujeito mais indicado para avaliar as estrat&#xE9;gias purificadoras alheias.</p> <p> <strong>PROVINCIANOS</strong></p> <p> Eu talvez tivesse me sentido um pouco menos superior se soubesse o que andava acontecendo a uns 400 quil&#xF4;metros a leste. O que revela a respeito do mundo na Europa Ocidental hermeticamente fechada por causa da Guerra Fria o fato de eu &#x2014; estudante de hist&#xF3;ria instru&#xED;do, descendente de judeus da Europa Oriental, &#xE0; vontade em diversos idiomas, conhecedor da minha metade do continente gra&#xE7;as a viagens constantes &#x2014; ignorar completamente os eventos catacl&#xED;smicos que se desenrolavam na Pol&#xF4;nia e na Checoslov&#xE1;quia naquele per&#xED;odo? A revolu&#xE7;&#xE3;o me atra&#xED;a? Por que n&#xE3;o ir a Praga, inquestionavelmente o lugar mais excitante da Europa de ent&#xE3;o? Ou a Vars&#xF3;via, onde meus jovens contempor&#xE2;neos corriam risco de expuls&#xE3;o, ex&#xED;lio e pris&#xE3;o por suas ideias e ideais?</p> <p> O que nos revela sobre as ilus&#xF5;es de Maio de 68 o fato de eu n&#xE3;o me lembrar de uma &#xFA;nica men&#xE7;&#xE3;o &#xE0; Primavera de Praga, e muito menos do levante dos estudantes poloneses, em nossos debates mais sinceramente radicais? Se tiv&#xE9;ssemos sido menos provincianos (a 40 anos de dist&#xE2;ncia, o n&#xED;vel da intensidade com que discut&#xED;amos a injusti&#xE7;a do hor&#xE1;rio de fechamento dos port&#xF5;es da faculdade &#xE9; meio dif&#xED;cil de expressar), ter&#xED;amos deixado uma marca mais duradoura. Do jeito que foi, avan&#xE7;&#xE1;vamos noite adentro debatendo a Revolu&#xE7;&#xE3;o Cultural da China, os levantes mexicanos e as ocupa&#xE7;&#xF5;es da Columbia University. Mas, exceto pelo alem&#xE3;o desdenhoso ocasional, que ficava contente em ver no Dubek da Checoslov&#xE1;quia [<em>Alexander Dubek, secret&#xE1;rio do Partido Comunista</em>] apenas mais um reformista vira-casaca, ningu&#xE9;m falava na Europa Oriental.</p> <p> Ao olhar para tr&#xE1;s n&#xE3;o posso evitar a sensa&#xE7;&#xE3;o de que perdemos o barco. Marxistas? Ent&#xE3;o, por que n&#xE3;o est&#xE1;vamos em Vars&#xF3;via discutindo os derradeiros fragmentos do revisionismo comunista com o grande fil&#xF3;sofo Leszek Kolakowski e seus alunos? Rebeldes? Em que causa? A que pre&#xE7;o? Mesmo aqueles poucos esp&#xED;ritos corajosos que eu conhecia, desventurados o bastante para passar uma noite na cadeia, costumavam voltar para casa na hora do almo&#xE7;o. O que sab&#xED;amos a respeito da bravura exigida de estudantes que tinham de suportar semanas de interrogat&#xF3;rio nas pris&#xF5;es de Vars&#xF3;via, seguidos por senten&#xE7;as de um, dois ou tr&#xEA;s anos de deten&#xE7;&#xE3;o, por terem reivindicado direitos que colegas como n&#xF3;s consideravam conquistados?</p> <p> Apesar de todas as nossas teorias de hist&#xF3;ria eloquentes, deixamos de notar um dos momentos decisivos seminais. Foi em Vars&#xF3;via, no ver&#xE3;o de 1968, que o marxismo caiu por terra. Coube aos estudantes rebeldes da Europa Central minar, desacreditar e derrubar n&#xE3;o apenas alguns regimes comunistas arruinados mas tamb&#xE9;m a pr&#xF3;pria ideia de comunismo. Se tiv&#xE9;ssemos nos preocupado um pouco mais com o destino das ideias que brand&#xED;amos, ter&#xED;amos talvez prestado mais aten&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s a&#xE7;&#xF5;es e opini&#xF5;es dos que foram criados na sua sombra.</p> <p> Ningu&#xE9;m deve sentir culpa por nascer no lugar certo na hora certa. N&#xF3;s, no Ocidente, pertenc&#xED;amos a uma gera&#xE7;&#xE3;o sortuda. N&#xE3;o mudamos o mundo; a bem da verdade, o mundo mudou obsequiosamente para n&#xF3;s. Tudo parecia poss&#xED;vel: ao contr&#xE1;rio dos jovens de hoje, nunca duvid&#xE1;vamos de que haveria um emprego interessante para n&#xF3;s, e por isso n&#xE3;o precis&#xE1;vamos perder tempo com cursos degradantes como o de administra&#xE7;&#xE3;o e neg&#xF3;cios. A maioria seguia carreira na educa&#xE7;&#xE3;o, ou entrava para o funcionalismo p&#xFA;blico. Concentr&#xE1;vamos nossa energia na discuss&#xE3;o sobre o que havia de errado no mundo e em como transform&#xE1;-lo. Protest&#xE1;vamos contra as coisas de que n&#xE3;o gost&#xE1;vamos e est&#xE1;vamos certos em fazer isso. Aos nossos olhos, &#xE9;ramos uma gera&#xE7;&#xE3;o revolucion&#xE1;ria. Pena que tenhamos deixado escapar a revolu&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> &#xA0;</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>O Chal&#xE9; da Mem&#xF3;ria</em>, de Tony Judt. Tradu&#xE7;&#xE3;o &#xAD;Celso Nogueira. Editora Objetiva, 224 p&#xE1;gs., R$ 32,90.</p> </div> <p> &#xA0;</p> Em <em>O Chalé da Memória</em>, o historiador inglês Tony Judt (1948-2010)&nbsp; constrói um retrato muito pessoal da Europa no século 20.<strong> BRAVO! </strong>reproduz um dos capítulos do livro, que foi lançado este mês no Brasil. O ensaio autobiográfico trata do clima de contestação que tomou conta da juventude europeia em 1968 2012-03-27T13:07:31-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 175 - Março 2012 Em O Chalé da Memória, o historiador inglês Tony Judt (1948-2010)  constrói um retrato muito pessoal da Europa no século 20. BRAVO! reproduz um dos capítulos do livro, que foi lançado este mês no Brasil. O ensaio autobiográfico trata do clima de contestação que tomou conta da juventude europeia em 1968 Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/por-um-fio Por um Fio 2012-02-28T13:12:02-03:00 Kelvin Falcão Klein <p> Em <em>A Insustent&#xE1;vel Leveza do Ser</em>, o escritor checo Milan Kundera refuta a ideia de Deus baseado no pressuposto de que nenhum Deus criaria uma vida na qual fosse necess&#xE1;rio defecar. <em>Guia de Ruas Sem Sa&#xED;da</em>, novo romance de Joca Reiners Terron, cria um mundo que aboliu qualquer tra&#xE7;o de Deus. &#x201C;Um mar de merda. Remexo e nada. Vomito. Espaguete. Vomito mais&#x201D;, registra um dos personagens. Cinzas, fezes, sangue &#x2013; esses s&#xE3;o alguns dos materiais que formam o cerne do livro. Evocando o odor da mortalidade e da decad&#xEA;ncia, o excremento aparece como uma piada universal, que serve de alerta a todos, leitores e personagens, como uma lembran&#xE7;a da morte certa. A morte, protagonista do <em>Guia</em>, &#xE9; a rua sem sa&#xED;da por excel&#xEA;ncia &#x2013; voltar &#xE9; imposs&#xED;vel.</p> <p> A hist&#xF3;ria se alterna entre dois homens: um cartunista barbudo, que cria um super-her&#xF3;i de sucesso, o Homem-Escada, e um que procura um transplante de f&#xED;gado no exterior. As tramas se desenvolvem em paralelo entre cap&#xED;tulos breves de texto e outros com ilustra&#xE7;&#xF5;es de Andr&#xE9; Ducci, que recebeu orienta&#xE7;&#xF5;es do pr&#xF3;prio autor. Frases curtas, onomatopeias e repeti&#xE7;&#xF5;es de vozes narrativas contribuem para deixar o discurso sempre por um fio, convulsivo, na imin&#xEA;ncia de um abandono. Os desenhos evocam uma atmosfera on&#xED;rica, sensa&#xE7;&#xE3;o potencializada pelo desconforto com os ambientes que nasce e cresce dentro do pr&#xF3;prio texto. As imagens n&#xE3;o est&#xE3;o ali para ilustrar uma hist&#xF3;ria coesa e linear, mas para provocar ainda mais ru&#xED;do, fazendo do <em>Guia</em> um intrigante jogo de armar, uma ca&#xE7;ada ao sentido, que sempre escapa.</p> <p> <strong>Gorilas e Beckett</strong></p> <p> A escritura do livro acompanha a progressiva perda de consci&#xEA;ncia dos personagens, que j&#xE1; n&#xE3;o se reconhecem (&#x201C;Tem um homem refletido na parede interna da geladeira. Quem ser&#xE1; esse barbudo?&#x201D;) e n&#xE3;o sabem mais para onde ir (&#x201C;O outro lado do mundo &#xE9; um lugar distante demais para morrer&#x201D;). Surgem gorilas assassinos, prostitutas, interven&#xE7;&#xF5;es cir&#xFA;rgicas, chips com GPS &#x2013; todos produtos dessa voragem narrativa que impede o estabelecimento de qualquer explica&#xE7;&#xE3;o ou motivo.</p> <p> Nossos tempos de vertiginosos est&#xED;mulos aparecem nas descri&#xE7;&#xF5;es com met&#xE1;foras inesperadas. Os di&#xE1;logos r&#xE1;pidos e &#xE1;ridos, de palavras enigm&#xE1;ticas, carregam marcas beckettianas e de recria&#xE7;&#xF5;es posteriores, como a pe&#xE7;a <em>O Gordo e o Magro V&#xE3;o Para o C&#xE9;u,</em> de Paul Auster: &#x201C;Ningu&#xE9;m. N&#xE9;quem. E voc&#xEA;? &#x2013; N&#xE3;o sei &#x2013; N&#xE3;o-Sei e Ningu&#xE9;m. Pod&#xED;amos montar um grupo musical. Nosso maior sucesso iria ser &#x2018;Nunca&#x2019;&#x201D;.</p> <p> O <em>Guia</em> &#xE9;, no fim das contas, um exerc&#xED;cio de contato com a morte. Sua constru&#xE7;&#xE3;o, no entanto, mostra que grande parte dos tormentos est&#xE1; na vida &#x2013; e deve ser resolvida enquanto ela ainda existe. </p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Kelvin Falc&#xE3;o Klein</strong> &#xE9; cr&#xED;tico liter&#xE1;rio, autor do blog Um T&#xFA;nel no Fim da Luz (falcaoklein.blogspot.com).</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Guia de Ruas Sem Sa&#xED;da</em>, de Joca Reiners Terron. Ilustra&#xE7;&#xF5;es de Andr&#xE9; Ducci. Selo Edith, 256 p&#xE1;gs., R$ 35.</p> </div> O romance “Guia de Ruas Sem Saída” mescla texto do escritor Joca Reiners Terron a ilustrações de André Ducci para falar da decadência em vida e do acerto definitivo com a morte 2012-02-28T13:12:02-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 174 - Fevereiro 2012 O romance “Guia de Ruas Sem Saída” mescla texto do escritor Joca Reiners Terron a ilustrações de André Ducci para falar da decadência em vida e do acerto definitivo com a morte Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/manual-de-instrucoes Manual de instruções 2012-02-24T18:52:13-02:00 Redação <p> Com o conto <em>Rudimentos de Sadomasoquismo Comparado</em>, Glauco Mattoso assina a se&#xE7;&#xE3;o Fic&#xE7;&#xE3;o In&#xE9;dita deste m&#xEA;s. O texto, no entanto, n&#xE3;o foi escrito de maneira convencional. O ficcionista sofre de glaucoma &#x2013; seu nome art&#xED;stico &#xE9; um trocadilho com o termo<em>glaucomatoso</em>, usado para portadores da doen&#xE7;a. Desde o come&#xE7;o da d&#xE9;cada passada, o escritor utiliza um programa de computa&#xE7;&#xE3;o, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, para ler e escrever. No podcast abaixo, saiba como funciona:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F37712582"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F37712582" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p> <p> Leia o conto <em>Rudimentos de sadomasoquismo comparado </em>na edi&#xE7;&#xE3;o de mar&#xE7;o/175.</p> O escritor Glauco Mattoso, que ficou cego nos anos 90, explica como faz para ler e escrever 2012-02-24T18:52:13-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados O escritor Glauco Mattoso, que ficou cego nos anos 90, explica como faz para ler e escrever Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/ela-se-sentia-intelectualmente-insegura “Ela se sentia intelectualmente insegura” 2012-02-24T13:08:32-02:00 <p> As cenas ainda se espalham pela internet, em resqu&#xED;cios de telejornais e in&#xFA;meras fotografias: na Sala S&#xE3;o Paulo, a grandiosa casa paulistana de concertos, o ent&#xE3;o presidente Luiz In&#xE1;cio Lula da Silva se aproximou de um prostrado Fernando Henrique Cardoso, que olhava o corpo inerte da mulher. A antrop&#xF3;loga Ruth Cardoso, de 77 anos, morrera um dia antes. Portadora de doen&#xE7;a coronariana, sofreu uma arritmia card&#xED;aca grave e desmaiou na cozinha do apartamento que dividia com o marido. Quando o socorro chegou, j&#xE1; n&#xE3;o havia o que fazer. Eram 20h40 de uma ter&#xE7;a-feira bastante fria. Na quarta, 25 de junho de 2008, ao longo do vel&#xF3;rio, Fernando Henrique n&#xE3;o se cansava de acariciar a fronte de Ruth e tirou os &#xF3;culos diversas vezes para enxugar as l&#xE1;grimas. Mal avistou Lula, permitiu que o sucessor lhe desse um abra&#xE7;o prolongado. O petista ficou na cerim&#xF4;nia por uns 30 minutos. Ao partir, consolou novamente o tucano e lhe disse: &#x201C;Se precisar de mim, pe&#xE7;a. Estou &#xE0; disposi&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. Durante aquele breve per&#xED;odo, os dois principais l&#xED;deres pol&#xED;ticos do Brasil contempor&#xE2;neo baixaram armas e abdicaram das farpas que costumam trocar.</p> <p> O vel&#xF3;rio atraiu, igualmente, acad&#xEA;micos de m&#xFA;ltiplas tend&#xEA;ncias e variados esp&#xE9;cimes do Distrito Federal, alguns at&#xE9; mais antag&#xF4;nicos do que Lula e FHC. Navegantes das redes sociais, blogueiros e a m&#xED;dia convencional enxergaram na comunh&#xE3;o tempor&#xE1;ria de advers&#xE1;rios um s&#xED;mbolo daquilo que Ruth despertou enquanto viveu: a unanimidade. Conforme tais interpreta&#xE7;&#xF5;es, a ex-primeira-dama e uma das fundadoras do PSDB se notabilizou por conquistar, dentro e fora da universidade, o respeito e a admira&#xE7;&#xE3;o de gregos e troianos, seja sob a faceta de professora e orientadora, seja &#xE0; frente do Comunidade Solid&#xE1;ria. O programa do governo Fernando Henrique, engendrado pela antrop&#xF3;loga, estimulou as a&#xE7;&#xF5;es conjuntas entre ONGs, empres&#xE1;rios, movimentos populares e o Estado com o objetivo de erradicar a pobreza.</p> <p> Como poetas, romancistas, m&#xFA;sicos e pintores, os intelectuais &#x2013; e os pol&#xED;ticos &#x2013; sobrevivem &#xE0; morte n&#xE3;o apenas por conta do que produziram mas tamb&#xE9;m gra&#xE7;as &#xE0; imagem p&#xF3;stuma que se constr&#xF3;i deles. A da pesquisadora ganhou os contornos iniciais justamente na Sala S&#xE3;o Paulo. Em setembro de 2009, o desenho adquiriu maior nitidez com a cria&#xE7;&#xE3;o do Centro Ruth Cardoso, que se imp&#xF4;s a meta de preservar e disseminar o legado da homenageada. Um ano depois, apareceu <em>Fragmentos de uma Vida</em>, perfil da docente que a editora Globo encomendou para o escritor Ign&#xE1;cio de Loyola Brand&#xE3;o. Agora, chega &#xE0;s livrarias <em>Ruth Cardoso </em>&#x2013;<em> Obra Reunida</em>. A colet&#xE2;nea de 567 p&#xE1;ginas, lan&#xE7;ada pela Mameluco, agrupa todos os artigos acad&#xEA;micos da ex-primeira-dama. S&#xE3;o 41 textos &#x2013; o mais velho, de 1959; o mais recente, de 2004. A antrop&#xF3;loga Teresa Pires do Rio Caldeira, amiga e disc&#xED;pula de Ruth que leciona na Universidade da Calif&#xF3;rnia, em Berkeley, se encarregou de organizar e apresentar o volume. Um time de quatro renomadas pensadoras a ajudou: C&#xE9;line Sachs-Jeantet, Esther Imp&#xE9;rio Hamb&#xFA;rguer, Eunice Ribeiro Durham e Helena Sampaio.</p> <p> Quem vasculha o site do Centro, atravessa o perfil assinado por Loyola ou destrincha o pref&#xE1;cio da colet&#xE2;nea sai com uma impress&#xE3;o francamente positiva da professora. Sobram aprova&#xE7;&#xF5;es, faltam pontos de vista menos parciais. Espirituosa, discreta, sempre atenta &#xE0;s novidades, educadora nata, cosmopolita, vocacionada para a atua&#xE7;&#xE3;o em equipe, interlocutora brilhante, ex&#xED;mia dona de casa, m&#xE3;e e av&#xF3; carinhosas s&#xE3;o as qualifica&#xE7;&#xF5;es que v&#xEA;m &#xE0; cabe&#xE7;a de internautas e leitores. Uma <em>boutade</em>, cunhada pela pr&#xF3;pria Ruth, resumiria &#xE0; perfei&#xE7;&#xE3;o o seu car&#xE1;ter, segundo Loyola. &#x201C;Isto n&#xE3;o est&#xE1; de acordo com nossos padr&#xF5;es araraquarenses&#x201D;, proclamava, ir&#xF4;nica, quando se flagrava diante de circunst&#xE2;ncias em que o recato e a &#xE9;tica despencavam ladeira abaixo. O gracejo, claro, se refere &#xE0; cidade do interior paulista onde a acad&#xEA;mica nasceu e se criou. Ela s&#xF3; trocaria Araraquara pela capital do estado em 1946, aos 15 anos, para ingressar num tradicional col&#xE9;gio cat&#xF3;lico, o extinto Des Oiseaux.</p> <p> <strong>Cozinhas comunit&#xE1;rias</strong></p> <p> Filha &#xFA;nica de um guarda-livros com uma farmac&#xEA;utica que dava aulas de bot&#xE2;nica, qu&#xED;mica e biologia, Ruth Corr&#xEA;a Leite Cardoso estudou ci&#xEA;ncias sociais entre 1949 e 1952. &#xC0; &#xE9;poca, as turmas que frequentavam o curso da Universidade de S&#xE3;o Paulo somavam uma d&#xFA;zia de alunos, se tanto. Foi tamb&#xE9;m na USP que, em 1957, a jovem soci&#xF3;loga virou assistente do lend&#xE1;rio Egon Schaden, catedr&#xE1;tico de antropologia. Come&#xE7;ou, assim, uma duradoura carreira no ensino superior. Perto de intelectuais da mesma gera&#xE7;&#xE3;o, escreveu pouco e publicou menos ainda. Divulgou o grosso de seus ensaios nos c&#xED;rculos restritos da &#x201C;alta cultura&#x201D;: mesas de reuni&#xF5;es cient&#xED;ficas, jornais e revistas de pequena tiragem, semin&#xE1;rios e debates. Sobressaiu-se bem mais como orientadora de p&#xF3;s-graduandos e como agente pol&#xED;tica em cont&#xED;nuo di&#xE1;logo com a sociedade civil.</p> <p> Muitos lhe conferem o m&#xE9;rito de introduzir no pa&#xED;s a antropologia urbana &#x2013; pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das &#xE1;reas pobres. N&#xE3;o &#xE0; toa, se debru&#xE7;ou sobre a rotina das favelas, a integra&#xE7;&#xE3;o dos migrantes japoneses no Brasil, as novas configura&#xE7;&#xF5;es da juventude, o feminismo, os meios de comunica&#xE7;&#xE3;o, o terceiro setor, as cozinhas comunit&#xE1;rias e a ado&#xE7;&#xE3;o de crian&#xE7;as pelas classes baixas.</p> <p> Em fevereiro de 1953, se casou com FHC, que mais tarde despontaria como soci&#xF3;logo. Os dois geraram Paulo Henrique, Luciana e Beatriz. N&#xE3;o raro, a trajet&#xF3;ria do marido exigiu ren&#xFA;ncias da antrop&#xF3;loga. De 1964 a 1968, por exemplo, Ruth morou no Chile e na Fran&#xE7;a, j&#xE1; que a ditadura militar empurrou Fernando Henrique para o ex&#xED;lio. O afastamento compuls&#xF3;rio da USP fez a pesquisadora adiar o doutorado, s&#xF3; conclu&#xED;do em 1972. Na d&#xE9;cada de 1990, voltou a abandonar as pesquisas, agora premida pela elei&#xE7;&#xE3;o do c&#xF4;njuge &#xE0; presid&#xEA;ncia da rep&#xFA;blica. Tornou-se primeira-dama a contragosto, mas acabou revitalizando a fun&#xE7;&#xE3;o, que exerceu durante oito anos (1995-2002). At&#xE9; ent&#xE3;o, nenhuma intelectual alcan&#xE7;ara aquele status no pa&#xED;s. De modo id&#xEA;ntico, nunca a mulher de um presidente concebera e dirigira um programa social t&#xE3;o intrincado e abrangente quanto o Comunidade Solid&#xE1;ria.</p> <p> <strong>Paneg&#xED;rico</strong></p> <p> Semanas atr&#xE1;s, o jornalista e curador Marcelo Rezende, colaborador de <strong>BRAVO!</strong>, redigiu um artigo em que comenta o abrupto e prematuro falecimento de outro jornalista: Daniel Piza. A reflex&#xE3;o se encontra no blog do Instituto Moreira Salles. Ali, Rezende analisa o substantivo &#x201C;paneg&#xED;rico&#x201D;: &#x201C;Trata-se de um discurso, de uma louva&#xE7;&#xE3;o (...). &#xC9; geralmente aquilo que os vivos decidem realizar quando est&#xE3;o diante da evid&#xEA;ncia concreta da morte&#x201D;. Tributos do g&#xEA;nero, pondera o autor, transcendem o mero elogio, uma vez que se escoram apenas no superlativo. O paneg&#xED;rico desumaniza o morto. Santifica-o, lhe esculpe fei&#xE7;&#xF5;es de her&#xF3;i. J&#xE1; o elogio &#x201C;permite a contradi&#xE7;&#xE3;o, o contraponto infeliz na exist&#xEA;ncia de algu&#xE9;m e do personagem desse mesmo algu&#xE9;m&#x201D;. Certamente, Ruth Cardoso merece v&#xE1;rios dos adjetivos risonhos que lhe imputam. Mas ser&#xE1; que fazia jus aos exageros? Como ela pr&#xF3;pria avaliaria a mitifica&#xE7;&#xE3;o latente nos paneg&#xED;ricos que inspirou?</p> <p> Para discutir a quest&#xE3;o e relembrar a professora, <strong>BRAVO!</strong> entrevistou Fernando Henrique durante tr&#xEA;s horas, em S&#xE3;o Paulo. Uma parte da conversa ocorreu no instituto que leva o nome do soci&#xF3;logo. A outra, no apartamento onde o ex-presidente &#x2013; que completou 80 anos &#x2013; viveu com a antrop&#xF3;loga.</p> <p> &#xA0;</p> <p> <strong>O legado intelectual</strong></p> <p> &#xA0;</p> <p> <strong>BRAVO!: Est&#xE1; em curso um movimento para consolidar a imagem de dona Ruth Cardoso como a de uma figura exemplar...</strong></p> <p> <strong>Fernando Henrique Cardoso:</strong> <em>(Interrompendo o rep&#xF3;rter) </em>Sim, mas nenhuma iniciativa partiu da fam&#xED;lia. As homenagens nasceram de maneira espont&#xE2;nea. S&#xE3;o os amigos, os alunos e os colaboradores de Ruth que se atribuem a tarefa de reverenci&#xE1;-la. Eu e meus filhos n&#xE3;o pedimos nada a ningu&#xE9;m.</p> <p> <strong>De que modo a ex-primeira-dama reagiria diante de tantos aplausos? O senhor j&#xE1; pensou no assunto?</strong></p> <p> J&#xE1;. Imagino que reagiria bem, ainda que timidamente. Ruth n&#xE3;o almejava os holofotes. Nunca sonhou, por exemplo, que implantariam uma c&#xE1;tedra com o nome dela na Universidade Columbia, em Nova York, como aconteceu h&#xE1; uns tr&#xEA;s anos. Aquela antrop&#xF3;loga toda aplicada, na verdade, n&#xE3;o se preocupava nem sequer em arquivar o que escrevia. N&#xE3;o ficava lambendo a cria. Era mais desleixada do que eu nesse sentido &#x2013; e menos autoconfiante. Padecia de inseguran&#xE7;a.</p> <p> <strong>Inseguran&#xE7;a? N&#xE3;o dava a menor impress&#xE3;o.</strong></p> <p> De fato: os inseguros costumam parecer afirmativos. No fundo, Ruth ignorava o pr&#xF3;prio valor. N&#xE3;o possu&#xED;a uma autoestima muito elevada. A minha sempre se revelou maior. Tanto que, em casa, meus filhos brincam: &#x201C;Pai, voc&#xEA; precisa fazer uma lipoaspira&#xE7;&#xE3;o no ego!&#x201D; <em>(risos)</em> &#xC9; engra&#xE7;ado... As pessoas me chamam de vaidoso, de ambicioso, de sei l&#xE1; o qu&#xEA;. Falam que, desde criancinha, eu queria ocupar a presid&#xEA;ncia. Bobagem! Pura fantasia! Quando jovem &#x2013; e mesmo na maturidade &#x2013;, jamais cogitei me eleger presidente. As coisas foram se desenrolando. Tampouco me considero vaidoso. Ou, pelo menos, n&#xE3;o do jeito que o senso comum define a palavra. Tenho vaidade intelectual. Sob outros &#xE2;ngulos, por&#xE9;m, sou mais descuidado do que cuidadoso. N&#xE3;o cultivo vaidade f&#xED;sica, pessoal. Nunca liguei al&#xE9;m da conta para esse neg&#xF3;cio de roupa, de eleg&#xE2;ncia.</p> <p> <strong>Dona Ruth se sentia insegura em que aspectos?</strong></p> <p> Apenas intelectualmente. No papel de mulher, de m&#xE3;e ou de professora, n&#xE3;o. Desempenhava-os com tranquilidade e confian&#xE7;a. S&#xF3; nutria d&#xFA;vidas sobre sua compet&#xEA;ncia como pensadora.</p> <p> <strong>Por isso escreveu pouco?</strong></p> <p> &#xC9; prov&#xE1;vel. Ela adorava lecionar. Preparava as aulas demoradamente, expressava-se bem em classe, zelava pelos alunos. Entretanto, sofria para escrever. Talvez at&#xE9; desconhecesse o prazer da escrita. Era muito cr&#xED;tica. E quem &#xE9; muito cr&#xED;tico acaba se descobrindo autocr&#xED;tico demais. N&#xE3;o por acaso, Ruth normalmente rejeitava o que produzia &#x2013; rabiscava o texto, mexia e remexia nas frases, torturava-se. Tamb&#xE9;m n&#xE3;o ambicionava publicar. Tinha ideias relevantes, mas nem sempre julgava necess&#xE1;rio estrutur&#xE1;-las num ensaio, construir teorias. Preferia ensinar, fazer observa&#xE7;&#xF5;es de campo e agir socialmente.</p> <p> <strong>O senhor, em contrapartida, escreveu bastante e publicou trabalhos de grande repercuss&#xE3;o. Conviver com um intelectual t&#xE3;o f&#xE9;rtil inibiu dona Ruth? </strong></p> <p> N&#xE3;o acredito. Tratava-se mais de uma exig&#xEA;ncia dela em rela&#xE7;&#xE3;o a si pr&#xF3;pria. Mesmo porque n&#xF3;s n&#xE3;o compet&#xED;amos. Pelo contr&#xE1;rio: nos ajud&#xE1;vamos, um apoiava o outro. Encontro tanto casal disputando espa&#xE7;o... N&#xF3;s, n&#xE3;o. Eu, inclusive, mostrava a Ruth tudo o que escrevia: livros, ensaios e artigos de jornal. Ela os lia antes da publica&#xE7;&#xE3;o. E opinava, corrigia, discordava.</p> <p> <strong>N&#xE3;o h&#xE1; o risco de se estar supervalorizando o legado acad&#xEA;mico de dona Ruth por raz&#xF5;es pol&#xED;ticas?</strong></p> <p> De maneira nenhuma. Os que resgatam a contribui&#xE7;&#xE3;o de Ruth n&#xE3;o t&#xEA;m rela&#xE7;&#xF5;es diretas com o jogo partid&#xE1;rio. Pegue a s&#xE9;rie de artigos rec&#xE9;m-lan&#xE7;ada. As organizadoras da colet&#xE2;nea s&#xE3;o pesquisadoras de alto n&#xED;vel, que se conservam longe da pol&#xED;tica. Ningu&#xE9;m de bom senso negar&#xE1; a import&#xE2;ncia de Ruth para a moderniza&#xE7;&#xE3;o da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice <em>(Durham)</em> constitu&#xED;ram o time de antrop&#xF3;logos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina se dedica &#xE0; an&#xE1;lise dos povos &#xE1;grafos, que n&#xE3;o disp&#xF5;em da escrita. Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiu&#xE7;ar o universo das cidades, talvez por ser de uma gera&#xE7;&#xE3;o que viu o pa&#xED;s se urbanizar.</p> <p> <strong>A ex-primeira-dama influenciou o senhor como intelectual?</strong></p> <p> Sim. Vou lhe citar alguns exemplos. Eu estudei as teses de Claude L&#xE9;vi-Strauss <em>[antrop&#xF3;logo]</em> superficialmente. Mas a Ruth as conhecia muito. Em 1962 e 63, frequentou semin&#xE1;rios dele na Fran&#xE7;a. Ela, ent&#xE3;o, me ensinava o que sabia. Convers&#xE1;vamos sobre L&#xE9;vi-Strauss e outros autores que me s&#xE3;o menos familiares: o Manuel Castells <em>[soci&#xF3;logo]</em>, o Michel Foucault <em>[fil&#xF3;sofo]</em> e o pr&#xF3;prio Alain Touraine <em>[soci&#xF3;logo]</em>, com quem tive aulas. Ruth ainda me alertou para a for&#xE7;a dos movimentos sociais. Recordo que, l&#xE1; pela d&#xE9;cada de 1970, grupos da periferia de S&#xE3;o Paulo reivindicavam do governo avan&#xE7;os na &#xE1;rea da sa&#xFA;de p&#xFA;blica. Eu olhava aquilo e previa: &#x201C;N&#xE3;o vai resultar em nada&#x201D;. Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o estado &#xE0; toa porque as exig&#xEA;ncias populares se perderiam no gabinete do burocrata. Ruth n&#xE3;o raciocinava desse jeito. Ela j&#xE1; notava que existia a chance de aquelas a&#xE7;&#xF5;es causarem &#x2013; como realmente causaram &#x2013; mudan&#xE7;as mais profundas, mais pol&#xED;ticas na estrutura do estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideran&#xE7;as capazes de agir efetivamente dentro da m&#xE1;quina estatal. Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transforma&#xE7;&#xF5;es s&#xF3; iriam decorrer da luta de classes &#x2013; do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: &#x201C;N&#xE3;o, a luta n&#xE3;o precisa ser apenas de classes. A luta tamb&#xE9;m pode ser do povo contra o Estado&#x201D;.</p> <p> <strong>Quer dizer que ela se opunha &#xE0; predomin&#xE2;ncia das interpreta&#xE7;&#xF5;es marxistas na USP da &#xE9;poca?</strong></p> <p> Exato. Eu, Ruth, Paul Singer <em>[economista]</em>, Jos&#xE9; Arthur Gianotti, Bento Prado J&#xFA;nior <em>[ambos fil&#xF3;sofos],</em> Octavio Ianni <em>[soci&#xF3;logo] </em>e outros participamos do famoso semin&#xE1;rio sobre <em>O Capital</em>, de Karl Marx, que se iniciou em 1958. Ao longo de seis anos, nossa turma se reunia periodicamente para debater os diversos volumes do livro. Ruth, portanto, tinha intimidade com as teorias de Marx. Acontece que nunca adotou uma vis&#xE3;o estritamente marxista. Ela ia na contram&#xE3;o de todos n&#xF3;s e n&#xE3;o enxergava a luta de classes como o &#xFA;nico motor da hist&#xF3;ria. Da&#xED; se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil &#x2013; uma ideia extramarxista, digamos.</p> <p> <strong>A atua&#xE7;&#xE3;o como primeira-dama</strong></p> <p> <strong>Dona Ruth n&#xE3;o desejava que o senhor virasse pol&#xED;tico. Por qu&#xEA;? </strong></p> <p> Na d&#xE9;cada de 1950, quando a gente se formou, havia o consenso de que a carreira acad&#xEA;mica &#xE9; uma esp&#xE9;cie de sacerd&#xF3;cio. Dever&#xED;amos viver para o ensino e a pesquisa. Eu pr&#xF3;prio considerava pecado receber dinheiro por qualquer atividade que n&#xE3;o a de professor. Embora descenda de uma fam&#xED;lia com larga trajet&#xF3;ria pol&#xED;tica (meu bisav&#xF4; governou Goi&#xE1;s, meu tio-av&#xF4; ocupou o cargo de ministro da guerra, meu pai se elegeu deputado), procurei evitar tal caminho na juventude. N&#xE3;o participei nem mesmo do movimento estudantil enquanto cursava ci&#xEA;ncias sociais. Os militares s&#xF3; me mandaram para o ex&#xED;lio ap&#xF3;s o golpe de 1964 porque eu defendia reformas na universidade &#x2013; mudan&#xE7;as que os conservadores taxavam de subversivas. N&#xE3;o me expulsaram do pa&#xED;s em raz&#xE3;o de milit&#xE2;ncia partid&#xE1;ria ou algo do g&#xEA;nero. Logo depois que voltei, resisti &#xE0; ditadura intelectualmente, fazendo pesquisas, escrevendo artigos em jornais de oposi&#xE7;&#xE3;o e promovendo confer&#xEA;ncias. Ruth tamb&#xE9;m se comportava desse modo. Quer&#xED;amos protestar, mas continu&#xE1;vamos sem a inten&#xE7;&#xE3;o de ingressar na pol&#xED;tica propriamente dita. Ocorre que, com o passar dos anos, as circunst&#xE2;ncias me levaram para o Senado e, depois, para o Executivo. Ruth, sobretudo no in&#xED;cio, discordava de minha resolu&#xE7;&#xE3;o. Temia perder a privacidade. Arrepiava-se diante da ideia de nossa vida se tornar mais p&#xFA;blica, mais institucional, repleta de pompa. Mesmo assim, nunca deixou de se engajar em minhas campanhas eleitorais. E, quando cheguei &#xE0; presid&#xEA;ncia, desempenhou brilhantemente as fun&#xE7;&#xF5;es que atribuiu para si.</p> <p> <strong>Entretanto, n&#xE3;o gostava que a chamassem deprimeira-dama.</strong></p> <p> Ruth, na verdade, refutava o conceito muito norte-americano de que a primeira-dama ocupa um cargo. &#x201C;N&#xE3;o, quem ocupa um cargo &#xE9; o presidente da Rep&#xFA;blica&#x201D;, argumentava. &#x201C;Ele, sim, tem obriga&#xE7;&#xF5;es previstas pela lei. A primeira-dama precisa apenas se manter aut&#xF4;noma e desempenhar os pap&#xE9;is que julgar adequados. Cada uma deve agir como achar melhor, sem tarefas definidas.&#x201D; Tanto que Ruth sempre defendeu a Marisa <em>[Let&#xED;cia, mulher de Lula]</em>. As duas se portaram de forma bem diferente em Bras&#xED;lia. Marisa, todos sabemos, abdicou de qualquer protagonismo. E Ruth a apoiava: &#x201C;Ela est&#xE1; se respeitando. N&#xE3;o trai a pr&#xF3;pria personalidade, n&#xE3;o &#xE9; exibida, n&#xE3;o interfere no governo. Por que vou critic&#xE1;-la?&#x201D;</p> <p> <strong>Como dona Ruth lidava com o gigantesco cerimonial da presid&#xEA;ncia?</strong></p> <p> N&#xE3;o apreciava nada daquilo, l&#xF3;gico, mas se conformava. Curiosamente, no final de meu segundo mandato, j&#xE1; demonstrava grande apre&#xE7;o pelas seguran&#xE7;as que a acompanhavam. Professora em tempo integral, quando resolvia ver um espet&#xE1;culo, fazia quest&#xE3;o de que as mo&#xE7;as assistissem &#xE0; pe&#xE7;a tamb&#xE9;m. N&#xE3;o deixava que a esperassem na porta do teatro. Depois, lhes indagava sobre a montagem e dava explica&#xE7;&#xF5;es sobre o dramaturgo, o diretor e o elenco. &#xC0;s vezes, havia atores nus em cena &#x2013; e as seguran&#xE7;as se horrorizavam. No enterro de Ruth, algumas viajaram para S&#xE3;o Paulo e quiseram carregar o caix&#xE3;o. Criou-se uma rela&#xE7;&#xE3;o de afeto.</p> <p> <strong>O senhor dividia com dona Ruth os problemas do governo?</strong></p> <p> N&#xE3;o sei se o verbo correto &#xE9; dividir, porque Ruth evitava se meter diretamente na minha administra&#xE7;&#xE3;o. Ela observava &#xE0; dist&#xE2;ncia. N&#xE3;o bancava o pistol&#xE3;o em &#xE1;rea nenhuma. Dirigia o Comunidade Solid&#xE1;ria e ponto. Agora, n&#xF3;s convers&#xE1;vamos intensamente sobre quase tudo. Certos temas a seduziam menos. Economia, por exemplo &#x2013; o c&#xE2;mbio, as estrat&#xE9;gias do Banco Central. As aten&#xE7;&#xF5;es de Ruth se voltavam mais para a educa&#xE7;&#xE3;o, a sa&#xFA;de e a cultura.</p> <p> <strong>Ela discordava muito do senhor?</strong></p> <p> &#xD4;! E abertamente! Em in&#xFA;meras ocasi&#xF5;es.</p> <p> <strong>Mencione uma, pelo menos.</strong></p> <p> Ruth detestava os partidos clientelistas &#x2013; aqueles que n&#xE3;o abra&#xE7;am propriamente uma ideologia, um programa, e s&#xF3; almejam mamar nas tetas do Estado. Os adesistas, n&#xE9;? Em virtude disso, ela jamais suportou determinados setores do extinto PFL e n&#xE3;o aceitava o acordo que firmei com os pefelistas. Na teoria, Ruth tinha consci&#xEA;ncia de que apenas os ditadores governam sem alian&#xE7;as. S&#xF3; que na pr&#xE1;tica... Ela reclamava: &#x201C;Como assim?! Voc&#xEA; precisa dizer tal coisa para fulano!&#x201D; Eu respondia: &#x201C;Um pol&#xED;tico n&#xE3;o deve ir t&#xE3;o direto ao ponto. Se disser tal coisa, me derrubar&#xE3;o!&#x201D; Quem est&#xE1; fora da disputa partid&#xE1;ria analisa as situa&#xE7;&#xF5;es e as pessoas sob a &#xF3;tica dos estere&#xF3;tipos. No entanto, quando se aproxima delas, termina reformulando o julgamento. Vai soar estranho, mas em qualquer partido existem canalhas do bem e canalhas do mal, canalhas que traem e canalhas que n&#xE3;o traem, canalhas inteligentes e canalhas obtusos, canalhas competentes e canalhas incompetentes. Para distinguir uns dos outros, &#xE9; preciso estrada. Ruth, no come&#xE7;o, n&#xE3;o dispunha de tanta viv&#xEA;ncia. Depois, foi aprendendo.</p> <p> <strong>Em 1994, a futura primeira-dama criticou publicamente o senador Ant&#xF4;nio Carlos Magalh&#xE3;es, um dos caciques do PFL. Associou-o &#xE0; ditadura e &#xE0;s oligarquias.</strong></p> <p> Pois &#xE9;... Ruth n&#xE3;o se permitia intimidades com o ACM. Conhecedor das restri&#xE7;&#xF5;es dela, Ant&#xF4;nio Carlos tratava de agrad&#xE1;-la. Ele podia ser uma serpente ou um encantador de serpentes. Dependia dos ventos. Com a Ruth, costumava exibir os melhores modos. Mas n&#xE3;o adiantava. Certa vez, o convidei para tomar um caf&#xE9; em casa. Tasso Jereissati <em>[um dos l&#xED;deres do PSDB]</em> nos acompanhou. Ruth, que se encontrava no apartamento, resolveu preparar o caf&#xE9; e se dirigiu &#xE0; cozinha. Pronto: o Ant&#xF4;nio Carlos subiu na tribuna do Senado e proferiu um discurso sobre o epis&#xF3;dio. &#x201C;A mulher do presidente abre m&#xE3;o de empregados e tem o desprendimento de fazer o pr&#xF3;prio caf&#xE9;.&#x201D;</p> <p> <strong>Como dona Ruth encarava as privatiza&#xE7;&#xF5;es que o governo do senhor incentivou? O processo sempre recebeu pesadas cr&#xED;ticas. Agora, inclusive, um livro-reportagem que aborda o assunto se transformou em best-seller: </strong><strong><em>A Privataria Tucana</em></strong><strong>, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.</strong></p> <p> Ela concordava com as privatiza&#xE7;&#xF5;es. &#xC0; &#xE9;poca, todo mundo concordava. Somente um pequeno grupo de ultranacionalistas, n&#xE3;o apenas do PT, se posicionava contra. Preconizava que ir&#xED;amos sucatear as ind&#xFA;strias brasileiras. Imagine! Sobre o livro do rapaz...</p> <p> <strong>O senhor o leu?</strong></p> <p> N&#xE3;o.</p> <p> <strong>Pretende l&#xEA;-lo?</strong></p> <p> N&#xE3;o. Vou ler livro de malandro? O autor trabalhava para os petistas <em>[durante as elei&#xE7;&#xF5;es presidenciais de 2010, a Pol&#xED;cia Federal indiciou Ribeiro Jr. sob a acusa&#xE7;&#xE3;o de que ele quebrou o sigilo fiscal de tucanos com o intuito de produzir dossi&#xEA;s; o jornalista nega]</em>. O prop&#xF3;sito da reportagem &#xE9; criar uma cortina de fuma&#xE7;a, tirar o foco da heran&#xE7;a deixada por Lula: as corrup&#xE7;&#xF5;es que pipocam no governo federal. Voc&#xEA; leu o livro? Conte-me algo que aparece l&#xE1;.</p> <p> <strong>O rep&#xF3;rter procura demonstrar que o ex-governador Jos&#xE9; Serra, do PSDB, e alguns parentes se beneficiaram financeiramente das privatiza&#xE7;&#xF5;es.</strong></p> <p> O Serra? Imposs&#xED;vel! Coloco minha m&#xE3;o no fogo. Serra n&#xE3;o teve nenhuma rela&#xE7;&#xE3;o com as privatiza&#xE7;&#xF5;es. Nada! Zero! Zero! E outra coisa: quem rouba uma hora se entrega. Nunca vi ladr&#xE3;o que, cedo ou tarde, n&#xE3;o transpare&#xE7;a. Vamos verificar se algo mudar&#xE1; no padr&#xE3;o do Serra. Vamos verificar se a fam&#xED;lia dele ostentar&#xE1; riqueza...</p> <p> <strong>A vida dom&#xE9;stica</strong></p> <p> <strong>Dona Ruth apoiava com veem&#xEA;ncia as causas feministas. Como tal engajamento reverberava dentro de casa?</strong></p> <p> Desde o namoro, e at&#xE9; antes, n&#xF3;s transit&#xE1;vamos num c&#xED;rculo ilustrado, culto, que preconizava a equival&#xEA;ncia entre homens e mulheres. Compartilh&#xE1;vamos, portanto, de ideias similares sobre o tema. Mas existia uma diferen&#xE7;a importante em nossas posturas &#x2013; a mesma que distingue o liberal do igualit&#xE1;rio. O liberal aceita, tolera. O igualit&#xE1;rio bota em pr&#xE1;tica. Eu, liberal, concordava teoricamente com as reivindica&#xE7;&#xF5;es do feminismo. Ruth, igualit&#xE1;ria, tratava de faz&#xEA;-las acontecer. Ela sempre quis, por exemplo, que todos da fam&#xED;lia ajudassem no trabalho dom&#xE9;stico. Para um homem da minha gera&#xE7;&#xE3;o, assumir atribui&#xE7;&#xF5;es dessa natureza beira o absurdo. Mesmo assim, &#xE0;s vezes, eu tirava a lou&#xE7;a da mesa ap&#xF3;s as refei&#xE7;&#xF5;es. Foi o m&#xE1;ximo de concess&#xE3;o que me permiti. Ainda hoje, recolho a lou&#xE7;a no meu apartamento ou no de amigos. &#xC0; &#xE9;poca da presid&#xEA;ncia, tamb&#xE9;m recolhia. J&#xE1; lavar os pratos me custa mais. Se necess&#xE1;rio, lavo &#x2013; s&#xF3; que me desagrada. Na d&#xE9;cada de 1980, passamos uma temporada em Berkeley <em>[Estados Unidos]</em>. H&#xE1; uma foto do per&#xED;odo que me flagra lavando lou&#xE7;a <em>(veja p&#xE1;ginas 24 e 25)</em>. Ruth garantia que a imagem &#xE9; falsa, que aquele milagre jamais ocorreu. <em>(risos)</em></p> <p> <strong>Os fil&#xF3;sofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil em 1960. Na ocasi&#xE3;o, o senhor os recebeu para um jantar. O que dona Ruth sentiu quando travou contato com uma lenda do feminismo?</strong></p> <p> Decepcionou-se. Simone nos pareceu t&#xE3;o bonita quanto distante, fria e dura. Antip&#xE1;tica, enfim. Para piorar, tratava o Sartre &#x2013; um tipo sorridente, carism&#xE1;tico &#x2013; como crian&#xE7;a: &#x201C;N&#xE3;o fa&#xE7;a isso, n&#xE3;o fa&#xE7;a aquilo!&#x201D; E titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou. Na hora da sobremesa, nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combina&#xE7;&#xE3;o que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educa&#xE7;&#xE3;o. Apesar de feminista e intelectual, Ruth prezava as tarefas de casa. Cozinhava bem, tricotava, costurava e adorava jardinagem. S&#xF3; n&#xE3;o entendia direito de contas. N&#xE3;o gastava excessivamente, mas se atrapalhava com cheques e n&#xFA;meros. N&#xE3;o tinha no&#xE7;&#xE3;o de pre&#xE7;o.</p> <p> <strong>Na contram&#xE3;o de Lula e dona Marisa, que costumam demonstrar carinho em p&#xFA;blico, o senhor e dona Ruth se comportavam de maneira s&#xF3;bria. Faltava romantismo entre voc&#xEA;s?</strong></p> <p> N&#xE3;o. Na intimidade, nos mostr&#xE1;vamos calorosos. A discri&#xE7;&#xE3;o se manifestava apenas publicamente &#x2013; um recato que cultivamos desde a juventude. Al&#xE9;m do mais, em casamentos longos como o nosso, cria-se uma base afetiva que &#xE9; est&#xE1;vel, independentemente das apar&#xEA;ncias, dos altos e baixos, das oscila&#xE7;&#xF5;es pontuais.</p> <p> <strong>Em 2009, o senhor reconheceu como filho o adolescente Tom&#xE1;s, que teria nascido de uma rela&#xE7;&#xE3;o extraconjugal. O rapaz j&#xE1; fez 20 anos. Recentemente, por&#xE9;m, testes de DNA demonstraram que o senhor n&#xE3;o &#xE9; o pai dele. Em que momento dona Ruth soube da hist&#xF3;ria?</strong></p> <p> No momento em que o filho surgiu.</p> <p> <strong>E qual a rea&#xE7;&#xE3;o dela?</strong></p> <p> Ruim, n&#xE9;? Mas tamb&#xE9;m compreensiva. Ruth conhecia a vida. Estava ciente de que o ser humano passa por per&#xED;odos de varia&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> <strong>O senhor cogitou se separar?</strong></p> <p> N&#xE3;o. Nunca me enxerguei sem a Ruth. Desculpe... N&#xE3;o gostaria de alongar o assunto, em nome da reserva que pautava meu casamento. Acrescento apenas que, a despeito do DNA, sigo mantendo um relacionamento muito bom com Tom&#xE1;s, tanto em termos afetivos quanto c&#xED;veis. Posso afirmar igualmente que Ruth morreu numa &#xF3;tima fase de nossa uni&#xE3;o. &#xC0; semelhan&#xE7;a de qualquer casal, atravessamos etapas de maior e menor cumplicidade. At&#xE9; criar nossos filhos, nos conservamos bem pr&#xF3;ximos. Depois, houve certo distanciamento. E, nos &#xFA;ltimos 15 anos, uma reaproxima&#xE7;&#xE3;o intensa &#x2013; de tal maneira que a morte dela me afetou como um raio em dia de sol.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Ruth Cardoso &#x2013; Obra Reunida</em>. Organiza&#xE7;&#xE3;o e apresenta&#xE7;&#xE3;o de Teresa Pires do Rio Caldeira. Editora Mameluco, 567 p&#xE1;gs., R$ 78.</p> </div> O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro 2012-02-24T13:08:32-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 174 - Fevereiro 2012 O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/jovens-envelhecam Jovens, Envelheçam! 2012-02-22T13:17:52-02:00 Ronaldo Bressane <p> Cruel, torcida brasileira: Jennifer Egan &#xE9; cruel. Escreve t&#xE3;o bem que chega a irritar; seu A<em> Visita Cruel do Tempo</em> d&#xE1; vontade de esfregar nas fu&#xE7;as da cr&#xED;tica que, vez em quando, decreta pregui&#xE7;osamente o &#x201C;fim do romance&#x201D;. Miss Egan, 49 anos, jornalista especializada em m&#xFA;sica, prova ser poss&#xED;vel reinventar o g&#xEA;nero, oxigenando-o com temas novos (os personagens secund&#xE1;rios da m&#xFA;sica pop) com altas octanagens de ironia e melancolia &#x2013; ao mesmo tempo que mostra um tarantinesco senso de constru&#xE7;&#xE3;o de cena, personagem e di&#xE1;logo. Para aspirar &#xE0; condi&#xE7;&#xE3;o de cl&#xE1;ssico contempor&#xE2;neo, o livro remete &#xE0; tradi&#xE7;&#xE3;o. Rel&#xEA; muito peculiarmente <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, de Marcel Proust, e seu t&#xF3;pico principal &#xE9; mais velho do que a literatura: a passagem do tempo.</p> <p> &#x201C;Jovens, envelhe&#xE7;am&#x201D; &#x2013; eis um poss&#xED;vel mote rodrigueano para o livro, que levou o Pulitzer de 2011, entre outros pr&#xEA;mios. Egan constr&#xF3;i a narrativa entre a S&#xE3;o Francisco dos anos 1970 e a Nova York de cerca de 2020, ao redor da ascens&#xE3;o e queda da fict&#xED;cia banda punk The Conduits. Sempre de uma perspectiva lateral, de olho nos personagens menores &#xE0; medida que trocam sonhos, loucuras, cabelos longos e guitarras por rugas, carecas, pan&#xE7;as, desastres e leitos de hospital.</p> <p> <strong>&#x201C;ciclos de contos&#x201D;</strong></p> <p> O painel &#xE9; formado por Sasha, a cleptoman&#xED;aca assessora de Bennie, um superprodutor de m&#xFA;sica pop, respons&#xE1;vel por descobrir os Conduits; a turma adolescente de Bennie, m&#xFA;sicos e f&#xE3;s de m&#xFA;sica que orbitam Lou, um figur&#xE3;o da ind&#xFA;stria pop dos anos 1970; os filhos e as namoradas de Lou, seduzidos/massacrados por seu lifestyle hollywoodiano... Enfim: fama e obscuridade, efemeridade e perman&#xEA;ncia, princ&#xED;pios motores da cultura pop, s&#xE3;o as for&#xE7;as que agitam esse caleidosc&#xF3;pio.</p> <p> O virtuosismo de Egan vai e volta no tempo, mudando a cada um dos 13 cap&#xED;tulos o foco sobre dado personagem (a pr&#xF3;pria autora j&#xE1; chamou o romance de &#x201C;ciclo de contos&#x201D;, no que lembra obras polif&#xF4;nicas, como <em>Tr&#xEA;s Tristes Tigres</em>, de Guillermo Cabrera Infante, e <em>Os Detetives Selvagens</em>, de Roberto Bola&#xF1;o). Narra na primeira pessoa, na terceira, na dific&#xED;lima segunda (!), quase sempre lan&#xE7;ando m&#xE3;o do flaubertiano estilo transitivo indireto livre. Egan chega a usar um divertido esquema de PowerPoint para devassar a mente de uma menina de 12 anos. Por&#xE9;m, diferentemente do que pode parecer, essa verdadeira m&#xE1;quina de pinball narrativa nunca cansa o leitor &#x2013; por causa do amor com que Egan magnetiza seus tragic&#xF4;micos personagens. Ao fim da leitura, como todo cl&#xE1;ssico pop, <em>A Visita Cruel do Tempo</em> tem o misterioso cond&#xE3;o que nos faz pedir e pedir: de novo.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Ronaldo Bressane</strong> &#xE9; jornalista e escritor, autor de <em>C&#xE9;u de L&#xFA;cifer</em>, entre outros.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>A Visita Cruel do Tempo</em>, de Jennifer Egan. Intr&#xED;nseca, 335 p&#xE1;ginas, R$ 29 (e-book: R$ 19,90).</p> </div> Em “A Visita Cruel do Tempo”, a norte-americana Jennifer Egan faz um deslumbrante caleidoscópio da cultura pop dos últimos 40 anos (e dos próximos dez) 2012-02-22T13:17:52-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 174 - Fevereiro 2012 Em “A Visita Cruel do Tempo”, a norte-americana Jennifer Egan faz um deslumbrante caleidoscópio da cultura pop dos últimos 40 anos (e dos próximos dez) Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/memorias-do-presidente Memórias do Presidente 2012-01-27T15:06:23-02:00 Redação <p> Na edi&#xE7;&#xE3;o de fevereiro/174, Fernando Henrique Cardoso relembra a rotina ao lado da antrop&#xF3;loga Ruth Cardoso, falecida em 2008. Durante os 55 anos em que foram casados, eles se influenciaram pol&#xED;tica e intelectualmente. Confira partes da entrevista e imagens do casal.</p> <p> &#xA0;</p> <p> A antrop&#xF3;loga Ruth Cardoso como dona de casa:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34713638&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34713638&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p> <p> &#xA0;</p> <p> A professora Ruth Cardoso e a inseguran&#xE7;a:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34713891&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34713891&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p> <p> &#xA0;</p> <p> O encontro da dona Ruth Cardoso e Simone de Beauvoir:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34714002&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F34714002&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p> <p> &#xA0;</p> <p> Leia entrevista completa de Fernando Henrique Cardoso &#xE0; <strong>BRAVO!</strong> na edi&#xE7;&#xE3;o de fevereiro/174.</p> Em entrevista à <strong>BRAVO!</strong>, Fernando Henrique fala sobre sua vida com a antropóloga Ruth Cardoso 2012-01-27T15:06:23-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Fevereiro de 2012 Em entrevista à BRAVO!, Fernando Henrique fala sobre sua vida com a antropóloga Ruth Cardoso Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/animal-inquieto Animal Inquieto 2012-01-27T12:49:55-02:00 Tony Monti <p> Literatura &#xE9; um esfor&#xE7;o formal coerente para expressar faltas e inadequa&#xE7;&#xF5;es. S&#xE3;o m&#xFA;ltiplas as configura&#xE7;&#xF5;es desse esfor&#xE7;o no romance <em>Habitante Irreal</em>, o segundo do ga&#xFA;cho Paulo Scott, autor tamb&#xE9;m do livro de contos <em>Ainda Orangotangos</em>. As descri&#xE7;&#xF5;es da mis&#xE9;ria de popula&#xE7;&#xF5;es ind&#xED;genas, da pol&#xED;tica partid&#xE1;ria inconsequente, da intoler&#xE2;ncia e da marginalidade produzem, na narrativa, imagens do descompasso entre os personagens e seu meio. Mas &#xE9; sobretudo a costura do texto que faz a assinatura do autor e constr&#xF3;i a figura do ser humano como um animal inquieto e, em geral, pouco ajustado ao ambiente em que vive.</p> <p> A hist&#xF3;ria come&#xE7;a em 1989. Paulo &#xE9; um jovem militante que, &#xE0;s v&#xE9;speras da elei&#xE7;&#xE3;o presidencial, deixa o PT por n&#xE3;o se identificar com os rumos do partido. Desterrado pela <em>realpolitik</em>, ele experimenta, em um encontro com uma &#xED;ndia adolescente, o sonho ing&#xEA;nuo de uma vida alternativa aos padr&#xF5;es do capital e do consumo. Ma&#xED;na mal fala portugu&#xEA;s, habita um tempo quase m&#xED;tico, fora da hist&#xF3;ria, alheia ao processo de redemocratiza&#xE7;&#xE3;o e ao fim da Guerra Fria. Ap&#xF3;s um per&#xED;odo de conviv&#xEA;ncia, uma s&#xE9;rie de pequenas cat&#xE1;strofes os separa. Paulo acaba em Londres, vivendo em subempregos e aventuras escusas.</p> <p> <strong>M&#xE1;scara</strong></p> <p> A segunda parte do livro narra a inf&#xE2;ncia e juventude de Donato, filho biol&#xF3;gico de Ma&#xED;na e Paulo. Ele &#xE9; o habitante irreal, a s&#xED;ntese intranquila da marginalidade da &#xED;ndia e da conflituosa integra&#xE7;&#xE3;o de Paulo ao mundo. Adotado por uma fam&#xED;lia branca, Donato tenta conformar-se &#xE0;s maneiras do novo ambiente. Apesar do esfor&#xE7;o, sua vida vai desmontando. Aos poucos, Donato assume o exotismo que o olhar dos outros atribui a ele.</p> <p> Como se por fim cumprisse um destino, o personagem comp&#xF5;e um ritual e apresenta-se na rua, um pouco mais &#xED;ndio e um pouco menos branco, mascarado, cantando baixo, quase im&#xF3;vel. Sem utilizar nem negar os estere&#xF3;tipos com os quais &#xE9; em geral rotulado, constr&#xF3;i uma identidade prec&#xE1;ria que aprofunda suas contradi&#xE7;&#xF5;es. Donato &#xE9; o estranho, &#xE9; artista, &#xED;ndio, louco, marginal, revolucion&#xE1;rio, todo um espectro de imagens relacionadas ao sentimento de inadequa&#xE7;&#xE3;o que percorre o livro.</p> <p> Assim, um ciclo iniciado na dissolu&#xE7;&#xE3;o da identidade pol&#xED;tica do pai termina na afirma&#xE7;&#xE3;o provis&#xF3;ria da identidade m&#xFA;ltipla e escorregadia do filho. Paulo e Donato completam-se e figuram a for&#xE7;a motriz do livro, uma tend&#xEA;ncia pendular a afastar-se da vida ordin&#xE1;ria e a voltar para ela como um invasor. Esse mecanismo, por sinal, pode ser visto como alegoria do pr&#xF3;prio fazer art&#xED;stico (e liter&#xE1;rio), que em parte adere &#xE0; normalidade como maneira de se propagar, embora sua principal condi&#xE7;&#xE3;o de exist&#xEA;ncia, para se constituir arte, seja evitar o aprisionamento das normas.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Tony Monti</strong> &#xE9; doutor em literatura brasileira e autor do livro de contos eXato acidente.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O ROMANCE</strong></p> <p> <em>Habitante Irreal</em>, de Paulo Scott. Editora Alfaguara, 264 p&#xE1;gs., R$ 39,90.</p> </div> <p> &#xA0;</p> O sentimento de inadequação permeia ”Habitante Irreal”, novo romance do gaúcho Paulo Scott 2012-01-27T12:49:55-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 173 - Janeiro 2012 O sentimento de inadequação permeia ”Habitante Irreal”, novo romance do gaúcho Paulo Scott Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/lucido-alucinado Lúcido Alucinado 2012-01-24T12:25:11-02:00 Inês Pedrosa <p> Ant&#xF4;nio Vieira (1608-1697), o padre portugu&#xEA;s, foi um prestidigitador do Verbo, um te&#xF3;rico pragm&#xE1;tico, um conservador revolucion&#xE1;rio: tudo acatava e tudo subvertia. Torcia os vers&#xED;culos da <em>B&#xED;blia</em> &#xE0; medida dos seus desejos e constru&#xED;a com palavras o imp&#xE9;rio perfeito que a vida lhe recusava. Se vivesse hoje escreveria, em jornais ou blogs, textos incendi&#xE1;rios sobre o estado do mundo. As suas opini&#xF5;es pr&#xF3;-israelitas o impediriam de ganhar o Nobel da Literatura, que merecia. E os cr&#xED;ticos o desdenhariam, pelo excesso barroco da sua escrita ou pela vertigem acrob&#xE1;tica das suas ideias &#x2013; bem como pelo furor da sua interven&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica, que o tornaria, talvez n&#xE3;o um padre, mas um pol&#xED;tico aut&#xEA;ntico, pregador e profeta.</p> <p> Deixou-se fascinar pelas cren&#xE7;as milenaristas em voga no s&#xE9;culo 17 porque o empurravam para o futuro, salvando-o do nevoeiro resignado da &#xE9;poca. Era um homem de a&#xE7;&#xE3;o, com uma vontade ind&#xF4;mita de transformar o mundo e de restituir a Portugal a gl&#xF3;ria perdida. Dos 33 aos 44 anos, correu as cortes da Europa, como embaixador informal de dom Jo&#xE3;o IV, tentando vender aos amigos da Espanha a ideia de Portugal independente. N&#xE3;o foi muito feliz nessas peregrina&#xE7;&#xF5;es diplom&#xE1;ticas. Em certo momento, chegou a aconselhar o rei a que subornasse os altos funcion&#xE1;rios holandeses para comprar Pernambuco da Holanda (com o dinheiro dos judeus, que sempre se esfor&#xE7;ou por fazer regressar a Portugal) ou, finalmente, que entregasse definitivamente Pernambuco a troco da paz e da independ&#xEA;ncia do resto da col&#xF4;nia &#x2013; o que fez com que o apelidassem de &#x201C;o Judas do Brasil&#x201D;. Mas o seu talento de orador impressionava, e os ensinamentos e contatos que foi fazendo pela Europa se revelariam extremamente &#xFA;teis.</p> <p> Na sua forma&#xE7;&#xE3;o ideol&#xF3;gica avultaram as conversas tidas em Amsterd&#xE3; com o rabino Menasse Ben Israel, que o levaram a acreditar numa segunda vinda do Messias, para reconduzir &#xE0; Palestina as Dez Tribos da Dispers&#xE3;o, que estariam nas Am&#xE9;ricas, e proceder assim &#xE0; salva&#xE7;&#xE3;o temporal do mundo. Essas teorias atearam o esp&#xED;rito desesperadamente otimista de Vieira, lan&#xE7;ando nele o projeto de um Quinto Imp&#xE9;rio portugu&#xEA;s. A ideia alimentaria os seus dois magnos e heterodoxos projetos de escrita (ambos inconclusos): a <em>Hist&#xF3;ria do Futuro</em> e a <em>Clavis Prophetarum</em> (Chave dos Profetas). Pouco antes de morrer, definiria os seus serm&#xF5;es como meras &#x201C;choupanas&#x201D;, por contraste com os &#x201C;pal&#xE1;cios alt&#xED;ssimos&#x201D; que sonhava edificar com a sua <em>Clavis Prophetarum</em>. Na magn&#xED;fica introdu&#xE7;&#xE3;o &#xE0; nova edi&#xE7;&#xE3;o dos Serm&#xF5;es de Vieira, escreve o cr&#xED;tico Alfredo Bosi, organizador do volume: &#x201C;Que a sublima&#xE7;&#xE3;o de tantas decep&#xE7;&#xF5;es fosse alentada pelo desejo de um povo que viu sepultas nas areias de Alc&#xE1;cer Quibir as &#xFA;ltimas esperan&#xE7;as de manter a gl&#xF3;ria de mais de um s&#xE9;culo de navega&#xE7;&#xF5;es, descobertas e conquistas, parece hip&#xF3;tese plaus&#xED;vel&#x201D;. Mas os tais &#x201C;pal&#xE1;cios&#x201D; celestes foram o pretexto utilizado por aqueles que o invejavam para o perseguirem e descredibilizarem.</p> <p> Ainda hoje h&#xE1; quem procure diminuir ideologicamente a grandeza do seu legado liter&#xE1;rio e filos&#xF3;fico. Mas os del&#xED;rios prof&#xE9;ticos de Vieira ajudaram-no a pensar livremente em temas ent&#xE3;o impens&#xE1;veis, como o da essencial igualdade de todos os seres humanos. Consciente de que o sucesso econ&#xF4;mico do Brasil da &#xE9;poca dependia da escravatura, n&#xE3;o chegou a ser antiescravagista, mas tentou convencer os senhores a deixarem de usar a tortura e escandalizou-os ao pregar aos escravos, na Bahia, comparando o mart&#xED;rio deles ao Calv&#xE1;rio de Cristo: &#x201C;Em um Engenho sois imitadores de Cristo crucificado&#x201D;. N&#xE3;o hesitou sequer em xingar o pr&#xF3;prio Deus, num serm&#xE3;o de valente beleza <em>(Serm&#xE3;o pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda</em>, na Bahia, em 1640), por abandonar os portugueses e dar a vit&#xF3;ria aos &#x201C;hereges&#x201D; holandeses, arrasando assim os seus cr&#xE9;ditos divinos: &#x201C;Quero eu, Senhor, converter-vos a v&#xF3;s&#x201D;. Pugnou arduamente pela liberdade dos &#xED;ndios do Brasil (que queria catequizar, mas n&#xE3;o destruir nem escravizar), entre os quais viveu, por longos per&#xED;odos. Escreveu um catecismo elementar em seis idiomas tribais. Os &#xED;ndios tratavam-no por Paia&#xE7;u, isto &#xE9;, &#x201C;Pai Grande&#x201D;.</p> <p> Consciente de que, como escreveu, &#x201C;s&#xF3; se governa pelos sentidos&#x201D;, empregou os bons dinheiros que granjeara durante o seu per&#xED;odo de agente publicit&#xE1;rio de Portugal em &#x201C;muitos sinos, muitas imagens de Cristo e de Nossa Senhora e de v&#xE1;rios santos (&#x2026;) e at&#xE9; m&#xE1;scaras e cascav&#xE9;is para as dan&#xE7;as das mesmas prociss&#xF5;es, para mostrar aos gentios que a lei dos crist&#xE3;os n&#xE3;o &#xE9; triste&#x201D;. As desilus&#xF5;es e ataques que sofreu tornaram-no muitas vezes furioso, mas nunca o vergaram &#xE0; tristeza. Nessa determina&#xE7;&#xE3;o para a alegria, Vieira foi, de fato, muito mais brasileiro do que portugu&#xEA;s &#x2013; e n&#xE3;o ser&#xE1; por acaso que o Brasil o l&#xEA; e estuda muito mais do que Portugal.</p> <p> <strong>REL&#xC2;MPAGO MENTAL</strong></p> <p> Al&#xE9;m da &#x201C;pol&#xED;tica do c&#xE9;u&#x201D; (na express&#xE3;o certeira do cr&#xED;tico Alcir P&#xE9;cora), ocupou-se Vieira em analisar todos os assuntos eternos da humanidade: o amor e a morte, a ambi&#xE7;&#xE3;o e a inveja, o poder e a justi&#xE7;a. Refletiu tamb&#xE9;m, com inultrapass&#xE1;vel clareza e brilho, sobre a pr&#xF3;pria escrita: &#x201C;O melhor retrato de cada um &#xE9; aquilo que escreve. O Corpo retrata-se com o Pincel, a Alma com a Pena&#x201D; <em>(Serm&#xE3;o de Santo In&#xE1;cio</em>, 1669). O <em>Serm&#xE3;o da Sexag&#xE9;sima</em>, de 1655, mais do que uma an&#xE1;lise cr&#xED;tica da prega&#xE7;&#xE3;o e dos pregadores, &#xE9; um tratado sobre a arte de bem escrever.</p> <p> O reconhecimento que teve em vida, conquistou-o Ant&#xF4;nio Vieira gra&#xE7;as ao seu talento orat&#xF3;rio &#x2013; t&#xE3;o inquietante que acabou por ser proibido de o praticar, depois de julgado pela Inquisi&#xE7;&#xE3;o. A sua &#xFA;nica vit&#xF3;ria pol&#xED;tica foi a cria&#xE7;&#xE3;o da Companhia de Com&#xE9;rcio para o Brasil, em 1649, que se manifestaria de grande utilidade para a reconquista de Pernambuco, em 1654. Conseguiu autoriza&#xE7;&#xE3;o do rei para que os crist&#xE3;os-novos investissem nessa companhia os seus capitais &#x2013; o que a Inquisi&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o lhe perdoou. Anos mais tarde, depois da morte de dom Jo&#xE3;o IV (em 1656), uma carta em que profetizava a ressurrei&#xE7;&#xE3;o do rei forneceria aos atentos e vingativos senhores do Santo Of&#xED;cio o pretexto para a sua pris&#xE3;o e julgamento. Exilou-se em Roma, onde foi acarinhado pela convertida rainha Cristina da Su&#xE9;cia, que o convidou para permanecer como seu confessor particular. Vieira declinou os convites e as mordomias para regressar a Portugal, munido de um documento papal que o libertava de qualquer jurisdi&#xE7;&#xE3;o da Inquisi&#xE7;&#xE3;o portuguesa.</p> <p> Em 1681, com 73 anos, Ant&#xF4;nio Vieira embarcou pela s&#xE9;tima e derradeira vez para a Bahia, para se entregar novamente ao trabalho mission&#xE1;rio. A&#xED; morreria, 16 anos depois, desgostoso, ro&#xED;do por intrigas que, de novo, lhe haviam retirado o direito a pregar. Seria ilibado dessas &#xFA;ltimas acusa&#xE7;&#xF5;es &#x2013; mas a not&#xED;cia chegou j&#xE1; depois da sua morte. Desaparecia assim, no desassossego solit&#xE1;rio que escolheu como modo de vida, o menino que aportara a S&#xE3;o Salvador da Bahia aos 6 anos de idade e que se deixara seduzir pelo esp&#xED;rito empreendedor e &#xE1;vido de conhecimento dos jesu&#xED;tas, a ponto de fugir de casa aos 15 anos para se juntar a eles &#x2013; segundo reza a lenda, depois de um &#x201C;estalo&#x201D;, um rel&#xE2;mpago mental que ter&#xE1; sentido diante da imagem da Senhora das Maravilhas. Foi um l&#xFA;cido alucinado. &#x201C;Definir-se e arder, isso &#xE9; amar&#x201D;, escreveu. Afogou todas as decep&#xE7;&#xF5;es no mar sem fundo da l&#xED;ngua portuguesa, que transfigurou: ainda hoje as suas palavras caminham diante de n&#xF3;s como trov&#xF5;es de uma verdade maior do que o tempo.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>In&#xEA;s Pedrosa </strong>&#xE9; jornalista e escritora portuguesa, autora do romance Fazes-me Falta, entre outros.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Essencial &#x2013; Padre Ant&#xF4;nio Vieira</em>. Organiza&#xE7;&#xE3;o e introdu&#xE7;&#xE3;o de Alfredo Bosi. Editora Penguin Classics Companhia das Letras, 760 p&#xE1;gs., R$ 35.</p> </div> Dedicado não apenas à análise de assuntos eclesiásticos mas também a questões como o amor, a morte e a justiça, o padre <strong>Antônio Vieira</strong> ganha nova edição de seus sermões 2012-01-24T12:25:11-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 173 - Janeiro 2012 Dedicado não apenas à análise de assuntos eclesiásticos mas também a questões como o amor, a morte e a justiça, o padre Antônio Vieira ganha nova edição de seus sermões Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/confissoes-de-nelson Confissões de Nelson 2012-01-11T12:19:55-02:00 Redação <p> Em 23 de agosto de 2012, o escritor e polemista pernambucano Nelson Rodrigues completaria 100 anos. Entre as comemora&#xE7;&#xF5;es do centen&#xE1;rio, que incluem montagens de suas 17 pe&#xE7;as, exposi&#xE7;&#xF5;es e relan&#xE7;amento de sua obra pela editora Nova Fronteira, est&#xE1; a divulga&#xE7;&#xE3;o do curta-metragem <em>Fragmentos de Dois Escritores</em>.</p> <p> Dirigido pelo dramaturgo Jo&#xE3;o Bethencourt em 1969, o filme mostra Nelson falando sobre si e em algumas cenas de sua rotina e tamb&#xE9;m o dramaturgo norte-americano Edward Albee. A fita, que era considerada perdida inclusive por Bethencourt, foi encontrada pelo historiador brasileiro Carlos Fico no Arquivo Nacional dos EUA. </p> <p> Assista a trechos de <em>Fragmentos de Dois Escritores</em>:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="360" width="480"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/TlOBVe6yE80?version=3&amp;hl=pt_BR"/><embed allowscriptaccess="always" height="360" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="http://www.youtube.com/v/TlOBVe6yE80?version=3&amp;hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" width="480"/></object></p> <p> Leia a mat&#xE9;ria <em>Nelson Rodrigues, o Eterno</em> sobre a contemporaneidade do escritor pernambucano na edi&#xE7;&#xE3;o de janeiro / 173.</p> Curta-metragem <em>Fragmentos de Dois Escritores</em> mostra Nelson Rodrigues contando sua história e suas indagações 2012-01-11T12:17:35-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Janeiro de 2012 Curta-metragem Fragmentos de Dois Escritores mostra Nelson Rodrigues contando sua história e suas indagações Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/inadequacao-e-marginalidade Inadequação e marginalidade 2012-01-09T17:26:55-02:00 Redação <p> Em <em>Habitante Irreal</em>, o escritor ga&#xFA;cho Paulo Scott percorre a vida de dois personagens, pai e filho, entre 1989 e os dias de hoje. A narrativa come&#xE7;a quando Paulo, um jovem militante desiludido com os rumos de seu partido, conhece a &#xED;ndia Ma&#xED;na e se encanta com a possibilidade de uma vida alternativa. E segue acompanhando Donato, filho do casal, e s&#xED;ntese das contradi&#xE7;&#xF5;es apresentadas no romance.</p> <p> <a href="http://www.calameo.com/read/0002783116229622359ba " rel=" Leia um trecho de Habitante Irreal" target="_blank">Leia um trecho de <em>Habitante Irreal</em></a></p> <p> Confira cr&#xED;tica do livro <em>Habitante Real</em>, de Paulo Scott, na edi&#xE7;&#xE3;o de janeiro/173</p> Novo romance de Paulo Scott aborda assuntos como a miséria de populações indígenas e a intolerância 2012-01-09T16:36:42-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Janeiro de 2012 Novo romance de Paulo Scott aborda assuntos como a miséria de populações indígenas e a intolerância Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/queremos-tanto-o-blue-jeans-quanto-a-cultura-islamica "Queremos tanto o <strong>Blue Jeans</strong> quanto a cultura islâmica” 2012-01-09T13:32:19-02:00 Marcelo Musa Cavallari <p> Minha literatura n&#xE3;o &#xE9; do tipo que se preocupa com o que acontece no pr&#xF3;ximo cap&#xED;tulo&#x201D;, diz o escritor Orhan Pamuk. &#x201C;O que importa n&#xE3;o &#xE9; o que vem em seguida, mas, sim, do que se trata a vida.&#x201D; Aos 59 anos, com mais de 15 milh&#xF5;es de livros vendidos em cerca de 60 pa&#xED;ses, consagrado com o Nobel de Literatura de 2006, Pamuk continua vivendo na cidade em que nasceu: a Istambul turca. Meio Europa e meio &#xC1;sia, mu&#xE7;ulmana e secular, meio Ocidente e meio Oriente M&#xE9;dio, ex-imp&#xE9;rio e pa&#xED;s emergente, a Turquia que o autor costuma retratar &#xE9; o cen&#xE1;rio para personagens &#xE0; procura da pr&#xF3;pria identidade &#x2013; uma busca que tamb&#xE9;m move o romancista.</p> <p> E &#xE9; com os olhos de quem escreve sob o compromisso de &#x201C;entender as pessoas, colocar-se no lugar delas, compreend&#xEA;-las sem as julgar&#x201D;, que Pamuk assistiu, pela TV, como quase todo mundo, &#xE0; derrubada de regimes ditatoriais do norte da &#xC1;frica, O fen&#xF4;meno teve in&#xED;cio h&#xE1; pouco mais de um ano, em dezembro de 2010, e logo recebeu o nome de Primavera &#xC1;rabe. Para o escritor, o fundamental nesse evento eminentemente pol&#xED;tico &#xE9;, mais uma vez, a busca da identidade &#x2013; ou como acomodar tend&#xEA;ncias tradicionais e modernizantes no cora&#xE7;&#xE3;o de cada habitante desses pa&#xED;ses de cultura isl&#xE2;mica que, agora, tentam abra&#xE7;ar a democracia.</p> <p> De passagem por S&#xE3;o Paulo, onde proferiu uma palestra e lan&#xE7;ou o livro <em>O Romancista Ing&#xEA;nuo e o Sentimental</em>, comp&#xEA;ndio de aulas ministradas na Universidade Harvard (Estados Unidos), Pamuk conversou com<strong> BRAVO!</strong>.</p> <p> <strong>BRAVO!: Como voc&#xEA; reagiu ao saber dos primeiros acontecimentos que dariam origem &#xE0; Primavera &#xC1;rabe?</strong></p> <p> <strong>Orhan Pamuk:</strong> Fiquei muit&#xED;ssimo feliz, especialmente no dia em que <em>(o presidente eg&#xED;pcio Hosni)</em> Mubarak caiu. Quando todas as TVs internacionais mostraram a pra&#xE7;a Tahrir, no Cairo, e a imensa alegria da multid&#xE3;o, havia quase l&#xE1;grimas nos meus olhos. Em primeiro lugar, por ver que os &#xE1;rabes estavam retomando sua dignidade. Depois, por algo que afeta todo o Isl&#xE3;. Os povos &#xE1;rabe, turco e persa s&#xE3;o povos diferentes, mas est&#xE3;o entre as principais na&#xE7;&#xF5;es da cultura isl&#xE2;mica. Mesmo sendo uma pessoa secular, fiquei bem contente em ver destru&#xED;do o preconceito orientalista de que os povos isl&#xE2;micos s&#xE3;o obedientes, de que cultuam a autoridade. Pena que, mais tarde, tive algumas suspeitas em rela&#xE7;&#xE3;o ao movimento. J&#xE1; vi tanta coisa acontecer do mesmo jeito na Turquia ao longo dos &#xFA;ltimos 50 anos que comecei a identificar certos problemas no Egito tamb&#xE9;m.</p> <p> <strong>Que problemas?</strong></p> <p> Depois da derrocada de Mubarak, a elite governante eg&#xED;pcia est&#xE1; usando a mesma chantagem junto ao Ocidente e &#xE0;s classes m&#xE9;dias secularizadas que o pr&#xF3;prio Mubarak usou: &#x201C;Por favor, apoiem-me ao governar este pa&#xED;s por meio do totalitarismo. Do contr&#xE1;rio, ele cair&#xE1; no inferno e nas m&#xE3;os do Isl&#xE3; pol&#xED;tico&#x201D;.</p> <p> <strong>Mas os partidos isl&#xE2;micos s&#xE3;o fortes e se revelaram importantes na Primavera &#xC1;rabe. N&#xE3;o h&#xE1; realmente o risco de que assumam o poder?</strong></p> <p> Talvez. Esse &#xE9; um dilema &#xE9;tico de uma situa&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica. N&#xF3;s queremos a democracia porque ela &#xE9; a escolha &#xE9;tica, e n&#xE3;o porque legitima o Ocidente ou porque &#xE9; boa para a economia. A democracia &#xE9; para as pessoas, deve estar a servi&#xE7;o das pessoas. N&#xE3;o &#xE9; algo para mostrar ao Ocidente. Os grupos pol&#xED;ticos isl&#xE2;micos t&#xEA;m uma conex&#xE3;o com o povo, e eles sabem prestar servi&#xE7;os. Essa &#xE9; uma das raz&#xF5;es de estarem em a&#xE7;&#xE3;o na Primavera &#xC1;rabe. A segunda raz&#xE3;o &#xE9; que eles s&#xE3;o m&#xE1;rtires, s&#xE3;o reprimidos. Por isso, podem fazer pose, se apresentar como v&#xED;timas e, assim, despertar a simpatia das pessoas. O pior dessa situa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; que intelectuais liberais, pr&#xF3;-Ocidente, semimodernos, seculares, ficam confusos. Vi tanto disso na Turquia... Na esquerda turca, alguns ainda p&#xF5;em a esperan&#xE7;a em golpes militares, em prender pessoas para que a na&#xE7;&#xE3;o seja secular. Outros, e estou ao lado desses, avaliam que se deve criticar ambos os lados: o governo <em>(atualmente em m&#xE3;os de um partido isl&#xE2;mico)</em>, por n&#xE3;o ser democr&#xE1;tico o bastante, e os militares, que posam de defensores do secularismo, mas agem de maneira brutal e radicalmente nacionalista.</p> <p> <strong>Nos &#xFA;ltimos anos, o Isl&#xE3; pol&#xED;tico ganhou for&#xE7;a na Turquia, ainda que adaptado &#xE0; democracia. Voc&#xEA; acha isso poss&#xED;vel no Egito?</strong></p> <p> Parece-me f&#xFA;til fazer previs&#xF5;es. H&#xE1; tantas varia&#xE7;&#xF5;es de sombras e cores interessantes... No fim das contas, &#xE9; preciso ver como os dilemas de que falei se refletem na mentalidade de cada um. Eu exploro e dramatizo essa tens&#xE3;o no meu romance <em>Neve</em>, em que um personagem tem os dois lados: ele faz parte da na&#xE7;&#xE3;o, de seus valores, n&#xE3;o quer parecer um agente ocidental, mas tamb&#xE9;m defende a democracia, os direitos das mulheres, a liberdade de express&#xE3;o e o respeito pela diversidade, o que aparenta estar em contradi&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica com a comunidade isl&#xE2;mica conservadora. Devemos encarar isso n&#xE3;o como dois partidos da Primavera &#xC1;rabe, mas como dois sentimentos no esp&#xED;rito de uma &#xFA;nica pessoa. No fundo, todos n&#xF3;s queremos modernidade, sof&#xE1;s confort&#xE1;veis, &#xE1;gua quente encanada e <em>blue jeans</em> &#x2013; &#xE0; semelhan&#xE7;a da juventude sovi&#xE9;tica, que queria <em>blue jeans</em>. No entanto, tamb&#xE9;m gostamos de nossas casas e de roupas antigas. Queremos abra&#xE7;ar o passado cultural de nossa na&#xE7;&#xE3;o. S&#xE3;o desejos contradit&#xF3;rios, que cada um de n&#xF3;s carrega no cora&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> <strong>Se a democracia, como voc&#xEA; diz, &#xE9; uma escolha &#xE9;tica e a religi&#xE3;o &#xE9;, para muita gente, a principal fonte de escolhas &#xE9;ticas, pode-se considerar que o Isl&#xE3; seja uma fonte para a democracia?</strong></p> <p> Sim. Muitas pessoas come&#xE7;am a entender e discutir o que chamamos de <em>shura</em> <em>(&#x201C;consulta&#x201D;, em &#xE1;rabe, um conceito presente no </em>Cor&#xE3;o<em> que aconselha governantes isl&#xE2;micos a ouvir aqueles que ser&#xE3;o afetados por suas decis&#xF5;es)</em>. Tornar o Isl&#xE3; compat&#xED;vel com a democracia &#xE9; tamb&#xE9;m uma quest&#xE3;o de interpreta&#xE7;&#xE3;o. A interpreta&#xE7;&#xE3;o torna qualquer coisa poss&#xED;vel. N&#xE3;o sou uma pessoa religiosa, mas prefiro argumentar a favor da democracia para um pa&#xED;s isl&#xE2;mico por meio da <em>shura</em>, ou de qualquer outro mecanismo que se encontre na cultura cl&#xE1;ssica. Melhor isso do que Bush nos mandando avi&#xF5;es e bombas sob o pretexto de que trar&#xE3;o a democracia.</p> <p> <strong>O que &#xE9; de fato real na maneira como o mundo est&#xE1; vendo a Primavera &#xC1;rabe e a celebrando?</strong></p> <p> H&#xE1; muita coisa com que se pode ficar feliz. Os ditadores ca&#xED;ram e o mais importante &#xE9; que, agora, o povo est&#xE1; claramente no jogo. Isso &#xE9; o suficiente por um ano. Vamos ver o que acontece daqui para a frente.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Marcelo Musa Cavallari</strong> &#xE9; jornalista.</p> </div> O romancista turco <strong>Orhan Pamuk </strong>reflete sobre as contradições que cada protagonista da Primavera Árabe enfrenta ao lutar pela democracia em países muçulmanos 2012-01-09T13:30:19-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 173 - Janeiro 2012 O romancista turco Orhan Pamuk reflete sobre as contradições que cada protagonista da Primavera Árabe enfrenta ao lutar pela democracia em países muçulmanos Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/crente-cetico-e-cinico Crente, Cético e Cínico 2011-12-29T11:07:42-02:00 André Nigri <p> Imaginemos tr&#xEA;s avatares de Umberto Eco sentados em uma sala repleta de livros. Um deles &#xE9; o semioticista. Outro, o c&#xE9;tico inabal&#xE1;vel. O terceiro &#xE9; o c&#xED;nico, com um sorrisinho no canto dos l&#xE1;bios. Enquanto o primeiro garante que o mundo &#xE9; uma teia de signos a serem decodificados, o segundo afirma que o Universo &#xE9; uma soma absurda de acasos cujo controle n&#xE3;o nos &#xE9; facultado. Quando chega sua vez, o c&#xED;nico sentencia: &#x201C;As pessoas s&#xF3; creem naquilo que sabem&#x201D;. Qual dos tr&#xEA;s &#xE9; o verdadeiro Umberto Eco? Os tr&#xEA;s.</p> <p> A frase pronunciada pelo c&#xED;nico consta do mais recente livro do autor italiano, <em>O Cemit&#xE9;rio de Praga</em>, romance lan&#xE7;ado no Brasil no m&#xEA;s passado com explosivo sucesso de cr&#xED;tica e de p&#xFA;blico &#x2013; no total, j&#xE1; vendeu mais de 1 milh&#xE3;o de exemplares, e, por aqui, bateu o n&#xFA;mero das 40 mil c&#xF3;pias e caminha para a terceira edi&#xE7;&#xE3;o. Com esse novo &#x201C;suspense erudito&#x201D;, g&#xEA;nero que Eco fundou e de que &#xE9; mestre, sua literatura destila uma bile debochada.</p> <p> Conhecidos h&#xE1; muito tempo nos meios intelectuais, os ensaios de semi&#xF3;tica de Eco eram, nas d&#xE9;cadas de 1960 e 70, missais nas carteiras de universit&#xE1;rios mundo afora. Em um de seus livros mais incensados, <em>Obra Aberta</em>, de 1962, ele teoriza sobre a arte contempor&#xE2;nea, analisando o conte&#xFA;do amb&#xED;guo das cria&#xE7;&#xF5;es e a possibilidade de o p&#xFA;blico ser o seu int&#xE9;rprete supremo. Estamos diante do Eco semioticista, que acredita piamente na decifra&#xE7;&#xE3;o dos signos.</p> <p> Em 1980, o autor surpreendentemente publica <em>O Nome da Rosa</em>, seu primeiro <em>best-seller</em>. O romance, que alcan&#xE7;ou a casa dos milh&#xF5;es de c&#xF3;pias vendidas e virou filme em 1986, gira em torno de monges envenenados e um livro desconhecido de Arist&#xF3;teles sobre a com&#xE9;dia. Nas d&#xE9;cadas seguintes, o intelectual v&#xEA; desalentado o surgimento dos gen&#xE9;ricos de seu suspense erudito: t&#xED;tulos do brasileiro Paulo Coelho e do norte-americano Dan Brown, autor de <em>O C&#xF3;digo da Vinci</em>. Chegou ironicamente a lamentar ter sido o respons&#xE1;vel por esses fen&#xF4;menos em uma entrevista ao jornal espanhol <em>El Pa&#xED;s</em> &#x2013; disse que escreveu <em>O Nome da Rosa</em> n&#xE3;o porque acreditasse em teorias conspirat&#xF3;rias, mas porque &#xE9; um medievalista leitor de livros de suspense e queria divertir os outros. &#x201C;Voc&#xEA; pode admirar uma comunidade de r&#xE3;s, mas n&#xE3;o precisa crer que &#xE9; uma delas.&#x201D; Aqui, fala o Eco c&#xE9;tico.</p> <p> No final de 2010, passados 30 anos de seu primeiro romance, Eco lan&#xE7;a <em>O Cemit&#xE9;rio de Praga</em>, repleto de mist&#xE9;rio, falsos documentos, erudi&#xE7;&#xE3;o, personagens hist&#xF3;ricos e um narrador fict&#xED;cio, o tempo todo eivado de amargura e de um humor &#xE1;cido, que aponta o escritor franc&#xEA;s Alexandre Dumas como um profundo conhecedor do esp&#xED;rito humano por saber que sempre achamos que existe uma conspira&#xE7;&#xE3;o contra n&#xF3;s. Eis o Eco c&#xED;nico.</p> <p> <strong>Truque Repugnante</strong></p> <p> Se, em princ&#xED;pio, os tr&#xEA;s Ecos parecem n&#xE3;o se misturar, eles se embaralham de tal forma que confundem os cr&#xED;ticos. Quando se converteu num romancista de sucesso, o italiano se tornou alvo de colegas acad&#xEA;micos. Alguns o viram como um esfor&#xE7;ado &#x2013; e fracassado &#x2013; herdeiro de Jorge Luis Borges e Italo Calvino, ficcionistas que mobilizaram um vasto repert&#xF3;rio da Antiguidade cl&#xE1;ssica e medieval na costura de suas obras.</p> <p> J&#xE1; Ian Thomson, bi&#xF3;grafo de Primo Levi, um dos mais importantes escritores italianos do p&#xF3;s-guerra, considera Eco um equivalente bruto do franc&#xEA;s Roland Barthes, papa da semi&#xF3;tica e fonte na qual o italiano bebeu. Mas um Barthes sem o talento para subverter e um p&#xF3;s-moderno sem o tino de Borges, como registra uma reportagem do jornal brit&#xE2;nico <em>The Guardian</em>. Romancistas de porte como o anglo-indiano Salman Rushdie e o ingl&#xEA;s Will Self veem Eco com grandes ressalvas. Para Self, ele lan&#xE7;a m&#xE3;o de um truque repugnante: produz uma obra superficial e pretensamente &#x201C;intelectual&#x201D;, embora fa&#xE7;a os leitores acreditarem que se trata de literatura elevada.</p> <p> A vasta produ&#xE7;&#xE3;o &#xE9; outro ponto de aten&#xE7;&#xE3;o dos cr&#xED;ticos. Para os padr&#xF5;es acad&#xEA;micos &#x2013; mais inclinados a corridas longas e de fundo &#x2013;, Eco &#xE9; um velocista e tanto. S&#xF3; em fic&#xE7;&#xE3;o, publicou entre 1980 e 2010 seis romances. Em cinco d&#xE9;cadas de universidade, mais de 30 livros acad&#xEA;micos.</p> <p> <strong>Idade m&#xE9;dia e disneyl&#xE2;ndia</strong></p> <p> Al&#xE7;ado ao estrelato na d&#xE9;cada de 1980, Eco ainda &#xE9;, aos 79 anos, uma esp&#xE9;cie de celebridade que transita da alta cultura ao pop. Desde o in&#xED;cio de sua carreira acad&#xEA;mica, revelou-se um sofisticado analista dos produtos feitos para a sociedade de consumo. Sua leitura sobre fen&#xF4;menos de massa &#x2013; como o filme <em>Casablanca</em>, que acredita ser uma recria&#xE7;&#xE3;o da mitologia em vers&#xE3;o moderna &#x2013; &#xE9; um requinte a que poucos intelectuais se permitem. O italiano nunca escondeu tamb&#xE9;m o fasc&#xED;nio pela Disneyl&#xE2;ndia: escreveu sobre a cidade inventada e suas atra&#xE7;&#xF5;es no ensaio <em>Viagem na Irrealidade Cotidiana</em>.</p> <p> Da mesma forma, estamos diante de um dos maiores eruditos e conhecedores de religi&#xE3;o e hist&#xF3;ria medieval da Europa, paix&#xE3;o que come&#xE7;ou quando ainda era estudante na Universidade de Turim, onde defendeu sua tese de doutorado sobre s&#xE3;o Tom&#xE1;s de Aquino, publicada em 1956. Nessa mesma d&#xE9;cada de 1950, Eco fazia programas culturais na nascente RAI, a rede de televis&#xE3;o italiana, enquanto intelectuais liderados pelo alem&#xE3;o Theodor Adorno atacavam pesadamente essa m&#xED;dia. Os ensa&#xED;stas da chamada Escola de Frankfurt pregavam que a TV era um meio alienador para as massas e ele contra-atacava: &#x201C;Elaborei uma vis&#xE3;o de que esse instrumento poderia ser usado de diferentes maneiras. A televis&#xE3;o desempenhou um papel imenso na unifica&#xE7;&#xE3;o lingu&#xED;stica da It&#xE1;lia, que ainda era um pa&#xED;s de dialetos&#x201D;.</p> <p> O Eco c&#xE9;tico, admirador das r&#xE3;s, que atribui ao fim do mil&#xEA;nio, e n&#xE3;o ao mero acaso, a responsabilidade por hoje as pessoas acreditarem em qualquer coisa, se enche de cinismo e faz de <em>O Cemit&#xE9;rio de Praga</em> uma obra representante de seu lado mais debochado. No novo livro, o ponto central da trama &#xE9; a elabora&#xE7;&#xE3;o de <em>Os Protocolos dos S&#xE1;bios de Si&#xE3;o</em>, um texto falso que detalha um congresso entre poderosos rabinos europeus no cemit&#xE9;rio de Praga para destruir a civiliza&#xE7;&#xE3;o crist&#xE3; e as institui&#xE7;&#xF5;es do Ocidente.</p> <p> Calcado em personalidades e fatos hist&#xF3;ricos, tem um &#xFA;nico personagem fict&#xED;cio, segundo Eco: Simone Simonini, o tabeli&#xE3;o rabugento, violento, desconfiado e nada confi&#xE1;vel. Aparentemente, o autor nos conta uma hist&#xF3;ria que questiona e demole tudo: anticlerical, antipsicanal&#xED;tica, antissemita, anticomunista e anticapitalista. Mas, no fundo, est&#xE1; pregando justo o contr&#xE1;rio: j&#xE1; que nossas cren&#xE7;as nunca s&#xE3;o inabal&#xE1;veis, podemos acreditar no que quer que seja.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Andr&#xE9; Nigri </strong>&#xE9; jornalista.</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>O Cemit&#xE9;rio de Praga, </em>de Umberto Eco. Record, 480 p&#xE1;gs., R$ 49,90</p> </div> As três facetas se alternam na vasta produção do escritor italiano Umberto Eco. Em “O Cemitério de Praga”, seu romance mais recente, a que predomina é a debochada 2011-12-29T11:07:42-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 172 - Dezembro 2011 As três facetas se alternam na vasta produção do escritor italiano Umberto Eco. Em “O Cemitério de Praga”, seu romance mais recente, a que predomina é a debochada Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/obra-prima-em-quadrinhos Obra-Prima em Quadrinhos 2011-12-29T11:02:19-02:00 Antônio Xerxenesky <p> J&#xE1; faz um bom tempo que as hist&#xF3;rias em quadrinhos deixaram de ser vistas como um produto da &#x201C;baixa cultura&#x201D; e associadas a escapismo e entretenimento barato. <em>Maus</em>, de Art Spiegelman, uma <em>graphic novel</em> sobre o Holocausto, foi fundamental para essa mudan&#xE7;a de paradigma. Em 1992, rendeu a Spiegelman o pr&#xEA;mio Pulitzer e provou para o mundo que os quadrinhos podem ser ve&#xED;culos de narrativas complexas e s&#xE9;rias. Desde ent&#xE3;o, poucas HQs provocaram tanto estardalha&#xE7;o como <em>Asterios Polyp</em>, do norte-americano David Mazzucchelli. Recheada de refer&#xEA;ncias hist&#xF3;ricas, liter&#xE1;rias e gr&#xE1;ficas, venceu pr&#xEA;mios importantes de seu g&#xEA;nero, como o Eisner Awards, e vem sendo considerada uma obra-prima.</p> <p> O livro conta a hist&#xF3;ria de Asterios Polyp, um professor de arquitetura de meia-idade que nunca teve nenhum de seus projetos constru&#xED;dos. Ap&#xF3;s ver sua casa pegar fogo, ele parte em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. O leitor vai conhecendo o que o levou at&#xE9; esse ponto por meio de <em>flashbacks </em>narrados por Ignazio, o g&#xEA;meo natimorto de Asterios. Seus dramas giram em torno do relacionamento com Hana, a mulher que o abandonou. Enquanto Asterios &#xE9; frio e racional, Hana se revela uma pessoa pr&#xE1;tica e emocional &#x2013; apenas um dos in&#xFA;meros dualismos que a obra apresenta.</p> <p> <strong>Modernismo e Mitologia Grega</strong></p> <p> Cada personagem, no tra&#xE7;o de Mazzucchelli, tem contornos e cores diferentes, al&#xE9;m de falarem com variadas fontes tipogr&#xE1;ficas. Asterios &#xE9; pintado em azul, com tra&#xE7;os retos de clara influ&#xEA;ncia modernista, enquanto a silhueta de Hana est&#xE1; composta em vermelho, com contornos fluidos. Esse uso simb&#xF3;lico de tons e tra&#xE7;os ultrapassa a caracteriza&#xE7;&#xE3;o dos personagens para mostrar tamb&#xE9;m o quanto cada um deles est&#xE1; aferrado a seus pontos de vista: Asterios ver&#xE1; o mundo de forma ordenada e quadrada, enquanto Hana enxergar&#xE1; fus&#xE3;o e desordem. S&#xE3;o seres incapazes de se comunicar, e toda a HQ pode ser lida como uma narrativa que progride na busca de romper essa dificuldade.</p> <p> Essa, por&#xE9;m, &#xE9; apenas uma de muitas maneiras de ler <em>Asterios Polyp</em>, que j&#xE1; foi analisada de todos os &#xE2;ngulos poss&#xED;veis pela cr&#xED;tica. Calcada na mitologia grega, como o sobrenome de Asterios sugere (Polyp &#xE9; derivado de Polyphemus, o ciclope), a HQ pode ser interpretada, por exemplo, como um eco da jornada de Ulisses em <em>A Odisseia</em> pelas diversas prova&#xE7;&#xF5;es que os protagonistas enfrentam. Mas se engana quem pensa que isso faz de <em>Asterios Polyp </em>uma obra herm&#xE9;tica ou demasiadamente cerebral. Mesmo lida como uma simples hist&#xF3;ria de amor, a obra ainda traz um forte impacto emocional. Talvez o r&#xF3;tulo de &#x201C;obra-prima dos quadrinhos&#x201D; n&#xE3;o seja um exagero, afinal de contas.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Ant&#xF4;nio Xerxenesky</strong> &#xE9; escritor, autor de A P&#xE1;gina Assombrada por Fantasmas (Rocco).</p> </div><div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Asterios Polyp, </em>de David Mazzucchelli. Companhia das Letras. 344 p&#xE1;gs., R$ 63.</p> </div> “Asterios Polyp”, de David Mazzucchelli, revela-se uma “graphic novel” ambiciosa, repletade dualismos e referências eruditas 2011-12-29T11:02:19-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 172 - Dezembro 2011 “Asterios Polyp”, de David Mazzucchelli, revela-se uma “graphic novel” ambiciosa, repletade dualismos e referências eruditas Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/escritor-movido-polemica-alcool Um escritor movido a polêmica e álcool 2011-12-16T16:48:16-02:00 Paulo Nogueira <p> Christopher Hitchens esteve recentemente em Lisboa para uma concorrida palestra e protagonizou uma saturnal que incluiu os tr&#xEA;s restaurantes lusos mais colun&#xE1;veis: Bica do Sapato, Gambrinus e Fialho. Hitchens n&#xE3;o para: dias depois, em Londres e Nova York, lan&#xE7;ou as suas mem&#xF3;rias (como o cronista Carlos Heitor Cony com as dele, n&#xE3;o quer cham&#xE1;-las de autobiografia e pela mesma raz&#xE3;o: demasiado fragment&#xE1;rias). Sim, Hitchens n&#xE3;o para, embora nem sempre avance em linha reta. Primeiro, porque parece movido a &#xE1;lcool (n&#xE3;o necessariamente etanol). Segundo, por causa das suas guinadas tem&#xE1;ticas e ideol&#xF3;gicas. Um ponto, pelo menos, fixei: "Qual seu u&#xED;sque preferido?" (gosto de checar o combust&#xED;vel dos outros pilotos). "Johnnie Walker!" Ele pede para reabastecer o copo sempre com a mesma senha: "Um xerox, por favor".N&#xE3;o digo que as mem&#xF3;rias saiam agora para evitar que a amn&#xE9;sia alco&#xF3;lica borre tudo. At&#xE9; porque a metralhadora girat&#xF3;ria do cr&#xED;tico e ensa&#xED;sta anglo-americano continua a cuspir fogo em trincheiras como as revistas <em>Slate</em>, <em>The New Republic</em> e <em>Vanity Fair</em>. Reza a lenda que, desde a d&#xE9;cada de 1970, ele produz mil irrepreens&#xED;veis palavras por dia, mesmo depois de v&#xE1;rias rondas por pubs e de v&#xE1;rias "pen&#xFA;ltimas". A sua confraria em Londres &#xE9; ilustre: os romancistas Salman Rushdie, Ian McEwan e Martin Amis (os quatro mosqueteiros ou, dependendo da perspectiva, os cavaleiros do Apocalipse). Havia ainda um quinto mosqueteiro: Julian Barnes, exclu&#xED;do da trupe depois de um arranca-rabo com Amis. Hitchens &#xE9; o &#xFA;nico que n&#xE3;o se aventurou na fic&#xE7;&#xE3;o (se n&#xE3;o contarmos com as armas de destrui&#xE7;&#xE3;o em massa no Iraque, que ele acreditava sinceramente existirem). O livro de mem&#xF3;rias intitula-se <em>Hitch 22</em> e deve chegar ao Brasil no come&#xE7;o de 2011, pela Agir. O nome remete ao cl&#xE1;ssico antib&#xE9;lico de Joseph Heller, o romance <em>Ardil 22</em>. &#xC9; uma obra pouco confessional: Hitchens passa quase batido pelos pais, n&#xE3;o obstante a sua m&#xE3;e, j&#xE1; depois da maturidade dos filhos, ter deixado o marido pelo amante, com o qual cometeu suic&#xED;dio em Atenas. Em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s mulheres, &#xE9; lac&#xF4;nico (droga, nem uma v&#xED;rgula picante sobre o seu caso com a dominatrix Anna Wintour, a editora da revista <em>Vogue</em> americana que gerou o papel de Meryl Streep no filme <em>O Diabo Veste Prada</em>!). A inopinada exce&#xE7;&#xE3;o &#xE9; Margaret Thatcher, ex-primeira ministra brit&#xE2;nica, a quem ele adorava odiar e era pago na mesma moeda. Durante o governo da Dama de Ferro, Hitchens bancava o rei Arthur da esquerda liter&#xE1;ria, brandindo a sua Excalibur sem d&#xF3; nem piedade. Fatiou o diplomata Henry Kissinger (Pr&#xEA;mio Nobel da Paz em 1973) e Madre Teresa de Calcut&#xE1;. Alinhavou an&#xE1;lises penetrantes sobre os escritores George Orwell e Tom Paine. Pausa para mais um xerox ser regado no copo. "N&#xE3;o sou um dependente", grunhe Hitchens. "Bebo para tornar as pessoas menos chatas." Uma frase que lembra um epigrama do cr&#xED;tico teatral George Jean Nathan: "Bebo para tornar os outros interessantes". Algu&#xE9;m observa que, se &#xE9; assim, quando Hitchens est&#xE1; com o sedutor Martin Amis, n&#xE3;o bebe. "Hum, na verdade, bebo&#x2026;" Com o 11 de Setembro de 2001, tudo mudou, tipo epifania. Hitchens formulou o conceito de "islamo-fascismo" e apoiou a invas&#xE3;o do Iraque, mas sem deixar em nenhum momento de se proclamar marxista. Ao contr&#xE1;rio de outros intelectuais norte-americanos, como Susan Sontag, Noam Chomsky e Gore Vidal, n&#xE3;o transferiu a culpa dos ataques terroristas para os Estados Unidos, que teriam colhido o que semearam. Por isso, acabou estigmatizado como vira-casaca. Ainda assim, continuou a escrever - n&#xE3;o com luva de pelica, mas de boxe. Sem d&#xFA;vida, um dos p&#xE1;reos mais duros dele foi Deus, com quem se engalfinhou em <em>Deus N&#xE3;o &#xC9; Grande</em> (2007), o seu best-seller. Ganhou um dinheir&#xE3;o e brotaram outros an&#xE1;temas: de que "sempre" fora um capitalista, obcecado com as coisas boas da vida. Acha que a riqueza afeta a opini&#xE3;o? "Claro! Afinal, sou um marxista!" A verdade &#xE9; que Hitchens n&#xE3;o fustiga "apenas" a imola&#xE7;&#xE3;o assassina dos terroristas suicidas e o obscurantismo da burca e da lapida&#xE7;&#xE3;o das mulheres no fundamentalismo isl&#xE2;mico. "Se considero a nossa civiliza&#xE7;&#xE3;o superior? Sim! Se acho que vale a pena lutar por ela? Sim!"</p> <p> <strong>"Migra&#xE7;&#xE3;o ritual para a direita"</strong></p> <p> Hitchens &#xE9; sobretudo um literato, com uma cultura vasta e uma ret&#xF3;rica demon&#xED;aca e espirituosa: "Os homicidas do 11/9 foram tentados pelas virgens do Para&#xED;so mu&#xE7;ulmano. No entanto, o mais revoltante &#xE9; que, como muitos dos seus pares da jihad, eles pr&#xF3;prios eram virgens". Nas suas mem&#xF3;rias, prop&#xF5;e a si mesmo o c&#xE9;lebre "question&#xE1;rio de Proust". &#xC0; pergunta "qual a sua caracter&#xED;stica mais marcante?", a desconcertante resposta: "A inseguran&#xE7;a". Ele admite ter "vivido consistentemente uma vida de inconsist&#xEA;ncia". No contexto brasileiro, lembra o jornalista Paulo Francis.</p> <p> No &#xFA;ltimo cap&#xED;tulo de <em>Hitch 22</em>, o autor responde &#xE0; acusa&#xE7;&#xE3;o de Julian Barnes de que tenha feito "a migra&#xE7;&#xE3;o ritual para a direita". Alega que evoluiu como pensador pol&#xED;tico, trocando as ilus&#xF3;rias e contraproducentes utopias da juventude pela sofrida e realista sabedoria da meia-idade.</p> <p> Outro dia, o poeta Ferreira Gullar desabafou: "Sou incoerente, e a minha obra &#xE9; incoerente". Eureca! Eis a pista que faltava. N&#xE3;o s&#xF3; no caso de Hitchens, mas de outros autores discut&#xED;veis e discutidos, temos tr&#xEA;s op&#xE7;&#xF5;es: 1) Baixamos o sarrafo, 2) Entronizamos o autor, 3) Ficamos em cima do muro, desde que ele n&#xE3;o seja nem os cacos de Berlim nem a Muralha da China.</p> <p> &#xA0;</p> <p> PAULO NOGUEIRA <em>&#xE9; escritor e jornalista. Vive em Lisboa e &#xE9; autor de</em> O Suicida Feliz<em>, entre outros romances.</em></p> Num contundente livro de memórias, Christopher Hitchens demonstra por que se tornou o flagelo da esquerda intolerante, da direita raivosa e das garrafas de uísque Johnnie Walker 2011-06-02T14:27:21-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Dezembro/2010 Num contundente livro de memórias, Christopher Hitchens demonstra por que se tornou o flagelo da esquerda intolerante, da direita raivosa e das garrafas de uísque Johnnie Walker Literatura ALFA BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/noticias-tumorlandia Notícias da Tumorlândia 2011-12-16T14:31:12-02:00 <p> &#xE1; acordei mais de uma vez com a sensa&#xE7;&#xE3;o de morte. Mas n&#xE3;o estava preparado para aquela manh&#xE3; de junho passado, quando despertei sentindo-me como que acorrentado a meu pr&#xF3;prio cad&#xE1;ver. Todo o interior do meu peito parecia ter sido escavado e depois preenchido com cimento de secagem lenta. Eu podia ouvir levemente meu respirar, mas n&#xE3;o conseguia inflar os pulm&#xF5;es. Meu cora&#xE7;&#xE3;o batia demais ou de menos. Qualquer movimento, por mais t&#xEA;nue que fosse, exigia prud&#xEA;ncia e planejamento. Foi necess&#xE1;rio um esfor&#xE7;o intenso para atravessar o meu quarto de hotel em Nova York e chamar o servi&#xE7;o de emerg&#xEA;ncia. Eles chegaram com rapidez e se comportaram com imensa cortesia e profissionalismo. Tive tempo para pensar por que eles precisavam de tantas botas e capacetes e equipamentos pesados, mas agora, quando vejo a cena em retrospecto, entendo tudo como uma deporta&#xE7;&#xE3;o muito tranquila e firme, que me leva do pa&#xED;s do bem-estar e cruza a austera fronteira que delimita a terra da doen&#xE7;a. Em algumas horas, pois tiveram que fazer muitos procedimentos de emerg&#xEA;ncia em meu cora&#xE7;&#xE3;o e meus pulm&#xF5;es, os m&#xE9;dicos dessa triste fronteira mostraram-me alguns cart&#xF5;es-postais do interior e disseram-me que minha pr&#xF3;xima parada teria que ser em um oncologista. Uma sombra caiu sobre os negativos. Na noite anterior, eu lan&#xE7;ara meu &#xFA;ltimo livro em um grande evento em New Haven. Na noite dessa terr&#xED;vel manh&#xE3;, eu deveria aparecer no <em>The Daily Show (programa televisivo que satiriza as not&#xED;cias do dia) e, depois, participar de um evento no Upper East Side, juntamente com Salman Rushdie. Minha curta campanha de nega&#xE7;&#xE3;o teve a seguinte forma: n&#xE3;o iria cancelar esses compromissos ou desapontar meus amigos e nem perder a chance de vender um monte de livros. Consegui passar por esses dois eventos sem que ningu&#xE9;m percebesse nada de estranho, apesar de ter vomitado duas vezes - com uma combina&#xE7;&#xE3;o extraordin&#xE1;ria de precis&#xE3;o, clareza, viol&#xEA;ncia e profus&#xE3;o - pouco antes de cada apresenta&#xE7;&#xE3;o. Isso &#xE9; o que os habitantes do pa&#xED;s da doen&#xE7;a fazem enquanto ainda est&#xE3;o desesperadamente agarrados a seu antigo domic&#xED;lio. A nova terra &#xE9; bastante acolhedora a seu modo. Todo mundo sorri encorajadoramente e parece n&#xE3;o haver racismo de forma alguma. Um esp&#xED;rito igualit&#xE1;rio generalizado prevalece e, obviamente, aqueles que administram o local chegaram aonde est&#xE3;o por m&#xE9;rito e trabalho duro. A desvantagem &#xE9; que o humor &#xE9; um tanto fraco e repetitivo, parece n&#xE3;o haver quase nenhuma refer&#xEA;ncia a sexo, e a comida &#xE9; a pior de todos os lugares que j&#xE1; visitei. O pa&#xED;s tem uma linguagem pr&#xF3;pria - uma l&#xED;ngua franca que consegue ser chata e dif&#xED;cil e que cont&#xE9;m nomes como Ondansetron, uma medica&#xE7;&#xE3;o antin&#xE1;usea - bem como alguns gestos inquietantes (...). Por exemplo, um funcion&#xE1;rio que voc&#xEA; acabou de conhecer poder&#xE1; afundar abruptamente os dedos em seu pesco&#xE7;o. Foi assim que descobri que meu c&#xE2;ncer havia se espalhado para os linfonodos e que uma dessas belezas deformadas, localizada na minha clav&#xED;cula direita, era grande o suficiente para ser vista e apalpada. N&#xE3;o &#xE9; nada bom quando o c&#xE2;ncer &#xE9; "palp&#xE1;vel". Especialmente quando, nessa fase, n&#xE3;o se sabe onde &#xE9; sua fonte prim&#xE1;ria. O carcinoma trabalha astuciosamente de dentro para fora. A detec&#xE7;&#xE3;o e o tratamento muitas vezes agem mais lenta e cautelosamente, de fora para dentro. Muitas agulhas foram enfiadas na regi&#xE3;o da minha clav&#xED;cula - "O tecido &#xE9; o que importa" poderia ser um bom slogan no linguajar da Tumorl&#xE2;ndia - e me disseram que os resultados da bi&#xF3;psia sairiam em uma semana. Es&#xF4;fago O trabalho com as escamosas c&#xE9;lulas cancer&#xED;genas descobertas nos primeiros resultados levou mais tempo do que isso para mostrar a desagrad&#xE1;vel verdade. A palavra "met&#xE1;stase" foi a primeira do relat&#xF3;rio que chamou minha aten&#xE7;&#xE3;o. O alien&#xED;gena colonizara um peda&#xE7;o do meu pulm&#xE3;o, al&#xE9;m de uma parte do meu n&#xF3;dulo linf&#xE1;tico. E sua base de opera&#xE7;&#xF5;es original localizava-se - j&#xE1; havia algum tempo - no meu es&#xF4;fago. Meu pai morreu, e muito rapidamente, tamb&#xE9;m de c&#xE2;ncer do es&#xF4;fago. Ele tinha 79 anos. Eu tenho 61. Independentemente do tipo de "corrida" que a vida seja, tornei-me abruptamente um finalista. Tinha planos reais para a minha pr&#xF3;xima d&#xE9;cada e sinto que havia trabalhado duro o suficiente para merec&#xEA;-la. Ser&#xE1; que n&#xE3;o viverei para ver meus filhos casados? Para assistir ao World Trade Center subir de novo? Para ler - ou mesmo escrever - os obitu&#xE1;rios de velhos calhordas, como Henry Kissinger e Joseph Ratzinger? Mas entendo esse tipo de n&#xE3;o-pensamento como aquilo que ele &#xE9;: sentimentalismo e autopiedade. Logicamente, meu livro chegou &#xE0; lista dos best-sellers no dia em que recebi a mais cruel das not&#xED;cias e, al&#xE9;m disso, meu &#xFA;ltimo voo como uma pessoa saud&#xE1;vel (para um p&#xFA;blico bem grande na Feira do Livro de Chicago) foi o que resultou em 1 milh&#xE3;o de milhas voadas pela United Airlines, com uma vida inteira de upgrades gratuitos pela frente. A ironia &#xE9; o meu neg&#xF3;cio, mas n&#xE3;o consigo ver nenhuma ironia aqui: seria menos triste ter c&#xE2;ncer no dia em que minhas mem&#xF3;rias fossem um fiasco de bilheteria ou em que eu fosse exclu&#xED;do da classe econ&#xF4;mica e largado na pista? &#xC0; pergunta idiota "por que eu?", o universo indiferentemente responde: por que n&#xE3;o? ----------------------------- Tradu&#xE7;&#xE3;o de Diana Ricci Aranha</em></p> Christopher Hitchens voltou a chacoalhar a intelligentsia norte-americana ao revelar, num artigo da revista "Vanity Fair", que sofre de câncer. BRAVO! reproduz uma parte do texto, publicado originalmente em setembro 2011-06-02T14:28:59-03:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Dezembro/2010 Christopher Hitchens voltou a chacoalhar a intelligentsia norte-americana ao revelar, num artigo da revista "Vanity Fair", que sofre de câncer. BRAVO! reproduz uma parte do texto, publicado originalmente em setembro Literatura ALFA BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/como-te-amo-deixa-eu-contar-os-modos "Como te amo? Deixa eu contar os modos” 2011-12-14T12:50:38-02:00 Mariana Delfini <p> Em meados do s&#xE9;culo 19, nascia na Inglaterra o cocker spaniel dourado Flush. Depois eternizado como o sens&#xED;vel protagonista que d&#xE1; nome a um livro de Virginia Woolf, o cachorrinho j&#xE1; em vida prestou-se a importante papel. Foi companhia da poeta Elizabeth Barrett Browning (1806-1861) e c&#xFA;mplice de sua fuga para a ensolarada It&#xE1;lia com o marido, Robert Browning (1812-1889). Se o romance de Virginia usa o ponto de vista do c&#xE3;o para descrever os ambientes e os restritivos costumes da era vitoriana, na vida real Flush se tornou personagem das cartas trocadas entre os amantes. Aconchegado ao p&#xE9; de Elizabeth em sua alcova de Londres, que Virginia compara a uma &#x201C;cripta incrustrada de mofo, escorregadia de limo, exalando cheiros acres de apodrecimento e de antiguidade&#x201D;, o mascote testemunhou uma das mais rom&#xE2;nticas hist&#xF3;rias de amor registradas pela literatura.</p> <p> Pouco lida hoje no Brasil, Elizabeth foi um dos principais nomes da poesia vitoriana, contempor&#xE2;nea dos romancistas Charles Dickens, Lewis Carroll e das irm&#xE3;s Bront&#xEB;. Ainda adolescente, escreveu e traduziu poemas e, em 1844, depois de publicar versos em peri&#xF3;dicos, lan&#xE7;ou uma colet&#xE2;nea de suas produ&#xE7;&#xF5;es. Em janeiro do ano seguinte, cumpria sua rotina intelectual &#x2013; sempre reclusa, em resguardo motivado por doen&#xE7;as misteriosas e baques emocionais sucessivos &#x2013; quando um remetente desconhecido lhe endere&#xE7;ou uma carta. Robert Browning, tamb&#xE9;m poeta, seis anos mais jovem do que ela, escreveu: &#x201C;Amo seus versos com todo o meu cora&#xE7;&#xE3;o (...) e amo voc&#xEA; igualmente&#x201D;.</p> <p> Primeira das centenas de cartas que ambos compartilhariam, a missiva de Browning se derrama em uma paix&#xE3;o que tomaria conta tamb&#xE9;m de Elizabeth. Mais do que transmitir o amor dos poetas, as correspond&#xEA;ncias o constroem e alimentam com palavras; estimulam Elizabeth a tal ponto que, mesmo proibida pelo pai vi&#xFA;vo de se casar, ela marca encontros clandestinos com Browning. Em poucos meses, casa-se em segredo e foge com ele para a It&#xE1;lia.</p> <p> A reclus&#xE3;o, as cartas e a fuga valeriam apenas um rodap&#xE9; biogr&#xE1;fico caso Elizabeth n&#xE3;o tivesse feito dessa aventura rom&#xE2;ntica sua obra mais atemporal. <em>Sonetos da Portuguesa</em>, que ela publica tr&#xEA;s anos depois do casamento, registra em 44 poemas cada momento do relacionamento dos Browning &#x2013; &#x201C;...o da recusa inicial da amada, o do cont&#xE1;gio do amor que se propaga (...) e o do coroamento glorioso do encontro&#x201D;, descreve o tradutor Leonardo Fr&#xF3;es em posf&#xE1;cio da edi&#xE7;&#xE3;o lan&#xE7;ada recentemente pela Rocco.</p> <p> <strong>Temperamento rom&#xE2;ntico</strong></p> <p> Leitora de sonetistas e de Lord Byron, Elizabeth recupera os temas autobiogr&#xE1;ficos, que esmoreciam com o fim do romantismo, e os encaixa nos sonetos. Tamb&#xE9;m inverte a posi&#xE7;&#xE3;o comum da mulher amada: de objeto de contempla&#xE7;&#xE3;o, passa a ser o eu l&#xED;rico feminino que ativamente deseja seu amado. &#x201C;Meu palpite &#xE9; de que ela era muito forte e tinha um temperamento rom&#xE2;ntico&#x201D;, arrisca Fr&#xF3;es, apoiado n&#xE3;o s&#xF3; nas desventuras biogr&#xE1;ficas de Elizabeth mas tamb&#xE9;m nos <em>Sonetos</em> e no progressista romance em verso <em>Aurora Leigh</em> (1857), sobre uma mulher que busca firmar sua independ&#xEA;ncia.</p> <p> O recato vitoriano, no entanto, a leva a optar pelo t&#xED;tulo amb&#xED;guo <em>Sonetos da Portuguesa</em>: seria a pr&#xF3;pria Elizabeth a &#x201C;portuguesa&#x201D; que assinava os versos ou ela atuava apenas como tradutora da misteriosa poeta lusa? Diante da hist&#xF3;ria da fuga amplamente conhecida pela sociedade londrina, o enigma mal se sustenta. Elizabeth passa a ser constantemente reeditada em l&#xED;ngua inglesa. Seu soneto mais famoso, cujo primeiro verso d&#xE1; t&#xED;tulo a esta reportagem, ilustra cart&#xF5;es de Valentine&#x2019;s Day (ou Dia dos Namorados) nos Estados Unidos.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Sonetos da Portuguesa, </em>de Elizabeth Barrett Browning. Rocco, 128 p&#xE1;gs., R$ 19,50.</p> </div> A poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning, que fugiu da reclusão para se casar, retratou em “Sonetos da Portuguesa” seu romance epistolar com o marido 2011-12-14T12:50:38-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 172 - Dezembro 2011 A poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning, que fugiu da reclusão para se casar, retratou em “Sonetos da Portuguesa” seu romance epistolar com o marido Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/cha-com-elizabeth-bishop Chá com Elizabeth Bishop 2011-12-02T09:09:01-02:00 Por Michael Sledge Tradução Diana Ricci Aranha <p> O prefeito tinha jeito com as portas. Com um aceno de m&#xE3;o, com um simples olhar, elas se abriam magicamente para ele. Era o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, e ele me levava de uma bela casa para a outra, para concertos, jantares e comemora&#xE7;&#xF5;es. Eu tinha vindo ao Brasil, em julho deste ano, para lan&#xE7;ar meu livro sobre a poeta Elizabeth Bishop, que passou a maior parte das d&#xE9;cadas de 50 e 60 no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Encantada com Ouro Preto, ela tinha comprado uma casa l&#xE1;, sua &#xFA;ltima resid&#xEA;ncia no Brasil antes de retornar de vez aos Estados Unidos. Ent&#xE3;o tamb&#xE9;m eu vim, para seguir os passos dela.</p> <p> Oito anos atr&#xE1;s, em 2003, eu chegava a Ouro Preto pela primeira vez e todas as suas portas estavam decididamente fechadas. Do centro da cidade, segui pela mesma estrada para Mariana at&#xE9; chegar &#xE0; casa que tinha cativado Elizabeth Bishop. Reconheci das fotos a maravilha do s&#xE9;culo 18, erguida ao lado de um c&#xF3;rrego e cercada por jardins, com &#x201C;um telhado bem comprido, inclinado, que parece um drag&#xE3;o ou um iguana&#x201D;, como a poeta o havia descrito a um amigo, e que eu tinha visto apenas em fotografias.</p> <p> Mas n&#xE3;o cheguei a entrar na casa nessa viagem. Uma parte de mim n&#xE3;o queria isso. Era atrav&#xE9;s da lente da fic&#xE7;&#xE3;o que eu desejava ver a vida de Elizabeth Bishop, e a fic&#xE7;&#xE3;o &#xE9; um caminho de investiga&#xE7;&#xE3;o que busca certas brechas nos fatos, nas quais a imagina&#xE7;&#xE3;o possa se infiltrar e florescer. Al&#xE9;m disso, eu relutava em contar a qualquer pessoa o que estava fazendo, com vergonha da minha presun&#xE7;&#xE3;o de tentar escrever um livro baseado na vida de uma escritora querida e ic&#xF4;nica, cujo status nas letras norte-americanas cresce notadamente com o tempo, e cujo compromisso de dominar sua arte tornou-se lend&#xE1;rio.</p> <p> Apesar do receio, no entanto, senti-me compelido pela hist&#xF3;ria pessoal da poeta e pelo seu grande amor pela ardente Lota de Macedo Soares. Os primeiros anos da vida de Elizabeth foram dolorosamente solit&#xE1;rios &#x2013; fugindo de uma inf&#xE2;ncia &#xF3;rf&#xE3; e desolada e em constante luta contra o alcoolismo, sua vida privada era um problema mesmo quando a sua poesia come&#xE7;ou a atrair a aten&#xE7;&#xE3;o da cr&#xED;tica. Duas semanas ap&#xF3;s sua chegada ao Rio, Elizabeth correu com Lota para a casa que esta constru&#xED;a fora da cidade, encravada nas montanhas de Petr&#xF3;polis. Na d&#xE9;cada seguinte, as duas viveram em um para&#xED;so dom&#xE9;stico. Elizabeth come&#xE7;ava o que provavelmente foi a fase mais produtiva de sua carreira como escritora, que acabou lhe dando o pr&#xEA;mio Pulitzer.</p> <p> ******</p> <p> Minha primeira visita a Ouro Preto foi terr&#xED;vel. Assim como Elizabeth, perambulei pelas ruas da cidade, sempre perdido. Eu estava sozinho, com pouca ou nenhuma capacidade de comunica&#xE7;&#xE3;o na l&#xED;ngua local e ca&#xED;a uma chuva deprimente. Lutei muito para n&#xE3;o desanimar do meu livro.</p> <p> Hospedei-me na pousada Chico Rei, o pouso de todos que peregrinam a Ouro Preto por causa de Elizabeth. A pousada foi aberta por Lilli Correa de Ara&#xFA;jo, uma grande amiga de Lota e Elizabeth, e foi l&#xE1; que Elizabeth ficou enquanto sua casa era restaurada. Lilli, eu descobri, ainda estava viva. O destino havia me trazido at&#xE9; uma pessoa &#xED;ntima de Elizabeth, algu&#xE9;m que eu conhecia apenas das p&#xE1;ginas de biografias. Era um sinal. Mas Lilli, no fim das contas, estava com 96 anos e n&#xE3;o sa&#xED;a de seu quarto.</p> <p> Eu tamb&#xE9;m mal sa&#xED;a do meu. No quarto n&#xFA;mero 6, enquanto a tempestade continuava l&#xE1; fora e nuvens negras pairavam sobre os telhados vermelhos de Ouro Preto, espalhei meus pap&#xE9;is sobre a cama, examinando as anota&#xE7;&#xF5;es da minha pesquisa. O que eu mais gostava eram os pequenos fatos da vida di&#xE1;ria de Elizabeth que descobri em sua papelada reunida, como uma lista de compras, as anota&#xE7;&#xF5;es concisas em um calend&#xE1;rio de 1957 e uma folha de papel rasgada com a letra de um samba, escrita com a caligrafia peculiar de Elizabeth.</p> <p> A obra de um artista, ou mesmo a impress&#xE3;o que temos de um artista, inscreve um caminho indel&#xE9;vel em nossa consci&#xEA;ncia e imagina&#xE7;&#xE3;o e abre portas que n&#xE3;o poder&#xED;amos abrir sozinhos, alterando sutilmente o modo como compreendemos o mundo. O encontro entre um artista e um leitor ou observador &#xE9; sempre profundamente pessoal e misterioso. Em uma pequena anota&#xE7;&#xE3;o, a voz de Elizabeth me chamava atrav&#xE9;s dos tempos: <em>I&#x2019;ll lose you; I&#x2019;ll find you./ I&#x2019;ll lose you; I&#x2019;ll find you</em> (Eu te perco; eu te acho).</p> <p> ******</p> <p> Na segunda vez que vim a Ouro Preto, em julho deste ano, a &#xFA;ltima porta que se abriu para mim foi a da casa de Elizabeth. Um dos amigos do prefeito que conhecia os atuais donos me levou at&#xE9; l&#xE1;. Quase uma d&#xE9;cada tinha se passado desde a primeira vez que estive na frente dessa porta. Naquela &#xE9;poca, eu lia tanto as cartas dela sobre sua casa em Ouro Preto que sentia que podia andar vendado pelas salas, que podia at&#xE9; ouvir as conversas que aconteceram entre os moradores.</p> <p> Encontrei uma entrada modesta. Atrav&#xE9;s de um hall estreito, passei por v&#xE1;rios quartos de ambos os lados. O quarto de Elizabeth era pequeno como a cela de uma novi&#xE7;a, com espa&#xE7;o apenas para uma cama e uma escrivaninha, mas estava arrumado, perfeito. Mais adiante, chego a uma grande sala com v&#xE1;rias janelas que convidam a contemplar a vista espetacular da cidade. L&#xE1; est&#xE1; a Igreja de S&#xE3;o Francisco de Assis; todos os dias ela admirava a fachada esculpida por Aleijadinho, que adorava.</p> <p> Tudo tinha sido mantido como Elizabeth deixou. At&#xE9; partes da mob&#xED;lia vieram da casa que ela tinha com Lota no Rio. A presen&#xE7;a dela era palp&#xE1;vel e eu n&#xE3;o conseguia ficar parado, andava de novo por todas as salas, meus olhos e minhas m&#xE3;os querendo absorver superf&#xED;cies, texturas, cores. Estava em uma das &#x201C;three loved houses&#x201D; (tr&#xEA;s casas excelentes) citadas no poema <em>One Art</em> (<em>A Arte de Perder</em>), talvez o mais famoso de Elizabeth.</p> <p> A empregada serviu ch&#xE1; na sala, em uma mesa t&#xE3;o apertada que as x&#xED;caras se tocavam. Escolhi um lugar. Sentei na cadeira de Elizabeth Bishop. Examinando a sala, percebi como cada detalhe foi perfeitamente pensado, escolhido com extremo cuidado, arrumado de maneira harmoniosa no conjunto. Do mesmo modo que os seus poemas.</p> <p> Estar nesse lugar, nesse momento de delicada comunh&#xE3;o, foi o mais pr&#xF3;ximo que cheguei e jamais chegarei da pessoa que havia se tornado o assunto de meu livro. Senti-me profundamente emocionado. Como Elizabeth Bishop, eu havia chegado ao Brasil como turista. E, como ela, descobri um pa&#xED;s intoxicante em sua beleza, na generosidade de seu povo, na linda e louca poesia que permeia sua vida di&#xE1;ria. Elizabeth Bishop abriu a porta para o Brasil e eu entrei.</p> <div class="descricao-autor"> <p> <strong>Michael Sledge</strong> &#xE9; escritor norte-americano, autor de A Arte de Perder, romance que tem Elizabeth Bishop como personagem</p> </div> <p> &#xA0;</p> <p> &#xA0;</p> Em meus dias de estrangeiro em Ouro Preto, peguei chuva, remexi papéis e me aproximei do universo da poeta que foi tema de meu romance 2011-11-28T15:05:32-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 171 - Novembro 2011 Em meus dias de estrangeiro em Ouro Preto, peguei chuva, remexi papéis e me aproximei do universo da poeta que foi tema de meu romance Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/dicas-da-semana-granta Dicas da semana: <em>Granta&nbsp;</em> 2011-12-02T09:08:11-02:00 Redação Bravo! <p> Editora de Literatura de <strong>BRAVO!</strong>, Mariana Delfini fala sobre a oitava edi&#xE7;&#xE3;o em portug&#xEA;s da revista inglesa <em>Granta.</em> Criada no s&#xE9;culo 19 por alunos da Universidade de Cambridge, a revista &#xE9; tem&#xE1;tica e nesta edi&#xE7;&#xE3;o re&#xFA;ne 16 textos sobre <em>Trabalho.</em><em/></p> <p> Ou&#xE7;a o podcast:</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="81" width="100%"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F28278626&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600"/><embed allowscriptaccess="always" height="81" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F28278626&amp;show_comments=true&amp;auto_play=false&amp;color=ffe600" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"/></object></p> <p> &#xA0;</p> <p> Leia um trecho da revista <a href="http://www.objetiva.com.br/arquivos/capas/1061.pdf" rel="clicando aqui" target="_blank">clicando aqui</a>.</p> <p> <em>Granta - Volume 8(248 p&#xE1;gs.)</em></p> <p> <em>Editora Alfaguara</em></p> <p> <em>Pre&#xE7;o sugerido: R$ 34,90 </em></p> <p> &#xA0;</p> <p> &#xA0;</p> Editora de Literatura de <strong>BRAVO!,</strong> Mariana Delfini indica a revista literária inglesa <em>Granta</em> 2011-11-17T19:16:40-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados 17 de Novembro Editora de Literatura de BRAVO!, Mariana Delfini indica a revista literária inglesa Granta Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/em-busca-de-um-pais-de-maravilhas Em busca de um País de Maravilhas 2011-12-02T09:07:53-02:00 João Gabriel de Lima <p> Nossos olhares se cruzaram, e num &#xFA;nico segundo senti aflorar a minha intimidade mais secreta. Se me perguntassem, eu saberia precisar o exato momento em que tudo se definiu, s&#xF3; n&#xE3;o saberia especificar o que nela me despertou a transforma&#xE7;&#xE3;o: o olhar de esguelha? A forma meio atabalhoada de andar? Os dentes querendo escapulir da boca? A maneira como jogou a bolsa no ch&#xE3;o? O olhar doce e grave? A longa cicatriz unindo os seios ao pesco&#xE7;o?&#x201D; Desde que o franc&#xEA;s Gustave Flaubert (1821-1880) colocou o sarrafo l&#xE1; no alto em sua obra-prima <em>A Educa&#xE7;&#xE3;o Sentimental</em>, ficou dif&#xED;cil para qualquer autor descrever o momento capital em que um ser humano entra na vida de outro para modific&#xE1;-la de forma avassaladora. Em seu romance <em>Dois Rios</em>, a carioca Tatiana Salem Levy se sai muito bem do desafio &#x2013; e uma amostra &#xE9; a frase que abre esta cr&#xED;tica.</p> <p> A primeira parte do livro come&#xE7;a quando a brasileira Joana encontra a francesa Marie-Ange na praia de Copacabana. At&#xE9; esse momento, Joana &#xE9; uma mulher de 30 e poucos anos que mora com a m&#xE3;e num apartamento atulhado de objetos &#x2013; e das mem&#xF3;rias que a eles correspondem. Aparecida, a m&#xE3;e de Joana, sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, e a filha, respons&#xE1;vel por cuidar dela, acaba acorrentada a um mundo de pequenas manias e nenhuma perspectiva. Marie-Ange vem romper esse ciclo aparentemente sem sa&#xED;da. O leitor cai no campo gravitacional armado por Tatiana de forma irresist&#xED;vel &#x2013; como a Alice de Lewis Carrol no momento em que, ao seguir o coelho, lhe falta o ch&#xE3;o &#x2013; e entende por que a escritora &#xE9; considerada uma das melhores da nova gera&#xE7;&#xE3;o (Tatiana venceu em 2008 a primeira edi&#xE7;&#xE3;o do Pr&#xEA;mio S&#xE3;o Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com o romance <em>A Chave de Casa)</em>.</p> <p> &#xA0;</p> <p> <strong>Fincar bandeirinha</strong></p> <p> A segunda parte de <em>Dois Rios</em> coloca em destaque o personagem Ant&#xF4;nio, irm&#xE3;o g&#xEA;meo de Joana &#x2013; e que assombra, de maneira discreta, a primeira parte do romance. A simetria entre os dois &#xE9; bem constru&#xED;da, e a expectativa que a presen&#xE7;a do irm&#xE3;o cria em rela&#xE7;&#xE3;o ao desfecho &#xE9; bastante interessante. O pr&#xF3;prio Ant&#xF4;nio, no entanto, &#xE9; o maior sen&#xE3;o do livro. Joana e Marie-Ange s&#xE3;o personagens pelas quais o leitor se apaixona, seguindo fascinado o caminho das duas em busca de um pa&#xED;s de maravilhas particular. J&#xE1; Ant&#xF4;nio &#xE9; aquele chato de galochas que qualquer um de n&#xF3;s enxotaria de uma mesa de bar. Sua presen&#xE7;a instaura o t&#xE9;dio em v&#xE1;rios pontos da segunda parte do livro, que resultam pontuadas de lam&#xFA;rias rom&#xE2;nticas &#x2013; num forte contraste com a rela&#xE7;&#xE3;o sensual e vibrante entre Joana e Marie-Ange. Num romance que, feitas as contas, &#xE9; bastante bom, Ant&#xF4;nio n&#xE3;o est&#xE1; &#xE0; altura do talento de Tatiana &#x2013; uma narradora vertiginosa e criativa, capaz de invadir e fincar bandeirinha num terreno colonizado por Flaubert.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Dois Rios</em>, de Tatiana Salem Levy. Editora Record, 224 p&#xE1;gs., R$ 34,90.</p> </div> Duas mulheres fascinantes – e um homem que é um chato de galochas – são os personagens centrais de “Dois Rios”, um bom romance de Tatiana Salem Levy 2011-11-11T16:13:49-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 171 - Novembro 2011 Duas mulheres fascinantes – e um homem que é um chato de galochas – são os personagens centrais de “Dois Rios”, um bom romance de Tatiana Salem Levy Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/quando-o-homem-coelho-encontra-a-mulher-gazela Quando o Homem-Coelho encontra a Mulher-Gazela 2011-12-02T09:07:51-02:00 Armando Antenore <p> A s&#xE9;rie com 12 fotografias mal iluminadas, que n&#xE3;o disfar&#xE7;am o amadorismo de quem as tirou, espalha-se pela internet e, de relance, lembra uma inofensiva hist&#xF3;ria infantil. As primeiras imagens limitam-se a apresentar os personagens da &#x201C;trama&#x201D; que se acompanhar&#xE1; em seguida, todos representados por pequenos bonecos de pel&#xFA;cia. O simp&#xE1;tico Ursinho Puff &#x2013; ou Pooh, como informa a legenda em ingl&#xEA;s &#x2013; lidera a turma. Alaranjado, veste uma singela camisa cor-de-rosa e tem as fei&#xE7;&#xF5;es ing&#xEA;nuas que o caracterizam desde 1926, quando o escritor brit&#xE2;nico Alan Alexander Milne o inventou. Depois, v&#xEA;m tr&#xEA;s amigos de Puff, um mais fofo do que o outro: Leit&#xE3;o (ou Piglet,), Tigr&#xE3;o (Tigger) e Bisonho (Eeyore), o burro. Travessos, os animaizinhos parecem doidos para brincar. De pega-pega? Esconde-esconde? Duro ou mole? N&#xE3;o exatamente... Logo na quinta foto da sequ&#xEA;ncia, Puff surge deitado de costas sobre uma superf&#xED;cie branca e lisa, que remete &#xE0; maciez de um len&#xE7;ol. Entre as patas traseiras generosamente abertas, aconchega o focinho atrevido de Leit&#xE3;o. Na sexta imagem, Bisonho est&#xE1; de quatro e d&#xE1; a impress&#xE3;o de n&#xE3;o ser nem um pouco bisonho... &#x201C;Qual o problema?&#x201D;, voc&#xEA; indagar&#xE1;. &#x201C;Burros est&#xE3;o sempre de quatro.&#x201D; Est&#xE3;o, mas dificilmente permitem que um ursinho t&#xE3;o sapeca quanto Puff coloque-se atr&#xE1;s deles e se transforme no mais diligente dos garanh&#xF5;es. Da s&#xE9;tima &#xE0; 12a foto, a baderna esquenta um bocado, demonstrando que a rotina no Bosque dos Cem Acres, onde o quarteto mora, anda bastante movimentada. Ah, sim, a farra recebeu o t&#xED;tulo de O Kama Sutra do Puff (The Kama Sutra of Pooh).</p> <p> O nome, dispens&#xE1;vel frisar, n&#xE3;o prima pela criatividade. H&#xE1; tempos, os ocidentais associam o Kama Sutra &#x2013; cl&#xE1;ssico da literatura hindu &#x2013; &#xE0; libidinagem. No mercado editorial, o antiqu&#xED;ssimo comp&#xEA;ndio se tornou sin&#xF4;nimo de sexo extravagante e atl&#xE9;tico. Ou melhor: de manual fartamente ilustrado, em que casais se contorcem de in&#xFA;meros jeitos para driblar o t&#xE9;dio do papai-e-mam&#xE3;e, como se praticassem uma esp&#xE9;cie de ioga obscena. Das nove adapta&#xE7;&#xF5;es que a argentina Alicia Gallotti publicou, por exemplo, a mais nova promete ensinar &#x201C;101 posi&#xE7;&#xF5;es sensuais&#x201D;. J&#xE1; a de Nicole Bailey oferece &#x201C;52 posi&#xE7;&#xF5;es ardentes&#x201D;. Na pr&#xF3;pria &#xCD;ndia, o termo kama sutra se banalizou e virou marca de camisinha.</p> <p> O livro original, por&#xE9;m, revela-se bem menos acrob&#xE1;tico e nada vulgar. Escrito em s&#xE2;nscrito por volta do s&#xE9;culo 3, possui 36 cap&#xED;tulos, distribu&#xED;dos ao longo de sete partes. Deles, s&#xF3; um discorre sobre as posi&#xE7;&#xF5;es adotadas pelos parceiros durante o sexo. S&#xE3;o 19 no total, muitas triviais e cada uma detalhada exclusivamente com palavras. N&#xE3;o h&#xE1; ilustra&#xE7;&#xF5;es. Tal cap&#xED;tulo pertence &#xE0; segunda parte, que tamb&#xE9;m descreve outras formas de contatos &#xED;ntimos: os abra&#xE7;os, os beijos, as mordidas e at&#xE9; os arranh&#xF5;es, tapas ou socos desferidos no auge da excita&#xE7;&#xE3;o. As demais partes abordam diferentes facetas da vida a dois e do cotidiano, nem sempre de cunho sexual.</p> <p> No Brasil, h&#xE1; d&#xE9;cadas, &#xE9; poss&#xED;vel adquirir o Kama Sutra completo, ainda que os exemplares nacionais derivem invariavelmente de edi&#xE7;&#xF5;es em ingl&#xEA;s. A primeira tradu&#xE7;&#xE3;o do s&#xE2;nscrito para o portugu&#xEA;s chega apenas agora &#xE0;s livrarias do pa&#xED;s, por iniciativa do selo Tordesilhas, que integra a editora Ala&#xFA;de. Trata-se, no entanto, de uma vers&#xE3;o parcial. Embora ostente o nome Kama Sutra na capa, o volume de 96 p&#xE1;ginas abriga unicamente os dez cap&#xED;tulos que comp&#xF5;em a segunda parte do cl&#xE1;ssico, ilustrados pelo artista portenho Alfredo Benav&#xED;dez Bedoya (confira alguns de seus desenhos ao longo desta reportagem). Mesmo assim, o lan&#xE7;amento merece toda a aten&#xE7;&#xE3;o. O esfor&#xE7;o pioneiro dos tradutores Daniel Moreira Miranda e Juliana Di Fiori Pondian, ambos egressos da Universidade de S&#xE3;o Paulo (USP), resultou num texto enxuto, preciso e elegante, que traz expressivas mudan&#xE7;as em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;queles oriundos do ingl&#xEA;s.</p> <p> Adeptos do hindu&#xED;smo, os indianos contempor&#xE2;neos do Kama Sutra acreditavam que s&#xF3; mereceriam alcan&#xE7;ar o moksha &#x2013; quer dizer: escapar dos ciclos sucessivos (e dolorosos) de nascimento, morte e reencarna&#xE7;&#xE3;o para atingir a comunh&#xE3;o plena com o Universo &#x2013; se apoiassem a exist&#xEA;ncia carnal numa tr&#xED;ade: as pr&#xE1;ticas espirituais (dharma), a aquisi&#xE7;&#xE3;o de bens materiais (artha) e o cultivo dos prazeres (kama). As tr&#xEA;s metas deveriam estar igualmente na mira de qualquer indiv&#xED;duo. Entretanto, ningu&#xE9;m poderia esquecer que o dharma supera o artha em import&#xE2;ncia e que o artha supera o kama. &#x201C;Quem exercitar a tr&#xED;ade desfrutar&#xE1; de felicidade neste mundo e no vindouro&#x201D;, pregava-se &#xE0; &#xE9;poca.</p> <p> O Kama Sutra nada mais &#xE9;, portanto, do que uma colet&#xE2;nea de reflex&#xF5;es e conselhos acerca do kama. Literalmente, o t&#xED;tulo significa &#x201C;aforismos sobre o amor&#x201D;. Mas &#x201C;amor&#x201D;, no caso, representa toda sorte de gozo: os do corpo, do intelecto e, em consequ&#xEA;ncia, da alma. Afinal, para os hindus do s&#xE9;culo 3, n&#xE3;o havia prazer fora da dimens&#xE3;o religiosa, uma vez que ler poemas, namorar, comer ou beber pressupunha colocar um tijolinho na tr&#xED;ade que conduzia &#xE0; transcend&#xEA;ncia.</p> <p> <strong>Papagaios, galos e perdizes</strong></p> <p> Do s&#xE1;bio que concebeu o Kama Sutra, se conhece muito pouco. &#xC9; certo que habitava o norte da &#xCD;ndia, que vivia em castidade quando criou o livro e que carregava o sobrenome Vatsyayana. O prenome, infelizmente, se perdeu. Valendo-se de um estilo direto, sem nenhum rebuscamento, procurou fazer um guia francamente did&#xE1;tico, repleto de categoriza&#xE7;&#xF5;es e quase t&#xE3;o objetivo quanto os que hoje classificamos de cient&#xED;ficos ou t&#xE9;cnicos. Nos 36 cap&#xED;tulos, trechos em prosa abrem pequenos espa&#xE7;os para explana&#xE7;&#xF5;es em versos. O escritor, al&#xE9;m de expor as pr&#xF3;prias ideias a respeito dos assuntos que analisa, cita as de v&#xE1;rios outros especialistas, como Babhravya e Auddalaki Svetaketu, provavelmente um autor m&#xED;tico. Depois do Kama Sutra, a &#xCD;ndia presenciou o aparecimento de, no m&#xED;nimo, seis tratados similares. O mais famoso entre n&#xF3;s, do Ocidente, &#xE9; o Anunga Runga (O Palco do Amor), redigido pelo poeta Kullianmull durante o s&#xE9;culo 15 ou 16.</p> <p> Tudo leva a crer que o trabalho de Vatsyayana tinha por alvo homens e mulheres de elite, cultos e refinados, com tempo e recursos para saborear a vida. Mal come&#xE7;a, o livro recomenda que os leitores o estudem em paralelo &#xE0; aprendizagem de 64 artes. A simples enumera&#xE7;&#xE3;o delas j&#xE1; ati&#xE7;a a imagina&#xE7;&#xE3;o e os sentidos. A lista abarca desde itens previs&#xED;veis &#x2013; o canto, a dan&#xE7;a, a culin&#xE1;ria, o corte e a costura, a gin&#xE1;stica, a jardinagem, a pintura, o desenho, a carpintaria e a arquitetura &#x2013; at&#xE9; a habilidade de resolver enigmas, de pronunciar frases dif&#xED;ceis, de deduzir, de apreciar dicion&#xE1;rios, de preparar limonadas, sorvetes e licores, de confeccionar brincos, de arrumar camas, de colorir dentes, unhas, cabelos e roupas, de aplicar ess&#xEA;ncias na pele, de ladrilhar o ch&#xE3;o, de produzir flores artificiais, de fazer o algod&#xE3;o parecer seda e de tocar m&#xFA;sica em copos com &#xE1;gua.</p> <p> O Kama Sutra explicita, ainda, a rotina ideal dos chefes de fam&#xED;lia. Indica onde devem morar, de que maneira devem dispor adornos e m&#xF3;veis pela casa, quais h&#xE1;bitos de higiene devem adotar, de que modo devem se divertir e quando devem se alimentar ou tirar um cochilo. Entre as tarefas di&#xE1;rias que lhes atribui, destaca-se promover brigas de galos, perdizes ou carneiros e ensinar papagaios a falar.</p> <p> Mas o melhor do livro est&#xE1; mesmo nos trechos em que Vatsyayana ataca de conselheiro er&#xF3;tico-afetivo (veja quadros). N&#xE3;o bastassem as considera&#xE7;&#xF5;es sobre car&#xED;cias e posi&#xE7;&#xF5;es sexuais, o autor receita afrodis&#xED;acos e subst&#xE2;ncias capazes de aumentar o p&#xEA;nis ou alargar a vagina. Sugere igualmente uma s&#xE9;rie de feiti&#xE7;arias que, num &#xE1;timo, tornariam irresist&#xED;vel a mais insossa das criaturas. Tamb&#xE9;m classifica os humanos de acordo com a dimens&#xE3;o de seus genitais. Os cavalheiros podem ser &#x201C;coelhos&#x201D;, &#x201C;touros&#x201D; ou &#x201C;cavalos&#x201D;, em ordem crescente de tamanho. As damas, &#x201C;gazelas&#x201D;, &#xE9;guas&#x201D; ou &#x201C;elefantas&#x201D;. Os cap&#xED;tulos que discutem o casamento esclarecem como os homens devem agir para arranjar uma boa noiva ou seduzir a mulher alheia e como as esposas devem se comportar diante dos maridos. Por fim, o Kama Sutra tra&#xE7;a um minucioso e intrigante perfil das cortes&#xE3;s &#x2013; &#x201C;aquelas que extraem do sexo o prazer e o pr&#xF3;prio sustento&#x201D;.</p> <p> A sequ&#xEA;ncia em que Vatsyayana relata os momentos derradeiros de um encontro &#xED;ntimo &#xE9;, talvez, a mais bonita do guia. &#x201C;T&#xE3;o logo o desejo se apaga&#x201D;, escreve, &#x201C;o casal vai para a sala de banhos sem coragem de se olhar. Est&#xE3;o envergonhados. Mas, quando retornam de l&#xE1;, a timidez desaparece. Os dois se sentam num lugar apraz&#xED;vel e mascam a noz-de-areca. Ele passa &#xF3;leo de s&#xE2;ndalo no corpo dela, diz palavras doces e lhe oferece &#xE1;gua. Em seguida, os parceiros se servem de petiscos, sopas, mingau de arroz, grelhados, sucos, mangas, carne-seca e frutas c&#xED;tricas com a&#xE7;&#xFA;car mascavo. Ela se deita no colo dele e contempla a Lua. Enquanto narra hist&#xF3;rias para agrad&#xE1;-la, ele lhe aponta estrelas e constela&#xE7;&#xF5;es.</p> <p> &#x201D;Na opini&#xE3;o da acad&#xEA;mica norte-americana Wendy Doniger, estudiosa do hindu&#xED;smo e do s&#xE2;nscrito, o Kama Sutra surpreende por n&#xE3;o se mostrar t&#xE3;o machista como outros livros do per&#xED;odo. H&#xE1;, sim, trechos em que Vatsyayana preconiza a&#xE7;&#xF5;es violentas contra as mulheres. Um dos mais gritantes: se uma virgem n&#xE3;o aceita &#x201C;contrair n&#xFA;pcias&#x201D;, o autor afirma que, ap&#xF3;s esgotar as tentativas de conquist&#xE1;-la, o pretendente pode rapt&#xE1;-la e deflor&#xE1;-la. Em contrapartida, o texto rejeita a tradi&#xE7;&#xE3;o j&#xE1; no terceiro cap&#xED;tulo da primeira parte, quando Vatsyayana aconselha &#xE0;s jovens lerem sempre o Kama Sutra, ainda que &#x201C;alguns s&#xE1;bios&#x201D; as desautorizem e aleguem que n&#xE3;o lhes cabe aprender &#x201C;qualquer tipo de ci&#xEA;ncia&#x201D;. Do mesmo jeito, aceita que as mo&#xE7;as fa&#xE7;am sexo oral, apesar de &#x201C;os mestres&#x201D; proibirem o ato, sob o pretexto de as infratoras levarem a desgra&#xE7;a &#xE0;queles que as beijarem. Tamb&#xE9;m aprova o lesbianismo em determinadas circunst&#xE2;ncias e se preocupa com o orgasmo feminino. Ensina, inclusive, os homens a proporcion&#xE1;-lo e reconhec&#xEA;-lo. De quebra, no cap&#xED;tulo 8 da segunda parte, n&#xE3;o v&#xEA; problema em as amantes assumirem as r&#xE9;deas de uma transa e incorporarem o papel masculino, ficando por cima do parceiro. </p> <p> <strong>Lingam e yoni</strong></p> <p> Foi o lend&#xE1;rio sir Richard Burton (1821-1890) quem trouxe o cl&#xE1;ssico hindu para o Ocidente. C&#xE9;lebre por descobrir as nascentes do rio Nilo na &#xC1;frica e traduzir As Mil e Uma Noites, p&#xE9;rola da literatura &#xE1;rabe, o explorador e linguista brit&#xE2;nico desafiou a r&#xED;gida moral da Era Vitoriana e lan&#xE7;ou a vers&#xE3;o inglesa do Kama Sutra em 1883. Embora a assine sozinho, sabe-se que tr&#xEA;s indianos o ajudaram a destrinchar o comp&#xEA;ndio. Praticamente a totalidade das edi&#xE7;&#xF5;es brasileiras adv&#xE9;m do trabalho deles. Nadando contra a corrente, os paulistanos Daniel Miranda, 41 anos, e Juliana Pondian, 28 &#x2013; que, entre 2003 e 2006, dividiram a mesma classe de s&#xE2;nscrito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&#xEA;ncias Humanas da USP &#x2013; utilizaram apenas o original de Vatsyayana para empreender a tradu&#xE7;&#xE3;o da segunda parte. A tarefa lhes tomou cinco meses.</p> <p> A vers&#xE3;o de ambos se distingue da brit&#xE2;nica em poucos, mas eloquentes aspectos. O principal: no s&#xE9;culo 13, um autor de nome Yasodhara escreveu o livro Jayamangala, que disseca cada par&#xE1;grafo do Kama Sutra. Burton conhecia tal an&#xE1;lise. Por isso, quando transp&#xF4;s o texto de Vatsyayana para o ingl&#xEA;s, acrescentou-lhe alguns coment&#xE1;rios de Yasodhara sem deixar claro que o fizera. Daniel e Juliana tamb&#xE9;m citam trechos do Jayamangala, s&#xF3; que de maneira expl&#xED;cita, em notas de rodap&#xE9;.</p> <p> <strong>Outras distin&#xE7;&#xF5;es interessantes:</strong></p> <p> &#x2022; Sempre que precisava mencionar &#x201C;p&#xEA;nis&#x201D; ou &#x201C;vagina&#x201D;, Burton evitava os equivalentes em ingl&#xEA;s. Preferia troc&#xE1;-los respectivamente por lingam e yoni. No hindu&#xED;smo, as palavras em s&#xE2;nscrito se referem &#xE0; genit&#xE1;lia do deus Shiva e de sua segunda mulher, Parvati. Ocorre que Vatsyayana nunca usa o termo yoni e raramente emprega lingam como sin&#xF4;nimo de &#x201C;p&#xEA;nis&#x201D;. Em geral, para designar os &#xF3;rg&#xE3;os sexuais, lan&#xE7;a m&#xE3;o de um substantivo neutro, jaghana, que significa p&#xE9;lvis ou quadris. Os tradutores de S&#xE3;o Paulo optaram por redigir &#x201C;p&#xEA;nis&#x201D; e &#x201C;vagina&#x201D; quando necess&#xE1;rio. </p> <p> &#x2022; Originalmente, o Kama Sutra chama os homossexuais masculinos de &#x201C;pessoas do terceiro sexo&#x201D;. Daniel e Juliana agem de modo id&#xEA;ntico e avisam, numa nota de rodap&#xE9;, que a qualifica&#xE7;&#xE3;o identifica tanto os gays travestidos de mulher quanto os n&#xE3;o travestidos. Burton, por&#xE9;m, substituiu &#x201C;pessoas do terceiro sexo&#x201D; por &#x201C;eunucos&#x201D;.</p> <p> &#x2022; Vatsyayana diz que, durante o coito com homens, as mo&#xE7;as podem se valer de &#x201C;instrumentos artificiais&#x201D; caso queiram usufruir de mais prazer. A dupla paulistana mant&#xE9;m o sentido da frase. J&#xE1; o brit&#xE2;nico traduziu &#x201C;instrumentos artificiais&#x201D; como &#x201C;drogas&#x201D;.</p> <p> O que explica as diferen&#xE7;as? &#x201C;Possivelmente, Burton censurou por conta pr&#xF3;pria as express&#xF5;es que julgava menos palat&#xE1;veis para os europeus do s&#xE9;culo 19&#x201D;, arrisca Daniel. De qualquer maneira, tal qual os brasileiros, o explorador ingl&#xEA;s preservou intacto um trecho que resume &#xE0; perfei&#xE7;&#xE3;o o esp&#xED;rito de todo o Kama Sutra: &#x201C;O terreno dos manuais serve enquanto o desejo &#xE9; baixo. Mas, quando a roda da paix&#xE3;o gira, n&#xE3;o h&#xE1; regras nem ordem&#x201D;.</p> <div class="onde-quando"> <p> <strong>O LIVRO</strong></p> <p> <em>Kama Sutra</em>, de Vatsyayana. Tradu&#xE7;&#xE3;o de Daniel Moreira Miranda e Juliana Di Fiori Pondian. Selo Tordesilhas, 96 p&#xE1;gs., pre&#xE7;o a definir.</p> </div> Nova tradução do “Kama Sutra” demonstra que o clássico hindu é bem mais do que um manual de posições sexuais 2011-11-15T13:55:13-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Edição 171 - Novembro 2011 Nova tradução do “Kama Sutra” demonstra que o clássico hindu é bem mais do que um manual de posições sexuais Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/pilulas-filosoficas Pílulas Filosóficas 2011-12-02T09:07:09-02:00 Redação <p> O fil&#xF3;sofo pop Alain de Botton assina a fic&#xE7;&#xE3;o in&#xE9;dita de <strong>BRAVO!</strong> em novembro. Ele colabora com <em>A Natureza do Amor</em>, trecho do livro <em>Cenas de Casamento</em>, ainda sem previs&#xE3;o de lan&#xE7;amento. Na trama, o escritor narra a trajet&#xF3;ria amorosa de Ben, tecendo reflex&#xF5;es sobre as paix&#xF5;es plat&#xF4;nicas do personagem e as origens e desafios do amor. </p> <p> Para conhecer melhor o escritor, reconhecido por propagar uma "filosofia para o dia-a-dia" em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alain_de_Botton" rel="seus livros" target="_blank">seus livros</a> e at&#xE9; numa escola (a <a href="http://www.theschooloflife.com/" rel="Scholl of Life" target="_blank">Scholl of Life</a>, que tem como objetivo resolver problemas de temas que aflingem todos os seres humanos, como morte, dinheiro, amor, trabalho e fam&#xED;lia), <strong>BRAVO! </strong>seleciona dois v&#xED;deos: o primeiro, uma palestra na confer&#xEA;ncia <a href="http://www.ted.com" rel="TED" target="_blank">TED</a>, problematiza o conceito de sucesso no mundo moderno; o segundo faz parte da s&#xE9;rie de televis&#xE3;o <em>Filosofia: Um guia para a Felicidade</em>, narrada pelo autor e inspirada no livro <em>As Consola&#xE7;&#xF5;es da Filosofia</em>, que aproxima obras de grandes fil&#xF3;sofos a sentimentos, procurando aliviar frustra&#xE7;&#xF5;es da vida cotidiana atrav&#xE9;s da reflex&#xE3;o.</p> <p> Se voc&#xEA; quiser filosofia em 140 caracteres, siga <a href="http://twitter.com/#!/alaindebotton" rel="@alaindebotton" target="_blank">@alaindebotton</a> no twitter.</p> <p> <em>Alain de Botton profere palestras em S&#xE3;o Paulo e Porto Alegre nos dias 21 e 22 de novembro pelo ciclo de confer&#xEA;ncias <a href="http://www.fronteirasdopensamento.com.br" rel="Fronteiras do Pensamento" target="_blank">Fronteiras do Pensamento</a>.</em></p> <p> <em>A fic&#xE7;&#xE3;o in&#xE9;dita est&#xE1; na <strong>BRAVO! </strong>171. J&#xE1; nas bancas.</em></p> <p> &#xA0;</p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="374" width="526"><param name="bgcolor" value="#ffffff"/><param name="quality" value="high"/><param name="wmode" value="transparent"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="http://video.ted.com/assets/player/swf/EmbedPlayer.swf"/><embed allowscriptaccess="always" bgcolor="#ffffff" height="374" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="http://video.ted.com/assets/player/swf/EmbedPlayer.swf" type="application/x-shockwave-flash" width="526" wmode="transparent"/></object></p> <p> Se voc&#xEA; n&#xE3;o conseguiu assistir ao v&#xED;deo, <a href="http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success.html" rel="clique aqui." target="_blank">clique aqui.</a></p> <p> <object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" height="360" width="480"><param name="quality" value="high"/><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/AQU6s5_RJCs?version=3&amp;hl=pt_BR"/><embed allowscriptaccess="always" height="360" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" src="http://www.youtube.com/v/AQU6s5_RJCs?version=3&amp;hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" width="480"/></object></p> <p> &#xA0;</p> Assista a vídeos do filósofo Alain de Botton 2011-11-04T17:34:50-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Novembro de 2011 Assista a vídeos do filósofo Alain de Botton Literatura BRAVO! BRAVO! http://bravonline.abril.com/materia/bravo-no-forum-das-letras-de-ouro-preto <strong>BRAVO! </strong>no Fórum das Letras de Ouro Preto 2011-12-02T09:06:58-02:00 Por Redação <p> Entre os dias 11 e 15 de novembro acontece o F&#xF3;rum das Letras de Ouro Preto, organizado pela Universidade Federal de Ouro Preto. Pelo terceiro ano seguido, <strong>BRAVO! </strong>participar&#xE1; da festa com o <em>Ciclo Bravo! de Jornalismo Cultural</em>, com debates sobre jornalismo e literatura. Confira a programa&#xE7;&#xE3;o.</p> <p> &#xA0;</p> <p> <strong><em>Ciclo Bravo! de Jornalismo Cultural</em></strong></p> <p> &#xA0;</p> <p> 11/11, &#xE0;s 11h</p> <p> <em>Quando o cr&#xED;tico &#xE9; autor</em></p> <p> Arthur Dapieve, Jo&#xE3;o Gabriel de Lima e Paulo Roberto Pires. Media&#xE7;&#xE3;o: Matthew Shirts</p> <p> Local: Espa&#xE7;o Petrobras (Audit&#xF3;rio do GLTA - Rua Paran&#xE1;, 136 - Centro)</p> <p> &#xA0;</p> <p> 12/11, &#xE0;s 11h</p> <p> <em>A arte do perfil</em></p> <p> Fred Melo Paiva e Paulo Markun. Media&#xE7;&#xE3;o: Carlos Herculano</p> <p> Local: Espa&#xE7;o Petrobras (Audit&#xF3;rio do GLTA - Rua Paran&#xE1;, 136 - Centro)</p> <p> &#xA0;</p> <p> 13/11, &#xE0;s 11h</p> <p> <em>A narrativa jornal&#xED;stica em diversos meios</em></p> <p> Eliane Brum, Mona Dorf, Jo&#xE3;o Gabriel de Lima. Media&#xE7;&#xE3;o: Rachel Bertol</p> <p> Local: Espa&#xE7;o Petrobras (Audit&#xF3;rio do GLTA - Rua Paran&#xE1;, 136 - Centro)</p> <p> 14/11, &#xE0;s 11h</p> <p> &#xA0;</p> <p> <em>Oficinas de jornalismo Bravo!</em></p> <p> Jornalismo Cultural &#x2013; Paulo Roberto Pires*</p> <p> Local: Anexo do Museu da Inconfid&#xEA;ncia (Pra&#xE7;a Tiradentes, s/n&#xBA;)</p> <p> *Necess&#xE1;ria a retirada de senha no local com uma hora de anteced&#xEA;ncia</p> <p> &#xA0;</p> <p> 15/11, &#xE0;s 11h</p> <p> <em>Oficinas de jornalismo Bravo!</em></p> <p> Cr&#xF4;nicas - Matthews Shirts*</p> <p> Local: Anexo do Museu da Inconfid&#xEA;ncia (Pra&#xE7;a Tiradentes, s/n&#xBA;)</p> <p> *Necess&#xE1;ria a retirada de senha no local com uma hora de anteced&#xEA;ncia</p> <p> Mais informa&#xE7;&#xF5;es em <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/" rel="http://www.forumdasletras.ufop.br/" target="_blank">http://www.forumdasletras.ufop.br/</a></p> <p> &#xA0;</p> Confira a programação 2011-11-03T15:07:56-02:00 Copyright Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados Novembro de 2011 Confira a programação Literatura BRAVO! BRAVO!