
Revista BRAVO! | Julho/2008
POR DUDA FONSECA, DE BUENOS AIRES
A pós a grande repercussão do livro O Passado, lançado em 2003, muita coisa mudou na rotina do escritor argentino Alan Pauls, de 49 anos. Premiado internacionalmente e elogiado pela crítica e por escritores do calibre de Roberto Bolaño e Ricardo Piglia, a quem considera um mestre, Pauls afirma não saber dizer o que de especial possui a sua escrita. O certo é que com o seu último livro — batizado de Historia del Llanto (História do Pranto) e lançado pela editora catalã Anagrama, que deve sair no Brasil pela Cosac Naify — ele inaugura uma nova fase da sua vida. Pauls largou a carreira de jornalista e agora pode se dar ao luxo de andar tranqüilamente pelas ruas de Buenos Aires em busca de idéias, “quando as coisas vão mal”, ou sentar-se em seu escritório e escrever durante o tempo que lhe convier, “quando as coisas vão bem”. Com esta obra ele também inaugura o primeiro volume de uma trilogia a ser composta, ainda, pela Historia del Pelo (História do Cabelo) e pela Historia del Diñero.
Fazendo uso de uma escrita torrencial, com frases que freqüentemente ultrapassam o tamanho de uma página inteira, Pauls revela que a narrativa da Historia del Llanto — alicerçada no que denomina “frases-droga”, em que, segundo ele, o leitor é “arrastado” e “narcotizado” — traz uma crítica acentuada à cultura do pranto na Argentina. Nesta entrevista, concedida no café El Galeón, no bairro portenho de Palermo, ele critica o “monopólio” criado pelos argentinos que viveram a ditadura militar, que não permitem que ninguém da nova geração fale sobre o tema. “Parece-me que, na Argentina, a história dos anos 70 é propriedade de quem a viveu. E isso só reforça a cultura da vitimização que temos aqui. É algo cultural, forte e nefasto. É uma extorsão sentimental.”
BRAVO!: Você conseguiria fazer um paralelo entre o pranto argentino, cuja expressão máxima seria o tango, e a cultura da felicidade no Brasil, cuja expressão está no samba e no futebol, por exemplo? Seriam duas coisas opostas com o mesmo fim?
Alan Pauls: Estou começando a ter mais relações com o Brasil agora. Então, minha visão ainda é muito como turista. Mas o que percebo é que a felicidade parece ser um marketing brasileiro. Temos que descobrir se há essa cultura tradicional de ser feliz no Brasil ou se é apenas propaganda. Para mim, como turista, a imagem do Brasil é de um país com muita natureza, em que a cultura parece estar mais ligada à anedota, à narração, ao conto. A cultura argentina, por outro lado, é mais baseada na reflexão. Mas isso é algo que tem que ser estudado a fundo, pois essa felicidade me parece absolutamente um mito. A imagem do tango, para os estrangeiros, não é de quem chora, é de quem vive intensamente. Mas o tema do tango é a anunciação da vítima, do homem abandonado, traído. E se vende o tango, que é uma cultura da vítima, como uma cultura da intensidade. Dito isso, chegamos a uma relação interessante que nos leva a perceber que, para nós, argentinos, a única forma de ser intensos seria sendo vítimas. Talvez os brasileiros tenham essa mesma relação. Talvez o único momento em que o brasileiro pode ser intenso é quando ele é feliz.
Fale mais sobre essa “ideologia da vítima”. Em que medida ela contamina a sociedade e a política argentinas nos dias de hoje?
Esse é um assunto bastante complexo e merece ser mais debatido. Pessoalmente, acredito que é a cultura da vítima que está no poder, neste exato momento, na Argentina. A tradução da cultura da vítima para o mundo da política é o peronismo. O peronismo é um regime que faz com que a sociedade perca sua dinâmica e se direcione sempre para um só caminho. Ela deixa de funcionar como uma sociedade plural, como uma sociedade que prioriza a discussão, e todo e qualquer conflito passa a ser sufocado com um instrumento político muito arcaico, baseado no clientelismo, numa hierarquia muito bem definida, muito pouco institucional e muito personalizada. Estamos convivendo como uma lógica política diabólica que diz que só o peronismo pode governar este país.
Como assim?
Parece que cada governo diz ao povo: “Não peçamos nada, não exijamos nada muito audaz, porque podemos retornar ao que éramos”. Eis o que chamo de populismo: o casal Kirchner se perpetua no poder com o discurso de que, sem eles, podemos voltar ao caos de 2002. Menem, por sua vez, dizia que podíamos voltar à hiperinflação de Alfonsín, enquanto este dizia que podíamos voltar à ditadura. São ameaças que não deviam ter mais sentido. Se a Argentina não sair dessa dominação peronista, nunca vai poder mudar sua situação política. Vivemos a catástrofe da falta de opção.
Seu novo livro se chama Historia del Llanto, ou História do Pranto, em português. O título seria uma referência a essa questão da vitimização?
Com esse livro, eu quis mostrar que pode haver testemunho e pode haver verdade em alguém que não esteve diretamente ligado à ditadura militar, que não viu o que se sucedeu, assim como o protagonista da história. O que se passa na Argentina é que essa história dos anos 70 é um monopólio de quem a viveu. Esse é o problema. Aqui, quem fala dos anos 70 são aqueles que militaram contra o regime, que foram vítimas da ditadura ou os filhos de vítimas, jornalistas etc. Mas, quando alguém que não pertence a essa comunidade pretende dizer algo sobre esse período, não importa em que direção, há sempre a pergunta “com que direito você pode falar sobre esse período?”, como se não existisse vida fora desse meio. Quero cortar isso. Todos têm o direito de falar.
Historia del Llanto seria, então, uma resposta a esse monopólio da história?
O romance sai um pouco nessa defesa. No sentido de que a cultura pretensamente progressista que se consolida depois da ditadura é uma cultura calcada na sensibilidade e — sim, voltando à sua pergunta — em uma certa ideologia da vítima. Acredito que o pranto é a maneira mais fácil de provar publicamente que se é sensível. É a emoção mais fácil, e isso é criticado no livro.
E essa intensidade ligada à vítima serve para fascinar
as outras pessoas?
Não só fascina, como chantageia. E essa chantagem acaba
por perpetuar essa política que temos hoje. Pois o que fazem as
vítimas?
Elas se desarmam e clamam por consolo. Então, temos sempre que cuidar delas, consolar. Isso nos coloca numa situação sem saída. Meu novo livro é uma desmontagem desse processo. Há um episódio em que um pai leva o filho para o concerto de um cantor de protesto que acaba de retornar ao país depois do exílio. Ali, o protagonista percebe, estranhamente, que todas as pessoas presentes estão compactuadas com um emblema do engano, todas se fazem de sensíveis, como se fossem confidentes umas das outras. O resultado é a imposição dessa ideologia impugnante, que diz que, se somos vítimas, somos intensos e, se somos intensos, valemos a pena e fazemos sentido.
Depois da morte de William Burroughs, em 1997, você escreveu um texto sobre ele intitulado El Último de Aquellos Beatniks. Qual é a influência dos beatniks em sua escrita?
Pouca. Na verdade, os beatniks foram importantes para a geração de 60. A mim, por exemplo, esse tipo de literatura não atrai. Gosto mais da vida de Burroughs, das idéias dele sobre a sociedade do que o que ele escreve. É um tipo de literatura que não me afetou no momento que tinha que ter afetado. Cheguei tarde a várias coisas, cheguei tarde às drogas, à música, à valorização da experiência. Quando comecei a ler Kerouac, essa coisa tão vital de sua literatura já me parecia um pouco ridícula. Eu era inimigo das biografias literárias, não sabia, nem me interessava, da vida dos escritores dos quais gostava. Viver para escrever sempre me pareceu muito infantil.
Mas a geração beat foi uma das últimas que representaram a idéia de uma saga, e saga no sentido do personagem que possui uma meta, um objetivo elevado e claro. Você acha que a literatura contemporânea abandonou essa ideologia?
Parece-me que hoje não há nenhuma razão para que os escritores sejam figuras excepcionais. O grande romance do século 20, desde Leopold Bloom (Ulisses, de James Joyce) a Joseph K. (O Processo, de Franz Kafka), é constituído de personagens até menos brilhantes que o homem comum. Mas também acredito que, assim como os autores que propunham sagas, o principal objetivo dos escritores ainda é inventar formas de vida. Um escritor como Borges, com todo o tradicionalismo, o academicismo e o anacronismo que possui, é um escritor que propõe, também, uma forma de existência. Manuel Puig, que para mim é o escritor argentino mais importante dos últimos 30 anos, também propõe uma certa forma de vida. Mas não existe mais um efeito grupal, de movimento, de seita. Agora é tudo mais individual. Parece-me que a arte está sempre ligada a formas de vidas novas e atípicas.
A pergunta que temos que fazer é: que tipo de vida se anuncia na obra de cada escritor?E que tipo de vida se anuncia em sua obra?
A falta de um exemplo, de um modelo. Não há nenhuma hierarquia entre uma saga que altera rumos da vida e um livro que se passa na vida comum. Diria que não há nenhum livro mais ambicioso que Ulisses. Nesse sentido, se pode fazer um livro extremamente ambicioso sobre um personagem que não sai do seu quarto. Parece-me que a literatura contemporânea é um pouco isso. Desnorteiam um pouco o leitor.
Que ambição existe por trás dessa escrita?
Eu gosto das frases que duram até se converterem em lugares. Frases-hábitat, mas também frases-droga, porque narcotizam e arrastam. Quando escrevi a Historia del Llanto, tinha a fantasia de que o leitor pudesse ler o livro de uma só vez, sem interrupção. Quando a frase se expande, ela se revela mais parecida com a memória que vai e vem e se perde, voltando a se encontrar. Interessa-me a frase que obriga o leitor a passar por esse mesmo processo.