Edição do mês Assine Bravo!
Feed RSS
Folheie a revista
Literatura > A Revista
Assunto do dia
ILUSTRAÇÃO DIMITRE LIMA

Foto assunto dia - credito da foto

Revista BRAVO! | Julho/2008

O SUCESSOR DE MONTAIGNE

Em seu novo livro, J. M. Coetzee cria um personagem que escreve ensaios como o escritor francês. O resultado é um romance surpreendente

POR JONAS LOPES

No século 16, um nobre francês, filósofo, decide se trancar na torre de seu castelo para escrever. Ali, em meio aos livros, ele permanece durante anos, criando uma das mais importantes obras da literatura: Ensaios, uma abrangente compilação de textos dividida em três volumes. Esse homem — Michel de Montaigne (1533-1592) — promovia, ali, uma revolução. Ao contrário de seus predecessores, não estudava o homem tendo como base o mundo à sua volta; estudava- o escrevendo sobre si mesmo. Logo no prólogo, ele avisa ao leitor que é ele próprio a matéria do livro, numa reflexão colocada a serviço da compreensão de seu tempo.

Mais de 400 anos depois, outro autor, desta vez um ficcionista, cria um personagem que se recolhe para escrever. A pedido de um editor, esse homem discorrerá sobre temas do mundo contemporâneo. O criador de tal personagem — o sul-africano J. M. Coetzee — é ele próprio um herdeiro de Montaigne. Além de romancista, vencedor do Nobel de Literatura em 2003, Coetzee tem em sua obra ensaios sobre política e literatura, principalmente. Com Diário de um Ano Ruim, lançado agora no Brasil, o sul-africano assume com clareza essa filiação. No livro, utiliza a vida pessoal de seu personagem (anseios, sofrimentos, paixões) para extrair e filtrar conclusões sobre o mundo em que vivemos hoje.

Coetzee recorre não só a temas, mas também à estrutura utilizada por Montaigne. Na obra do francês, os textos são divididos em temas (Da Solidão, Da Tristeza ou Do Medo). Em Diário de um Ano Ruim, o “livre-pensar” do narrador, chamado de “JC” ou “Señor C”, é igualmente dividido em capítulos temáticos. E, em ambos os casos, trata-se mais de propor questões do que de escavar respostas. Os ensaios de JC, assim como os de Montaigne, não se baseiam em sistemas ou escolas filosóficas nem buscam comprovar teses predefinidas.

Há, obviamente, diferenças. Além dos textos ensaísticos, Diário de um Ano Ruim é um romance — e Coetzee faz um surpreendente exercício de combinação entre os dois gêneros. No livro, as opiniões de “Señor C” se alternam com uma trama paralela — a história do escritor. Convidado para escrever sobre o mundo, JC contrata uma bela vizinha, Anya, para ajudá-lo como secretária e digitadora. O velho intelectual,naturalmente, acaba se apaixonando pela jovem. Ela será um contraponto à sua velhice deprimente — um assunto, aliás, explorado pelos principais escritores vivos, como Philip Roth (Homem Comum), Paul Auster (Viagens no Scriptorium), além do próprio Coetzee, em livros como Homem Lento (2005) e na obra-prima Desonra (1999). E, como nos outros romances, a paixão do escritor não está livre de sobressaltos.

Esse enredo paralelo, tomado isoladamente, tem o seu apelo, mas não é o melhor do livro. A parte ensaística, em contrapartida, é mais bem-acabada do que a apresentada em livros de ficção anteriores, como Elizabeth Costello (2003), protagonizado por uma personagem considerada um alter ego seu. Por mais carismática que fosse a Sra. Costello, Coetzee consegue ser bem mais convincente por meio de uma figura masculina.

Na primeira parte de Diário de um Ano Ruim, “Señor C” escreve sobre questões relacionadas à política, sobretudo a norte-americana. O governo Bush, com sua apatetada guerra ao terrorismo que inclui torturas na base militar de Guantánamo, é seu alvo predileto. A maior habilidade de Coetzee ao tratar dessas questões está em imprimir interpretações que transcendem os temas pontuais, evitando que seu livro se torne datado. Essa é uma lição valiosa de Montaigne. Num assunto correlato — a tortura —, Montaigne escreve: “Muitas nações, menos bárbaras nisso que a grega e a romana que assim as chamam, consideram horrível e cruel atormentar e dilacerar um homem sobre cuja falta estais ainda em dúvida. Que culpa ele tem de vossa ignorância? Não estais sendo injusto, vós que, para não o matar sem razão, fazeis-lhe pior que o matar?”.

Na segunda parte de seu livro, o velho escritor passa a assuntos mais íntimos (sonhos, beijos, desejo, particularidades do cotidiano literário) e se aproxima ainda mais de Montaigne. Então, surge o interesse supremo de ambos: a morte, em todas as suas implicações urgentes. Coetzee e Montaigne (que celebrizou a frase de Cícero “filosofar é aprender a morrer”) não temem desafiá-la com suas questões e com essa admirável resistência que é o pensamento. Unidos nesse espírito, eles passam por cima de todas as diferenças que possuem para chegar a um mesmo objetivo: dissecar a condição humana.

O LIVRO
Diário de um Ano Ruim, de J. M. Coetzee. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras, 248 págs, R$ 41.


Assine BRAVO! | Política de Privacidade