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O escritor gaúcho João Gilberto Noll. Toda a ação de seu novo romance está contida num único monólogo interior do personagem-narrador

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

UMA HISTÓRIA DE DESAMOR

Em “Acenos e Afagos”, o autor gaúcho João Gilberto Noll tece com habilidade um enredo de angústia e desilusão, mas exagera nas cenas homoeróticas

POR EDWARD PIMENTA

Os personagens do escritor gaúcho João Gilberto Noll, prêmio BRAVO! Prime de literatura em 2006, não encontram lugar no mundo. Sua obra, reconhecida pela crítica como uma das mais originais da literatura brasileira nas últimas três décadas, está repleta de homens inadequados, angustiados e infelizes. Em Acenos e Afagos, seu último romance, não é diferente. Não há respiros de esperança, apenas um jorro único, às vezes convulso, de desilusão. Se fosse contada por um fabulista do século 19, seria a prosaica história de amor impossível entre um inábil fazendeiro e seu amigo engenheiro. Nas mãos de Noll, autor influenciado pelo niilismo do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, a narrativa ganha contornos trágicos.

Toda a ação do romance está contida num único monólogo interior do personagem-narrador, da primeira à última linha. Em retrospectiva, trata de vários assuntos, entre eles sua primeira experiência sexual na infância, descrita numa inspirada cena em que dois garotos se engalfinham na sala de espera do dentista. Aqui, o intangível objeto do desejo é um garoto como Tadzio, o efebo de A Morte em Veneza, de Thomas Mann. Esse embate inaugural terá profundos desdobramentos psicológicos, assim como depois a orgia juvenil com marinheiros alemães num improvável submarino ficará marcada como um rito de passagem para a vida adulta.

FLUXO DE CONSCIÊNCIA
São boas escolhas estéticas que, talvez propositadamente, se esvaem à medida que avança o desencantado relato do fazendeiro. Apesar de ter vivido toda a sorte de encontros clandestinos numa Porto Alegre conservadora, ele não consegue assumir seu homossexualismo — é casado com uma mulher e com ela tem um filho. Sua primeira e única paixão é o amigo da juventude, o engenheiro, que não precisa ter um nome próprio porque é apenas a personificação de uma obsessão. Assim, o caminho até a morte é repleto de degradações, leitos de hospital e sofrimento.

O enredo dessa história de desamor não é linear e se dá em múltiplas dimensões de tempo e espaço. Isso não traz nenhuma inovação formal, mas são claros o domínio técnico de Noll em sua opção narrativa — em primeira pessoa, sua marca registrada — e a habilidade em encadear impressões num maciço fluxo de consciência. Isso é o melhor do romance. O estranho é o narrador investir tanto na apresentação de todas as possibilidades homoeróticas, muitas vezes descrevendo situações gratuitas. Diferentemente do pretendido, não funciona como elemento transgressor e, às vezes, soa ingênuo. Perde, portanto, a oportunidade de elevar seu drama a um patamar universal.

O LIVRO
Acenos e Afagos, de João Gilberto Noll. Record, 208 págs., R$ 32. LEIA TAMBÉM
Livros do autor relançados agora pela editora: Bandoleiros (160 págs., R$ 28), O Cego e a Dançarina (144 págs., R$ 26) e Rastros do Verão (80 págs., R$ 25).

 

 


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