Teatro e Dança
A Era dos Novos Dramaturgos
Para o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história, o palco não era um lugar de pretensa condução à virtude, de pregação edificante, mas um local para "imitar a vida, com as contradições que ela atira para todos os lados". De lá para cá, a realidade em sua complexidade tem sido o motor principal da dramaturgia, ainda que atualmente esta seja encenada de forma não realista. "É provável que a importância do dramaturgo se traduza na tentativa de encontrar algum sentido por trás do imediatismo da existência", diz Sérgio Roveri, que, ao lado Newton Moreno, Paulo Santoro, Silvia Gomez e Grace Passô, integra o time dos mais talentosos dramaturgos da nova geração de autores do teatro brasileiro. Em comum, a linguagem que escapa do realismo clássico, que, depois de ter sido apropriado e desgastado pela televisão, diminuiu sua frequência nos palcos, abrindo espaço para experimentações de linguagens possíveis apenas no teatro. A época é favorável a esses novos talentos. Nos últimos anos, o ofício do dramaturgo voltou a ser considerado crucial para a apreensão dessa realidade complexa, nesses novos parâmetros. Isso se segue a uma era que se estendeu até a década de 1990, em que grandes encenadores como Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa eram os protagonistas. O espaço de atuação dos dramaturgos também foi ampliado com a explosão de coletivos teatrais impulsionada pela Lei de Fomento, criada em 2002, em São Paulo, para financiar os grupos. "A prática de processo colaborativo solicitou a presença de um profissional de texto para cena, fundamental para organizar o roteiro destes processos de pesquisa dos grupos", diz Newton Moreno, também ator e diretor de seu grupo, Os Fofos Encenam. Silvia Gomez, formada numa das principais escolas de investigação teatral do país, o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de São Paulo, reforça a opinião: "Nos processos coletivos, corre-se o risco de criar montagens que viram um amontoado descosturado de cenas. Ficou clara, assim, a importância de se ter um fio condutor, alguém que pudesse fazer a costura e criar uma história coerente e instigante, não apenas uma sucessão de viagens individuais". Para Grace Passô, autora, atriz e eventualmente diretora do grupo Espanca!, de Belo Horizonte, a revalorização do dramaturgo se dá sobretudo no sentido de rever, recriar sua função: "Desde as últimas décadas do século passado, o modo de pensar e fazer teatro mudou significativamente. Os coletivos ensinaram que escrever teatro é, também, fazer teatro e não escrever para ver o que aquele grupo faz com seu texto". Entre os autores ligados a coletivos teatrais, cujo trabalho, na maior parte das vezes, é criado a partir de improvisações dos atores, e aqueles que compõem sozinhos seus textos, seguindo os moldes da tradição teatral, é fato que a dramaturgia vive um momento de ebulição. "Tornou-se quase um evento ser dramaturgo", diz Antunes Filho, criador do CPT. "Será preciso separar o joio do trigo. Muitos autores vão escoar, poucos irão ficar", opina ele, citando seus discípulos Paulo Santoro e Silvia Gomez como dramaturgos de vida longa. Ainda que os programas de incentivo à formação de novos talentos não supram toda a necessidade do setor, eles existem. O CPT é um exemplo disso, assim como diversos ciclos de leituras, como o Letras em Cena, realizado no Museu de Arte de São Paulo, cuja programação especial neste ano promove textos de jovens autores. Há também o Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council, também de São Paulo, que está começando trabalho com uma nova turma de dramaturgos iniciantes. O maior problema, atualmente, é fazer com que esses novos textos subam ao palco. Até mesmo um autor de talento comprovado sofre para encenar um texto no país. "Cada produção é um parto numa selva de natimortos", diz Santoro. Nascidos ou projetados em concursos teatrais ou cursos de formação, como os citados acima, Santoro, Moreno, Silvia, Grace e Roveri apresentam suas leituras dessa realidade multifacetada que o teatro leva ao palco. Cada um a sua maneira, escrevem a vida que Brecht queria representada. Silvia Gomez
Com a produção de apenas um texto que considera relevante, a jovem jornalista mineira Silvia Gomez, 31, residente em São Paulo, já pertence ao rol dos dramaturgos mais importantes da nova safra brasileira. O Céu Cinco Minutos antes da Tempestade, sua obra de estreia, de 2008, impressiona pela contemporaneidade. Antunes Filho chegou a compará-la a Sarah Kane, mas, diante de O Céu..., Psicose 4h48, a obra-prima sobre a neurose da britânica, parece datada. Silvia instiga o espectador com a abertura de sua obra. Na dramaturgia fragmentária, vaga e repetitiva de O Céu..., fica claro que a neurose assola uma família desajustada, composta por uma ex-mulher obsessiva por medicamentos, uma filha constantemente dopada pela mãe e um pai ausente.
A peça exigiu do diretor, no caso o também estreante e talentoso Eric Lenate, a concepção de uma das inúmeras leituras possíveis da obra. Montada a encenação, em sintonia com o estilo do texto e, portanto, aberta às interpretações do público, cabe a cada um dos espectadores a função de pensar a sua versão da história. "Quero escrever porque tenho uma urgência de falar com o meu tempo, com a minha geração. Quero encontrar as palavras de agora, colocando em cena o impulso artístico da raiva, da inadequação no mundo, da perplexidade e da dor", diz a autora, que trabalha a trama de forma não-linear, a palavra de maneira sensorial, no meio do caminho entre realismo e teatro do absurdo. "Teatro, para mim, é uma forma de responder ao que não tem resposta, falar das questões existenciais que são minhas e de todo mundo", diz ela, mais uma autora da nova geração a estrear na dramaturgia com o respaldo de Antunes Filho. O Céu Cinco Minutos antes da Tempestade foi trabalhado durante cinco anos no Círculo de Dramaturgia do CPT, do qual ela faz parte. "Tanto Silvia como Paulo Santoro vão além da realidade natural. Ambos dão o golpe da inteligência e atingem a superação metafórica. Adoro. Eles têm a dizer", elogia o mestre Antunes. Silvia não se sente pressionada com a aceitação de sua obra: "Não me sinto obrigada a mostrar uma produção em série. Estou começando e ainda sei muito pouco. Me permito ir devagar". Newton Moreno
Apesar de o Nordeste servir de alimento ao teatro brasileiro desde o século 19, as tradições populares passaram a inspirar autores da região só a partir dos anos 50. Hoje, mais do que a preservação, o movimento comum é pela atualização da cultura nordestina. O pernambucano Newton Moreno é o dramaturgo da atualidade que melhor promove esse diálogo entre tradição cultural e cosmopolitismo. Também diretor e ator, ele tem 41 anos de idade e nove de carreira autoral, iniciada profissionalmente com a fundação de seu grupo, Os Fofos Encenam, em 2000. Moreno reside em São Paulo há quase dez anos. Conserva o imaginário, no entanto, no local de suas origens. "Parte do que somos como nação começa pelo Nordeste. O povo tem soluções estéticas, um poder de resistência e uma fé na vida inspiradores. Quero me aproximar cada vez mais desta raiz", diz. Moreno dedica-se a inundar o palco de lirismo e musicalidade, abordando a temática de sua cultura natal por meio de formas estruturais abertas, que remetem a um estilo de dramaturgia próprio às produções teatrais de grandes centros urbanos. Sua escrita exala contemporaneidade e une mundos aparentemente opostos, instigando espectadores a pensar o teatro como arte de experimentação. "Escrevo para provocar uma nova cena. Gosto de pensar que meus textos sejam recebidos como desafio, uma tentativa de expandir os limites da cena teatral. Risco é saudável", diz. Ele conquistou reconhecimento em 2004, com sua quarta peça, Agreste, dirigida por Marcio Aurélio (prêmios Shell de Teatro e Associação Paulista de Críticos de Artes APCA, ambos na categoria melhor texto, em 2004). Desde então, nas seis obras subsequentes, como Assombrações do Recife Velho (Prêmio Qualidade Brasil de melhor espetáculo em 2005) e As Centenárias (Prêmio Shell para melhor dramaturgia em 2007), Moreno não cessou de apresentar sua cultura com frescor e ousadia. No mês que vem, ele mostra no Itaú Cultural, em São Paulo, a construção em processo de seu próximo espetáculo, Memória da Cana, projeto que une as memórias dos atores de criação nordestina sobre o tema da família à obra Álbum de Família, de Nelson Rodrigues.
Sérgio RoveriCom peças como Andaime e A Coleira de Bóris, Sérgio Roveri, de 47 anos, se consagrou como um dos mais talentosos criadores de diálogos do teatro brasileiro. Só quem tem domínio total dessa técnica pode se aventurar a escrever um texto em que eles inexistem. É o que ele faz em Ensaio para um Adeus Inesperado, sua próxima peça a ser encenada um texto tocante sobre a dor de famílias de jovens suicidas, previsto para estrear neste semestre, com direção de Sérgio Ferrara. A obra é formada por tijolos de monólogos. "Busco novos desafios", diz ele, que não faz muito tempo cobria teatro como jornalista. Tal procura teve início em 2007, quando o Brasil já o considerava uma das promessas dramatúrgicas mais concretas. Roveri tinha quatro anos de carreira e mais de uma dezena de peças escritas, entre elas Encontro das Águas, espetáculo que ficou sete meses em cartaz no Espaço dos Satyros, em São Paulo. Também já havia conquistado alguns dos mais importantes prêmios do gênero, como o primeiro lugar do Funarte de Dramaturgia, com Com Vista para Dentro, e o Shell de melhor autor, com Abre as Asas sobre Nós. "Foi de repente que me dei conta de que a profissão tinha ficado séria", diz ele, sem falsa modéstia. Em vez de confortar, a constatação aumentou sua inquietude habitual. O dramaturgo se dedicava a recortes da realidade, como porta-voz daqueles que não têm voz, os que não são reis ou vilões, incluídos ou excluídos, como os anti-heróis de Plínio Marcos e de seu maior herdeiro, Mário Bortolotto. Mas passou a investir em experimentação. "Talvez isso seja uma busca por um estilo. Mas, por enquanto, vejo como uma maneira de fazer trabalhos diferentes dos anteriores", explica. Com dramaturgia não-linear, enredo pouco definido e personagens "desbiografados", A Coleira de Bóris que concorre ao Prêmio Shell de 2008, na categoria melhor autor é fruto dessa nova fase. Assim como a peça grotesca Lipo da Mãe e Não Contém Glúten, obra que permanece engavetada e na qual um casal contracena com personagens invisíveis. Paulo Santoro
Trata-se de um dramaturgo em constante renovação. "A experimentação não é buscada, ela simplesmente acaba sendo necessária em cada processo. Experimentar sem haver necessidade gera hermetismo", diz o paulista Paulo Santoro, 36 anos. O autor iniciou-se na profissão de uma maneira que um aspirante a dramaturgo dificilmente imaginaria. Desenvolvida ao longo de quatro anos no Círculo de Dramaturgia do CPT de Antunes Filho, a primeira peça de Santoro, Canto do Gregório (2004), teve a honra de ser dirigida por um dos maiores mitos do teatro brasileiro, o próprio Antunes. Foi, também, a primeira montagem de um texto embrionário do CPT a ganhar a cena.
Tal estreia poderia ter engessado o autor a um estilo ligado a esse primeiro texto, filosófico, que convida o espectador a uma reflexão existencialista por meio das indagações de um sujeito atormentado diante do absurdo de sua existência, face a face com Jesus, Buda e seus próprios questionamentos. Mas não. Em vez disso, Santoro partiu para novos caminhos. Saiu do CPT, se aventurou pelo naturalismo para compor Carina Está Viva (2007), monólogo sobre uma jovem que recebe convidados em sua casa para explicar por que resolveu se suicidar. Em A Mulher que Ri, sua terceira e mais recente incursão dramatúrgica, criada no ano passado, arriscou-se na linguagem poética. Para compor o rito de passagem de um garoto para a vida adulta nessa peça memorialística, o autor se apropria da atmosfera lúdica que enternece o cotidiano de uma família miserável presente no conto Sete Krajcár (moedas), do húngaro Móricz Zsigmond (1879-1942), que lhe serve de inspiração. Como resultado, reinventa a si mesmo mais uma vez, em um de seus melhores trabalhos no teatro. Entre seus próximos projetos, promete novas surpresas, como O Teste de Turing, uma espécie de ficção científica sobre máquinas que se tornam mais criativas que os seres humanos. Grace Passô
A mais nova entre os novos dramaturgos selecionados nesta matéria tem alma antiga. Com uma sabedoria que as pessoas só costumam atingir com a idade, a mineira Grace Passô, 28 anos, busca, acima de tudo, profundidade em sua dramaturgia. A autora, que é atriz e eventualmente diretora do grupo Espanca!, aposta no poder das metáforas. "A metáfora é próxima ao mundo dos sonhos. Gosto disso. Também gosto da possibilidade que ela nos dá de falar de algo relativo a toda humanidade, por meio de uma situação caseira, ou, ao contrário, falar de um universo pequeno através de uma situação grandiosa", diz.
Com o uso desse recurso capaz de extrair o grande do pequeno, Grace potencializou as agruras do mundo moderno em Por Elise!, peça que prima pela delicadeza e conquistou os prêmios APCA e Shell de melhor dramaturgia, em 2005. Nela, uma das personagens avisa que é preciso ter cuidado com o que se planta na vida no caso, um abacateiro que cresce cheio de frutos no quintal de uma casa e vira uma ameaça para as cabeças dos moradores. Comprova o apetite da artista pela força das metáforas Amores Surdos, a segunda fábula contemporânea composta por Grace, concorrente ao Prêmio Shell de 2008 nas categorias melhor autor, diretor e cenário. A lama que inunda o lar de uma família aparentemente normal transforma ação em reflexão e convida a plateia a repensar os relacionamentos humanos.
Grace trilha o caminho inverso em seu terceiro e até o momento último trabalho dramatúrgico, Congresso Internacional do Medo, inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade. "A situação da peça se passa em um congresso internacional, e a reunião de pessoas do mundo é um pretexto para falar do nosso país", diz. Grace procura no teatro um dizer urgente: "Acho imprescindível que um texto teatral da atualidade pense sobre o que de fato é necessário dizer". É norteada, também, pela busca até o momento bem-sucedida de poesia em cena: "Poesia não no sentido menor, com música romântica de fundo. No sentido de construir uma dramaturgia que não seja prosaica, mas precisa e linguisticamente subvertedora, como um poema".
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