Revista

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Foto: Luiz Maximiano
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Objetivos

- Conhecer algumas características do projeto Modernista de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

- Conhecer características da linguagem própria do rap.

- Estabelecer relações entre o ponto de vista do “povo”, almejado pelos modernistas, e o ponto de vista da periferia expresso no rap brasileiro atual.

- Conhecer um pouco da tradição musical periférica brasileira.

- Estabelecer o sentido político dos conceitos de variação linguística e dialeto.

Conteúdos

- 1ª fase do Modernismo no Brasil.

- Música Popular Brasileira/ Rap.

- Rima.

- Variação linguística e dialetal.

Tempo estimado

3 aulas

Material necessário

Um computador com acesso à internet, televisão, aparelho de DVD, uma cópia do documentário “Palavra Encantada”, de Helena Solberg, e cópias dos poemas e das letras das canções mencionadas para os alunos.

Desenvolvimento

1ª AULA

Primeiras aproximações entre escrita e fala na cultura brasileira

Para começar, lance as seguintes perguntas à sua turma: “É possível escrever como se fala? Em que circunstâncias?”. Com base nas respostas dos alunos, historie um pouco sobre como essa questão é tratada na literatura brasileira.

Conte que, na primeira fase do Modernismo literário brasileiro, alguns artistas e intelectuais – em especial Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira – tiveram como projeto aproximar o português escrito da fala nacional. Tal projeto respondia a dois questionamentos ideológicos profundos:

1. Em primeiro lugar, 100 anos após a Independência, era preciso tornar a língua e a cultura brasileiras independentes do padrão colonial português.

2. Em segundo lugar, tais escritores, alinhados aos movimentos políticos da esquerda da época, pretendiam aproximar a língua escrita da língua falada pelo povo brasileiro nas ruas. Seus projetos foram os mais acabados dessa fase do Modernismo.

Depois da explicação, distribua aos alunos cópias dos poemas abaixo e peça que leiam e comentem, em duplas, esses exemplos da produção literária da época:

1. PRONOMINAIS

Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

2. POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Depois da leitura, prossiga com a discussão sobre os elementos da língua falada que aparecem nas obras escritas do Modernismo e peça para que, em casa, os alunos façam uma pesquisa mais aprofundada a respeito de outras produções culturais brasileiras onde a escrita se aproxima da fala.

2ª AULA

Língua falada e língua escrita nos sambas brasileiros

Retome as questões discutidas na aula anterior e monte, a partir da pesquisa trazida pela turma, uma lista das produções culturais brasileiras onde a escrita se aproxima da fala (cordel, repente, MPB etc.). Se os estudantes não citarem o rap, pergunte a eles: e o rap? Vocês conhecem músicas desse estilo?

Explique que o rap brasileiro não surgiu da escrita modernista. Ocorre que (como denunciou Clarice Lispector no livro “A hora da estrela”, de 1977), devido ao imenso abismo social brasileiro, o “povo” dos modernistas era ainda uma entidade muito abstrata e a fala “das ruas” era muito mais complexa e diversificada do que os artistas (da elite intelectual brasileira) eram capazes de avaliar. Mas, vale lembrar que, apesar das limitações de época e de classe, foram os escritores modernistas os primeiros a localizar a distância entre língua falada e língua escrita e a formalizar um projeto de aproximação da cultura erudita e popular no Brasil. Devemos muito a eles.

As principais influências do rap nacional podem ser localizadas no rap norte-americano e na tradição de protesto da música brasileira, especialmente no samba que, desde a década de 1920, apresenta algumas canções em que o pobre e o marginal finalmente tomam a palavra e discursam em causa própria.

Após a explicação, mostre alguns sambas da época para a classe e analisem atentamente o ponto de vista figurado nas letras:

Abaixo, algumas sugestões:

Lenço no Pescoço (Wilson Batista): http://abr.io/wilsonb1

Acertei no Milhar (Wilson Batista e Geraldo Pereira): http://abr.io/wilsonb2

Ganha-se muito pouco, mas é divertido (Wilson Batista): http://abr.io/wilsonb3

Amor sem dinheiro (Sinhô): http://abr.io/sinho1

A favela vai abaixo (Sinhô): http://abr.io/sinho2

3ª AULA

A rima e a variante falada da língua no rap

Com base na discussão sobre o samba, da aula anterior, pergunte aos alunos: quem representa hoje o ponto de vista da periferia? A partir das respostas da classe, apresente à turma a canção “Grajauex”, do rapper Criolo, disponível neste link: http://abr.io/grajauex.

Em seguida, distribua cópias da letra da canção e analise com a turma. Dê atenção especial para o ponto de vista figurado e para a importância das rimas na construção do rap.

Grajauex

Criolo

Refrão

The Grajauex

duas laje é triplex

No morro os moleques, o vapor...

é o play 3 na golfera te sai chanex

é o ouro branco o pó mágico e poder de rolex

na favela com fome atrás dos nike air max

os canela cinzenta que não tem nem cotonetes

os MC das antiga é dinossauro T-Rex

pra fazer bobaginha cole ali com Jontex

pra zuar na rua com os cachorro é pex pex

e as princesinha na noia de um papel faz bo...

Refrão

Pros irmão que tão com fome desce 3 marmitex

sabão de coco não é Pompom com protex

no almoço o sodex, meu advogado é o Alex

e se jogo do bicho é contravenção, mega sena é ilusão pra colar com durex

a responsa de chegar garante seu retornex

*The IporanguiX a conect co ex*

atrás de um verdix pra mandar por sedex

zona sul é o universo e os vagabundo é belezex

é que eu não to de tricotex

e eu também não to com medo irmãozex

é zona sul é o universo filho tá pagando de louco

Na música, o rapper Criolo faz um passeio pelas questões dos esquecidos pelo Estado a partir de seu bairro, o Grajaú, rimando livremente em “ex”. As lajes das habitações pobres, o tráfico de drogas ostensivo nas comunidades, os objetos de desejo ditados pelo mercado publicitário, as canelas ressecadas dos moradores negros e pobres, a cultura hip-hop, a sexualidade em tempos de AIDS, a falta de conforto e de bens de consumo básicos, as ilusões de enriquecimento fácil e as conexões culturais entre os bairros periféricos estão figuradas nessa letra de batida e rimas agressivas próprias do rap de protesto.

Lembre aos alunos que a grande revolução do rap foi o uso da voz como instrumento rítmico – e não melódico. Peça que a classe observe a divisão rítmica complexa que se opera na batida a partir do vocal.

Por fim, comente que a variante linguística utilizada pelo rap brasileiro (“os canela”, “os MC das antiga” etc.) não é um uso “errado” do português, e sim uma variante com determinações de classe. A escolha do uso desse dialeto pelo rap é política: se as canções são escritas a partir da periferia e figuram o cotidiano da periferia, nada mais legítimo do que se expressar no dialeto da periferia. Um dos maiores méritos do rap nacional é justamente o de fortalecer a autoestima de quem foi posto à margem pelo poder dominante.

Avaliação

Assista, com a classe, ao documentário “Palavra Encantada”, de Helena Solberg (saiba mais sobre o documentário aqui: http://www.palavraencantada.com.br/). Antes, entregue as seguintes questões por escrito:

1) Por que uma letra de canção pode ser “frágil quando escrita e forte quando cantada”?

2) A letra de “Grajauex” pode ser recitada como um poema? Por quê?

3) O rap é “palavra falada” ou “palavra cantada”? Justifique.

4) Localize algumas diferenças e semelhanças entre o rap e o repente.

5) Qual dos poemas lidos no documentário mais te impressionou? Por quê?

6) Interprete a frase de Ezra Pound citada por Arnaldo Antunes: “A função da literatura é nutrir de impulsos”.

Observe se os alunos mencionam nas respostas o sentido político do emprego da variante faladada língua e dos dialetos da periferia nas composições do rap e leve em conta, também, a pesquisa realizada e a participação nas aulas. http://www.palavraencantada.com.br/

Consultoria Helena Weisz

Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).

4 comentário(s) de 4

  1. Um aula excelente!

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  2. Gostaria De Saber as Respostas da Avaliação Que esta Posta em cima. Ira me ajudar muito com os meus alunos a Avaliação e as respostas. Desde ja muito obrigado!

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  3. Achei esse plano ótimo e pretendo desenvolvê-lo com meus alunos. Essa é uma excelente colaboração para professores de Língua Portuguesa e Lieratura, por isso agradeço a sua disponibilidade e generosidade pela sua contribuição com o processo educacional. Abraços. Zilda Muriaé, Minas Gerais.

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  4. gostei muito dos planos de aula aqui expostos irão me ajudar bastante

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