Cinema
A longa estrada de On the Road
-
Foto Gregory SmithKristen Stewart em cena de Na Estrada. Foram mais de 40 anos até o livro de Kerouac ser adaptado para o cinema -
Foto Gregory SmithO cineasta Walter Salles (à esq.) com o ator Viggo Mortensen no set de Na Estrada. O brasileiro foi convidado por Francis Ford Copolla para dirigir o longa -
Foto Gregory SmithO diretor e o ator Garrett Hedlund nas filmagens. Coube a Salles romper a maldição que pairava sobre o livro -
Fotos Justin Sullivan / AFP / Keystone / Evelyn Floret / Getty Images / Michael Ochs Achives / Getty Images / David Fefranc / LatinstockCom 36 m de comprimento e 22 cm de largura, o rolo de telex usado por Jack Kerouac para datilografar On the Road é apresentado na exposição A Epopeia, da Escrita para a Tela, em cartaz até 19 de agosto no Museu de Letras e Manuscritos de Paris. São folhas presas e adaptadas ao tamanho da máquina de escrever, resultando em um único parágrafo de 320 páginas e 125 mil palavras. Kerouac se orgulhava de dizer que, desenrolando o manuscrito, ele se parecia com uma estrada. Em maio de 2001, o rolo foi comprado por US$ 2,5 milhões por Jim Irsay, dono do time de futebol norte-americano Indianapolis Colts. -
Fotos Justin Sullivan / AFP / Keystone / Evelyn Floret / Getty Images / Michael Ochs Achives / Getty Images / David Fefranc / LatinstockA marca do carro em que os protagonistas Sal Paradise e Dean Moriarty cruzaram os Estados Unidos na primeira viagem do livro não existe mais (os veículos remanescentes não passam hoje de 2 mil). Mas pode-se adquirir um Commodore 1949, semelhante ao rodado por eles, com módicos US$ 69 mil. O Hudson chegava a 170 km/h, e o banco dianteiro era tão largo que acomodava quatro beatniks. -
Fotos Justin Sullivan / AFP / Keystone / Evelyn Floret / Getty Images / Michael Ochs Achives / Getty Images / David Fefranc / LatinstockSmith & Wesson .38 Special, a arma favorita de William Burroughs. O escritor aparece em poucas páginas do livro, como o personagem Old Bull Lee, mas todas marcantes: ele usa o revólver, uma das muitas armas de sua coleção, para detonar seus alvos, as latas de benzedrina, droga largamente consumida pela mulher, Joan, que a certa altura brinca: “Espero que não o use em mim”. Mau agouro: na vida real, Burroughs mataria a mulher três anos depois, numa brincadeira de Guilherme Tell. -
Fotos Justin Sullivan / AFP / Keystone / Evelyn Floret / Getty Images / Michael Ochs Achives / Getty Images / David Fefranc / LatinstockO jazz aceleradíssimo criado por Charlie Parker foi, ao lado das anfetaminas, a principal fonte de inspiração rítmica para a literatura beatnik, e Congo Blues, álbum de Dizzy Gillespie com participação de Parker, era a obra predileta de Neal Cassady, grande amigo de Kerouac. O estilo de Parker de enfiar o máximo possível de notas entre um tema e outro era replicado na pontuação veloz usada pelo romancista, adepto de sentenças longas que se enovelavam em espirais e cadeias. -
Fotos Justin Sullivan / AFP / Keystone / Evelyn Floret / Getty Images / Michael Ochs Achives / Getty Images / David Fefranc / LatinstockSe On the Road pode ser lido como um romance sobre as idas e vindas a Nova York, o The White Horse Tavern é um dos raros bares que conservam a aura de pé-sujo romântico do começo dos anos 1950. Os escritores Dylan Thomas, Hunter Thompson e Norman Mailer também enchiam a caveira ali. A taverna do século 19, não longe do apartamento em que Kerouac escreveu o livro, lota nos fins de semana: para se sentir um autêntico beatnik, vá numa segunda-feira depois da 1 da manhã.
Como na piada do estrangeiro perdido em Nova York, On the Road ficou um bom tempo parado na esquina da Walk com a Don´t Walk sem saber que rumo tomar. Escrito por Jack Kerouac, supostamente em três alucinadas semanas de abril de 1951, o manuscrito se manteve quase sete anos estacionado na gaveta do autor norte-americano sem chegar a lugar algum. Quando enfim desatolou e deu a partida, cantando pneus e jogando brita para todo lado, deixou o acostamento e ingressou de vez na freeway do sucesso imediato.
A prosa “espontânea” de Kerouac fez instantaneamente a cabeça de milhões de jovens leitores – primeiro no seu país, depois na Inglaterra e na França e, a seguir, no mundo inteiro, ou pelo menos no mundo ocidental. Lançado em setembro de 1957, o romance sobre três viagens de costa a costa pelos Estados Unidos logo se tornou cult, depois virou um clássico e, em seguida, mito. Como todo mito, veio carregado de verdades, meias-verdades e algumas mentiras deslavadas – entre elas, a de que a versão publicada fora escrita nas tais três semanas. De todo modo, impôs-se como a pedra angular da então batizada “geração beat”, precursora da contracultura ao prezar valores como a liberdade hedonista e a vida nômade. Menos de uma década mais tarde, o romance iria virar, oh céus, o que alguns resolveram chamar de a “bíblia hippie”.
Escrito em vastas panorâmicas, com frases largas e amplas como as estradas do Oeste norte-americano, sem desvios, sem vírgulas, sem parágrafos e, claro, sem paradas para o xixi, On the Road veio ao mundo já em cinemascope. Ainda assim, Kerouac foi menos influenciado pelo cinema do que se supõe. A recíproca, porém, não é verdadeira: em meio ao bando de hippies que adotou On the Road como “bíblia”, estavam os sujeitos responsáveis pelo que seria chamado de Nova Hollywood, entre os quais figuravam Martin Scorsese, Bob Rafelson, Hal Ashby e, claro, Peter Fonda e Dennis Hopper. Afinal, é óbvio que Easy Rider/Sem Destino, filme sobre motoqueiros estrelado pelos dois últimos, nem sequer seria concebível antes do advento de On the Road. Dessa turma de cineastas rebeldes, fazia parte ainda Francis Ford Coppola, a quem caberia adquirir os direitos de adaptação do livro para a tela.
Antes disso, Marlon Brando – o pai de todos ou, vá lá, o avô – já havia tomado a dianteira e pensado em botar as palavras de Kerouac a 24 quadros por segundo. Mas uma carta um tanto impertinente que o próprio Kerouac lhe enviou, ainda em 1957 – se escalando para fazer o papel de Sal Paradise, um dos protagonistas da trama, enquanto sugeria que o ator fosse Dean Moriarty, o outro, e dando palpites sobre como rodar o filme (“Vamos instalar uma câmera no banco dianteiro, com a estrada se desenrolando dia e noite à frente do para-brisas”) –, parece ter feito mais mal do que bem. Brando nem se deu o trabalho de responder. Então, de repente, lá estava a adaptação de On the Road parada na esquina da Walk com a Don´t Walk, vendo o mundo passar. Enquanto o tempo escoava, até o supostamente infilmável Almoço Nu, de William Burroughs – autor também associado ao movimento beat –, vestia-se de celuloide e ia para as telas por mãos e obra de David “o rei da gosma” Cronenberg.
Kerouac morreu, reacionário e barrigudo como um caminhoneiro texano, em outubro de 1969. Dez anos depois, Coppola comprou os direitos cinematográficos. Ele e o filho, Roman, tentaram fazer um roteiro com a ajuda do “beatnólogo” Barry Gifford, mas o motor não pegou. Em meados da década de 1980, Coppola voltou à carga, contratando o doidão Russell Banks para roteirizar o livro e pensando em Joel Schumacher para dirigi-lo, com Ethan Hawke e Brad Pitt nos papéis de Sal e Dean, respectivamente. Nova derrapagem. Em 2001, o poderoso chefão acelerou de novo e chamou Gus Van Sant para a direção, convidando Johnny Depp para ser Sal e Colin Farrell para incorporar Dean. Sabe-se lá como ou por quê, o projeto capotou de vez.
E então, como todo mundo agora está cansado de saber, depois de Coppola ter assistido à exibição de Diários de Motocicleta, de Walter Salles, no festival de Sundance, em janeiro de 2004, eis que On the Road veio dar uma volta no Brasil. Mais do que uma volta: na verdade, fez quase um pit stop. Copolla convidou o cineasta brasileiro para dirigir o clássico de Kerouac e, com roteiro de Jose Rivera (que já fizera o script das aventuras motoqueiras de Che Guevara pelas veias abertas da América Latina), o filme enfim deu a largada e saiu do atoleiro de indecisões no qual havia chafurdado por mais de 40 anos.
Independentemente dos resultados obtidos por Walter Salles – e cabe ressaltar que este escriba ainda não viu o filme (a primeira exibição de Na Estrada para público e imprensa seria no Festival de Cannes, no fim de maio, depois do fechamento desta edição) –, é evidente que sua adaptação cinematográfica jamais poderá atingir os resultados obtidos por Kerouac. A enxurrada de palavras do escritor, sua prosódia peculiar, as insidiosas rimas internas, as gírias, o coloquialismo franco, as aliterações, o ritmo “bebop” de sua prosa, em suma, todas as rupturas formais deflagradas pelo livro – que, aliás, ajudaram a libertar a literatura norte-americana de certo servilismo a fórmulas europeias ou europeizantes, fazendo-a retomar o legado panteísta de Walt Whitman, e um tanto do inconformismo de Henry David Thoreau, para não falar na revolta messiânica de Herman Melville –, obviamente não podem ser transpostas para a tela. E foram elas que, apesar da mordacidade letal com a qual Truman Capote definiu o estilo de On the Road (“That isn’t writing, it’s typing”, ou “Isso não é literatura, é datilografia”), realmente a tornaram uma obra marcante, e não as viagens (terrestres ou metafóricas) que ela descreve.
De todo modo, o filme enfim está feito. E, sem patriotismo ou patriotadas, dá certo orgulho saber que, após tantas e tamanhas arrancadas em falso, coube a um brasileiro vencer a maldição que parecia pairar sobre On the Road, impedindo-o de acelerar para a amplitude das telas que o livro sempre ambicionou.
Eduardo Bueno é jornalista e autor, entre outros, da série de livros sobre história do Brasil iniciada com A Viagem do Descobrimento. Ele também traduziu a primeira edição nacional de On the Road (lançado como Pé na Estrada pela Editora Brasiliense em 1984).
O FILME
Na Estrada, de Walter Salles. Com Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Alice Braga, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst. Estreia neste mês.
Conteúdo relacionado
- Rebeldia Comportada
- Na Estrada é um filme tecnicamente impecável; mas a energia e o sentido de urgência dos personagens não se fazem sentir na tela
Nenhum comentário