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Nelson di Rago
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A atriz e polemista Leila Diniz, biografada pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos

Leila Diniz é um filme, uma entrevista e, agora, um livro. O filme é Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira, lançado em 1966. A entrevista é a famosa conversa com jornalistas do Pasquim publicada em dezembro de 1969. O livro é a biografia Leila Diniz: Uma Revolução na Praia, de Joaquim Ferreira dos Santos, que acaba de ser lançada pela editora Companhia das Letras.

Na obra de Joaquim Ferreira dos Santos está implícito: um filme e uma entrevista resumem o legado de Leila. Ela até fez outros trabalhos para o cinema — aparece em precursores da pornochanchada dos anos 70, como Os Paqueras, e em obras menores de bons cineastas, como Azyllo muito Louco, de Nélson Pereira dos Santos. Entre os filmes de Leila, no entanto, Todas as Mulheres do Mundo é o que indiscutivelmente resistiu ao tempo. Em sua época, a atriz era conhecida nacionalmente como estrela de telenovelas. Estas não sobreviveram nem fisicamente: folhetins como Anastácia, a Mulher sem Destino ou Paixão de Outono tiveram seus registros destruídos num incêndio na TV Globo.

O melhor da musa carioca não é seu trabalho como atriz. Leila brilha muito mais quando interpreta ela mesma. É o que acontece em Todas as Mulheres do Mundo. Em seu livro, Joaquim Ferreira dos Santos conta como Domingos criou a personagem Maria Alice a partir da Leila da vida real. O cineasta conhecia bem a atriz: eles haviam sido casados entre 1962 e 1965. A Maria Alice do filme é professora de escola infantil, como Leila na época em que conheceu Domingos. Como Leila, Maria Alice é fã do escocês Alexander Sutherland Neill, um dos evangelistas da educação libertária dos anos 60. A personagem diz, no filme, frases da Leila da vida real: "O amor é uma coisa que depende da gente. Um objeto que a gente gosta e não quer que quebre. Então, tem que cuidar, limpar todo dia". Ou: "Nós, mulheres, queremos e não queremos ser independentes". Também como a atriz, Maria Alice sonhava em casar de véu e grinalda e ter um filho. Na primeira cena do filme, Leila aparece radiante, com seu sorriso que marcou época, saindo do mar. "O que uns olhos têm que outros não têm? O que um sorriso têm que outros não têm?", diz o personagem Paulo, interpretado no filme por Paulo José, em uma de suas falas mais famosas.

Outra manifestação da Leila da vida real, a entrevista no Pasquim foi publicada três anos depois do lançamento do filme, em dezembro de 1969. Numa época de censura, em que todos desconfiavam que as reportagens dos jornais eram vítimas de tesoura prévia, o Pasquim inovou publicando suas entrevistas na íntegra, como uma espécie de garantia de que não haviam sido mexidas. O que o entrevistado falava era transcrito quase sem edição (claro que uma pergunta ou outra ficava de fora, mas o efeito coloquial era sempre preservado). Os que conheciam Leila dos bares de Ipanema sabiam que ela usava muitos palavrões na fala do dia-a-dia. Não de forma agressiva — fazia parte de seu charme. Na matéria do Pasquim, o editor Tarso de Castro decidiu substituí-los por asteriscos. A entrevista teve uma repercussão monumental, mais para negativa. Depois de sair no Pasquim, Leila nunca mais conseguiria um bom emprego em telenovela e passou a ter dificuldades para pagar as contas. Dois meses depois da publicação, a ditadura militar outorgou um decreto-lei dizendo que a censura não mais toleraria, na imprensa, "exteriorizações contrárias à moral e aos costumes". A peça jurídica ficou conhecida como "Decreto Leila Diniz".

O que a atriz disse de tão bombástico? Lidas hoje, as frases de Leila não soam muito diferentes das encontradas em blogs de adolescentes que falam sobre seus relacionamentos. "Já amei gente, já corneei essa gente e elas já entenderam e não teve problema nenhum. Somos todos uma grande família." "Gostaria de ter vinte filhos para fazer uma escolinha em casa." "Há homens que são bons de cama, chega lá e não combina; a gente que é boa de cama, chega lá e não combina. O negócio é a ligação, está na pele." "Eu nasci em 45, tenho uma educação burguesa e acho bacaninha ter um companheiro ao lado, alguém que diga, 'tá pegando fogo?, então vamos apagar juntos'. Eu não sou de Marte." Analisando as falas de Leila no Pasquim, o biógrafo­ Joaquim Ferreira dos Santos escreve em seu livro: "A mulher do futuro acaba de dar sua primeira entrevista".

Como as frases acima sugerem, Leila estava à frente de seu tempo não por defender idéias avançadas, mas por não defender idéia nenhuma. Numa época cheia de certezas, ela representava a dúvida. Dos militares que criaram o "Decreto Leila Diniz" à novelista Janete Clair ­— que, segundo conta Daniel Filho no livro, vetou Leila para um papel porque sua persona pública impedia que se encaixasse no papel de mocinha —, ninguém sabia exatamente o que Leila era. Ela dizia palavrão, mas queria ser mãe. Ora falava em amor livre, ora defendia o casamento. Era contraditória como as pessoas costumam ser fora dos folhetins de TV. Antecipava um tempo em que homens e mulheres deixariam de ter certezas sobre os encontros e desencontros em seus relacionamentos. Por isso, Todas as Mulheres do Mundo soa tão atual. Homens e mulheres podem se reconhecer, ainda hoje, nos personagens Paulo e Maria Alice, em sua dificuldade para lidar com os próprios desejos.

Com Todas as Mulheres do Mundo, Leila — ao lado de Domingos — afrontou também outro tipo de certeza. A de que o mundo caminharia numa rota política predeterminada, e os cineastas teriam a missão de pavimentar esse caminho. Esse pensamento é forte nos primeiros filmes de Glauber Rocha, que formam uma espécie de trilogia. Os personagens Firmino, de Barravento (1961), e Antônio das Mortes, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), eram "heróis populares" destinados a libertar os "oprimidos" da "classe dominante" (é o caso de colocar entre aspas o jargão que caiu em desuso após a queda do Muro de Berlim). Depois veio Terra em Transe (1967), que expressava a desilusão do cineasta na figura do personagem Paulo Martins. Intelectual que pretendia "liderar as massas", ele vocifera contra a população que não comunga de suas idéias: "Estão vendo o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado!", queixa-se às câmeras. Diante de tais bravatas, o singelo filme de Domingos soava "alienado". Em vez de pregações políticas, temos o pulsante discurso de Paulo José (by Domingos Oliveira, ainda apaixonado pela ex-mulher) no momento em que a câmera passeia sobre o corpo nu de Leila: "Se não fosse meu o segredo de teu corpo, eu gritaria pra todo mundo. Teu sexo é um rio, onde navego meu barco aos ventos de sete paixões. E tua alma. Teu corpo é tua alma".

O tempo passou. As inovações de linguagem dos filmes de Glauber continuam dignas de admiração, mas os temas de seus filmes soam ultrapassados. Terra em Transe ainda preserva sua beleza alegórica, mas expressa uma visão ingênua quando comparada à crueza de, por exemplo, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Na entrevista do Pasquim, Leila Diniz se define assim: "Eu sou uma pessoa sem sentido porque o meu sentido é esse: eu gosto de me divertir. Eu escolho meus trabalhos pela patota". Ela não queria liderar nada nem se aprofundar na carreira de atriz. Queria apenas trabalhar com os amigos, viver intensamente e ser ela mesma. Sua atitude ajudou a mudar o mundo — que se modificou para abrigar mulheres como Maria Alice e homens como Paulo. Num tempo em que a moda era fazer cabeças, Leila Diniz trabalhou para desfazê-las. Ela não queria fazer revolução e acabou se tornando a figura-símbolo de uma revolução vitoriosa.

O filmeTodas as Mulheres do Mundo, em DVD. Versátil Filmes, 86 minutos. Disponível nas locadoras.

O livroLeila Diniz: Uma Revolução na Praia, de Joaquim Ferreira dos Santos. Companhia das Letras, 280 págs., R$ 39.

Tags: João Gabriel de Lima, praia, Leila Diniz, anos 60,

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