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Valéria Mendonça
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Rachel Mascarenhas (de amarelo, com seu cachorro Boris) e Ana Paula Pessoa, no bairro do Pelourinho, em Salvador. Vídeo premiado da dupla mostra o percurso do bonde que liga as partes alta e baixa da capital baiana

Quando se conheceram em Salvador, num curso do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), Ana Paula Pessoa e Rachel Mascarenhas logo perceberam que tinham um mesmo desejo: criar em grupo. Organizaram, então, reuniões semanais com alguns colegas de aula e gente de fora. Os participantes dos encontros deveriam trocar sugestões de leituras e debater sobre as mais diversas áreas do conhecimento. Estimulados pela mistura de referências, imaginavam que conceberiam juntos algo realmente novo e de qualidade. Mas as coisas não saíram como o previsto. Era muita conversa e pouca produção.

O coletivo acabou se afunilando até sobrarem Ana, Rachel e um rapaz. Ele, porém, não concordava com a proposta de ambas: a de usar os próprios corpos e os de outras pessoas nos projetos que pretendiam realizar. Deu-se, assim, uma "natural seleção natural", nas palavras das duas amigas, e o trio virou uma dupla.

Separadamente, as parceiras são autoras de obras bastante distintas. Formada em belas artes, Ana, de 32 anos, costuma fotografar nus, mas também gosta de retratar elementos urbanos, como as sombras de fios e postes. Já Rachel, de 36 anos, estudou arquitetura, e suas pinturas em acrílico revelam-se fortemente influenciadas pelo geometrismo abstrato do russo Kazimir Malevich. Foi, no entanto, um dos quatro vídeos assinados até hoje pelas duas que propiciou a conquista mais significativa de suas carreiras. Em dezembro de 2008, disputando com outras 39 criações, o trabalho de Ana e Rachel se tornou um dos vencedores do Salão da Bahia, mostra competitiva que ocorreu no MAM. O prêmio: uma residência artística de 60 dias, com início neste mês, em uma instituição muito respeitada na área, a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo.

Somente Rachelvirá para a capital paulista. Ana ficará na Bahia cuidando de Gabriel, seu filho de 7 anos. Sem título, o vídeo premiado tem apenas cinco minutos e registra, sob o ponto de vista dos passageiros, o percurso de subida de um bonde no Plano Inclinado Gonçalves, que liga as partes alta e baixa de Salvador. Ao fundo, ouvem-se a voz de Rachel dizendo frases sobre o correr do tempo, além do ruído ambiente, das batidas de um coração e do som de uma respiração profunda, conhecida como "ujai" e praticada na ioga. Nos momentos derradeiros, enquanto a câmera focaliza os trilhos do plano inclinado, pinturas de Malevich, Egon Schiele, Gustav Klimt e Paul Cézanne aparecem na tela.

As alusões à história da arte e o grande interesse pelo corpo humano são características recorrentes nos projetos de Ana e Rachel. "Fico com a impressão de que as obras das duas resultam de uma profunda discussão sobre questões estéticas e filosóficas", afirma Stella Carrozzo, assessora artística do MAM da Bahia e integrante da comissão que premiou o vídeo. "É raro que criadores tão cheios de ideias consigam se acertar e somar forças sem perder suas marcas individuais. Elas conseguem — o que, por si só, já as diferencia." Rachel complementa o comentário: "Para nós, não importa quem faz o quê. Encaramos o trabalho em dupla como um exercício de desapego". Ao lado da parceira, Ana Paula não sente necessidade de falar mais nada. Apenas solta um murmúrio em plena concordância.

Bruno Moreschi é jornalista.

Tags: Ana Paula e Rachel Mascarenhas,

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