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Foto Renato Parada
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O escritor Paulo Scott, que lança seu segundo romance. O livro retrata o descompasso entre os personagens e seus ambientes

Literatura é um esforço formal coerente para expressar faltas e inadequações. São múltiplas as configurações desse esforço no romance Habitante Irreal, o segundo do gaúcho Paulo Scott, autor também do livro de contos Ainda Orangotangos. As descrições da miséria de populações indígenas, da política partidária inconsequente, da intolerância e da marginalidade produzem, na narrativa, imagens do descompasso entre os personagens e seu meio. Mas é sobretudo a costura do texto que faz a assinatura do autor e constrói a figura do ser humano como um animal inquieto e, em geral, pouco ajustado ao ambiente em que vive.

A história começa em 1989. Paulo é um jovem militante que, às vésperas da eleição presidencial, deixa o PT por não se identificar com os rumos do partido. Desterrado pela realpolitik, ele experimenta, em um encontro com uma índia adolescente, o sonho ingênuo de uma vida alternativa aos padrões do capital e do consumo. Maína mal fala português, habita um tempo quase mítico, fora da história, alheia ao processo de redemocratização e ao fim da Guerra Fria. Após um período de convivência, uma série de pequenas catástrofes os separa. Paulo acaba em Londres, vivendo em subempregos e aventuras escusas.

Máscara

A segunda parte do livro narra a infância e juventude de Donato, filho biológico de Maína e Paulo. Ele é o habitante irreal, a síntese intranquila da marginalidade da índia e da conflituosa integração de Paulo ao mundo. Adotado por uma família branca, Donato tenta conformar-se às maneiras do novo ambiente. Apesar do esforço, sua vida vai desmontando. Aos poucos, Donato assume o exotismo que o olhar dos outros atribui a ele.

Como se por fim cumprisse um destino, o personagem compõe um ritual e apresenta-se na rua, um pouco mais índio e um pouco menos branco, mascarado, cantando baixo, quase imóvel. Sem utilizar nem negar os estereótipos com os quais é em geral rotulado, constrói uma identidade precária que aprofunda suas contradições. Donato é o estranho, é artista, índio, louco, marginal, revolucionário, todo um espectro de imagens relacionadas ao sentimento de inadequação que percorre o livro.

Assim, um ciclo iniciado na dissolução da identidade política do pai termina na afirmação provisória da identidade múltipla e escorregadia do filho. Paulo e Donato completam-se e figuram a força motriz do livro, uma tendência pendular a afastar-se da vida ordinária e a voltar para ela como um invasor. Esse mecanismo, por sinal, pode ser visto como alegoria do próprio fazer artístico (e literário), que em parte adere à normalidade como maneira de se propagar, embora sua principal condição de existência, para se constituir arte, seja evitar o aprisionamento das normas.

Tony Monti é doutor em literatura brasileira e autor do livro de contos eXato acidente.

O ROMANCE

Habitante Irreal, de Paulo Scott. Editora Alfaguara, 264 págs., R$ 39,90.

 

Tags: Crítica, Literatura, Paulo Scott, Habitante Irreal,

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