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O executivo André Midani. A era do iPod dinamitou o negócio da música, ao qual ele se dedicou

No início do século passado, músicos, compositores, editores, empresários, produtores e críticos musicais, loucos por música, criaram as primeiras gravadoras — que mais tarde se transformariam em uma das mais glamorosas, lucrativas e poderosas indústrias do século 20. Na virada do milênio, os advogados, financistas e marqueteiros que as comandavam foram os últimos a apagar as luzes, e desligar o som, depois que as gravadoras se tornaram parte de grandes conglomerados de comunicação e entretenimento, onde se tornaram divisões cada vez menos lucrativas e importantes.

Na era do iPod, esse negócio tão atraente, charmoso e criativo — investir em artistas para gravar discos, produzi-los, promovê-los e vendê-los — acabou. Pelo menos da maneira que o conhecemos no século passado. Uma das últimas lendas vivas dos tempos mais românticos, heróicos e devassos da indústria do disco é André Midani, atualmente com 76 anos, que foi patrão, sócio, colaborador e amigo de muitas estrelas brasileiras e internacionais de primeira grandeza e hoje é um pacato habitante de uma linda casa nos altos da Gávea, no seu querido Rio de Janeiro, pai de dois filhos e casado com a designer Gilda Midani em enésimas núpcias. Ele acaba de escrever sua autobiografia, Música, Ídolos e Poder — Do Vinil ao Download, que chega às livrarias neste mês e acaba soando como o testemunho de um mundo que não existe mais.

Nascido na Síria, de pai árabe e mãe judia, criado na França durante a guerra e naturalizado brasileiro, André começou trabalhando no arquivo de uma gravadora parisiense e se aposentou como vice-presidente da Warner Music em Nova York, depois de ter sido o executivo mais importante e influente na indústria do disco no Brasil. Aqui, ele comandou a Philips, a Polygram (hoje Universal) e a Warner Music. Poucos como ele conseguiram unir uma genuína paixão pela música a uma vocação para mandar e um talento para administrar empresas e pessoas.

Adolescente na Paris no pós-guerra, André começou vendendo discos de galalite de 78 rotações, passou pelos bolachões de vinil, o cassete e o CD, e saiu de cena na era do download e do pen drive. Pôde ver, e principalmente ouvir, os maiores artistas e eventos da música brasileira moderna, do nascimento da bossa nova ao tropicalismo, a MPB dos anos 70 ao rock Brasil dos anos 80 — quando lançou Lulu Santos, Titãs, Ultraje a Rigor, Barão Vermelho e Kid Abelha. Nos 90, alto executivo da Warner baseado em Nova York, comandando 14 companhias espalhadas pelo mundo, conviveu com a última era dos megastars planetários. Nos andares altos da gravadora de Prince e Madonna, viveu as transformações que levaram a indústria do disco aos céus e, por isso mesmo, depois aos infernos.

Sua história começa quando tomou um cargueiro para Buenos Aires, com o intuito de fugir do serviço militar e da guerra na Argélia. Fulminado por uma paixão à primeira vista, desembarcou no Rio de Janeiro sem conhecer ninguém, sem falar português e com uns trocados no bolso. Em alguns dias, graças a um equívoco, conseguiu um emprego na gravadora Odeon, onde se apaixonou pela música brasileira e se tornou assistente do produtor Aloysio de Oliveira, que havia lançado João Gilberto e a bossa nova em 1958. André estava lá quando o diretor comercial da Odeon em São Paulo jogou no chão o disco de Chega de Saudade, gritando: "Isto é música para veados!". Suas aventuras estavam apenas começando.

No turbulento 1968, depois de cinco anos dirigindo a Capitol Records no México, André voltou ao Brasil para presidir a pequena Philips holandesa. Dois anos depois, ele tinha contratado Elis Regina, Tim Maia, Maria Bethânia, Raul Seixas, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buar­que, Nara Leão, Gal Costa, Vinicius de Moraes, Jorge Benjor, Erasmo Carlos, Rita Lee, Mutantes, Ivan Lins e Gonzaguinha, uma seleção brasileira de música. André teve o desplante de publicar um anúncio de fim de ano com a foto de todo o seu elenco reunido e a provocação: "Só nos falta o Roberto".

O "Rei" era da CBS e, à exceção do "esquecimento" de Milton Nascimento, que era da Odeon, todas as estrelas mais brilhantes do momento estavam mesmo na Philips de André Midani. O homem sabia escolher. Querido e temido dentro e fora da gravadora, viveu a pleno vapor ­— e bota vapor nisso! — alguns dos melhores, e piores, momentos da música brasileira nos anos seguintes. De chumbo para a democracia e a liberdade, de ouro para as gravadoras e a música popular. Sonho dos fãs, pesadelo do presidente

Conheci André na alvorada da bossa nova, ele amigo de meus pais e eu adolescente. Em 1968, ele me levou para trabalhar em produção de discos, nos tornamos amigos, parceiros e confidentes, e ao longo das décadas voltamos a nos encontrar nas salas, estúdios e palcos do maravilhoso mundo do disco, onde trabalhamos muito, brigamos um pouco e nos divertimos demais.

Cada vez que o ouvia contar as suas histórias com os seus artistas, em off, é claro, eu pedia: "Pô, André, você tem que escrever isso um dia". Agora finalmente ele escreveu, com a distância e serenidade do tempo, muitas de suas aventuras e desventuras com estrelas temperamentais e seus egos gigantescos, suas cifras assombrosas, seu mundo de fantasia, glamour e excessos. E naturalmente muito sexo, drogas e não só rock'n'roll, tinha também MPB.

O sonho de todos os fãs, viver o dia-a-dia de seus ídolos, dividir expectativas e emoções com eles, muitas vezes é o pesadelo de um presidente de gravadora, que dá a palavra final sobre contratos, orçamentos, projetos e carreiras. Ele é tratado com deferência e até com subserviência por artistas e empresários, mas faz parte de seu trabalho se envolver em confrontos titânicos com eles, proporcionais ao tamanho dos interesses em jogo, em que o dinheiro é apenas um dos elementos, junto com vaidades, ambições, ciúmes e invejas demasiadamente humanos. Como diria Roberto Carlos, são tantas emoções…

André sempre foi duro e ambicioso, tanto quanto educado e elegante, condições indispensáveis para um profissional rigoroso e competente fazer uma carreira vitoriosa na indústria do disco, no tempo em que ela era chamada de "indústria da felicidade humana". No livro, ele conta com franqueza e naturalidade alguns episódios ilustrativos dessa era de excessos. Como na visita de Prince ao Rio, quando o cantor bateu o pezinho: queria porque queria conhecer, biblicamente, é claro, uma garota da Playboy brasileira que tinha visto no avião. E como desejos de Prince eram ordens para a gravadora… só não deu para atender sua vontade de ficar incógnito, vestido de veludo roxo da cabeça aos pés.

Ou quando Rod Stewart, convidado pela gravadora presidida por André, se hospedou na suíte presidencial do Copacabana Palace e promoveu uma festa de arromba, abarrotada de cachorras e popuzudas (e muitas figuras conhecidas da cena musical carioca). Movido a uísque, cocaína e futebol, o pagode terminou com uma animada partida de doidões jogada no salão da suíte, em que móveis e quadros foram destroçados. E Rod expulso do hotel (leia trechos abaixo).

As relações de amor e ódio entre artistas e executivos de gravadoras, a promiscuidade de interesses e ambições, as origens e os tentáculos do jabá e da pirataria, as tênues fronteiras entre a bandidagem e o glamour no mundo musical, a Máfia nas origens da Warner e as guerras corporativas dos anos 90 são alguns dos temas que André explora nas suas memórias com a mesma franqueza direta que o faz registrar seus grandes erros e fracassos ao lado das incontáveis vitórias e conquistas que fizeram sua história no mundo do disco.

Nelson motta é jornalista, escritor e crítico de música. O livroMúsica, Ídolos e Poder — Do Vinil ao Download, de André Midani. Nova Fronteira, 288 págs., R$ 40. 4

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