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Não há, nas páginas da literatura, escudeiro mais fiel e célebre que o lavrador Sancho Pança. Acompanhando o fidalgo delirante Dom Quixote de la Mancha nas aventuras em busca de sua amada, é ele quem sustenta o cavaleiro andante sobre seu pangaré, sempre absorto em fantasias. Nos palcos brasileiros – e fora deles –, dois atores incorporam com louvor o mesmo papel de braço direito dos dois maiores encenadores do país. Há 25 anos, no Rio de Janeiro, uma troca de olhares unia o diretor paulista José Celso Martinez Corrêa ao ator carioca Marcelo Drummond. Dez anos depois, em São Paulo, o então professor de educação artística paulistano Emerson Danesi se preparava para um teste e entrava para o grupo do diretor, também paulistano, Antunes Filho.

Desses encontros nasceriam frutíferas conexões que, assim como no romance de Cervantes, ultrapassam as incumbências cotidianas e compreendem uma evolução mútua. Se no romance de Cervantes Pança vai aos poucos pousando os pés de Quixote no chão, enquanto este o contamina com desvarios, nas trupes as duplas – que nem sempre dividem as mesmas opiniões – alternam-se no ensinamento das técnicas dos grupos, na escolha de elenco e nas questões administrativas.

Milagre do Esbarro

Dionísio, Boca de Ouro e Oswald de Andrade são alguns dos personagens já vividos por Marcelo Drummond, que aos 49 anos ocupa o posto de primeiro-ator do Teatro Oficina. Sua estreia na companhia, ao lado de Zé Celso e do ator Raul Cortez, data de 1991, com a peça As Boas, do dramaturgo francês Jean Genet. A entrada no grupo, no entanto, é anterior à subida aos palcos. Em 1986, em um momento crítico da companhia, dispersa desde 1974 por causa do exílio de Zé Celso em Portugal, Drummond literalmente esbarrou no diretor.

Aos 24 anos, já tinha ouvido falar de “Zé”, mas conhecia mais o trabalho de seu irmão, o ator Luís Antônio. Na época, Drummond tinha desistido do curso de Biologia e fazia esporadicamente alguns de teatro, além de bicos como garçom para ganhar dinheiro. Conheceu Zé Celso na rua, no Baixo Gávea, bairro boêmio do Rio de Janeiro, em um encontro que o próprio diretor descreve em seu blog como elétrico: “Veio para nós o MILAGRE DO ESBARRO/ nos jogou no Vertigo da Vertigem/ nos fez voltar pra trás e nosso olhar se atravessa como ponte lisérgica, a rua./ O olhar determinado de Dionísios,/ um menino lindo com os lábios muito carnudos/ atravessou a rua e veio ao meu encontro./ A eletricidade eletrocutava”.

Depois de passarem a noite juntos, Drummond aceitou o convite para vir morar com o parceiro em São Paulo. “Eu era junkie, maluco”, relembra, enumerando seus hábitos de juventude, como se vestir de preto inclusive nos dias quentes e frequentar a praia usando sapatos. “Queria acima de tudo sair do Rio, daquela coisa cerceada pela Rede Globo.” Enfrentou a resistência principalmente dos amigos – para quem Zé Celso era um maldito – e a descrença de que o novo projeto daria certo. “Vim para um teatro que era um buraco, as pessoas falavam que não ia dar em nada”, diz, a respeito da reforma do prédio, no bairro do Bixiga, centro de São Paulo, idealizada pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi. Foram cinco anos até a inauguração, em 1993, de que Drummond participou como protagonista: viveu o personagem-título da montagem Ham-let e, com este papel, assumido dois anos depois de sua estreia em As Boas, foi enfim revelado.

“Cala a Boca, zé”

É fina a sintonia de Drummond com as propostas do fundador do Teatro Oficina. “Acredito num teatro miscigenado, religioso e ritual. Acredito muito no que o Zé fala sobre incorporação”, afirma, lembrando a montagem de As Bacantes, de 1996, em que recebeu diversos comentários sobre sua atuação “incorporada” do deus Dionísio. Mesmo assim, as brigas nos ensaios e até um “Cala a boca, Zé” em cena aberta são inevitáveis. “Não tenho perfil de ator”, diz Drummond, que a cada novo projeto repete que aquela será a última vez que subirá ao palco. “Talvez por isso eu seja o ator mais rebelde e quem o Zé menos conseguiu dirigir na vida.”

Ainda que se debata, Drummond segue protagonista das peças e não consegue negar o título de braço direito. Muitas vezes, é a ele que os jovens atores do Oficina cumprimentam com reverência, pedindo beijo à moda da “bênção” de antigamente – só durante a entrevista para esta reportagem, numa tarde de novembro, foram dois. A adoração e a convivência harmoniosa entre Zé Celso e Drummond seguem as mesmas de 25 anos atrás. Não namoram mais, mas vivem em dois apartamentos unidos, no bairro paulistano do Paraíso.

Destruição Constante

Foi com a imagem de um homem rude e arrogante que Emerson Danesi seguiu, em 1996, para o teste no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), companhia do diretor Antunes Filho, mito para a classe e de quem se escutavam histórias recheadas de ofensas e humilhações de atores iniciantes. “Eu estava nervoso”, conta Danesi, “mas logo que entrei senti que o Antunes me olhava e aquilo me desarmou completamente. Pensei que ele não era aquele monstro que todo mundo dizia.” No dia seguinte, recebeu a convocação por telefone para a montagem de Drácula e Outros Vampiros, encenada no mesmo ano.

A aprovação imediata, resultado de seu talento e também da urgência na composição de um novo elenco, não lhe permitiu participar do Curso de Introdução ao Método do Ator, apelidado de “CPTzinho”. Foi direto para as mãos do mestre, para um processo que define como “destruição constante”. “O Antunes percebe tudo em você e escolhe seu ponto nevrálgico para cutucar e te fazer estrebuchar. A ideia é tirar dali o seu melhor”, diz. Na época com 24 anos, Danesi tinha se formado no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e era professor de educação artística no ensino médio. Relutava em escolher definitivamente o teatro e Antunes Filho flagrou essas dúvidas. “Ele me chamava de ‘professorzinho de merda’. Dizia: ‘Japonês, você não ensina nada!’.” Ele pensava quase diariamente em desistir, chorava muito: “Só que eu tinha certeza de que aquilo não era pessoal, tinha a ver com o trabalho. E por isso fiquei. Larguei tudo para me dedicar de vez ao teatro”.

Mesmo que assustado com a rigidez de Antunes Filho, Danesi se encantou com a disciplina. “Era tudo muito regrado e eu abomino bagunça. Gosto de gente pegando no meu pé, cobrando horários. Acho que é por causa do meu lado oriental”, diz, creditando também ao mestre o aflorar de suas características diretamente ligadas à ascendência japonesa: a objetividade, uma visão poética e, principalmente, a paciência.

Serenidade Oriental

Em 1997, com menos de dois anos no grupo, Danesi participou da criação do Prêt-à-Porter, projeto que, em cenas curtas, explora o método de atores de Antunes Filho, o falso naturalismo. Desde então, atuou em sete das dez edições e há 13 anos é o “professorzinho de merda” responsável pelas aulas no CPTzinho que colocam os aprendizes de atores para exercitar a técnica já no palco, na sede da companhia no Sesc Consolação. “Ele é meu braço direito e, às vezes, o esquerdo também”, declara Antunes Filho. Outro voto de cumplicidade ao “Japonês” – vocativo de que o mestre o chama até hoje, várias vezes ao dia – foi confiar-lhe a direção do musical Lamartine Babo, com dramaturgia sua. “Foram três anos e meio tentando montar a peça, e ele acabou entregando-a para mim, alegando que tenho uma grande conexão com a poesia”, diz. O que se sabe é que, ao ver a peça pronta, Antunes Filho chorou feito criança.

Ainda que Danesi insista em atribuir a conselhos médicos a mudança gradual no comportamento do diretor – do homem que gritava com violência do meio-dia às 7 da noite para outro que diminuiu o ritmo e o volume das broncas –, não há como não associar a versão mais pacífica de Antunes Filho à serenidade oriental de Danesi, mimese da evolução mútua do sonhador Quixote e do Sancho Pança pé-no-chão. “É inevitável assumir o título de braço direito porque esse processo todo inclui, sim, estar ali presente, pronto para executar. Só que é uma relação em que também cabe opinar, participar. É, na verdade, uma grande troca. E posso dizer que, daquele Emerson que entrou assustado no palco do teste 15 anos atrás, sobraram só mesmo as qualidades”, avalia o ator, emocionado. “Antunes me lapidou.”

Marcella Franco é jornalista e autora do blog elatatuoupalavra.blogspot.com.

Tags: Drummond, Teatro, Deuses, Inspirados, Marcelo Drummond, Emerson Danesi, Zé Celso, Antunes Filho,

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