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Gabriel Rinaldi
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O dramaturgo Mário Bortolotto em frente ao teatro dos Satyros. Ele se inspira nas conversas da praça para criar os diálogos de suas peças

• Assista a depoimentos de frequentadores da praça

O bar está lotado, a cerveja é geladíssima e a conversa, animada. Camisetas de bandas de rock, regatas, minissaias de brechó e coturnos vestem um público predominantemente jovem. Como num pub londrino, perto da meia-noite toca uma sineta. Ao contrário do que ocorre na Inglaterra, o toque não indica o fim da festa, mas o início do espetáculo. Afinal, não estamos num pub, mas no teatro. Mais precisamente no Espaço dos Satyros 1, localizado na praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Regatas, minissaias e coturnos se encaminham para a sala onde terá lugar a estreia de Natureza Morta, peça do premiado dramaturgo Mario Vianna dirigida por Eric Lenate.

Banal nas noites de sexta-feira em São Paulo, a descrição acima embute uma revolução. Para entender sua magnitude, é o caso de congelar a cena e, como num hipertexto, puxar flechinhas da fotografia:

• "O bar está lotado, a cerveja é geladíssima e a conversa, animada." Os teatros pertencentes às trupes Os Satyros e Parlapatões, Patifes e Paspalhões consagraram um modelo de negócio que revolucionou o teatro de grupos no Brasil. Até pouco tempo atrás, companhias alternativas como essas só conseguiam sobreviver com ajuda estatal. Agora, elas pagam as próprias contas e ainda abrem espaço para o surgimento de novos talentos. Tudo começou meio por acaso, com Os Satyros, grupo que em 2009 completa 20 anos e foi o primeiro a se mudar para a então deteriorada praça, há exatos nove anos (e que celebra a data estreando um novo espetáculo). Em 2000, o grupo teve a ideia que mudou o modelo de negócio do teatro alternativo de São Paulo: abriu um bar no saguão de sua sede, com objetivo de criar um ponto de encontro para os que iam assistir às suas peças. "Hoje é o bar, e não o teatro, que paga o nosso aluguel", diz o diretor Ivam Cabral, um dos fundadores dos Satyros. Os Parlapatões, que têm sua sede na praça desde 2006, seguiram o mesmo caminho — e estimam que pelo menos metade de sua receita venha do bar. Esse estilo de negócio começa a se espalhar por outras companhias de São Paulo. "É um modelo que assegura de fato a sobrevivência de grupos sem patrocínio, além de ser democrático, dando oportunidade para que muitos artistas mostrem o seu trabalho", diz o encenador e dramaturgo Roberto Alvim, fundador, ao lado da atriz Juliana Galdino, do Club Noir, que fica na rua Augusta — também na região central da cidade, também uma combinação de teatro e bar.

• "Camisetas de bandas de rock, regatas, minissaias de brechó e coturnos vestem um público predominantemente jovem." A praça Roosevelt se beneficiou de uma mudança recente na vida boêmia de São Paulo, que se deslocou para a região da rua Augusta, próxima à praça. Com isso, o teatro passou a disputar a atenção do público jovem com o cinema e o rock — e, por incrível que pareça, levou vantagem. "A praça trouxe mesmo os jovens de volta ao teatro", afirma o escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva, ele próprio um frequentador do local. Paiva tem uma teoria sobre isso. "A dramaturgia que surgiu com o Teatro de Arena nos anos 60 e apresentou peças em novo formato aproximou muita gente do teatro. Ela ficou esquecida por muito tempo e ressurgiu na praça", diz o escritor, que também é dramaturgo e ganhou um novo entusiasmo pela arte teatral graças à Roosevelt.

• "Como num pub londrino, perto da meia-noite toca uma sineta." Quando Os Satyros se estabeleceram na praça, a temporada teatral da cidade se resumia às sessões dos fins de semana. "Até a quinta-feira havia sido abolida", diz o diretor Ivam Cabral. Ele foi chamado de louco ao montar uma programação pouco usual, que não demorou a se estender para todos os dias da semana, em horários variados. Foi aí que teve uma ideia que se revelou genial: criar a sessão da meia-noite de sexta e sábado, o atual horário nobre da Roosevelt. Isso integrou o teatro à vida noturna da cidade. Assistir a uma peça no lugar passou a ser algo para fazer depois da happy hour e antes da festa, numa cidade cuja vida noturna começa por volta das duas da manhã. A sineta que lembra os pubs londrinos acabou se tornando uma marca registrada da praça. É ela que marca o sinal que antecede as peças.

São sete os teatros da Roosevelt — incluindo o novo que abre no dia 17 deste mês, batizado de Miniteatro e dirigido pela dramaturga Marília Toledo e pelo diretor Kleber Montanheiro. Mais do que garantir a sobrevivência dos grupos, atrair os jovens e se integrar à efervescente vida noturna da cidade, a praça Roosevelt é, acima de tudo, um grande ponto de encontro — onde artistas conhecem artistas e todos entram em contato com um público crescente que vai lá não apenas pelas peças, mas também pelo agito. "A partir dos Satyros, a praça passou a reunir teatros e bares próximos uns aos outros, tornando-se um lugar propício ao encontro entre artistas e boêmios", diz o veterano diretor José Celso Martinez Corrêa.

CONVERSA DE BAR: "quer dirigir? Quero!"

Se existe um mestre-de-cerimônias desse espaço onde atores buscam personagens e autores quem os encene, ele se chama Mário Bortolotto. O dramaturgo e diretor, fundador do grupo teatral Cemitério de Automóveis, reclama que a praça anda muito "crowdeada" (gíria anglófila para lotada), mas não sai de lá. Está sempre em cartaz em seus teatros e bares. Bortolotto faz da Roosevelt uma extensão de sua casa, que fica próxima. Diariamente, ou quase, encontra os amigos no Espaço Parlapatões, conversa e bebe. As noitadas não atrapalham sua produtividade. Considerado o principal herdeiro de Plínio Marcos, Bortolotto acha que a praça é importante até para seu trabalho como dramaturgo. "As pessoas com quem encontro e converso me inspiram", afirma.

O outro grande agregador de gente da classe artística no local é o escritor Marcelo Rubens Paiva. No início, ele ia apenas para encontrar os amigos. Não demorou a ser fisgado pelo teatro. "Sou daqueles que vão e assistem", afirma Paiva. Por causa da Roosevelt, ele se tornou diretor. "Encomendaram um texto a mim. Precisavam de um diretor. Aí, um dia, eu estava ali, no bar, olharam para minha cara e disseram: "Quer dirigir?", conta ele, que atualmente está em cartaz no Sesc Avenida Paulista com A Noite mais Fria do Ano, peça da qual assina texto e direção, ao lado de Fernanda D'Umbra, outra assídua da praça. O elenco reúne vários de seus companheiros de bar: além de Bortolotto e Hugo Possolo, dos Parlapatões, os atores Paula Cohen e Alex Gruli. Ou seja, um típico caso de interação entre boemia e teatro.

Está longe de ser o único. A presença constante de Bortolotto, Paiva e vários outros diretores e dramaturgos atrai artistas que vão à praça para fazer networking, ou seja, conhecer gente e encontrar trabalho. Segundo a atriz Giovanna Velasco, da Cia. Satéllite, o burburinho do local rende contratos sobretudo para os que não estão procurando. "Ator mais novo, que se arruma todo para vir à Roosevelt na maior expectativa, geralmente volta para casa frustrado", diz ela, que, graças às noitadas passadas na praça, conheceu a produtora de Os Descolados, uma nova série da MTV, e se integrou ao elenco. A atriz, que morou três anos na Espanha, compara a ebulição intelectual da Roosevelt à do bar Marsella, da Barcelona dos anos 50 do século 20, que era frequentado por Pablo Picasso, Salvador Dalí e outros artistas revolucionários. "Como na Roosevelt, ali nasceram inúmeros projetos. A boemia é um palco para a criação."

O diretor Regis Trovão já admirava a arte feita pelos Satyros muito antes de começar a trabalhar com teatro. Ele se mudou para os arredores da praça no ano 2000 e acompanhou todo o renascimento da Roosevelt. A região que concentra o mercado financeiro, a chamada "City paulistana", fica perto da praça — e Trovão, que trabalhava lá, ia quase que diariamente ao teatro depois do expediente. Um dia, encontrou Mário Bortolotto na calçada do La Barca, um dos bares da região, e expôs seu desejo de se tornar diretor de teatro. Ganhou a chance de sua vida: um convite para fazer assistência de direção de um texto de Bortolotto, A Frente Fria que a Chuva Traz. "Frequentar a Roosevelt ajuda a carreira porque aqui você está num foco disseminador de trabalho", diz ele, que por fim largou o emocionante mundo das finanças e mergulhou no teatro.

Constantemente, as calçadas da Roosevelt exibem cenas surpreendentes, que poderiam estar dentro de suas salas de espetáculo. Como a ocorrida numa noite quente de março. Jovens, gente de meia-idade, senhoras e senhores dividem as mesas dos bares, com seus cabelos médios, curtos, compridos, pomposos, cheirosos, ensebados, raspados, espetados, de cores e texturas variadas. De repente, irrompem artistas vestidos de mendigos. Eles chamam atenção enquanto correm pela rua, com suas roupas esfarrapadas, balbuciando sons desconexos. Um deles para e se ajoelha no chão, obstruindo a passagem de um jovem tatuado, sem camisa. Atrás dele, uma família de negros é obrigada a diminuir o passo e contornar o performer. Por pouco não é atropelada por duas garotas emperiquitadas, que gargalham, concentradas na própria conversa. Até que um grito vindo do coração da praça rouba os olhares de todos: garotos são revistados pela Polícia Militar, corporação conhecida pela maneira pouco espalhafatosa com que faz esse tipo de coisa.

Com tantos atrativos e emoções, a Roosevelt ganhou frequentadores habituais, que não são necessariamente os mesmos que vão ao teatro em outros lugares da cidade. Um deles é o jornalista Jacques da Costa Carvalho, que vai ao local diariamente — e, de tanto frequentá-lo, comprou um imóvel próximo dali. "Aqui convivo com todo tipo de gente, dos bairros chiques e humildes, passando por celebridades como o governador José Serra, a apresentadora Adriane Galisteu e a jornalista Marília Gabriela", diz ele. A comerciária Graciela Monteserrat vai lá em busca de teatro e do ambiente festivo. Ela acha que há três tipos de público, os que só bebem, os que só vão ao teatro e os que fazem os dois programas (existe um quarto tipo: o que vai com a intenção de assistir a uma peça, toma a primeira, a segunda, a terceira e... "o que era mesmo que eu tinha vindo fazer aqui?").

O logradouro paulistano, como a Ipanema carioca dos anos 60, já começa a inspirar músicas. O compositor Luiz Pinheiro, que já compôs para Cássia Eller, resolveu tornar a praça sua musa. Eis alguns dos versos de Na Praça Roosevelt, escrita em parceria com Edu Castanho e Vanessa Bumagny:

Na praça Roosevelt

transexual fica grávida

e menino chora

na barriga da mãe.

Na praça Roosevelt

coisas lindas passam com graça

na calçada dessa praça

que não é de Ipanema

mas devassa.

Na praça Roosevelt

tem cults, tem kilts.

Casais se beijam

sob a chuva

e nos teatros

atores jovens dados e maduros

atuam orgias orgasmos e amores impuros.

Onde e QuandoLiz. De Reinaldo Montero. Direção de Rodolfo García Vázquez. Com Cléo de Páris, Ivam Cabral e Haroldo Costa Ferrari. Espaço Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, Centro, São Paulo, tel. 0++/11/3258-6345). Sáb. e dom., às 21h. De 25/4 a 28/6. De R$ 5 a R$ 30.

Tags: Boemia, Ribalta e Cerveja,

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